Greve se faz contra patrão

Carlos Chagas

Prática milenar é de que greve se faz contra patrão. Nem mesmo as greves políticas escapam dessa evidência, feitas contra o governo ou o regime, patrões maiores da população.

No Brasil tem acontecido freqüentes inversões dessa máxima, quando paralisações atingem o povo ou segmentos específicos da sociedade. Na maioria dos casos, os patrões morrem de rir, quando não estimulam as greves. É o caso dos transportes coletivos, agora ameaçados por óbvia iniciativa dos aeroviários, prometendo interromper as atividades em aeroportos e aeronaves na véspera do Natal.

De início é bom ressaltar: a categoria ganha pouco, trabalha demais e é explorada por empresas que se sucedem no transporte aéreo, a maioria falindo depois de certo tempo,  mas engordando o patrimônio de seus antigos diretores. De uns anos para cá o costume é tratar o passageiro como gado, apertado  em latas de sardinha e sujeito a sanduíches podres ou barras de cereal, enquanto não se generaliza o abuso de precisar pagar para comer ou beber.

Tem os aeroviários todo o direito à luta por melhores salários e condições  de trabalho, mas, convenhamos, entrar em greve nesse período de festas de fim de ano  é sacanagem. Contra a Tam, a Gol e penduricalhos? Nem pensar. Elas já se preparam para cobrar do governo, na justiça, as indenizações correspondentes. A greve se fará contra milhares de famílias que imaginam aproveitar os próximos dias  para rever pessoas queridas ou descansar.

Com todo o respeito, parece chantagem, porque só o povo sofrerá. As empresas lavarão as mãos, sem prejuízo de espécie alguma,  certas de que um futuro aumento no preço das passagens cobrirá com vantagem os reajustes salariais.   O governo  também não se mexe. É bom tomar cuidado, porque qualquer dia desses o apagão aéreo vira rebelião.

Cosquinha coisa nenhuma

Ou o presidente Lula e o PT enquadram  Dilma Rousseff ou logo darão adeus à esperança de continuarem no poder.  A incontinência verbal da candidata só perde para a de seu patrono. Em Copenhague,  saiu-se com mais uma: “um bilhão de dólares não faz nem cosquinha”…

Insurgia-se, a chefe da delegação brasileira à Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, contra comentário da ex-ministra Marina Silva de que o Brasil poderia contribuir com aquela quantia para um fundo internacional  destinado a combater  o aquecimento do planeta.

Se tivemos alguns bilhões de dólares para socorrer o Fundo Monetário Internacional,  bem como  centenas  deles para salvar bancos e indústria falidas, na recente crise econômica, como deixar de dar o exemplo e contribuir para um esforço mundial cujo objetivo é salvar a Terra e seus habitantes?

Acresce que  um bilhão de dólares faz mais do que cosquinhas na planta dos pés ou no suvaco das pessoas. É dinheiro para ninguém botar defeito, à exceção de Daniel Dantas ou  Eike Batista.  Seria uma contribuição penosa, mas ética e necessária para demonstrar que não somos um país malandro.

Os três grandes e um maior

Os dinamarqueses acabam de revelar humor, talvez  malícia. Não passou despercebido de sua imprensa o fato de três candidatos à presidência do Brasil encontrarem-se em Copenhague para tirar  uma casquinha na exposição explícita de líderes mundiais. Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva badalam pelos corredores e auditórios da Conferência do Meio Ambiente, sempre atentos às câmeras e microfones com logotipos nacionais.

Um repórter local aproveitou para comentário singular, no rádio, referindo-se ao fato de que o Brasil havia mandado os três grandes em disputa pelo poder no país,  mas um maior estava chegando. Será que  falava da próxima sucessão? Por acaso ou  de propósito?

Ainda vai me agradecer…

A sucessão presidencial estava na rua, em novembro de 1937, com dois políticos  em campanha: José Américo de Almeida, do governo, e Armando de Salles Oliveira, pela oposição. Foi quando o presidente Getúlio Vargas deu o golpe e ficou no governo por mais oito anos,  alegando o perigo comunista. Sempre gentil, mandou recado para o seu suposto candidato: “Diga a ele que ainda vai me agradecer…”

Se José Américo agradeceu ou não, é dúvida, mas acabou nomeado  ministro do Tribunal de Contas da União, outra vez governador da Paraíba e ministro da Viação no segundo governo Vargas.

Com todo o respeito e guardadas as proporções, Michel Temer ainda vai agradecer ao presidente Lula por haver sido garfado em sua pretensão de tornar-se candidato único à vice-presidência, na chapa de Dilma Rousseff. Afinal, se derrotada a candidata, Temer perderia a presidência da Câmara, a cadeira  de deputado federal e,  muito provavelmente,  o comando do PMDB…

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