Haiti – desafios à liderança brasileira

Gen Ex Luiz Gonzaga Schroeder Lessa

O desastroso terremoto que se abateu sobre o Haiti se constitui em uma das maiores tragédias recentes sofridas pela humanidade, com conseqüências mais graves do que a ocorrida na China, em 2008.

A completa destruição de muitas cidades, inclusive da sua capital Porto Príncipe e da precária infraestrutura do país, impediu qualquer reação do estado haitiano. As estimativas de até 200.000 mortos, com  milhares de feridos e um população de 3 milhões de pessoas desabrigadas e totalmente desassistidas, constituem-se num dos maiores desafios à comunidade internacional e à própria  ONU, duramente atingida pela catástrofe, com a morte das suas lideranças e mais de centena de qualificados funcionários mortos ou desaparecidos, levando o seu Secretário Geral, Ban Ki Moon, a declarar ser esse o mais trágico acontecimento na história da organização.

O Brasil que desde 2004 comanda com invejável sucesso as tropas da ONU,  integradas por 17 países, sob a denominação de Minustah, tem pela frente um formidável desafio, que vai exigir da sua diplomacia gestões, negociações  e acompanhamentos muito além do que até então vinha ocorrendo .

O esforço de quase 6 anos, com melhorias sensíveis na vida do povo haitiano, foi posto por terra, levando o atual  comandante da Força, Gen. Floriano Peixoto, a declarar que a situação do Haiti tornou-se pior do que aquela que lá encontramos em 2004. No seu dizer, o país volta à estaca zero.

A resposta da comunidade internacional ao chamamento de socorro ao Haiti foi imediata, mostrando uma solidariedade raramente vista em tragédias dessa natureza.  Todavia, pelo despreparo da ONU, duramente atingida, trouxe complexos  problemas de coordenação e controle ainda não resolvidos, incapazes  de harmonizar os trabalhos das 43 equipes de socorro de todo o mundo que para lá acorreram, envolvendo cerca de 1.800 homens(mulheres) e 160 cães amestrados para a tarefa de localizar corpos, o que  possibilitou resgatar com vida 75 pessoas até a data de hoje. Sem dúvida, nos próximos dias, esses problemas e os demais relacionados com a assistência humanitária estarão resolvidos.

Por certo, a  preocupação atual  da diplomacia brasileira e, também, do nosso Exército, é a ameaça que se coloca à liderança do país na condução das operações da Minustah.

Parece muito frágil o acordo a que chegaram Hillary e Amorim na divisão das tarefas entre a Minustah e as forças norte-americanas que, de maneira desproporcional, chegaram e continuam chegando ao Haiti.

Dizer que cabe à Minustah prosseguir na sua missão de manter a segurança do país e assegurar a sua normalidade democrática e às forças norte-americanas  a condução das tarefas humanitárias não guarda respaldo com o alto poder de combate que ainda está se desdobrando no Haiti: cerca de 10;000 homens, oriundos das melhores unidades combatentes estadunidenses, como uma poderosa brigada da  renomada 82ª Divisão Aeroterrestre (cerca de 3.600 homens) e 2.000 fuzileiros navais.

A esquadra, ao largo do litoral haitiano, vai muito além das necessidades de uma operação humanitária. Tendo como núcleo o porta-aviões Carl Vinson,  em torno dele agrupam-se  vários outros potentes navios como o cruzador Normandy, a fragata Underwood, o desembarque-doca Carter Hall,  o de assalto anfíbio Bataan ( com 2.000 fuzileiros navais a bordo), o Fort McHenry, o de salvamento Grasp, o oceanográfico Henson, o hospital Comfort, vários navios auxiliares, lanchas de desembarque e um grande número de helicópteros, meios navais sob o comando do almirante Victory Guillory, atual Comandante da 4ª Esquadra, que tantas reações políticas motivou no Brasil quando da sua criação.

O comandante geral das forças norte-americanas desdobradas no Haiti é o Ten-Gen. P. K. Keen,  que é o subcomandante do Comando Sul dos EUA, com sede em Miami.

O poderoso dispositivo militar comandado por Keen guarda coerência com as suas preocupações nas recentes declarações que fez à  ABC, em 16 de janeiro p.p., quando reafirmou que “ a nossa principal missão é a ajuda humanitária, mas a componente segurança terá uma crescente importância nela. Nós vamos enfrentá-la junto com as Nações Unidas e teremos que fazer isso rapidamente”. Keen  disse estar acompanhando com muita atenção os incidentes de violência que estão recrudescendo no país. “Obviamente, nós realmente necessitamos de um ambiente seguro  para fazermos o melhor que pudermos no que diz respeito à ajuda humanitária”, declarou Keen.

Apesar de ser grande a potencialidade de conflito entre as missões atribuídas aos norte-americanos e aos brasileiros, os contatos pessoais devem ser facilitados, pois o Gen. Keen cursou a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (ECEME), nos anos de 1987-88,   e, por isso mesmo, deve falar o português e bem compreender a mecânica operacional das nossas forças.

Mesmo para os leigos, é óbvia a necessidade da mais ampla coordenação das operações de segurança e humanitárias. Não são compartimentos estanques, pelo contrário, se complementam mutuamente e uma é estreitamente dependente da outra no processo de normalização da realidade haitiana. É impossível  estabelecer uma barreira rígida entre uma e outra missão, o que forçará, como abertamente sugeriu o seu comandante, que as tropas norte-americanas dêem alta prioridade à componente segurança no efetivar das suas tarefas humanitárias. E, por isso mesmo, é grande a possibilidade de choques diplomáticos e operacionais, com conseqüências desastrosas para o processo de reconstrução do Haiti.

Como se estima que a presença dos EUA no Haiti seja de longa duração, no dizer do próprio  presidente Obama, a solução dessa problemática deve passar, necessariamente,  por uma possível modificação da missão da Minustah e por atribuição de setores específicos de atuação para as forças da ONU e dos EUA, onde as missões humanitárias e de segurança se complementem mutuamente. O recente aumento dos efetivos das forças da Minustah, autorizado pelo Conselho de Segurança, aconselha que assim seja.

Por fim, uma menção especial às perdas brasileiras no trágico terremoto, que ceifou dezenove preciosas vidas de militares e civis. Desde a 2ª Guerra Mundial e a despeito de ter participado de inúmeras missões de paz sob o comando da ONU ou da OEA, o Exército não tinha a lastimar tão grande número de vítimas. Os feridos- vinte e cinco – haverão de se recuperar e voltar ao serviço ativo.

É enorme a tristeza que se abate sobre o nosso Exército, acostumado à crueza dos acontecimentos imprevistos. Conforta-nos, contudo, saber que esses devotados brasileiros muito bem cumpriram as suas missões e imolaram as suas vidas em benefício da paz. A missão bem cumprida é apanágio dos fortes e torna heróis os que, como eles, doaram as suas vidas por causa tão nobre.

Camaradas, civis e militares!

Seu sacrifício toca profundamente a Nação Brasileira. A tristeza  refletida nas nossas lágrimas é temperada pelo orgulho que sentimos pelos seus valorosos feitos.

O Exército,  perfilado, presta-lhes a sua mais democrática saudação de respeito e admiração – a continência –  cônscio de que o seu sacrifício não foi em vão. Sigam em paz!

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