Histórias do folclore político de Magalhães Barata

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Barata tornou-se o “dono” do Pará

Sebastião Nery

Magalhães Barata, revolucionário de 1924 a 1930, interventor de 1930 a 1945, constituinte de 1946 , senador de 1946 a 1954, governador de 1955 a 1959, amigo de Getúlio Vargas, mandou 35 anos no Pará. Um dia Abelardo Conduru, respeitável chefe político, rompeu com ele. Fez carta, mandou um vaqueiro levar. Barata abriu, leu, ficou indignado. Conduru mandava tirar o nome da chapa do governo e comunicava que seria candidato pela oposição. Chamou o mensageiro até o gabinete:

– Quer dizer que o doutor não quer ser mais candidato? Preciso substituí-lo hoje. Como é o seu nome?

– José Pingarrilho.

– Bom nome. Ótimo nome para voto. O senhor vai ser candidato no lugar do doutor Conduru.

– Não posso, governador. Sou amigo dele, empregado dele e não entendo nada de política.

– Nada disso. Vai ser, sim. Quem manda no Pará sou eu.

Pegou um papel, escreveu ao dr. Conduru:

– “Recebi sua carta, lamento a desistência, mas já providenciei o substituto. É o José Pingarrilho, nosso amigo comum, um nome à altura das tradições do Pará.”

Foi eleito, derrotando o patrão Conduru.

TARTARUGAS – Um compadre, notório contrabandista, chegou ao posto fiscal de Belém com muitas tartarugas e não quis pagar imposto:

– As tartarugas são presente para o compadre Barata.

O fiscal telefonou para o chefe, que telefonou para o secretario do governador, que falou com o governador.

– Diga ao compadre que presente se dá completo. Ele que pague o imposto e mande logo as tartarugas.

MUDAR DE NOME – Foi visitar uma cidade do interior. Em frente ao trapiche, onde desembarcou, ficava o “Grupo Escolar Zacarias de Assunção” (o general Assunção era da UDN e tinha sido governador antes dele, derrotando-o). Chamou o prefeito:

– Este grupo vai mudar de nome. Vai chamar-se Magalhães Barata, que é quem manda no Pará

Chama-se até hoje.

LADRÃO CONHECIDO – Governador, mandou fazer concorrência para todos os fornecimentos ao Palácio. Vieram as listas de preços, ele mesmo quis conferir. De repente, vê uma firma oferecendo tudo mais barato (Manoel Gonçalves e Filhos, famosos pelos preços altos que sempre cobravam). Escreveu embaixo:

– “Indefiro. Eu te conheço, ladrão”.

Interventor do Pará desde a revolução de 1930, Magalhães Barata prendeu um filho de José Augusto Meira Dantas, professor da Faculdade de Direito, velho chefe político do Estado, depois senador. Meira Dantas telegrafou a Getúlio Vargas protestando. Getúlio encaminhou o telegrama a Vicente Rao, ministro da Justiça, que mandou um rádio ordenando soltar o rapaz.

Barata estava de saída para uma solenidade no bairro da Pedreira, em Belém. Subiu ao palanque, leu o telegrama e gritou para a multidão:

– Não vou soltar, não. Com Rao ou sem Rao, comigo é no pau.

E não soltou.

LICENÇA-MATERNIDADE – Uma professora do Estado requereu licença-gravidez para o parto do quinto filho. Mandou investigar, soube que ela tinha votado com a oposição. Pegou o processo, deu o despacho:

– “Indefiro. Nego a licença. Gravidez não é doença. Apanha-se por gosto.”

Tinha um candidato a prefeito de Santarém. O diretório municipal do PSD queria outro. Vendo que ia perder, foi lá, conversou, pediu, fez a eleição. Perdeu mesmo: 15 x 5. Levantou-se, pegou o microfone:

– Meus senhores, pela primeira vez a minoria vai ganhar. Está escolhido o candidato que perdeu. Todo mundo bateu palmas. Ele encerrou os trabalhos:

E, pela primeira vez, a minoria ganhou por unanimidade.

6 thoughts on “Histórias do folclore político de Magalhães Barata

  1. Uma delicia ler o folclore politico de Sebastião Nery. Tenho o primeiro livro. Me divirto. Dele (Sebastião Nery, disse Millôr:
    “Disse Millôr Fernandes: “…No decorrer de sua experiência de mais de duas décadas como repórter especializado, Sebastião Nery pode colher, nos anfiteatros mais engraçados do Brasil, o Senado e a Câmara, muitos de seus momentos mais hilariantes”. E prossegue: “Por isso, é um livro extremamente atual, esse Folclore Político, com o qual o próprio Nery aprendeu que, muitas vezes, parar de enfrentar o tigre frente a frente e puxar-lhe o rabo inesperadamente é mais útil à causa e muito mais eficiente. Já foi muito dito mas nunca é demais repetir: castigat ridendo mores, ou seja, rindo é que se castiga os mouros”.

  2. Ulisses Guimarães, o filósofo da oposição:(traçando a estratégia da escalada do MDB em 1974, 76 e 78):

    . No alto do morro estavam dois touros. O touro velho e o touro novo. Viram lá embaixo o pasto cheio de vacas. O touro novo ficou aflito:
    — Vamos descer depressa e pegar umas dez.
    O touro velho balançou a cabeça:
    — Nada disso. Vamos descer devagar e pegar todas.
    — Deus manda lutar, não manda vencer.

    . 1974 não foi uma tempestade. Foi uma tromba d’água.

    . O destino do MDB não é a oposição. O destino do MDB é o poder.

    . O Brasil precisa é de um projeto político que comece por batizar a criança: se é uma democracia,então vamos ter uma democracia!

    . Navegar é preciso. Viver não é preciso.

  3. Tive um professor no curso clássico – Manoel Mauricio de Albuquerque – tipo professor inesquecível que ilustrava suas aulas com lendas e folclóres politicos. Adorávamos. Nas aulas dele, alunos de outras classes, corriam para a nossa, e sentados no chão ficavam.

  4. Discordo.
    Quem escreve MARIMBONDOS DE FOGO não conhece nada de marimbondos e fogo é supedâneo para água benta.

    Ou, se você preferir:
    “um livro que quando você larga não consegue mais pegar” (Millôr Fernandes).

  5. Quando O Ditador e seus apaniguados são abençoados pela mídia, suas prepotências e autoritarismos são chamados de folclore.
    Enquanto o Brasil não chamar Vargas de Ditador, pelo nome de Ditador Vargas, dando nome e sobrenome, Ditador, Golpista e Assassino Getúlio Dornelles Vargas, responsável por boa parte do atraso nacional.

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