Jogo de xadrez, não luta de boxe

Carlos Chagas

O PMDB voltou para cima do muro ao antecipar para o próximo dia 6 a convenção nacional destinada a reeleger Michel Temer para sua presidência.  Porque além dessa mais do que óbvia decisão, o partido submeterá às suas bases a questão  fundamental  de ter ou não candidato  próprio às eleições para presidente da República, em outubro.

A estratégia de Temer e da cúpula  que dirige  o PMDB é evidente: rejeitar a proposta da candidatura própria caso o presidente Lula, antes, dê garantias de haver esquecido a iniciativa  de receber uma lista tríplice de indicados à vice-presidência na chapa de Dilma Rousseff, curvando-se à indicação única do nome do parlamentar paulista.

Caso contrário, não significa que o partido lançará imediatamente a candidatura de   Roberto Requião, mas que deixará a decisão final para a convenção nacional de junho, mesmo abrindo desde já condições para a campanha do governador do Paraná.  Haverá tempo para o jogo continuar.

Trata-se de uma delicada partida   de xadrez,   não de uma luta de boxe.  Depois de saber da antecipação da convenção que reforçará a liderança de Michel Temer, o presidente Lula reagiu e mandou dizer que insiste na lista tríplice.  Foi quando a  direção nacional  do  PMDB treplicou,  anunciando que será debatida, também, a questão da candidatura própria.

Aguarda-se o  próximo lance, mas fica claro o favorecimento de  Roberto Requião, já contando com o apoio de doze diretórios estaduais para sua candidatura.  A manobra de Temer e seus companheiros poderá favorece-lo ainda mais, se bem que o objetivo maior do deputado paulista continue sendo  apoiar Dilma Rousseff, mas só se for ele o companheiro de chapa.

Sem bispo não há rei

Para continuar no xadrez, vale aproveitar a lição  do rei Jaime I da Inglaterra, depois de deixar de ser Jaime IV da Escócia, dizendo que sem bispos não há  rei. Justificou assim sua submissão ao Papa e obteve a boa vontade do clero inglês, conseguindo governar.

Da mesma forma pode estar pensando o presidente Lula. Já não parece fácil emplacar a candidatura de Dilma Rousseff com o apoio do PMDB. Sem ele, a sucessão se transformará numa aventura, para o governo.

Sem medo de desmatar

Lembra o governador Eduardo Braga, do Amazonas, que as árvores,   como   tudo o mais, dispõem de um inexorável ciclo de vida.   Nascem, desenvolvem-se, frutificam e,   mais tarde, morrem. Devem ser cuidadas, aproveitadas,  mas jamais indefinidamente preservadas, porque também  acabam.  Assim, ele  rejeita a tese da transformação da  Amazônia  num imenso  jardim   botânico, intocável.  O importante é aproveitar as riquezas da região sem prejudicar o meio ambiente. Países como a Noruega,  a Suécia e a Alemanha são grandes exportadores de madeira porque, ordenadamente, plantam e abatem florestas.

Eduardo Braga criou, em seu estado, o bolsa-floresta, que dá ao  morador da imensa região um auxílio financeiro semelhante ao bolsa-família,  para tornar-se guardião e   defensor do meio ambiente, mas, de forma alguma, mero espectador da natureza.

Quanto aos perigos de internacionalização da  Amazônia,  reage com a afirmação de serem os brasileiros, caboclos, índios, seringueiros e agricultores,  os maiores defensores  da soberania nacional.  A Amazônia deve ser desenvolvida, jamais estagnada.

Vai insistir

Pelo que transpira no governo, se abriu mão de revogar a Lei da Anistia, o presidente Lula insistirá na preservação, dentro do Plano Nacional de Direitos Humanos,  da criação de um conselho destinado a examinar o conteúdo da programação de emissoras de rádio  e televisão.  Tratando-se de uma concessão pública, telinhas e microfones precisam estar submetidos a algum tipo de controle, tendo em vista o volume das baixarias que assolam o país.  Renovar as concessões precisaria subordinar-se a um mínimo de postulados éticos, em defesa da população.

A tese continua polêmica quando se atenta para o fato de que esse tal conselho poderia ser manipulado pelo poder público, capaz de sujeitar suas decisões à linha  editorial  das emissoras. Em outras palavras, à boa ou má vontade dos noticiários para com o próprio governo. Um perigo.

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