Ladres da pacincia popular

Carlos Chagas

Ontem foi dia de fazer ao cidado comum do Centro Oeste, Sudeste e Sul a clssica pergunta de todos os anos: acordou feliz?

Para o trabalhador, o escriturrio, o funcionrio pblico, o estudante, o agricultor e quantos mais levantam de manh bem cedo, o sair da cama aconteceu entre reclamaes e cansao, bem como durante o resto do dia, de medocre aproveitamento no trabalho, no escritrio, na repartio, na escola e no campo.

Por que? Porque o governo, o atual, assim como os anteriores, roubou uma hora de sono de todos ns, a pretexto desse abominvel horrio de vero que assola a metade do pas. Norte e Nordeste, rebelados, no aceitaram o esbulho, mas os estados mais populosos curvaram-se a um novo captulo desse festival de prepotncia encenado para economizar energia. Poucos cidados deixaram de acender a luz, ao levantar, pois estava escuro s cinco horas da manh, com os relgios enganosamente marcando seis horas.

Falta cidadania aos brasileiros, ou metade deles, para rejeitar a imposio da tecnocracia, que no demora muito chegar proibio do uso de energia durante vrias horas do dia. Horrio de vero regresso. Justificar-se-ia em situaes anmalas, como a iminncia de apages, a destruio de hidreltricas pela natureza, invaso do planeta pelos marcianos e sucedneos. Apenas para satisfazer as colunas de gasto e de economia barata nas planilhas de empresas pblicas e privadas vidas de lucrar com o sacrifcio popular, de jeito nenhum.

Semanas vo transcorrer at que o nosso relgio biolgico se adapte canhestra modificao dos relgios mecnicos e eltricos, mas, quando fevereiro chegar, comea tudo de novo, ao contrrio. Convenhamos, dos governos militares a Jos Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula, no houve coragem para dar um basta olmpica ignorncia dos tecnocratas. Economizam alguns milhares de quilowates mas roubam toneladas de pacincia da populao.

Ser matreira a protelao?

Acio Neves e Jos Serra encontraram-se de novo, desta vez em Goinia, no fim de semana. Abraos, acenos aos correligionrios, juras de lealdade e confiana no futuro, mas nenhuma deciso a respeito de quem ser o candidato tucano s eleies do prximo ano.

Muita gente acha preciosa perda de tempo, enquanto o presidente Lula passeia com dona Dilma pelo pas, em bvia e antecipada campanha eleitoral. Se tudo indica, at as pesquisas, que Serra deve ocupar a cabea da chapa, e Acio, a candidatura a vice, por que no decidem de uma vez?

Imaginar o governador paulista na dvida se deve disputar o palcio do Planalto ou a reeleio para o palcio dos Bandeirantes seria comprar passaporte para a derrota, em qualquer das duas disputas. Pretender que o governador mineiro manobra para filiar-se a outro partido, no d mais, o prazo venceu.

Sendo assim, existem tucanos e no-tucanos dando asas a mirabolantes formulaes, uma das quais seria a expectativa de ambos a respeito de mudanas institucionais de vulto. No estariam, oposies e governo, manobrando para uma prorrogao por dois anos de todos os mandatos? Do presidente da Repblica aos governadores, inclusive os dois, bem como deputados e senadores todos ficariam felicssimos em permanecer nos cargos at 2012, a pretexto da coincidncia de mandatos federais, estaduais e municipais. Essa hiptese poderia viabilizar-se, por mais chocante e ilegtima que fosse, caso at o final do ano o presidente Lula se convencesse da impossibilidade de emplacar Dilma Rousseff…

Coitadinhos dos usurios de droga…

Tem coisa claras como gua da fonte. O trfico de drogas e o crescimento abusivo do crime organizado s acontece porque existem usurios de cocana, herona, craque, maconha e toda a parafernlia paralela. O que acaba de acontecer no Rio, depois de episdios semelhantes em So Paulo, Salvador e outras capitais s acontece porque aumenta o nmero dos que consomem a droga.

So coitadinhos, doentes e vtimas da civilizao moderna, mas tambm so a fora motriz que amplia a ao da bandidagem. Sem os usurios de todas as classes sociais no haveria a prevalncia dos traficantes sobre as instituies organizadas em torno da lei e da ordem. Muitos usurios freqentam os pontos de venda, mais ainda recebem o p a domiclio.

Devem ser protegidos, internados, tratados e tudo o mais, mas enquanto alimentarem os bandidos, sero apenas vtimas? Ou responsveis pelo horror que assola o pas, das grandes s pequenas cidades? Descriminalizar o uso de drogas ser a soluo, como at alguns socilogos defendem?O resultado a est, e vai ficar pior.

Do pau-brasil ao minrio de ferro

Fica impossvel negar razo ao presidente Lula quando se insurge contra a estratgia da Vale, empenhada apenas em cavar buracos no solo para extrair minrio e vend-lo ao estrangeiro. No que as imensas reservas devam se esgotar nos prximos quinhentos anos, mas salta aos olhos a contribuio da empresa ao colonialismo mundial. Ela exporta ferro a preos sempre controlados de fora, ao tempo em que o pas recebe produtos manufaturados pelos compradores, muito mais caros, que no existiriam sem a nossa matria prima.

As queixas do Lula, ainda segunda-feira repetidas ao presidente da Vale, Roger Agnelli, so de que a empresa deveria diversificar suas atividades altamente lucrativas, investindo em siderrgicas, encomendas de navios em nossos estaleiros, pesquisa, tecnologia e sucedneos. Continuando as coisas como vo, por conta de tanta globalizao e tanto neoliberalismo, aumentar a distncia entre colonizados e colonizadores, verso sculo XXI, igualzinha quela que levou os portugueses a acabar com as florestas de Pau-Brasil em nosso litoral…

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