Lula descarta Sarney e afasta Dirceu do PT

Pedro do Coutto

Foram dois lances políticos no mesmo momento. Ao afirmar na tarde de quinta-feira, na sede da Federação das Indústrias de São Paulo, quando recepcionava a presidente do Chile, Michele Bachelet, que o problema da crise do Senado não lhe cabe e portanto o próprio Senado terá que resolvê-la, o presidente Lula descartou o apoio que vinha destinando a José Sarney para que permanecesse na direção daquela Casa do Congresso, distanciando-se do desfecho que se aproxima. Isso de um lado. Mas de outro, aproveitou também a ocasião para demonstrar que o ex ministro José Dirceu não fala em nome do governo ou do PT. Pois Lula fez a declaração na quinta-feira, divulgada nos jornais de sexta.

Na quarta-feira, (a imprensa publicou no dia seguinte), que o ex cx  chefe da Casa Civil atacou o senador Aloísio Mercadante e condenou a nota da bancada do Partido dos Trabalhadores pela saída de Sarney do posto. Causa e efeito. A rebatida foi dada. Parece que, para o presidente da República,  reduzir ou anular a influência de Dirceu tornou-se mais importante do que o destino do senador pelo Amapá. De fato a atitude de Dirceu causou surpresa. Afinal, ele não é senador nem dirigente partidário. Que desejava provar ou aparentar? Provavelmente que, apesar de ter tido o mandato cassado em consequência do vendaval chamado mensalão, continuava forte nos bastidores iluminando as sombras e os caminhos da legenda rumo à sucessão de 2010. Luis |Inácio Lula da Silva acentuou que não é isso.

Em primeiro lugar porque em sua manifestação Dirceu disse que a saída de Sarney da presidência do Senado entregaria o comando do Congresso à oposição. Não é fato. Se José Sarney se licenciar, Marconi Pirilo, do PSDB assumiria até seu retorno. Três meses. Porém se Le vier a renunciar, com base no Regimento Interno do Senado, seu sucessor efetivo terá que ser eleito dentro de cinco dias. O posto de presidente do Senado, no próximo ano eleitoral, ganha importância além do comum. Não se trata somente de presidir o Congresso, mas substituir o presidente Lula em suas viagens, já que o substituto constitucional, deputado Michel Temer, presidente da Câmara, sendo candidato à vice na chapa de Dilma Roussef, a partir de abril, não poderia assumir o cargo.

Uma crise desgastante como a do Senado, na qual aparecem irregularidades e ilegalidades em sequência impressionante, vale cinco dias de espera. Menos do que uma semana. Não causaria problemas para o Planalto. A aliança PT-PMDB estaria ou estará mantida, uma vez que não se pode esquecer que o partido que foi de Tancredo neves e Ulisses Guimarães no passado, no presente detém seis ministérios e assim possui forte presença na administração federal. A saída de Sarney viraria mais uma página da história do Parlamento brasileiro e não afetaria a posição nem de Lula, nem do governo. A permanência sim. Esta, à medida em que o tempo for passando, vai acrescentando dissabores à opinião pública que, no fundo, é a base do teatro político. E tais dissabores refletiriam inevitavelmente na aliança PTB-PMDB, em termos de votos. Tudo o que o presidente da República não quer e a oposição almeja.

A provável coligação PSDB-DEM-PPS, incluindo Itamar Franco, não necessita sequer condenar o maremoto que traga o Poder Legislativo. Apenas assistir. Como fez Ronald Reagan, nos Estados Unidos, ao disputar em 80 a reeleição contra o governador Walrer Mondale. A vice de Mondale era a deputada Geraldine Ferraro. Logo ao início da campanha revelou-se que ela devia (e não pagou) 10 mil dólares ao Imposto de Renda. Bastou isso para esvaziar a chapa Democrata. O Partido Republicano permaneceu na Casa  Branca. Venceu fácil a eleição.

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