Lula substimou a reação do PT a Ciro Gomes

Pedro do Coutto

O título deste artigo é emblemático. O presidente Lula não avaliou bem o quadro político projetado para 2010 e, com isso, subestimou a capacidade de reação do Partido dos Trabalhadores à candidatura de Ciro Gomes, que é do PSB, ao governo de São Paulo. A reação veio em seguida e aproveitou o episódio do apoio de Luis Inácio ao senador José Sarney na tentativa –muito difícil- de mantê-lo na presidência daquela Casa do Congresso. Lula alcançou as manchetes na sexta-feira no Globo, Folha de São Paulo e de O Estado de São Paulo, mas no sábado quem ocupava o alto das primeiras páginas era o senador Aloísio Mercadante contestando o Planalto e afirmando que Sarney deve se afastar. Para os observadores políticos amadurecidos no decorrer de várias décadas não surpreende que a rebatida partidária tenha vindo de um parlamentar paulista. Exatamente a seção do PT mais atingida pela articulação em torno de Ciro, considerado essencial para fortalecer a candidatura de Dilma Roussef. A escolha do deputado do Ceará, pelo presidente da República, representa claramente que Lula rejeita, de plano, qualquer companheiro da regional.

O PT paulista, por uma simples questão de dignidade, não houvesse outra razão, teria que reagir. Reagiu.

Reagiu e com a reação causou sem dúvida um abalo na candidatura da ministra chefe da Casa Civil. Um coisa leva à outra. Os setores do universo político são sempre interligados. Até porque, como uma vida, não existe ação sem reação. Não há nenhuma estocada que não produza reflexo. No caso do PT de São Paulo um reflexo bastante negativo. Vamos por escalas. Em primeiro lugar, como disse há pouco, deixou  no ar uma sensação de menosprezo. Em seguindo, Mercadante sinalizou que o Partido dos Trabalhadores não se mobilizará em favor de uma candidatura de Ciro Gomes, o que liminarmente a torna inviável. Em terceiro lugar, se Ciro se torna inviável, igualmente inviável a força de seu apoio a Dilma Roussef. Além disso, a absorção de Ciro Gomes representaria a ultrapassagem, por Lula, dos quadros do próprio PT. A legenda existe faz 29 anos. Será que quase três décadas depois não existe na sigla ninguém capaz de disputar o governo paulista? Aceitar Ciro, para o PT, seria o mesmo que o partido passar à opinião pública um atestado de incapacidade para consigo mesmo.

A iniciativa de Lula sub avaliando a capacidade de o PT se rebelar, de outro lado, vai refletir nos quadros partidários de vários estados. Até por uma questão de perspectiva. Se para enfrentar uma luta política decisiva, a maior figura da agremiação recorre ao Partido Socialista Brasileiro, isso representa a superação dos quadros partidários, na medida em que o presidente retira de seus integrantes a perspectiva do futuro próximo. Os petistas passariam a ser fatores de apoio a candidatos, mas de seus quadros não sairiam os próprios candidatos. Lula errou.

Confiou demais em seus fantásticos 80% de popularidade, esquecendo que uma coisa é o seu Ibope pessoal, confirmado também pelo Datafolha, outra a sua capacidade de transferir votos. Não é a mesma coisa. Inclusive Lula passou a imagem que que Dilma Roussef não tem voo próprio forte para decolar. Necessita de apoio múltiplo para ganhar espaço e subir. Este aspecto, ao contrário do que o presidente pensou, não a reforça. Ao contrário. A enfraquece. Lula foi mal no lance. Sem dúvida.

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