Marcantonio Vilaça, a arte por testemunha

Pedro do Coutto

O Tribunal de Contas da União criou em Brasília o Espaço Marcantonio Vilaça unindo-se assim à rede de centros de fundamental importância que começou no país há poucas décadas com a iniciativa do Banco do Brasil, no Rio. Áreas foram surgindo na trilha interminável da cultura, que é a própria passagem do ser humano pelo mundo, e, no dizer do ministro Marcos Vilaça, pai de Marcantonio, o roteiro no qual os criadores, descobridores de novas formas, fórmulas e cores deixam para sempre suas impressões digitais. Marcantonio viajou para a eternidade cedo demais, foi um fantástico navegante moderno da arte, tornando-se um símbolo e uma presença nos toques mágicos que surgiram na época moderna. Claro, o  título deste artigo está inspirado em René Clement, diretor de O Céu Por Testemunha, um filme de extraordinária beleza plástica no qual se identifica sequências isoladas de arte dentro da própria arte. Foram sequências assim que Marcantonio percebeu, interpretou, gravou e projetou. Ele abriu a cortina do presente e –quem sabe?- a cortina do futuro para muitos artistas plásticos bloqueados na sombra de seus talentos.

Reclamar da incompreensão contemporânea da obra de arte? Sim. Mas que fazer? Este, em inúmeras situações, é o destino da vanguarda e dos vanguardistas. Van Gogh, em vida só conseguiu negociar um quadro. Toulouse Loutrec trocou obras suas, que emocionam até hoje, por contas a pagar no Moulin Rouge, lá no Pigalle, Paris. O ministro Valmir Campelo, presidente do TCU, em bela publicação especial, apresenta a unidade cultural abrindo-a ao público.

Não é preciso entender de arte –digo eu- apenas sentir o quer vemos. Nada substitui a emoção e a sensibilidade. A percepção mais profunda vem depois, já quer todos nós, de uma forma ou de outra, procuramos em tudo a exatidão de uma idéia, frase de Simone de Beauvoir. No caso da arte, tão forte ela é que sequer torna-se necessário traduzir para se gostar. Isso porque a arte é uma linguagem em si mesma. Basta vê-la.

Marcantonio Vilaça entendeu bem o fenômeno da criação e com seus olhos e seu espírito construtivo foi identificando talentos. Creio –isso é inevitável- que contornou e venceu dúvidas. Não fosse assim, se a intuição resolvesse qualquer enigma, tudo seria muito mais simples do que é. Mas sua percepção levava em conta o tempo: incrível, tão jovem era, para calcular que a resistência de hoje é, muitas vezes, a aceitação plena do amanhã. Com quantos artistas tal fenômeno ocorreu? Milhares. No Brasil, temos o exemplo da Semana da Arte Moderna de 1922.

E que dizer das mudanças de estilo e fases? O grande Picasso percorreu diversas etapas, do clássico de 1910 ao final de sua vida, aos 90 anos, depois de percorrer o cubismo, a fase azul-amarela, os enigmas que desenhou em sua última exposição em Parias. Várias fases e um Guernica, eterna, ao lado de Portinari, no saguão de entrada da ONU em Nova Iorque. De enigmas e mensagens cifradas está pleno o universo da arte. Vejamos a Santa Ceia de Da Vinci, na Igreja de Santa Maria Della Gracie em Milão, capa do livro de Dan Brown. O futuro traduzirá melhor do que nós, hoje, a real importância de Marcantonio Vilaça, amanhã. Foi um desbravador e um descobridor extraordinário de talentos. Viverá para sempre.

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