Na visão do poeta Lêdo Ivo, “minha pátria” são os brasileiros mais carentes

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Para o jornalista, cronista, romancista, contista, ensaísta e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012), membro da Academia Brasileira de Letras, o conceito de “Minha Pátria” está diretamente vinculada à situação dos patrícios mais carentes e desprotegidos.

MINHA PÁTRIA
Lêdo Ivo

Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando
sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas
carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos
e impaludados não param de
tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre                              pátria muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.

6 thoughts on “Na visão do poeta Lêdo Ivo, “minha pátria” são os brasileiros mais carentes

  1. Minha pátria é qualquer lugar que me acolhe e me dignifica. É aquela onde ganho o pão e vivo tranquilo sem bala perdida e arrastão. O vento que me refresca pode vir de qualquer lugar e não precisa marca registrada da latitude nem vir da serra ou do mar. Não tenho raízes como as árvores e me adapto em qualquer bom lugar.

  2. Uma pausa para o Dia de Finados – 2/11

    Os mortos que vivem em mim- Déa Januzzi
    fragmento de uma de suas crônicas “A velhice sem disfarce”.
    “Ficar velho não é achar mais um fio branco de cabelo. Nem notar que aquela ruga de expressão aumentou consideravelmente. Ficar velho não é sentir mais dores do que antes. Ter que fazer mais exercício do que antes. Ficar velho, mesmo, é ver aos poucos o seu mundo ser despovoado de amigos. Dos seus tios queridos. De parceiros. De pessoas que você admira. De gente cujas ideias influenciam você. De talentosos. De visionários. De autores da sua época. De personagens da sua aldeia. De gente como o Nico, um cara que tinha vários dons. O dom de ser gago e cantar muito bem. De fazer rir com inteligência. De achar a verdadeira alma das canções.”
    Déa Januzzi é Jornalista e escritora. Jornalista do Estado de Minas

  3. Belissimo poema de um dos grandes nomes da poesia brasileira. “Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
    e o vento que sopra em Maceió. Não é a língua portuguesa, como dizia Fernando Pessoa. São muitos os poemas de Ledo Ivo que eu gosto.
    Vejam

    O portão
    O portão fica aberto o dia inteiro
    mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
    Não espero nenhum visitante noturno
    a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
    A noite é tão silenciosa que me faz escutar
    o nascimento dos mananciais nas florestas.
    Minha cama branca como a via-láctea
    é breve para mim na noite negra.
    Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão desatenta
    derruba uma estrela e enxota um morcego.
    O bater de meu coração intriga as corujas
    que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
    do dia e da noite paridos pelas águas.
    No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
    Sou o vento que apalpa as alcachofras
    e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
    Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
    respira os perfumes da terra e do oceano.
    Um homem que sonha é tudo o que não é:
    o mar que os navios avariaram,
    o silvo negro do trem entre fogueiras,
    a mancha que escurece o tambor de querosene.
    Se antes de dormir fecho o meu portão
    no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
    pisando as folhas secas dos eucaliptos
    vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
    que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
    — coberto por uma mortalha, como todos os que sonham
    e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
    que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da noite que cheira a jasmim
    e ao doce esterco fermentado.
    os visitantes indesejáveis atravessam as portas trancadas
    e as persianas que filtram a passagem da brisa e me rodeiam.
    Ó mistério do mundo! Nenhum cadeado fecha o portão da noite.
    Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir sozinho
    protegido pelo arame farpado que cerca as minhas terras
    e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
    À noite, uma simples aragem destrói os muros dos homens.
    Embora o meu portão vá amanhecer fechado
    sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
    e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.
    – Lêdo Ivo, do livro “A noite misteriosa”, 1982.

  4. Maravilha de poema:

    A ETERNIDADE PREMEDITADA – Ledo Ivo

    Isto será a eternidade:

    um incessante subir de escadas.

    E sempre estarás no começo da escadaria

    muito embora todos os dias sejam degraus.

    Deus, porque fizeste a eternidade?

    Porque nos obrigas a subir tantas escadas?

  5. DIÁLOGO COM OS MORTOS – Affonso Romano de Sant’Anna
    (Publiquei este poema em 1986 no JB. Será que é atual? )
    “Os mortos governam os vivos” (provérbio)
    Hoje, dia de finados, acordo
    e vou ao cemitério dialogar com os mortos.
    Me assento solitário
    no mármore do poema
    na cova rasa da história
    e considero
    os mortos de outrora
    e a vergonha de estar vivo agora.
    Olho os mortos em torno:
    há qualquer coisa estranha e dura
    no vazio de seus rostos:
    -é vergonha,
    é a calcinada amargura
    segregada na solidão dos que choram
    do fundo da sepultura.
    Certamente não sabiam
    que mesmo depois de mortos
    uma vez mais morreriam
    de vergonha e humilhação.
    Vou dialogar com os mortos
    e descubro
    que os vivos é que estão surdos.
    vou dialogar com os mortos
    e escuto
    que os vivos é que estão mudos.
    -Podem os mortos em seus jazigos
    emprestar sua voz aos vivos?
    Será preciso um comício
    de cinza, círios e ossos
    para resgatar
    -os vivos mortos?
    Mal formulo esse juízo, percebo
    que me equivoco:
    -são os mortos que me assomam à porta
    sacudindo os ossos
    brandindo vozes
    desenterrando em mim
    meus insepultos remorsos.-
    O que é isso? dança macabra?f
    festa de bruxa:_ abacadabra?
    – O que fazem na praça soltos
    os mortos de nossa história?
    .
    O que fazem expostos, fora
    da cova da memória?
    Que dia torto, esquisito,
    onde o morto é que está vivo
    chorando na praça, às claras
    a nossa escura desgraça…….
    Diziam os sábios antigos-
    -os mortos governam os vivos-
    Mas na ironia da frase
    descubro um outro sentido
    ao contemplar meu país
    num desgoverno afltivo”
    Os que deviam reinar
    estão sonâmbulos, perdidos
    em seus palácios sombrios
    em seus esquifes de vidro
    olhando de longe a nação.
    Não percebem que estão mortos
    começam a já mal cheirar
    e, no entanto, se recusam
    a se deitar
    – no caixão.

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