Nada mais do que um esbulho

Carlos Chagas

Meio por acaso, ficamos sabendo de mais um crime de lesa-ptria que vinha sendo praticado desde os tempos de Fernando Henrique Cardoso e continuado pelo Lula. Sabia o cidado comum, eterno pagador de impostos, que o capital estrangeiro estava isento de qualquer taxao? Pois . Decidiu o atual governo, depois de sete anos, cobrar 2% de IOF para as aplicaes de curto prazo que venham do estrangeiro…

Quer dizer, o capital-motel tripudiou sobre todos ns durante quinze anos. Chegava de tarde, passava a noite e ia embora de manh, depois de haver estuprado um pouquinho mais nossa economia. No pagava nada, para entrar e sair.

Mesmo sendo ridcula essa taxa de 2%, j alguma coisa. No Chile, exemplo mpar do reinado do neoliberalismo, o Imposto Sobre Operaes Financeiras de 10%, sendo proibida a entrada de capital que no permanea pelo menos um ano no pas. Entre ns, era a lambana explcita, alimentada pelas mais altas taxas de juros do planeta. De Malan a Palocci e a Mantega, todos celebraram o ingresso de centenas de milhes de dlares que, para eles, representaram a entrada do Brasil no clube globalizante. Nada mais do que um esbulho.

Acresce que esse capital predador, sem criar um emprego sequer, nem forjar um parafuso, bateu asas h um ano, quando da ecloso da crise econmica mundial. Voltou faz pouco, fiado nas mesmas facilidades de antes. Talvez saia de novo, em sinal de protesto. Ainda bem.

Sinalizando uma nova crise

Acendeu a luz amarela no semforo plantado defronte ao palcio do Planalto. Auxiliares de primeiro nvel do presidente Lula mostram-se preocupados com as recentes declaraes do presidente do Supremo Tribunal Federal, no sentido de tratar-se de um desafio para a Justia Eleitoral a campanha desenvolvida em torno da candidatura de Dilma Rousseff. Para Gilmar Mendes, o Tribunal Superior Eleitoral dever refletir diante das viagens do presidente Lula e da chefe da Casa Civil pelo pas, fiscalizando obras do PAC e despertando crticas veementes da oposio por conta de seu carter eleitoreiro. Afinal, as campanhas esto proibidas at seis meses antes das eleies.

A moeda tem duas faces. Se de um lado salta aos olhos que o Lula promove a candidata em palanques e aparies variadas, de outro tambm sobressai a evidncia de que um governo tem o direito de governar. Percorrer os estados, fiscalizar obras e participar de eventos obrigao dos governantes maiores. Limit-los seria absurdo.

A temperatura vai subir, caso o presidente do Supremo insista em mobilizar o TSE para investigar a ao do Executivo, mesmo tendo o presidente Lula nomeado oito dos onze ministros da mais alta corte nacional de justia. Sem esquecer que Gilmar Mendes foi indicado por Fernando Henrique, pea fundamental na candidatura oposicionista de Jos Serra.

Permanecem as dvidas

Nem tudo foi resolvido na festa de noivado do PMDB com a candidatura de Dilma Rousseff. No jantar de ontem, na Granja do Torto, o presidente Lula ofereceu ao partido a vice-presidncia na chapa oficial, deixando claro no se opor indicao do deputado Michel Temer. A dvida saber se o parlamentar paulista se dispor desde logo aventura ou se vai esperar mais alguns meses para ver se a candidata decola nas pesquisas eleitorais. Afinal, tem garantida a permanncia de quatro anos na presidncia da Cmara. Seu atual mandato no binio 2009-2010 poder ser renovado para 2011-2012, por tratar-se de outra Legislatura.

Na hiptese, mesmo remota, de Temer saltar de banda, outros nomes do PMDB entrariam em cogitao: os ministros Edison Lobo, Geddel Vieira Lima e Nelson Jobim, por exemplo. Sem esquecer de que as preferncias recnditas do presidente Lula indicam Roberto Requio, afinal, o que tem mais votos e mais personalidade, nessa relao. O problema que o governador do Paran passa longe dessa armao.

O mesmo drama

O embaixador Samuel Pinheiro Guimares tomou posse como ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratgicos. Substitui Mangabeira Unger, que como noticiamos dias atrs, no pediu demisso temendo perder sua aposentadoria de professor em Harvard. Essa verso nasceu nos jardins do palcio do Planalto, pois como disse depois o j ex-ministro, em Harvard no h aposentadorias. Ele deixou a secretaria por sentir-se isolado no governo, sem que o presidente Lula desse encaminhamento ao Congresso de suas diversas propostas.

O mesmo drama poder repetir-se com Samuel, de posies nitidamente nacionalistas, contrrias poltica neoliberal da equipe econmica. Seu primeiro teste ser saber se continuar como coordenador do Plano de Desenvolvimento da Amaznia.

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