Não faltou aviso, e o Banco Central adverte novamente: populismo faz mal para saúde fiscal

Crise no governo Bolsonaro

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

William Waack
Estadão

Jamais terá sido por falta de aviso. Caso o governo brasileiro abandone o rigor fiscal em troca de popularidade – possibilidade que mercados passaram a considerar real –, ficará provado que, no Brasil, não só a História pouco serve de lição. Ainda por cima se repete como farsa cada vez mais trágica.

Parece até mesmo um ciclo maldito. Sarney se encantou com a popularidade trazida pelo Cruzado e prorrogou medidas “temporárias” até cair na hiperinflação. Lula abandonou os superávits primários depois da vitória de 2006, derrotando as consequências do mensalão. Na doce conversa das medidas contracíclicas para combater a crise de 2008, e atrás de dividendos políticos, Dilma expandiu o intervencionismo fiscal até cair nas pedaladas.

ESFRIOU OS ÂNIMOS – “A história se repete agora” foi uma frase muito usada entre agentes de mercado nos últimos dias, chegou aos andares de comando em grandes corporações e esfriou consideravelmente ânimos de investidores.

Esse estado de espírito se consolidou no alerta feito na terça à noite pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que foi contundente (para os padrões convencionais de um “central banker”) ao admitir que a credibilidade da política econômica do governo está arranhada, que a fragilidade fiscal contribui para a desvalorização da moeda brasileira e que o País já perde fluxo de capitais por conta das políticas ambientais.

A questão para quem toma decisões na economia, prosseguiu Campos Neto, não são tanto os prazos de reformas e o calendário eleitoral, mas qual a trajetória que se pretende seguir além do fim do ano.

APENAS INTENÇÕES – É um ponto de interrogação respondido até aqui com a reiteração de um conjunto de intenções (“privatizar”, “desburocratizar”, “avançar nas reformas”), no momento dependentes das eleições municipais e da sucessão das duas Casas Legislativas. Ou seja, “mañana”.

Nos círculos bem dentro do governo o aviso estridente do presidente do Banco Central foi entendido como um recado ao próprio Bolsonaro. Teme-se no Ministério da Economia que em prazo não muito distante o presidente se sinta na contingência de ter de ligar para Campos Neto e pedir para ele não subir os juros.

Pois é o “sentir” de Bolsonaro em relação à política – nada fazer que arrisque perda de popularidade – a principal causa da apenas aparente dificuldade de se aprovar matérias relevantes: “até as eleições vamos para uma agenda de baixo custo político”, resume um dos homens mais próximos ao presidente.

IMPASSE SEM FIM – Custo político é fácil de definir: qualquer decisão em qualquer das áreas que tem impacto direto na questão fiscal (tributária, administrativa e do pacto federativo) causará prejuízos a grupos organizados (econômicos, políticos, corporativos), a entes como municípios e Estados e a agrupamentos como igrejas.

Não tomá-las também, com o agravante de que a conta fiscal não está esperando que o peculiar mundo do poder em Brasília se mova em qualquer direção.

PROJETO DA REELEIÇÃO – A única direção clara é Bolsonaro ter subordinado tudo ao projeto de reeleição. Alguns de seus ministros mais próximos admitem em conversas particulares que as agendas de reformas e transformação poderiam ter sido tocadas de forma mais rápida, que esperar pelas eleições municipais era desnecessário para tratar de renda básica, que o presidente, ao “dar uma virada na política” e conseguir “domar o establishment” (qualquer que seja o significado disso), entregou a chave do cofre para o Centrão e que agora ele precisa de mais um mandato para realizar o que prometeu antes de ser eleito em 2018.

Autoengano, indicam episódios da nossa História, é coisa contagiante e, às vezes, vira fenômeno coletivo.

6 thoughts on “Não faltou aviso, e o Banco Central adverte novamente: populismo faz mal para saúde fiscal

  1. Todo Partido Político que está no Governo, especialmente o Presidente, faz tudo o que pode dentro da Lei para vencer a re-eleição, Isso é natural no Brasil e no Mundo.

    O Executivo sabe que gastando DEFICIT FISCAL, a curto Prazo, ganha Votos.
    Mas o CONGRESSO aprovou “Lei do Teto de Gastos por 20 Anos, 1916 -1936)” e “Lei de Ouro” que proíbe o Executivo de emitir Dívida Pública para pagar Despesas Correntes.

    Para a emergência da Pandemia Covid-19, o Congresso Votou corretamente +- R$ 900 Bi para 2020 e 2021 um “Orçamento de Guerra contra Covid-19”, que deve ser gerido separadamente.

    Então, mais do que ao Presidente BOLSONARO (65) cabe ao CONGRESSO manter a Disciplina Fiscal imposta, e o CONGRESSO até agora está se mostrando responsável.

    O próprio FMI não recomenda mais reduzir a DEMANDA, mas não podemos exagerar em Medidas Contra-Cíclicas como muitas vezes fizemos no passado,

    Saberemos encontrar um meio termo CORRETO.

  2. Na era do PT, Lula primeiro arrumou as finanças para depois ampliar e implementar novos serviços assistências. (Minha Casa, UPAs, etc). É claro que sem arrecadação, o FMI volta.

  3. Esse ministro, Paulo Guedes, só pensa em maldades contra o funcionalismo público e os empregados das empresas estatais.
    Na cabeça pequena dele, que até já abandonou as teses neoliberais para trabalhar pela reeleição de seu chefe, só fala em fast track (venda de ativos de maneira rápida) para amealhar recursos visando turbinar o Renda Mínima.
    Ele deseja o primado das empresas privadas e o fim do Estado. Pelas suas ações, o neoliberal de Chicago acredita que o Estado gasta muito com os pobres.
    Quer por que quer, o fim do INSS, a moda do modelo chileno. Deseja por no lugar, a cruel Capitalização, tocado por Bancos e Fundos de Pensão.
    Vai vender todas as empresas a preço de banana, para se livrar do que resta das empresas estatais.
    Seu sonho de consumo é detonar o SUS e copiar o modelo americano, que se baseia em: Quem tem dinheiro para pagar um Plano de Saúde é contemplado, quem não tem, que se exploda. É muita crueldade.
    Queria dar para as pessoas atingidas pela Pandemia, meros R$ 200,00 e disse que dava para uma boa cesta básica. Rodrigo Maia eleitoralmente sugeriu R$ 500,00 e o presidente para não ficar atrás de Maia, bateu o martelo em R$ 600,00.
    O Brasil segue a tendência mundial, que é acabar com todos os vestígios da política de Bem Estar Social, surgida na Guerra Fria, para contrapor a força do Império da União Soviética. Uma vez destruído o inimigo comunista, entenderam que não é mais necessário distribuir mais nada.
    Trata-se de a Lei do mais forte prevalecendo em todas as instâncias. O Leão podendo tudo e os outros a mercê da sorte.
    Como poderemos viver num mundo desigual e injusto, com essas amarras impostas sobre nossas cabeças?

  4. Em relação a Lei do Teto de Gastos. Lembro ao distinto público, que um presidente foi deposto por ter furado o teto de gastos, as famosas Pedaladas Fiscais.
    Se agora a furada do teto se deu por causa da Pandemia, na época estávamos em plena recessão, oriunda dos reflexos da crise no setor imobiliário dos EUA em 2008, que abalou os países em escala global. Lula erradamente disse que era só uma marolinha. Errou. Não era marolinha, era tsunami.
    A questão da isonomia no Brasil é gritante. Para uns pode para outros não pode.
    Instaure-se a moralidade ou todos se locupletem.
    Esse é o pior Congresso da história da República. Temo pelo próximo, que deve ser ainda pior.

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