Nas atitudes de Bolsonaro, psicanalistas veem cálculo político com gestão do ódio e do afeto 

Ilustração de Débora Gonzales (UOL)

Felipe Bächtold
Folha

Manipulação de afetos, política do negativo e estratégia da cisão são algumas das expressões que psicanalistas ouvidos pela Folha usam para se referir à estratégia do presidente Jair Bolsonaro de manter seu governo e seus apoiadores em confronto permanente.

Mesmo com o país imerso em uma crise sanitária que já deixou mais de 320 mil mortos, o presidente e seu entorno persistem em um embate político contínuo com alvos que vão de governadores a cientistas, além de Judiciário e Congresso.

UNIR A BASE – A tática contribui para manter mobilizada sua base eleitoral em um momento em que o governo sofre críticas sucessivas pela gestão da pandemia do coronavírus e enfrenta a perspectiva de uma deterioração na economia.

A reportagem procurou um grupo de psicanalistas de diferentes abordagens e trajetórias profissionais para questioná-los sobre o comportamento do presidente à frente do cargo.

Há um ano, no início da crise sanitária, a Folha já tinha ouvido esses profissionais em reportagem sobre a postura dele à época e sua recusa em admitir a gravidade da crise. Na ocasião, alguns dos traços do comportamento mencionados eram indícios de lógica paranoica e estilo onipotente.

MANEIRA DESRESPEITOSA – Desde então, uma das atitudes mais simbólicas do presidente foi a maneira desrespeitosa com a qual se referiu aos mortos pela Covid-19. Bolsonaro já disse, sobre os óbitos: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, “Não sou coveiro” e “Vão ficar chorando até quando?”.

Parte do grupo de especialistas vê nessa insistência um interesse em gerar inquietação na sociedade. “Se o sujeito quer instaurar o caos, ele não pode demonstrar qualquer traço de empatia. Porque a empatia do líder faria com que houvesse empatia em alguma medida no tecido social. Eu apostaria também que isso seria um cálculo”, afirma Marcelo Galletti Ferretti, professor da Escola de Administração da FGV (Fundação Getulio Vargas).

O professor diz que não se pode jamais olhar para os movimentos do presidente “como pura espontaneidade” e que também essas atitudes são uma forma de mobilizar e indignar “aqueles que o desdenham”.

IMENSO DESPREPARO – Para a professora Tânia Coelho dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Bolsonaro mostra “um imenso despreparo para governar” e uma incapacidade de representar sua condição de chefe de Estado.

“Como todo líder populista, ele não sabe desempenhar o seu papel de representante eleito pelo voto. Sente-se cobrado pessoalmente pelos efeitos do que considera uma tragédia alheia à sua vontade e por isso reage com irritação como se estivesse sendo injustiçado.”

Segundo a professora, o presidente “parece gostar de bancar o homem corajoso, que despreza os riscos da ‘gripezinha'”.

TEM CACIFE – Mesmo sob intensas críticas no meio político e sem conseguir montar uma base consistente no Congresso, Bolsonaro tem sido bem-sucedido até agora em manter um patamar considerável de apoio nas pesquisas de popularidade, que o cacifa para a eleição do próximo ano.

Segundo o Datafolha, o percentual da população que considera seu governo ótimo ou bom nunca esteve abaixo de 29%. Na pesquisa mais recente, nos dias 15 e 16 de março, o índice foi de 30%.

O professor Tales Ab’Saber, da Universidade Federal de São Paulo, diz que Bolsonaro busca um afastamento radical de uma parte da sociedade em relação ao restante e mantém suas ações políticas “permanentemente no dissenso”, a ponto de encarar uma crise de saúde pública como uma guerra.

MANTER APOIADORES – O especialista chama esse estilo de “política da impertinência” e diz ver um desrespeito a mínimos contratos sociais. “A lógica de comunicação dele é para manter esse 30% [de apoiadores] e ele tem mantido. A política inteira dele é para isso. Não tem outra.”

A professora Miriam Debieux Rosa, da USP e da Rede Interamericana de Pesquisa em Psicanálise e Política, lembra que existe um grupo dentro do Palácio do Planalto batizado de “gabinete do ódio”, composto por assessores, tido como responsável por impulsionar material pró-governo e ataques.

Ela vê isso como uma face de uma “política dos afetos”, em que a animosidade é incitada e todo o entrave ao país passa a ser os opositores.

NÃO É ESTRATÉGIA – O escritor e psicanalista Mário Corso discorda quanto a haver uma grande tática política nas atitudes errantes da Presidência e diz que, nessas práticas, não há como “imaginar que está por trás um Maquiavel” —pensador morto em 1527 e fundador da ciência política moderna.

O presidente mantém sua popularidade em patamares razoáveis, diz o psicanalista, por apostar em uma política de viés negativo, que promete uma volta ao passado, “em que o politicamente correto não existia”.

“É algo que não precisa criar. É só usar do ressentimento e da impotência, do preconceito. É muito fácil fazer uma política do preconceito. É difícil fazer uma política que inove, não a que puxa para trás.”

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O comportamento de Bolsonaro é tão psicótico que até mesmo os psicanalistas ficam em dúvida sobre suas verdadeiras intenções. O presidente é uma esfinge que permanece enigmática e indecifrável. (C.N.)

16 thoughts on “Nas atitudes de Bolsonaro, psicanalistas veem cálculo político com gestão do ódio e do afeto 

  1. Inglaterra, 24 mortes nas últimas 24 horas;

    Brasil, mais de 4 mil mortes nas últimas 24 horas.

    E o seu Jair trocando os ministros com vistas à proteger seus filhos.

    Não vejo sinais de psicopatia nesse FDP, vejo, sim, sinais de maldade.

  2. Criadores e estudiosos das minhas primas Anacondas, na Colômbia e Venezuela, sabem do fedor que elas exalam onde ficam guardadas.

    Insuportável seria pouco, para definir o cheiro insuportável das minhas possantes primas.

    O Palácio do Planalto me atrai muito porque sinto um cheiro que conheço muito bem, de cobras, e de várias origens.

  3. Esse tipo de sentimentos ambivalentes fazem o sujeito entrar em parafuso. Dizem também ser vítima de um redemoinho assim, o gay enrustido, que resiste sair do armário: é como se fosse uma força centrípeta e outra centrífuga, agindo num mesmo corpo.
    No caso do Bolsonaro, espera-se que uma forrageira o triture por dentro, ao ponto de ele tomar uma metralhadora e falar, fulminando: “Agora eu Zero Um, Zero Dois, Zero Três, Zero Quatro……Zero Nascituro, Zero o quer vier. E, em seguida, suicidar-se, para viver eternamente à direita de Ixtab; a deusa dos suicidas, na Civilização Maia.

  4. Numa boa:

    não creio que o GENOCIDA Boçal seja “uma esfinge a ser decifrada”. Muito pelo contrário. Ao longo de décadas ele fez e fala exatamente o que continua fazendo e falando.

    Sempre ficou claro o seu ressentimento contra o meio militar, donde, de fato, foi expulso. Fez contrabando quando ainda engajado. Tentou explodir bombas nos quartéis por aumento salarial. Por isso:
    1) nenhum dos seus filhos se tornou militar mas sim, políticos. Maus políticos. Políticos ladrões.
    2) ao mesmo tempo firmou parceria com policiais criminosos, inclusive levando-os para gabinetes da familícia.
    3) Olavo de Carvalho e o próprio Boçal não perde ocasião de humilhar generais, o que comprova o seu ressentimento.

    No mais, é perfeitamente natural posições diferentes de especialistas (psiquiatras, psicólogos, psicanalistas…). Muito embora haja muitos pontos convergentes.

  5. Depois de passar quase 30 anos na Câmara dos Deputados o mito acredita que conhece o povo. Como sabe que o povo não tem memória trata-o desta forma, sem a menor consideração e responsabilidade. Só se importa consigo mesmo porque foi isto o que fez a vida toda. A convivência com o Poder fez muito mal a uma pessoa que não era tão equilibrada assim.

  6. Sr. Carlos Newton, me perdoe pelo palavrão, mas é a única maneira de poder mensurar a esperteza deste demônio!

    ele desmente o que disse na frente das câmeras e microfones. É algo inacreditável!

    Nem o ladrão do lula desafiou tanto os microfones.

    Eu não tenho mais nenhuma dúvida, está procurando e forçando uma guerra civil!

    Quer ver briga entre irmãos, quer derramamento de sangue!

    QUER IMPLODIR O BRASIL POR UM PROJETO MERAMENTE FAMILIAR!!

    É O ÚNICO JEITO QUE ELE TEM PRA SE SAFAR E LIVRAR TODOS OS QUE FIZERAM FALCATRUAS JUNTO COM ELE.

    Só nos salvamos se o enigma M. for descoberto.
    Madame M. está agindo, apesar de não estar mais entre nós.
    JL

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