No Dia dos Pais, a inspiração que se deve ter, antes que as crianças cresçam

Affonso Romano, um pai e avô muito inspirado 

Carmen Lins

No Dia dos Pais, é conveniente saborear uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna sobre o relacionamento de pais e filhos, com a chegada depois do que de melhor poderia acontecer — os netos.

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ANTES QUE ELAS CRESÇAM
Affonso Romano de Sant’Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

10 thoughts on “No Dia dos Pais, a inspiração que se deve ter, antes que as crianças cresçam

  1. 1) Bom escritor, bom cronista, bom professor da UFMG e UFRJ.

    2) Dizem – não posso garantir – que ARS foi ghost writer do Presidente Juscelino Kubistchek.

    3) Feliz domingo Dia dos Pais para todos (as).

    4) Obrigado Carmen Lins pela ótima postagem.

  2. Metafraseando a musica ‘7 segundos’ do Yossou N’Dour, cantada em ingles frances e wolof, língua do Senegal, Gâmbia e da Mauritânia:

    “Entendendo razões que nos levem a mudar tudo
    Que todos esquecessem de sua cor
    E das tantas visões que desesperam

    Quero o caminho bem aberto
    Para que possamos falar abertamente de dor e alegria
    Para poder passar a informação que unirá a todos

    Sejamos rudes e ásperos com aqueles que praticam encantos perversos com a espada e a pedra.
    A luta não termina mesmo depois de ganha.
    E quando um filho/a nasce neste mundo, não tem o conceito do tom de pele, nem do tempo em que está vivendo.

    Enquanto aqui estivermos, queremos mudança”.

    Um ótimo Dia dos Pais a todos.

    PS: hoje, aqui na Inglaterra, não é Dia dos Pais, que assim como a data do dia das mães não coincide com as datas no Brasil.

    Nossos filhos nascem sem saber sobre os problemas e a violência em nosso mundo.
    Que optemos por um futuro sem armas, sem a violência do mundo armado que vemos, todos os dias, nos olhos das crianças, como as do Senegal e de outros países em guerra, em conflito.

    Estou participando de treinamento em que participam 3 pais de família refugiados da guerra do Senegal. Negros da cor do carvão, a convivência traz-lhes ás vezes um sorriso, que vou te contar, ultra difícil ver tanta luz assim nas faces caucasianas deste lugar.

    Clareza, e firmeza no pensamento, acima de tudo!
    Isso sim.
    É possível outra realidade. Há um futuro que possamos escolher.

  3. Ai, ai, corny, corny, corny.
    Quando cresceremos de fato? Quando deixaremos de festejar dia de São Jorge, São Sebastião, dia de Todos os Santos! Ninguém precisa ser corny para ser afetuoso. É muito festejo, muita homenagem, muita hipocrisia.
    Gente, há gente, especialmemente crianças que não tem pão nem educação nem um tostão para matar a fome.
    Da vontade de fugir para a Suécia.

    • Fugir? É ruim hein! Tem cada festa maravilhosa! Conte outra:

      “Entre os bichos da floresta, espalhou-se a notícia de que haveria uma festa no Céu.
      Porém, só foram convidados os animais que voam.
      Um sapo muito malandro, que vivia no brejo,ficou teve vontade de participar do evento. Resolveu que iria de qualquer jeito, e saiu espalhando que também fora convidado.

      O sapo pulou a janela da casa do urubu e escondeu-se dentro viola dele.
      Chegada a hora da festa,o urubu pegou a sua viola, amarrou-a em seu pescoço e voôu em direção ao céu….
      Durante festa o sapo zombou dos que nao acreditaram nele,
      – ‘Cabra-macho não bebe água, masca fumo e engole a baba’.

      Na volta, o urubu descobriu o sapo escondido dentro viola.
      O Urubu achou o sapo muito folgado e, além do mais, havia contado muito papo na festa. O fez de bobo.
      – Merece um castigo – concluiu o Urubu. – Vou te jogar lá embaixo .
      – Cê tá louco?! – berrou o sapo, escancarando o bocão.

      O Urubu,decidido:
      – Pode escolher: quer cair no chão ou na água? O sapo desconfiou da proposta:
      – Ele vai me pirraçar. Boca de mel, coração de fel. Vai me jogar onde eu não escolher. Para quem está se afogando, jacaré é tronco. Cachorro mordido de cobra tem medo até de lingüiça.

      Então, o sapo querendo ser mais esperto que o Urubu, foi logo dizendo:
      – Me joga no chão mesmo.
      Urubu ficou surpreso com o pedido. Este sapo deve ter pirado.
      – Tem certeza que isso mesmo que você quer?
      – Claro, o destino não é uma questão de sorte, é uma questão de escolha.

      E, naquelas alturas, o urubu emborcou a viola. O sapo despencou-se para baixo, zunindo e rezando.
      – Coác! Arreda pedras!

      E as pedras não arredaram. O sapo então concluiu antes de esborrachar nelas:
      – A esperança é um urubu pintado de verde.
      Bateu em cima das pedras como um tomate maduro. Ficou em pedaços.

      Conta-se, lá pras bandas do brejo, que Nossa Senhora, com pena do infeliz sapo, juntou todos os pedaços do seu corpo esparramado nas pedras e o sapo viveu de novo.
      Aprendeu uma sábia lição: Nosso verdadeiro inimigo está em nós mesmos”.

  4. Amo ler ARS – crônicas e poesias.
    O tempo voa. Os filhos crescem e os pais vão ficando mais velhos e se surpreendendo e entendendo que estão ficando órfãos dos danadinhos. Muitos pais, se referindo aos filhos, ainda dizem: “meus meninos”. Melhor mesmo é desfrutarmos melhor os momentos em que eles estão com a gente.

  5. Um abraço aos pais que passaram pela maior dor que pode acontecer a um ser humano: a dor da perda de um filho, como o Hélio Fernandes e Carlos Newton. Ainda resta a Esperança de um dia tê-lo a seu lado.
    Parabéns a todos os pais autores e comentarista da TI.

  6. DIA DOS PAIS, em Brasília:

    “Homem rouba carro, faz família refém e causa acidente com duas mortes no DF.

    Saidão de Dia dos Pais – De acordo com a Polícia Militar, o homem detido em flagrante após o assalto estava preso no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) até esta sexta (9), mas foi liberado no Saidão do Dia dos Pais. Com a recaptura, ele deve perder o direito ao benefício!

    Em 2016, ele foi preso por participar de uma quadrilha que ficou conhecida como “gangue do relógio”, por roubar objetos de luxo em áreas nobres de Brasília.”

    https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2018/08/11/ladrao-de-carro-causa-acidente-com-dois-mortos-apos-fazer-familia-refem-no-df.ghtml

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