O assombrao com medo do espelho

Carlos Chagas

Milton Campos era governador de Minas e seu governo passava por dura crise. Nada dava certo e os jornais batiam firme, todos os dias. Um daqueles aspones precoces sugeriu que o palcio da Liberdade desencadeasse intensa campanha publicitria, dando dinheiro para a mdia. Talvez estivesse nesse detalhe a m vontade dos dirios, mas o dr. Milton negou-se e concluiu: Este meu governo anda mesmo to ruim que at eu tenho vontade de falar mal dele…

Pois . O tempo passou, o presidente Lula refere-se ao seu governo como o melhor desde a proclamao da Repblica, mas, ironicamente, no perde oportunidade para falar mal dele.

A ltima vez foi sexta-feira passada, em Porto Alegre. Declarou que o Brasil foi construdo para no funcionar, que a fiscalizao excessiva, que a mquina de fiscalizar mais eficiente do que a mquina de execuo e completou lembrando o fato de um auditor do Tribunal de Contas que paralisa a construo de uma estrada ganhar trs vezes mais do que um engenheiro do Dnit encarregado de constru-la.

Com todo o respeito, mas quem o chefe do Poder Executivo? Ainda agora est para ser nomeado mais um ministro do TCU, e quem vai indic-lo? Se as obras no andam, ou so paralisadas logo depois de iniciadas, seria bom perguntar porque. Afinal, quem nomeia o diretor do Dnit e o prprio ministro dos Transportes?

Faz pouco o presidente queixou-se do Ibama, que estaria entravando as obras de duas hidreltricas na Amaznia por conta de alguns coelhinhos ou sapinhos. Tambm falou mal do Ministrio Pblico, pelos mesmos motivos. Mas est para nomear hoje, se no nomeou ontem, o novo Procurador Geral da Repblica. Como so de sua escolha o presidente do Ibama e o ministro do Meio Ambiente.

Quer dizer: o Lula critica o governo que no executa, s que o governo dele mesmo, a quem em ltima instncia cabe providenciar a execuo. Parece aquela histria do assombrao que caiu desmaiado de medo depois de olhar no espelho…

O retrato da nao

A sorte do Senado, ou dos senadores, que a atual onda de escndalos apareceu este ano. Fosse no ano que vem e possivelmente poucos, dos dois teros da casa, se reelegeriam. Como a renovao s acontecer em outubro de 2010, Suas Excelncias podem dormir tranqilos. Em um ano e trs meses o eleitorado esquece tudo.

Mesmo assim, h controvrsias. Os suplentes em exerccio, por exemplo, marcham para o cadafalso. At velhas lideranas correm risco de no voltar.

A pergunta que se faz se o novo Senado ser melhor ou pior. E a resposta pode ser amarga, mas verdadeira: ser igualzinho. Porque o Senado, como o Congresso, o retrato da nao. O que acontece nos seus limites o que acontece na sociedade, sem tirar nem por. Jeitinhos, benesses, favores e nepotismo esto incrustados nas empresas privadas tanto quanto no servio pblico, fora as excees de sempre, l e c.

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