“O Erro de Descartes” e o acerto do filósofo budista Nagarjuna

Imagem relacionadaAntonio Rocha

“O Erro de Descartes” é o título de um livro que fez sucesso em todo o mundo. É um trabalho muito importante do neurobiólogo António Damaso, português radicado nos EUA, foi publicado aqui no Brasil pela Companhia das Letras, em 1996. O autor desafia os dualismos tradicionais que o Ocidente inventou: mente/corpo, razão/emoção, (esquerda/direita, acrescento eu), oferecendo uma visão científica e integrada do homem.

Quanto ao acerto de Nagarjuna, trata-se de um dos mais importantes monges e filósofos budistas de todos os tempos.

CONCEITO DO SER – Vejamos o que diz Daisaku Ikeda, conceituado filósofo budista japonês da atualidade:

“Atualmente, filósofos ocidentais estão começando a sentir grande interesse pelo pensamento budista e pela filosofia de Nagarjuna, em particular. Numerosas razões poderiam ser citadas para explicar esse fenômeno de alta significação. Entre elas está o fato de que Nagarjuna, embora tivesse vivido mais de 1000 (mil) anos antes de Descartes, já lançara um ataque devastador contra a preocupação excessiva com o conceito de ser (eu), conceito este tão fundamental na Filosofia Ocidental. Não é de admirar, portanto, que os filósofos do Ocidente, ao conhecerem agora a natureza das realizações de Nagarjuna, mostrem-se ansiosos para lhe compreender melhor as ideias”.

EM OXFORD – Entre seus verbetes, o “Dicionário Oxford de Filosofia” cita parte da biografia de Nagarjuna, incluindo-o, portanto, no rol dos grandes pensadores da humanidade.

Com todo o respeito à memória de Descartes e à sua célebre frase (“Penso, logo existo”), o filósofo francês concebia o ato de pensar separado do corpo, estabelecendo um abismo entre mente e corpo.

É bom ver a Ciência contemporânea corroborando milenares preceitos do budismo e, em especial, do filósofo Nagarjuna. Desde o século VI antes de Cristo, outro pensador, Sidarta Gautama, o Buda, afirmava que tudo está interligado: pessoas, fatos, situações, coisas etc.

IKEDA E ATHAYDE – O citado professor Daisaku Ikeda, consagrado escritor japonês, é membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.

E o famoso escritor e jornalista Austregésilo de Athayde, que foi presidente da ABL, era membro da organização budista leiga Soka Gakkai, cujo presidente internacional é o nipônico Ikeda que já recebeu o título de Doutor Honoris Causa em diversas universidades e faculdades do Brasil e exterior.

29 thoughts on ““O Erro de Descartes” e o acerto do filósofo budista Nagarjuna

  1. A História só registra a lembrança daqueles que revelaram a verdade dos fatos e anteciparam o futuro.

    Vivemos uma era de milhões de opiniões principalmente por causa da internet e todos acham que sabem a verdade.

    Veja todas as opiniões de todos os lados. Verifique sempre o que tem a ver com a realidade.
    Certo tipo de conhecimento sempre será para minoria e demanda tempo para se atingir.

    Não se contente com pouco. Procure sempre mais.

  2. Pelo bom Artigo do Prof. ANTONIO ROCHA, aprendemos que DESCARTES, racionalista e Pai da Filosofia Ocidental contemporânea, alicercou sua Ciência no SER, gerando Individualismo que é tão bom pelo máximo grau de Liberdade que proporciona.

    Já o Filósofo Budista NAGARJUNA, dois milênios e pouco antes de DESCARTES, desenvolveu sua Filosofia, mais baseada no Nós, na Comunidade, o que restringe um tanto a Liberdade Individual.

    Abração.

  3. Um pequeno detalhe de um desinteressado em filosofia e religião: Descartes publicou o
    Discours de la méthode em 1637. Alguns anos antes, em 1633, Galileu estava sendo processado pela santa madre igreja por ter defendido o heliocentrismo. Como foi provado posteriormente, Galileu estava certo. E mais uma vez a igreja de Deus e de Cristo errou redondamente!
    Descartes pretendia publicar um tratado (Traité du monde et de la lumière) em que defendia igualmente o heliocentrismo. Consta que ele aguardou o resultado do processo de Galileu para publicar sua obra, a fim de não sofrer o tratamento desumado por parte da igreja.
    Finalmente, resolveu publicar o tratado de outra forma em que abordava seus estudos sobre a luz, a geometria, astronomia. Nesse estudo, o Discours de la méthode foi apresentado apenas como um prefácio e se tornou o best seller que conhecemos.
    Viva a Ciência, viva o bom senso, viva a liberdade, viva a vida! Abaixo as superstições tolas de desocupados e oportunistas!

    • 1) Meu prezadíssimo Sábio de Toga: concordo com o primeiro comentário.

      2) E com o segundo também…

      3) Viva as Filosofias e os filósofos.

      4) Sabe aquele cinema antigo que tinha na Estrada da Água Branca, em Realengo? Eu era frequentador assíduo,

      5) Tudo de bom !

  4. O pensamento budista e filosófico do passado não se enquadrariam nos tempos atuais, em se tratando de entenderem o ser humano dito moderno.

    Damaso, respeitosamente, errou e feio quando abordou as dualidades existentes no ser humano como problemas.
    Da mesma forma, o autor da afirmação de que “o filósofo francês concebia o ato de pensar separado do corpo, estabelecendo um abismo entre mente e corpo.”!

    Uma frase por demais infantil, primária, que não pode fazer jus à filosofia ou de quem quer seja!

    O pensamento não anda sozinho pelas ruas, tampouco usa chapéu, bengala ou terno.

    O corpo não anda sem ideias, sem planos, sem um objetivo, determinado pela mente.

    Logo, a questão seria muitíssimo melhor definida se o comentário fosse baseado no equilíbrio que deve haver entre mente e corpo, jamais a sua separação porque absolutamente inexistente, impossível!

    Descartes foi claro em dizer no seu Discurso do Método, que havia como se atingir o conhecimento de maneira científica, então a sua máxima, “Penso, logo existo”.

    O ser humano deve pensar, raciocinar, experimentar, buscar conhecimentos. No entanto, sem que ele tenha uma forma de ir ao encontro do que deseja, dificilmente atingirá seus objetivos, de saber mais do que aquilo que lhe ensinaram e imagina!

    Existem vários exemplos que contradizem essa afirmação postada pelo professor Rocha, quanto ao erro clamoroso que Damaso publicou.

    Stefen Hawking, por exemplo, derruba qualquer argumento quanto a corpo são em mente sã, e qualquer afirmação no sentido de o pensamento ser fora do corpo, como disse Damaso sobre Descartes.

    O mais grave, é que este artigo onde o Rocha posta pensamentos budistas e filosóficos, deixa de lado justamente os problemas que a mente ocasiona no ser humano quando desarranja, ou seja, quando esquizofrênica, paranoica, traumas emocionais …

    E, exatamente quem padece é o corpo, pois a mente o limita, entra em conflito, abula a vontade, impede o corpo de reagir.

    Aliás, nesse aspecto, por favor, basta perguntar para quem já teve depressão, que esta pessoa responderá que é a vida se esvaindo pelos dedos, e sem qualquer reação.

    Como que, então, Descartes estaria errado?!

    O francês não ensinou a pensar, pois o pensamento evidentemente sempre esteve junto ao corpo do homem, mas quis dar-lhe uma forma de pensar melhor, justamente através de métodos que ele percebia ser os adequados para se atingir os conhecimentos até então for da realidade humana, porém existiam e deveriam fazer parte da vida de cada um de nós.

    Vejo com muitas reservas o pensamento budista em certos momentos.

    Monges, pessoas afastadas da vida social, morando sozinhos, apenas contemplando a natureza e as paredes onde se encontram, distantes de um matrimônio, de serem pais, de precisarem se sustentar mediante um trabalho, os pensamentos fluem fáceis, porém não encontram verossimilhança entre a tese e a prática, entre o pensamento e a realidade.

    Aplaudo o artigo, pois ocasiona debates, exige que pensemos, pede que postemos nossas interpretações sobre a vida, a respeito da importância do pensamento, pois paradoxalmente independentes, físico e mente, mas atrelados um ao outro inexoravelmente!

    • Seu Francisco, a mente é física, é parte do corpo. Se pensamos diferentemente ou temos diferentes capacidades é por causa de interligações especiais dos neurônios, nossos nervos e músculos. Tudo é matéria e energia. Como dizia o Santo Lula: só o poder, a gula e o sexo satisfazem.
      (sarcasm, please)

      • Tosen,

        Pensamos igual!

        Apenas discordo que os filósofos ensinavam mediante a separação da mente com o corpo, algo impossível e inviável!

        A mente é o corpo estão atrelados umbilicalmente um ao outro, pois se o cérebro nos faz viajar no tempo ou pelas lembranças ou imaginação, o corpo permanece onde está.

        O equilíbrio sobre o que pensa a nossa mente sobre a irrealidade, a fantasia, a ilusão, a onipotência, contrasta demasiadamente com a limitação corpórea, até mesmo se capaz ou não, esse ser humano conseguirá parte do que almeja ou simplesmente nada!

        Abraço.

  5. Bendl vc como sempre brilhante.
    E apenas para o debate, trago que é uma insistência desnecessária dizer que existe “filosofia oriental”.
    A filosofia é grega de origem!
    Filosofar significa na essencia buscar o filos….o saber.
    E isso iniciou com os gregos 600 a.C.
    O que os moveu foi o Pathos….o Taumazem…o espanto com o cosmus noetos.
    A primeira tentativa de explicar se deu via narrativa….mito.
    Depois atraves doa sofistas…pré socraticos, Sócrates Platão, Aristóteles e os que os sucederam.
    A visão oriental é muito mais impregnada de misticismo que a filosofia.

    • 1) Obrigado Melhores Bofes (permita-me escrever assim)…

      2) Vc está certo: “A visão oriental é muito mais impregnada de misticismo …”

      3) Mas o que eu gosto, é que este misticismo está sendo estudando academicamente em grandes universidades da Europa, EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia … e aos poucos vãi chegando ao Brasil.

      4) Abração !

  6. Maus Bofes,

    Obrigado pelo comentário.

    Mas, na razão direta que a filosofia nos ensina e obriga a pensar, afirmações que se fragmentam diante de uma primeira e simples discordância não podem ser levadas a sério.

    Ora, desde quando que Descartes ou outros filósofos da Renascença e depois com o Iluminismo, pregaram o jeito de a mente ser dissociada do corpo?!

    Não só é impossível quanto uma declaração pueril, que não deve ser levada em conta.

    A ordem natural é a manutenção do equilíbrio entre o ser e o ter ou que se pode e o que não se pode fazer!

    De modo a se chegar a conclusões lógicas, os métodos para pensar e atingir os objetivos.

    Ora, a turma dos filósofos empiristas, Berkeley, Locke, Hobbes, Hume .. . Aristóteles, empiristas, eram contrários aos racionalistas.

    O filósofo John Locke (1632 – 1704) afirmava que “não há nada no intelecto humano que não tenha existido antes na experiência”.

    O empirismo discordava da tese racionalista de que as idéias eram inatas e defendiam que a mente humana é, em seu nascimento, um papel em branco sem qualquer ideia.

    A prova incontestável dessa afirmação reside no fato de a Humanidade ter sobrevivido até hoje graças aos ensinamentos dos mais velhos aos mais moços, de como sobreviver, caçar, encontrar água e se protegerem das feras e do clima!

    A maioria absoluta dos motoristas de caminhão aprendeu com seus pais, tios ou vizinhos.
    Mesmo que lhes falte a devida técnica, que evitaria muitos acidentes, FOI A EXPERIÊNCIA de seus próximos quem lhes ensinou, pois não nasceram sabendo, lógico!

    Abraços.

    • Caros Bendl e Rocha … não é de Descartes essa situação de mente-corpo … é coisa bem antiga – lá da Grécia kkk KKK kkk

      Quando Paulo foi evangelizar na Helena pátria … primeiro tomou cuidado para que não acontecesse com ele o mesmo que houve com Sócrates – ser acusado de impiedade contra os deuses gregos … e foi logo avisando que vinha pregar sobre o Deus Desconhecido, que tinha estátua em Atenas.

      “Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um Deus desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!” (At 17,23)

      • E foi explicando a Doutrina Cristã até que tocou na RESSURREIÇÃO … “Quando o ouviram falar de ressurreição dos mortos, uns zombavam e outros diziam: A respeito disso te ouviremos outra vez”. (At 17,32)

        É que os antigos gregos eram pela reencarnação; conforme nosso editor CN tem nos mostrado!!!

        Com os judeus também … “Paulo sabia que uma parte do Sinédrio era de saduceus e a outra de fariseus e disse em alta voz.: Irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus. Por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos é que sou julgado”. (At 23,6)

        Abraços!!!

  7. Grato Antonio Rocha…..e o “Maus Bofes” começou a um bom tempo…. Face a discordar do simplismo enganador do Leonardo Boff….que as vezes aparece por aqui.
    Mas até que é bom!
    Suscita a controvérsia. Sem problemas!
    E Bendl…exatamente. ..a Tabula Rasa.
    Forte abraço a todos.
    Discussão filosófica boa hj.

  8. Prezado Antonio Rocha … desculpas pela hora kkk KKK kkk

    Em seu livro “A História da Física”, a autora Anne Rooney conta, à página 55, como Descartes bolou o sistema de coordenadas cartesianas.

    Deitado na cama, Descartes observou que uma mosca voava no canto do quarto … e “percebeu que a posição do inseto podia ser identificada exatamente a qualquer momento, plotando sua distância das duas paredes mais próximas e o chão ou o teto – em outras palavras, suas coordenadas em três dimensões.”

    Um aperto de mão inter-religioso!

    • Vale lembrar que Descartes observou uma mosca voando … observou um deslocamento, né??? que eu chamo de quarta dimensão; metro orbital (m4).

      E observou porque as radiações luminosas que saiam da mosca chegou até seus olhos, certo??? que eu chamo de quinta dimensão; metro radial (m5).

      • Conforme escreveu nosso colega Bortolotto, os escritos de Descartes levam ao Individualismo (as 3 dimensões de cada corpo) … enquanto as dimensões orbitais e radiais levam ao Social-Universal!!!

          • Uma mosca de 0,010 m de largura … 0,020 m de comprimento e 0,005 m de altura mede 0,000.001 m3 de volume corporal (indivíduo) … se voou, enquanto Descartes a observava, por 5 metros de distância (claro que de maneira irregular – porém, formando uma órbita, né???) … temos 0,000.005 m4.

            E se Descartes estava a 5 metros de distância da famosa mosca … temos 0,000.025 m5.

            Não se leva em conta o tempo kkk KKK kkk

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *