O eterno Nelson Rodrigues, imortalizado agora por Fernanda Montenegro

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Foi uma bela iniciativa da atriz Fernanda Montenegro em promover uma série teatral sobre Nelson Rodrigues, que há quatro anos viaja pelo Brasil fazendo leituras de textos de Nelson Rodrigues. As crônicas, que falam de amor, adultério, futebol, juventude e até sobre a tragédia que culminou nas mortes do irmão e do pai do dramaturgo, viraram no programa Fantástico a série “Nelson – Por Ele Mesmo”, na qual a consagrada atriz orienta a interpretação de Otávio Müller em episódios baseados nas crônicas do livro “Nelson Rodrigues – Por Ele Mesmo”, organizado por Sônia Rodrigues, sua filha.

Fantástica também é a obra do dramaturgo, cronista esportivo, teatrólogo e memorialista que saiu do palco da vida em 1980, aos 68 anos, mas continua sendo representado, como destacou a atriz em todos os pontos do país. Pode-se dizer que na maioria dos teatros brasileiros há sempre um Nelson Rodrigues à espera dos espectadores da arte.

FERNANDA À FRENTE – Curiosa a situação inteligente de Fernanda Montenegro: de personagem de Nelson à diretora da reapresentação dos vários nelsons que se encontram caminho a fora. Atriz nelsonrodriguiana em “A Falecida”, Fernanda revive Nelson na seleção de frases e títulos e peças que imortalizam seu autor. Uma viagem no tempo, sem dúvida. Aliás, com o passar do tempo os artistas, não morrem ficam encantados e revivem na emoção dos que admiram sua arte eterna.

Shakespeare não morreu: vive intensamente por mais de quatro séculos. Chaplin não morreu. Orson Welles também não. Nelson Rodrigues, no mesmo elenco. Não existe língua nenhuma na qual Shakespeare não tenha sido apresentado e representado. Uma diferença entre Shakespeare e Nelson Rodrigues, segundo observação de Carlos Heitor Cony: os personagens de Shakespeare são figuras da nobreza. Os personagens de Nelson Rodrigues são pessoas comuns que oscilam na variação de situações imprevistas.

VESTIDO DE NOIVA – Mas eu citei Orson Welles. Porque, numa coincidência, a grande obra de Welles, “Cidadão Kane” é do mesmo ano, 1942, do que “O Vestido de Noiva”, sucesso absoluto no Rio com a direção magistral de Ziembinski. Os planos de uma história e outra mexem com a memória, equilibram-se em planos diversos e se projetam no interior da mente humana.

Só os profetas enxergam o óbvio e toda unanimidade é burra. São frases preferidas de Nelson Rodrigues e com elas navegou no mar da existência. Marcado por tragédias familiares, como o assassinato de seu irmão Roberto, Nelson tornou-se vítima do drama e o projetou ao longo de sua obra. Fernanda Montenegro relembrou frases suas e por elas vai caminhar iluminando as noites de domingo.

Nelson Rodrigues também iluminou espaços da vida e da arte. Por exemplo, a peça “Anjo Negro”, que estreou no teatro Municipal, enfrentou reações raciais. Não queriam um negro no palco sagrado. Desejavam um homem branco pintado de negro, exemplo de como se apresentou o cantor All Johnson. Nelson manteve o ator negro no papel principal.

TUMULTO NO MUNICIPAL – A peça “Perdoa-me por me traíres”, em 1956. teve sua estréia conflagrada, também no Municipal.

As reações colidiram e, me lembro bem, o vereador Wilson Leite Passos sacou o revólver. Não disparou, mas intimidou. Mais tarde, nas suas memórias, Nelson Rodrigues destacou que fora o único teatrólogo a ter uma peça assassinada. Claro, foi uma frase de humor, mas que deve ficar para sempre, como a sua obra.

“À Sombra das Chuteiras Imortais”: com esta coluna, era o cronista esportivo. Em “A Vida Como Ela É”, era o autor das tramas do cotidiano. “Nas Confissões”, em O Globo, consagrou-se como memorialista. O memorialista surgiu de uma contradição.

DECEPÇÃO COM O GLOBO – Autor de “O Casamento”, romance interditado pelo ministro da Justiça, Carlos Medeiros, foi surpreendido com um tópico de primeira página de O Globo apoiando a interdição. Desgostoso, pensou em escrever para o Correio da Manhã. A sugestão foi minha. E Nelson partiu para “As Memórias’. Duraram pouco, como o Correio da Manhã na época.

Por insistência de Roberto Marinho, Nelson ampliou sua presença em O Globo. Além da coluna esportiva e “Da Vida Como Ela É”, o artista tornou-se uma presença fixa e tripla no jornal que permanece até hoje como um dos mais importantes do país. “As Memórias” e “As Confissões”, as peças de teatro e os filmes baseados em obras suas ficam permanentemente na emoção e na consciência.

Da consciência dos que vivem hoje e na emoção dos que vierem ao longo do tempo depois de nós. E Fernanda Montenegro, imortalizando Nelson, imortalizou a si própria.

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