O mundo mudou e eles no perceberam

Carlos Chagas

A guerra continua e sem sinal de armistcio. Ponto para o presidente Lula, reavivando o nacionalismo depois de dcadas de neoliberalismo? A coincidncia de que o anncio do marco regulatrio do pr-sal e outras providncias adotadas pelo governo surgem quando o modelo da prevalncia do mercado na economia foi para as profundezas. Certas elites tentam ressuscit-lo acusando o presidente Lula de delrio estatizante, sem perceberem que o mundo mudou, a partir da crise econmica eclodida ano passado. Ao neoliberalismo faltam condies para sustentar a volta ao passado, no obstante o esforo de suas bancadas no Congresso e de seus editorialistas, nos jornales.

Vale a utilizao de todo o tipo de armas e a aplicao de golpes abaixo da linha da cintura, como a sbita adeso dos neoliberais causa ecolgica. De repente, descobrem que a extrao do petrleo no pr-sal agride o meio ambiente, com o qual jamais se preocuparam. At porque, o efeito ser o mesmo, se as operaes forem comandadas pela Petrobrs ou pelas multinacionais.

Resta saber se o presidente Lula ter a fora necessria para resistir e avanar, j que desde sua posse cedeu vasto terreno aos cultores do mercado ilimitado, agora comprovadamente malfico para o planeta. Basta verificar o comportamento das grandes naes, a comear pelos Estados Unidos, onde Barack Obama vem impondo a presena do estado at para salvar da falncia a indstria e o sistema bancrio.

Eleio no paralisao

Certos exageros so, acima de tudo, burros. o caso da nova lei eleitoral aprovada no Senado, que probe no apenas am criao, mas at a expanso de obras sociais em anos de eleio. O texto coloca algemas nos governos federal, estaduais e municipais, impedindo que o presidente da Repblica, os governadores e os prefeitos implantem programas de auxlio populao mais pobre ou, pior ainda, ampliem aqueles j em andamento. O pretexto de que tais iniciativas seriam eleitoreiras, favorecendo candidatos ligados aos governantes em exerccio.

Quem sai prejudicado com a limitao? O povo, ao qual se dedicam as obras sociais. A partir da sano da nova lei pelo presidente da Repblica o pas estar paralisado durante todo o ano de 2010, importando menos se atender aos mais carentes beneficiar ou no a candidatura de Dilma Rousseff. Acresce que pelo texto aprovado a chefe da Casa Civil estar proibida de comparecer a quaisquer inauguraes de obras do governo, sociais ou no. Mesmo para aqueles que no acreditam nas possibilidades da candidata, trata-se de uma violncia. E com a ironia de que o PT votou com as oposies, em favor das restries…

Deciso delicada

Apesar do sigilo em que o processo se desenvolve, parece certo o lanamento da candidatura de Antnio Palocci ao governo de So Paulo. Trata-se de uma deciso do prprio presidente Lula, depois de ter ficado clara a disposio do deputado Ciro Gomes de no disputar o palcio dos Bandeirantes, mas a presidncia da Repblica. Nem ao menos ele transferir seu ttulo eleitoral para So Paulo.

H algo de estranho no arraial dos companheiros porque Palocci, apesar de fundador do partido, no propriamente venerado e sequer conhecido nas massas. Est muito mais para candidato das elites empresariais, dada sua performance anterior como ministro da Fazenda. Marta Suplicy acomodou-se e pleitear uma cadeira na Cmara dos Deputados, devendo Alosio Mercadante disputar perigosamente a reeleio para o Senado.

S uma coisa no d para entender. Apesar de suas traquinagens, como entoar canes ao microfone do plenrio do Senado ou dar carto vermelho da tribuna, para Sarney e outros senadores, a verdade que Eduardo Suplicy elegeu-se em 2006 com onze milhes e tanto de votos. Queiram ou no os dirigentes do PT, o perfil que melhor se adapta para disputar o governo de So Paulo, intimamente ligado s bases do partido. Por que nem cogitam dele? No ser pelas excentricidades, mas pelo fato de que costuma questionar decises do prprio Lula. No confivel. Mas por conta disso os companheiros podero perder a eleio para Geraldo Alckmin ou outro tucano.

O problema no deles

A cada dia que passa mais aumentam a criminalidade, a violncia e a audcia desse monte de animais que povoam o pas. Crimes hediondos so praticados em intensidade crescente nos grandes centros e no interior. Da pedofilia ao latrocnio, dos seqestros ao trfico de drogas, tem-se a impresso de serem os bandidos a governar.

Ao Executivo fica a funo incua de aumentar contingentes policiais, melhorar o equipamento e o aparato de segurana. No adianta nada, ou adianta muito pouco.

Como o Judicirio mostra-se leniente diante da bandagem, soltando amanh aqueles que a polcia prendeu ontem, alis em nmero insuficiente, restaria apelar para o Legislativo. Falta um conjunto de leis drsticas, daquelas capazes de deixar atrs das grades quantos no podem permanecer em liberdade. Jamais a pena de morte, mas por que no a priso perptua e a supresso de centenas de benefcios cuja aplicao a intranquilidade sempre maior do cidado comum. Por que no a criao de colnias agrcolas no meio da floresta, daquelas at sem necessidade de muros e cercas de arame farpado, pela impossibilidade de fuga?

Fala-se retoricamente que s a educao desatar o n da intranqilidade, mas essa ser uma soluo de longo prazo, quando o Brasil defronta-se com a necessidade imediata de uma reao. Que tal imitar Felipe, o Belo, que depois de anos sem os cardeais escolherem o novo Papa, encerrou todos numa capela sem teto e sem janelas, expostos ao sol, chuva e fome, para que se decidissem? Em poucas semanas Suas Eminncias cumpriram o seu dever, nomeando um deles para chefiar a Igreja. Bem que deputados e senadores, na mesma situao, logo providenciariam as leis necessrias ao bem estar de todos ns. O diabo que em vez de Felipe, o Belo, temos Luiz Incio, o barbudo…

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