O risco das explosões inusitadas

Carlos Chagas

A crise no Senado, ainda inconclusa, ofuscou grave  episódio acontecido no período e que deixa boa parte de observadores e até  de  líderes partidários de cabelo em pé.  Ou, se quiserem, de pé atrás.

Tratou-se da explosão da ministra Dilma Rousseff numa reunião com empresários,  técnicos do ministério da Integração Nacional e  até o  governador de Pernambuco.  Fosse um entrevero daqueles tão comuns verificados à sombra de qualquer  governo e ainda se compreenderia, dado o conhecido temperamento da personagem. Mas ela   é mais do que a  chefe da Casa Civil. É a candidata sagrada e consagrada pelo presidente Lula para concorrer à sua sucessão.

Pelo que se apurou,  Dilma Rousseff exasperou-se diante do secretário-executivo do ministério, Luís Antônio Eira. Aos gritos, com grosseria, irritada pelo novo cronograma da ferrovia do Nordeste, que não será mais concluída em 2010,  disse que só por cima de seu cadáver haverá desembolso do Fundo de Desenvolvimento gerido no palácio do Planalto.

Dona Dilma pode até estar certa na decisão, mas perdeu a tempera e perdeu-se na reação. Imagine-se como se comportará no exercício da presidência da República diante  de mil e um episódios similares ou  muito mais graves. A sede do governo seria transformada num convento  de freiras da Idade Média,  onde a Madre Superiora detinha o poder absoluto sobre o bem e o mal? Num reformatório para jovens transviados? Ou numa penitenciária onde se entra para a submissão completa diante do diretor?

Há muito eram conhecidas as virulências verbais da então ministra das Minas e Energia e, depois,  chefe da Casa Civil. Muita gente, na planície aqui em baixo, até aplaude esse tipo de comportamento.  O diabo está no risco de a moda ser praticada pela expressão maior da governabilidade nacional. Será no mínimo  singular exemplo para a nação que lhe caberá conduzir. Porque o secretário-executivo do ministério da Integração Nacional demitiu-se, agastado e espantado com a agressão. Mas o povo brasileiro não poderá fazer o mesmo.

Ele viaja, a crise fica

O presidente Lula chegou da Líbia na noite de quarta-feira.   Hoje,  viaja de novo, agora para Paris. Nas duas oportunidades, como nas outras anteriores, nos últimos sete anos e meio, teve motivos para ausentar-se: uma reunião com os governantes dos países da África, o recebimento de um prêmio internacional da Unesco.

No tempo das viagens  de José Sarney ao exterior, quando  na presidência da República, o então senador   Fernando Henrique saiu-se com proverbial diagnóstico, ao ser   perguntado sobre a crise daqueles idos: “a crise viajou…”

Agora é o contrário, singularmente também envolvendo José Sarney, porque o presidente da República viaja e deixa a crise para trás. Talvez por isso o Lula se ausente tanto…

Ou saem todos ou nenhum

Precisa ser pautada ao menos  pela lógica essa  lambança que envolve o Senado.  Porque se foi e continua sendo exigida a licença ou a renúncia de José Sarney da presidência da casa, não dá entender como ele sairia e os demais membros da mesa permaneceriam. Não se chega ao exagero do presidente Lula, para quem a ascensão do primeiro vice-presidente,  Marconi Perilo, equivaleria a uma vitória no tapetão. A sucessão dos titulares pelos reservas é universalmente aceita, como no caso de  Trumann haver ocupado a Casa Branca depois da morte de  Roosevelt, ou do próprio Sarney ter assumido  o palácio do Planalto no lugar de Tancredo.

Mesmo assim, na crise do Senado, não há como imagina que  se o atual presidente   deixasse   o cargo por conta de acusações de atos  praticados na casa  ao longo dos últimos anos, seu gesto não fosse  obrigatoriamente  seguido pelos demais membros da mesa.  Não apenas Marconi Perilo, mas até o Mão Santa, passando por Heráclito Fortes e os demais não poderiam ficar.  Ou estariam bancando o Tiradentes com o pescoço do Sarney.

Endoidou

Conseguiu a colunista Eliane Cantanhede ouvir o ex-ministro Mangabeira Unger em Nova York, para onde se mandou depois de haver pedido demissão do ministério do Planejamento Estratégico.

Ou o homem endoidou ou falaram línguas conflitantes. Porque na carta em que se exonerou,  dirigida ao presidente Lula, Mangabeira alegou como motivo  a necessidade de sustentar o estudo dos filhos, viabilizado apenas por sua continuação como professor na universidade de Harvard, que lhe negou extensão da licença.

Pois agora o histriônico filósofo declara-se disposto a retornar ao Brasil para candidatar-se à presidência da República, disputando o lugar com a ministra Dilma Rousseff.

Como cidadão americano e brasileiro Mangabeira Unger conseguiu iludir o dr. Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Ciro Gomes e, por fim, Luiz Inácio da Silva. Em seqüência, entusiasmou todos eles com seus diagnósticos sobre a realidade nacional, ainda que em seguida os tenha desiludido. Agora, pensa em fazer o mesmo com o eleitorado. Respeitosamente, deveria ser  conduzido a um hospital psiquiátrico, caso desembarcasse no Brasil.

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