Oscar Niemeyer: 102 anos, sem festa e muito trabalho

Que existência, que vida, que resistência, que talento, sem exibicionismo ou espetaculosidade. Há quase 60 anos, almoçávamos várias vezes por semana. No Lucas, um restaurante caseiro da Avenida Atlântica.

Ele tinha escritório na rua Joaquim Silva, na Lapa, (que era o centro do Rio, como voltou a ser, agora para os mais jovens) o Partido Comunista estava na “legalidade”, o arquiteto deu o escritório para Luiz Carlos Prestes, foi morar e trabalhar na Avenida Atlântica. Ele e o repórter, mais os arquitetos que trabalhavam com Oscar, Helio Bolonha, Gauss Maria Estelita, assíduos.

Foi preso, não se submeteu aos carcereiros, quando perguntaram se ele era comunista, disse mais do que um palavrão, uma frase inteira que não recebeu represália porque os torturadores respeitam os que reagem.

Há anos, um dos jornalistas mais presos e perseguidos pela ditadura, diretor da revista “Justiça & Cidadania”, criou uma estatueta identificada como “Don Quixote”. Só recebia a premiação, quem tivesse realmente serviços prestados à coletividade. Nossa Senhora, precisaria um blog inteiro para citar metade dos que têm essa estatueta, que além do mais é belíssima.

Em 2007, Orpheu Salles, resolveu entregar um “Dom Quixote” ao grande arquiteto. E me pediu para fazer a saudação, sempre acontece isso. Foi no enorme salão do Tribunal de Justiça, lotado.

Conhecendo Oscar há tanto tempo, pensei que nada me surpreendesse. Errei, dois fatos incríveis. Niemeyer, fazendo 100 anos, falou 23 minutos de relógio, sem um pausa nem para beber água. E contou na íntegra, com todos os palavrões, o que acontecera com sua prisão. Depois do próprio Oscar, defendi que ninguém mais devia falar, fui obrigado.

O outro fato: Niemeyer foi “saudado” por um advogado famoso, com escritórios no Brasil todo, ideologicamente de extrema direita. Nunca soube como esse causídico tão reacionário pudesse sequer conhecer um stalinista histórico como Niemeyer.

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