Conversa com leitor-comentarista sobre o golpista Golbery, suas relações e brigas com Lacerda

CSG: “Jornalista, o senhor ficou de escrever sobre Golbery, da mesma forma como relatou a carreira do general Geisel. Seria possível? Agradeceria.”

Comentário de Helio Fernandes:
A vida dele é tão movimentada e extravagante, que daria para escrever dias. Foi importantíssimo, mas sempre derrotado, até 1964. Apenas citações esparsas, de vários episódios.

Golpista nato, perdeu três vezes seguidas, sempre aliado, amigo e companheiro de Lacerda. Só foram vitoriosos em 64, brigadíssimos, mas os dois, do mesmo lado. Pelo telefone, no dia 31 de março, Lacerda chegou a dizer ao ainda não “presidente” Castelo Branco: “Se Golbery estiver nesse movimento, eu saio”. Castelo coordenou “uma trégua”, Lacerda fez duas exigências: “Não quero ver esse Golbery nem de longe. E preciso que o senhor mande reforços, o Almirante Aragão avisou pelo rádio, vai assaltar o Guanabara”. Castelo concordou com a primeira, sobre reforços, falou: “Não posso lhe ceder nada, somos dois Exércitos, um de cada lado, equilibradíssimos”.

Lacerda então mandou colocar aqueles caminhões enormes da Comlurb, bloqueando os acessos. Os fuzileiros ultrapassariam tudo, mas o Almirante desistiu.

Golbery foi muito mais importante do que Lacerda. Agia nos bastidores, Lacerda era um perdulário de talento mas não de habilidade. Primeira missão de Golbery: fundar, aparelhar e colocar o SNI em condições de ser a grande arma (de ataque e defesa) do golpe.

MISSÃO: CRIAR E ORGANIZAR O SNI

Golbery tinha quatro “compromissos-missões”, só um golpista blandicioso como ele, aceitaria. O ano todo de 64 (9 meses), a organização do SNI, nas bases da CIA e do FBI. Foi uma trabalheira terrível. O início foi gravar quase 3 mil telefones com equipamento de última categoria.

Começou então a primeira: liquidar a candidatura Lacerda a “presidente”. Muitos se enganaram, diziam impensadamente, “Lacerda jogou fora o Poder, rompeu antes do tempo”. Apesar de ligadíssimo aos militares, Lacerda nunca foi candidato deles. Golbery enterrou a “candidatura” Lacerda, mas como bom estrategista, tinha objetivos e não ódios ou inimizades.

Brigado e rompido com Lacerda, respeitava-o e sabia que não adiantava derrotá-lo, era indispensável afastá-lo. Surpreendeu o próprio Castelo, sugerindo: “O senhor precisa convidar o Carlos Lacerda para embaixador na ONU, ele tem todas as condições”.

Castelo se surpreendeu, mas como adorava o “maquiavelismo”, chamou Lacerda e fez o convite.

Era tão evidente, o objetivo estava tão claro, que Lacerda recusou na hora. Nesse dias, às duas e meia da madrugada, o telefone toca na minha casa. Às 8 ou 9 da noite, eu poderia não atender. Mas a essa hora? Quem seria?

Atendi, era o governador, que me disse: “Helio, preciso falar com você, com urgência”. Respondi: “Lacerda, a esta hora? Não sei nem como se entra no teu apartamento”. E ele: “Estou no Guanabara”. O que poderia fazer? Fui.

Contou toda a conversa com Castelo, o que chamou de “preparação” para o fim de tudo, aí textual: “Antes de terminar, me convidou para embaixador na ONU, meu mandato termina daqui a uns meses, não precisaria nem renunciar”.

Interrompendo o governador, que na verdade fizera um pausa, conclui e comentei: “Você aceitou na hora?” Aparentou perplexidade, respondeu com veemência, quase perguntando: “Por que eu deveria aceitar? Deve ser coisa do Golbery para me afastar”. (Vejam como se admiravam, mesmo brigados. Um sempre acreditava na competência, mesmo hostil, do outro).

Mais calmo, perguntou: “Vamos ver por que você acha que eu deveria ter aceito”. (Naquela época era assim, o acordo ortográfico burro, com Portugal, transformou em ACEITADO). Ainda não surgira a Frente Ampla, respondi ao governador: “Você pode estar certo ao acreditar que eles querem te liquidar. Mas quem sabe eles não queiram te afastar, e sim preservar?”

OBJETIVO: LIQUIDAR COSTA E SILVA

Meses depois, Castelo mandou Bilac Pinto como embaixador para a França e Juracy Magalhães para os EUA, eram opções, começava o segundo grande objetivo de Castelo-Golbery: liquidar Costa e Silva. Complementando então, o que se chamou de “prorrogação do mandato de Castelo”.

Na verdade, era a liquidação do Ministro da Guerra Costa e Silva, sucessor natural de Castelo, Só que apesar de estrategistas, eles se iludiam com teorias e malabarismos mentais, ignoravam os fatos. Numa ditadura, o Ministro da Guerra garantia o presidente, mas é obrigatoriamente o seu sucessor.

A prorrogação não foi tão fácil quanto Golbery imaginava, Lacerda fizera um cineminha num subterrâneo de guardados, quase toda noite-madrugada íamos ver filmes e conversar. Numa noite, víamos “Moscou contra 007”, ele falou sobre os embaixadores Bilac Pinto e Juracy Magalhães, estava visivelmente convencido de que deveria ter ido para a ONU. O telefone tocou de Brasília, não comentou.

Falamos então sobre a “prorrogação”, que desagrava até mesmo a muitos militares. (Naturalmente generais). Perguntou como estava a tramitação na Câmara, ele mesmo respondeu: “Vai passar com facilidade, temos que suportar”. Respondi então com fatos e não irrealidades.

Textual: “Governador, o projeto está empacado e empatado na Câmara, muitos deputados estão esperando a tua palavra. Com meia dúzia de telefonemas você derruba essa prorrogação”. Pareceu completamente surpreendido, aproveitei para aprofundar a questão.

“Carlos, você não percebeu que essa prorrogação é a forma encontrada para dinamitar a sua candidatura? Se dessem 5 anos de mandato a Castelo, até seria razoável. Mas todo esse desgaste, balbúrdia e confusão, apenas para mais um ano ao Castelo Branco?”. Senti que havia embalançado Lacerda, ele disse: “Vamos almoçar amanhã e aprofundar a questão”.

No dia seguinte cheguei ao Guanabara quase a 1 hora, encostei meu Fusca (minha mulher ficava furiosa, “um homem como você andando num carro desses”), subi. O governador mandou dizer que estava terminando, fiquei na janela, com uma vista linda. Aí vejo parar um carro, e saltaram Armando Falcão (que fora Ministro da Justiça de Juscelino e seria de Geisel), Abreu Sodré (que mais tarde seria “governador”) e mais importante do que tudo e do que todos, o doutor Julio Mesquita, a maior influência que alguém poderia ter sobre Lacerda.

Imediatamente desci pelo outro lado, peguei meu carro e me dirigi para a saída. Lacerda viu da janela, me conhecia muito bem, gritou para o doutor Marcelo Garcia, que estava ao lado, “não deixa o Helio ir embora”. (Uma explicação: Lacerda me gozava muito, eu só o chamava de você, mas Marcelo Garcia, Chefe da Casa Civil, eu tratava sempre como doutor. Acontece que ele foi o pediatra de todos os meus filhos).

Fui para o jornal, determinei, “se o governador me ligar, pode dizer que não estou”. Só fui falar com ele por volta das 10 da noite. Almoçamos no dia seguinte. E me contou: “Helio, o doutor Julio falou que, se a prorrogação for derrotada, haverá nova reviravolta, muita gente será presa e cassada, eles não admitem”.

Respondi: “Ora, Carlos, se vamos ficar aceitando intimidações em cima de intimidações, é melhor logo resistir de uma vez por todas, que façam o que bem entenderem”. E como o governador já estava visivelmente compenetrado (ele não resistia ao doutor Julio Mesquita), disse para ele: “Carlos, o melhor caminho para a resistência não é a subserviência”. E dando a conversa por encerrada, terminei: “Agora vamos falar sobre futebol”. Ele detestava.

CASTELO GANHOU POR UM VOTO

As coisas se precipitaram, a votação foi em 3 dias, tudo controlado e comandado por Golbery. Apesar disso, a votação ficou empatada durante horas, foi aprovada com a “vantagem” de 1 voto.

Impressionante, Golbery dominou até a sucessão do próprio Lacerda na Guanabara. Até hoje não consegui descobrir como ele colocou como candidato de Lacerda, seu Secretário de Educação, Flexa Ribeiro.

Do outro lado, emplacou Negrão de Lima. Os comunistas, como sempre precisando de dinheiro, pagos por Golbery, deram a palavra de ordem: “Votem em Negrão com um lenço no nariz, mas votem”. Votaram e ganharam. A derrota de Lacerda foi total, ele e Flexa Ribeiro eram co-sogros, o filho de Lacerda casado com a filha do Flexa. Não dava nem para desconversar.

Golbery ganhou todas, menos a última, contra Costa e Silva. Presidente no Brasil da Dow Chemical (o maior fabricante de napalm do mundo) foi promovido a presidente para toda a América Latina, dessa empresa da morte.

Vou terminar, de outra forma não paro mais. Em 1966, a candidatura Costa e Silva já consolidada, Golbery em pânico, tratou do futuro dele e de Ernesto Geisel (o que aconteceu com Geisel, já contei). Como estava na reserva, Golbery foi ser Ministro do Tribunal de Contas da União, Pretendia  ficar lá até os 70 anos. Com o fim de Costa e Silva, se aposentou em 1969, ficou esperando.

Não podia acreditar que o único personagem que odiava para valer, Garrastazu Médici, fosse “presidente”. Ficou quase 5 anos na bela fazenda de Goiás, cercado de áulicos e bajuladores. O sucessor de Médici foi Ernesto Geisel, que maravilha viver,

Mas antes de ratificar Ernesto Geisel, Médici procurou-o e perguntou, frente a frente, “quais são as suas relações com  Golbery?”. Geisel, um descrente completo, respondeu: “Não vejo Golbery há anos”. Médici ficou satisfeito, Golbery tomou posse com ele, foi o mais influente até se afastar.

***

PS – Depois da prorrogação e de todas as consequências, escrevi um artigo do qual gosto muito. É uma pena que a Tribuna esteja fechada até para mim, gostaria de reproduzi-lo.

PS2 – Mas não faz mal, o conteúdo está todo no título: “1965, Carlos Lacerda, o candidato invencível de uma eleição que não vai haver”.

PS3 – Na época do artigo, ainda estava mantido o calendário eleitoral, com eleição direta no final de 1965. Aconteceu tudo como escrevi.

PS4 – Prova de isenção do repórter. Em 1966, o MDB lançou minha candidatura a deputado federal, logo fui colocado entre os mais votados (pelo MDB, quase todos estava cassados ou exilados). Golbery procurou pessoalmente amigos do repórter, incluindo um compadre, Procurador Geral (de carreira) na Guanabara.

PS5 – Golbery tinha uma proposta: se eu desistisse da candidatura, não seria cassado. E acrescentava: “Ele é moço, terá outras oportunidades”. Concluía: “Não podemos deixar que seja deputado, ainda mais como está dizendo na campanha, que vai falar todos os dias”.

PS6 – “Já conversei com o presidente Castelo, ele concorda em não cassar o jornalista, foi taxativo: “Se ele apenas com um jornal nos atormenta dia e noite, não admite nem conversar, com duas tribunas, a do jornal e da Câmara, impossível”.

PS7 – Lógico que não admiti nada, fui cassado. Mas se tivesse aceitado, teria durado muito pouco, seria cassado em 1968. Como os poucos que restaram, Incluído meu amigo Mario Martins, eleito senador na eleição que não disputei, ganhou o mandato que seria roubado em 1968.

PS8 – O ostracismo de Golbery começou em junho de 1977, quando passou a  incentivar a candidatura de Silvio Frota à sucessão do próprio Geisel. E terminou, em 12 de outubro desse mesmo 1977, quando Ernesto Geisel desfez o golpe e demitiu Silvio Frota do Ministério do Exército, escolhendo logo João Figueiredo.

PS9 – Vencedor nos episódios anteriores, Golbery jogou fora todo o passado. Como no filme famoso “Os carrascos também morrem”. provou. Oo que ele mais desejava não conseguiu: ser presidente da República. Num regime democrático, não se elegeria. Na ditadura dos generais, não tinha vez, era da reserva.

Feliz Ano Novo para os 5,7% de desempregados, uma ficção estatística. Para o IBGE, só está desempregado quem insiste em procurar emprego. A pesquisa é feita em seis capitais. No interior, não há levantamento.

Carlos Newton

São muito interessantes as estatísticas no Brasil. O levantamento do número de desempregados, então, é um espetáculo. Além do IBGE, também a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Sócio-Econômicos (Dieese) declaram medir a taxa de desemprego.

O governo faz o cálculo através do IBGE, que utiliza o critério de desemprego aberto, no qual somente as pessoas que no período de referência estavam disponíveis para trabalhar e realmente procuraram trabalho são consideradas desempregadas. O cálculo é feito com base em dados de seis regiões metropolitanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.

A taxa de desemprego é uma porcentagem da População Economicamente Ativa, que hipoteticamente poderia ser calculada com base em diferentes metodologias. O IBGE, repita-se, utiliza o exótico critério de somente considerar desempregadas as pessoas que no período de referência estavam disponíveis para trabalhar e realmente procuraram trabalho.

O Seade e o Dieese – que realizam a pesquisa no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Recife – adotam o critério de desemprego total, que engloba também o desemprego oculto. Nessa categoria estão aqueles que não procuraram emprego por desalento ou porque estavam exercendo um trabalho precário.

Esses cálculos levam a resultados muito diferentes. Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, enquanto o IBGE apontava em agosto de 2000 uma taxa de desemprego aberto de 7,55%, a Fundação Seade e o Dieese chegavam a uma taxa de desemprego total de 17,7%. Não dá para levar a sério cálculos estatísticos que apresentam variação de cerca de 120 por cento.

Com base no esdrúxulo critério do IBGE, os números do governo são animadores e fazem inveja aos países desenvolvidos. Apenas 5,7% de desempregados. Seria tão bom se fosse verdade. Mas os números são ilusórios. Empregos no Brasil duram menos de dois anos, diz pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), mostrando que 40% das pessoas que trabalham com carteira assinada perdem o emprego todos os anos, uma taxa altíssima de rotatividade.

Além disso, 50% dos empregos duram menos de 24 meses e 25% duram menos de oito meses. Apenas 25% têm duração maior que cinco anos, segundo dados do próprio Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), mantido pelo Ministério do Trabalho. E metade dos trabalhadores brasileiros fica menos de dois anos no mesmo emprego, segundo pesquisa feita por Roberto Gonzalez, mestre em Sociologia pela UnB. Pior ainda: segundo a Fundação Getúlio Vargas, 65% dos trabalhadores não têm carteira assinada.

O IBGE diz investigar o mercado de trabalho por meio de várias pesquisas. Além da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), produz também a Pesquisa Mensal de Emprego – PME, que dá esses resultados ilusórios e espetaculares. O desemprego realmente diminuiu no governo Lula, mas esses 5,7% são uma brincadeira sem graça.

Já vejo o pesquisador do IBGE subindo o Complexo do Alemão para perguntar se existe algum desempregado por lá. Consigo vê-lo também no interior do Nordeste, andando a pé naquelas estradas de terra, debaixo do sol forte, procurando para ver se encontra algum desempregado. Mas é miragem, a tal pesquisa só investiga as seis maiores regiões metropolitanas do país: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Embora as informações levantadas só tenham validade para as seis regiões metropolitanas, ilusoriamente servem de parâmetro e estimativa e amostragem para todo o país. Assim, esses resultados da PME hipoteticamente revelam dados mensais sobre emprego e desemprego e sobre o rendimento médio do trabalho.

São quase 100 páginas para você se divertir, se estiver desempregado e sem nada para fazer. Porém, se você já tiver desistido de procurar emprego, pelo critério do IBGE vai ser considerado como empregado. Será um alívio para você.

Sucesso de Lula não é produto só de publicidade

Pedro do Coutto

O êxito extraordinário alcançado pelo presidente Lula junto à opinião pública do país (87% de aprovação, segundo o IBOPE) não está de forma alguma colocado em função dos gastos do governo no setor de publicidade envolvendo jornais, redes de televisão, emissoras de rádio e sites na internet.

Sob o título Bomba Relógio, o jornalista Fernando Rodrigues publicou artigo sobre o que seria o esquema publicitário do Planalto, na edição de 29 de Dezembro da Folha de São Paulo. Equivocou-se no enfoque, esquecendo-se de comparar os números que obteve com o volume total, por ano, da publicidade veiculada no Brasil. Estes índices, relativos aos primeiros cinco meses de 2010, foram publicados pela própria FSP de 28 de julho.
Praticamente 10 bilhões de reais, o que indica que em todo o exercício atingiram mais de 27 bilhões, já que as injeções comerciais aumentam acentuadamente nos meses de novembro e dezembro.

É só conferir o número de ofertas de produtos que lotam cadernos e mais cadernos dos grandes jornais. Cito apenas três: O Globo, a mesma Folha e O Estado de S. Paulo. A média mensal de 2 bilhões duplica nos dois meses finais do ano.

Fernando Rodrigues, um excelente profissional, afirmou que a atual administração teria despendido 1 bilhão de reais. Francamente é muito pouco. Deve ter gasto muito mais. Para um total de 27, a fração 1 representa 0,4%. Com base em informações anteriores, os gastos oficiais publicitários participam com 25% do volume total. Mas neste caso temos que incluir as despesas também dos governos estaduais no bolo. Seja como for, a injeção federal no mercado institucional é muito pequena.

Mesmo que fosse grande, não seria capaz de transformar a impopularidade em popularidade. O próprio Fernando Rodrigues sustenta que a despesa de Lula com publicidade foi a mesma de Fernando Henrique. A diferença estaria no fato de FHC ter aplicado 1 bilhão (em 2002) em menos de 600 veículos e Lula ter investido a mesma importância, porém distribuindo-a por 8 mil órgãos de comunicação, incluindo portanto pequenos jornais e emissoras radiofônicas do interior. Mas se o desembolso foi o mesmo, os índices de aprovação e rejeição não coincidiram.

Luís Inácio deixa o poder com um recorde mundial de aplauso. FHC saiu de Brasília com a imagem negativa. Tanto assim que sua presença nas campanhas eleitorais de José Serra, Geraldo Alckmin e novamente Serra, não encontrou espaço por parte dos candidatos tucanos. Ele próprio reclamou disso logo após encerrada a computação dos votos na madrugada de primeiro de novembro. Afirmou-se inclusive
 disposto a não endossar posições  partidárias que julgou incompletas e inadequadas.

Logo, o diferencial entre Lula e Fernando Henrique  não se encontra na atuação do marketing publicitário. O marketing é um adjetivo. A popularidade resulta de fatos substantivos e concretos. A política salarial, um deles. A não privatização, outro. O nível de emprego um terceiro.

O VOTO E O POVO

Um outro assunto. Leio no site da Tribuna da Imprensa  comentário do leitor Luiz Antônio dizendo que a vitória de Dilma Roussef não foi tão expressiva (56 a 44%) porque 10 milhões votaram em branco ou anularam e 19 milhões não foram votar, abstiveram-se. O eleitorado total é de 135 milhões de pessoas. Muito baixa, portanto, a taxa de brancos e nulos. Quanto à abstenção, temos que considerar o índice de mortalidade anual (0,6%) , o de doenças incapacitantes e internações hospitalares. O último cadastramento (ou re) eleitoral brasileiro foi efetivado em 1986. De lá para cá passaram-se 24 anos.

O RJ no Pré-Sal: a lei deveria ser mais explícita

Pedro do Coutto

O presidente Lula sancionou a lei que trata da exploração e produção de petróleo, gás natural e hidrocarburetos na camada do pré-sal com um texto, que, pelo silêncio, agradou o governador Sérgio Cabral, que se empenhou contra a emenda Pedro Simon que prejudicava frontalmente os legítimos interesses econômicos do Rio de Janeiro.

O senador gaucho queria dividir os royalties em partes iguais por todos os estados da Federação, igualando-os como se, todos eles, fossem produtores, caso do RJ, nosso estado. Rematado absurdo, já que os que produzem zero seriam equiparados àqueles em cujas áreas a produção se desenrola. O RJ, hoje, responde por praticamente 80% da produção nacional. Apesar do silêncio de Cabral, acredito que o diploma deveria ser um pouco mais claro e bem mais explícito.

A lei assinada pelo presidente Lula tomou o número 12.351 e está publicada no Diário Oficial de 23 de Dezembro. Ela prevê a exploração numa primeira etapa pela Petrobrás ou através de consórcios por ela constituídos. Numa segunda etapa, presume-se a partir do início da produção, o que deve demorar mais ou menos oito anos com base em exemplos internacionais, surgiria então a Petrossal. Roberto Campos, que escrevia artigos chamando a Petrobrás de Petrossauro, com a palavra Petrossal, se vivo fosse,  obteria uma aproximação maior entre o petróleo e a era dos dinossauros. Mas esta é outra questão.

Humor à parte, no item 13 do artigo 2º da 12.351  está aparentemente preservada a compensação financeira aos estados e municípios produtores, em função do volume do faturamento, nos termos – acrescenta – do parágrafo 1º do artigo 20 da Constituição Federal.

Este dispositivo, entretanto, não é específico. Ao contrário. É genérico e fixa o princípio, não a mecânica da participação compensatória. Esta compensação é regida pelas leis 7.990 de 28 de dezembro de 89 e 8.001 de 13 de março de 90. Em ambos os casos, convergem para garantir aos estados e municípios a parcela de 5% do valor do óleo bruto, do xisto betuminoso (hidrocarbureto) e do gás natural extraídos da plataforma continental.

A diferença de uma lei para outra está nos percentuais de distribuição desses 5%. Pela 7.990, caberiam 70% aos estados, 20 aos municípios e os outros 10% às cidades onde se localizarem as instalações marítimas ou terrestres de embarque e desembarque dos produtos. Este rateio foi introduzido na época através de emenda do senador Nelson Carneiro.

A lei 8.001 altera os percentuais de subdistribuição. Mantém os 5%, mas os divide (os 5%) da seguinte maneira: 45% para os estados, 45 aos municípios, 8% ao Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica e 2% ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Brasília, DF, recebe na categoria de estado e município.

Portanto, acredito que o governador Sergio Cabral deveria ter se empenhado por um texto mais específico, pois como se encontra o item 13 do artigo 2 da lei 12.351/2010, está consagrado o princípio da participação, mas os percentuais específicos não se encontram na Carta de 88, mas sim nas duas leis que dão eficácia e realidade ao texto constitucional.

É necessário mais clareza, pois se tratando de recursos financeiros, toda atenção deve ser a máxima. Caso contrário, pode surgir um governo no futuro que acate a norma básica, mas deseje fixar percentuais diversos dos de hoje. O Pré-sal só deve começar a produzir lá por volta
 de 2018. Nessa época quem estará na presidência da República? Quem estará no Ministério de Minas e Energia?

Falta apenas um dia, para Dona Dilma deixar de ser cidadã comum, para se transformar em presidente. E tão importante quanto: é a primeira mulher, no Brasil, a atingir esse cargo máximo.

Helio Fernandes

O Planalto está à vista, e mesmo sem prazo definido, tanto pode ser 2014 ou 2018, a conquista é retumbante. Ela mesma já disse, num rasgo de sinceridade, reconheçamos: “Jamais pensei que isso pudesse acontecer”.

Rigorosamente verdadeiro. Os futuros presidentes não traçam seus caminhos, não projetam seus destinos, podem até sonhar, mas não se julgam tão iluminados, que esses sonhos se concretizarão algum dia.

Se demonstrarem certeza antecipada, se festejarem antes com amigos ou consigo mesmo, dificilmente chegarão. Os caminhos que levam à Presidência, são complicados e tumultuados demais. Exigem mais do que competência, sorte, um astral fora de qualquer imaginação, quantos estiveram tão perto e não chegaram?

Pinheiro Machado, na Primeira República, era tido e havido como “fazedor de presidentes”. Mas não “fez” a ele mesmo, sonho e objetivo que acabou em 1915, quando foi assassinado. Derrotou Rui Barbosa em 1910, quis eleger o próprio Rui em 1914, em troca da modificação da Constituição. Só que Rui não fazia concessão. Candidato em 1919, com 69 anos (naquela época, “idade avançada”) foi derrotado pelo “sistema”, Pinheiro Machado já estava longe.

Hoje, no Brasil, além de todas as realidades, o Poder é representado pelo Planalto-Alvorada. Até hoje, Dona Dilma tem feito diariamente o caminho pela metade. Ia para o Planalto, ficava lá o dia todo, voltava para casa.

A partir de amanhã fará o caminho completo de ida e volta. Depois de um dia cansativo, exaustivo, não definitivo, dormirá no Alvorada, a segunda parte do Poder. Deve ficar “em casa” no dia seguinte, domingo. Provavelmente não recebe ninguém, embora possa ter alguma idéia, que queira logo transmitir a quem de direito.

Não tenho a menor idéia de quem serão os confidentes de Dona Dilma, se tiver algum. Também se revelarão os íntimos, ela não é de muita intimidade, mas isso é obrigatório. Pela análise e pelo conhecimento, duas pessoas têm todas as condições (até pelas profissões e pela seriedade) de preencherem essa condição.

*** 

PS – Tudo que eu disser hoje, é a véspera da Presidência, ainda uma irrealidade. Mesmo o amanhã, que terá que vir, não virá imediatamente.

PS2 – O Lula de 2006 a 2010, teve alguma importância no que aconteceu de 2002 a 2006? De maneira alguma. As derrotas seguidas de Lula tiveram grande importância na “consolidação” do Poder que conquistou. Mas ele só percebeu que podia se transformar em “83 por cento de popularidade”, muito depois.

PS3 – Dona Dilma não sofreu nenhuma derrota, em termos esportivos (como Lula tanto gosta), “ela chega ao poder INVICTA”.

PS4 – Mas tem que ficar atenta. Muita gente estará trabalhando para derrotá-la. E não pode esquecer: uma derrota no Poder, tem todas as condições para atingi-la. O que não aconteceu com Lula, de 1989 a 2002.

José Dirceu, na posse de Dilma, com evidente ressentimento

Helio Fernandes

Foi convidado, comparecerá. Subirá a rampa do Planalto, com evidente ressentimento, que fará tudo para que ninguém lembre. Saudade pura, e a pergunta íntima, mas obrigatória: “Onde foi que eu errei?” Não existe resposta, nem dada por ele mesmo.

Qual o lugar que destinarão a ele? Próximo? Distante? No meio de todos? O pior, que não esquecerá mesmo que viva 100 anos: “A presidente sai do cargo que ocupei e dominei”, e mais grave: “Palocci é reabilitado nesse cargo e virá me abraçar apertado, como fez noutro dia”.

LULA E BATTISTI

Escrevendo na terça-feira, revelei antes de todos: Lula não vai extraditar o italiano. Publicará isso oficialmente, dia 30 ou 31. Não deu outra.

E ainda acrescentei: Lula não tem a maior admiração por Battisti, mas ficou revoltado com o procedimento do governo da Itália, desde o julgamento pelo Supremo. Que deixou a inteiro critério do presidente a decisão de extraditar ou não extraditar. Lula já estava decidido.

Normal chamar a plataforma de Lula, ridículo dizer, “é o molusco”. A Petrobras é nossa? Por que pretendem que Lula e Dilma tenham mais divergências que as naturais?

Helio Fernandes

Todos gostam de homenagem, para o presidente que está saindo, os 83% de popularidade não bastam. Não é surpreendente colocar o nome dele num equipamento de petróleo, nem é inédito. Na Bahia, tudo é ACM, naturalmente não completam a placa com o indispensável Corleone.

No Brasil todo, temos que cruzar estradas, atravessar pontes e até “minhocões” (São Paulo) lembrando de Castelo Branco e Costa e Silva. Ficou tão comum e habitual, batizar penitenciárias ou prisões com nomes de grandes juristas, que o Evaristinho de Moraes, sabendo que ia morrer, deixou escrito para os filhos: “Não deixem de maneira alguma que ponham meu nome numa penitenciária”.

Até admitiria a plataforma como o nome de Lula, mesmo porque, na volta ele mesmo colocaria. Mas essa tolice desnecessária de dizer que a “homenagem” foi para lula, o molusco? Falta de segurança ou sensação antecipada do ridículo?

ATÉ AS PEDRAS DA RUA SABIAM

Deixaram o presidente da maior empresa brasileira, para ser anunciado no último dia antes da posse. Até as pedras da rua (Rui Barbosa) sabiam que seria confirmado o atual presidente, Sergio Gabrielli. Como não manda nada, não contraria ninguém, era o candidato de todos, dentro e fora da empresa.

A surpresa: por que Lula na Bahia e Dilma em Brasília, “anunciaram” a confirmação no mesmo momento? Está faltando comunicação? Ou existe alguma força não identificada, querendo que Lula e Dilma tenham mais divergências do que as naturais?

FRACASSO DA TAXAÇÃO DE MANTEGA

Quando Mantega, há mais de dois meses, resolveu fazer o dólar “subir por decreto”, ele estava em 1,69. Hoje, já no fim do ano, não sai de 1,66. A Bovespa dos 70 mil, foi a 71 mil, acaba o ano em 69 mil. Adiantou?

EUA: 4,3% RECEBEM SEGURO-DESEMPREGO

São mais ou menos 6 milhões. Como o próprio Obama, na semana passada, disse publicamente que os desempregados são 16 milhões, de que vivem os outros 10 milhões?

Conversa com leitor-comentarista, sobre FHC e os quatro marechais-presidentes

Raimundo (Macapá): “Helio, você falou que FHC foi pior do que os quatro marechais. Poderia identificá-los? Não consegui”.

Comentário de Helio Fernandes:
Deodoro, Floriano, Hermes da Fonseca, Gaspar Dutra. Alguns indiretos, como os dois das “Alagoas”. E que além de incompetentes, eram ditatoriais, se derrubaram e não fizeram nada, até 1894, quando apareceu o primeiro civil, Prudente de Morais.

O terceiro foi Hermes da Fonseca (sobrinho de Deodoro), que com a ajuda do presidente Nilo Peçanha, derrotou Rui Barbosa.

E finalmente o “Condestável do Estado Novo”, que ficou guardando o lugar para a volta de Vargas.

Rigorosamente verdadeiro,: nenhum deles roubou, mesmo porque o patrimônio e o orçamento eram mínimos. Mas  Dutra desperdiçou 13 bilhões de dólares (naquela época, uma fortuna) acumulados obrigatoriamente durante a Segunda Guerra Mundial.

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PS – Apesar de tudo, FHC foi ainda pior. Deliberadamente pior do que os quatro juntos.

Missa de Dom Orani e ceia no Alemão nada resolvem

Pedro do Coutto

Na edição de domingo, O Globo publicou reportagem de Tais Mendes e Gabriel Mascarenhas focalizando a missa celebrada pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, rezando pela paz no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro. Subiram e desceram os degraus da Igreja da Penha o Secretário de Segurança José Mariano Beltrame e o general Adriano Pereira, Comandante Militar do Leste, portanto o responsável pela presença das Forças Armadas na tomada e na ocupação daquele do tráfico abandonado pela fuga dos criminosos.

Fuga? Romperam o cerco? Não. Mas este é outro problema. Também no domingo, a Folha de São Paulo editou matéria de Felipe Caruso, com foto no alto da primeira página, mostrando a ceia de Natal que reuniu um batalhão do Exército no mirante do morro do Alemão. Em ambos os casos, moradores pediram paz e as forças de ocupação se comprometeram com ela.

Forças de ocupação, sim. Aliás como escreveu Clovis Rossi na página 2 da Folha de S. Paulo de domingo. Na realidade, não são tropas de pacificação, pois estas pressupõem acordo entre as partes em conflito. Não houve, tampouco poderia haver pacificação alguma. Não pode haver entendimento entre o poder público e o crime. Da mesma forma que não pode existir acordo entre a ordem e a desordem, entre o plano legal e o ilegal.

As tropas federais que conseguiram ocupar o alemão e a Vila Cruzeiro fizeram o que o governo Sérgio Cabral não conseguiu em 2007 após cem dias de conflito diário. Logo, o governador perdeu acentuada parcela de poder no episódio. Tanto assim que não compareceu à missa de Dom Orani. Mas este constitui outro ângulo da questão.

O essencial é que nem a celebração religiosa, nem a ceia cristã na ex-fortaleza do tráfico não resolveram o desafio maior que é o comércio abominável de drogas efetuado por grupos fortemente armados. Foram belos gestos simbólicos, mas não – tampouco poderiam ser – substantivos. Pois quem, afinal de contas, pode ser contra a paz? Ninguém. Todos são a favor, mas é preciso que essa paz seja efetiva, não episódica.

Enquanto o Exército permanecer no alto da fortaleza derrotada, os traficantes estarão agindo em outro lugar. Havia seiscentos deles cercados no desfecho recente quando tanques de guerra da Marinha arrebentaram as barricadas construídas na subida da ladeira principal. Armados, divulgou o Secretário de Segurança. Escaparam.

Mas onde deixaram as armas ou para onde as levaram consigo? Andaram pelo meio das ruas e das matas das encostas verdes sem serem notados? Impossível. Eram seiscentos. Os armamentos e as munições foram transportadas para outro reduto ou outros redutos. O tráfico continua no Rio em diversos mercados cujo acesso ocorre através de vias sinuosas e obscuras, tendo nas margens pobres vítimas do vício, dos viciados, dos bandidos.

Missa e ceia, atos cristãos, são bons para publicar nos jornais. São matérias importantes. Porém representam o começo de uma nova e longa jornada. A guerra do Rio não acabou. Porque enquanto houver consumo de drogas, haverá venda, e, enquanto houver corrupção, o crime, organizado ou não, permanecerá agindo nas sombras que envolvem os que se viciam, que se vendem. Tão imundo quanto lucrativo. A raiz do problema é esta. Não está na ocupação de duas, mas sim no domínio ilegal de outras novecentas favelas que existem no Rio de Janeiro.

Site do PT, que não respeita as orientações de Lula, Franklin e Vannucchi, acusa cunhado de Alckmin por denúncia ainda sob investigação. Se eles não controlam nem o site do PT, como querem controlar a imprensa inteira?

Carlos Newton

O ainda presidente Lula costuma criticar a imprensa por divulgar denúncias sem comprovação, que ainda estão sendo apuradas. Este é um dos seus principais argumentos para defender algum tipo de controle, e o faz com apoio incondicional e entusiasmado dos ainda ministros Franklin Martins (Comunicação Social) e Paulo Vannucchi (Direitos Humanos).

Mas os três esquecem que os jornalistas do próprio PT não fazem outra coisa. Agem exatamente assim. Agora mesmo, está circulando na internet uma notícia escandalosa, divulgada pelo site Macro PT ABC, sob o título “Até cunhado de tucano mete a mão no cofre público… É a família unida”, nos seguintes termos, baseada numa reportagem da Folha de S. Paulo”.

“Paulo Ribeiro, cunhado do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), está sob investigação do Ministério Público do Estado sob acusação de intermediar o pagamento de propinas a políticos e funcionários públicos que contratavam empresas de merenda. Ontem (dia 28) a Polícia Civil fez uma operação de busca e apreensão na casa de Ribeiro, irmão de Lu Alckmin, a esposa de Geraldo Alckmin. Ele é alvo de investigação que apura crimes de lavagem de dinheiro, superfaturamento e direcionamento de licitação.

A investigação é conduzida pelo promotor Arthur Lemos Jr., do Gedec (Grupo de Atuação Especial de Repressão à Formação de Cartel e à Lavagem de Dinheiro). A  acusação se baseia em escutas telefônicas e documentos apreendidos, aos quais a Folha não teve acesso.

A operação foi feita à procura de documentos que mostrariam detalhes sobre o caminho das comissões pagas por empresas para obter contratos públicos.Há dois anos a Promotoria apura a existência de uma suposta máfia da merenda, que agiria como um cartel para subir os preços.

No esquema, o preço da merenda é sempre superfaturado, funcionários públicos e políticos recebem propina pelo valor mais alto, e o partido do prefeito recebe contribuição não declarada.

A apuração começou em São Paulo, mas hoje se estende a Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Maranhão. Há prefeituras ligadas a PSDB, PDT e PPS.

O nome de Ribeiro aparece na lista como suspeito de ter atuado como lobista em dois contratos com indícios de superfaturamento, com as prefeituras de Pindamonhangaba e de Taubaté.

Em Pindamonhangaba, cidade natal de Alckmin e de Lu, a prefeitura contratou a empresa Verdurama em 2005 para fornecer merendas para cerca de 30 mil alunos. O pagamento anual é de cerca de R$ 5 milhões.

Em Taubaté, há a suspeita de que Ribeiro teria ajudado a Sistal a elevar o valor do contrato de R$ 10,8 milhões para R$ 25 milhões num período de três anos, sem um grande aumento de alunos”.

Na matéria da Folha, o cunhado de Alckmin é tratado apenas como “suspeito”, não há menção a partidos, mas o blog do PT logo identifica como “prefeituras ligadas a PSDB, PDT e PPS”. Além disso, já providenciou a condenação, no título da matéria. É uma demonstração de que Lula, Franklin e Vannucchi melhor fariam se esquecessem essa obsessão por controlar a imprensa. Se não conseguem controlar nem mesmo os sites do PT, por que teriam a pretensão de policiar todo o resto?

Quanto mais livre a imprensa, melhor, não interessa se o alvo da denúncia é do PT, do PSDB ou de qualquer outro partido. Se a denúncia não for verdadeira, a Justiça está aí para ser acionada, de forma a indenizar a vítima de difamação, injúria ou calúnia, na forma da lei. É assim que a coisa funciona.

E mesmo com a divulgação permanente dos atos de corrupção, é muito difícil alguém pagar por isso no Brasil. É mais fácil um jornalista ser condenado do que um corrupto (ou corruptor, apesar de corruptores serem uma categoria à parte, praticamente fora de qualquer punibilidade). Esta é a nossa realidade.

Por fim, Lula só existe como líder político e fenômeno eleitoral porque a imprensa sempre divulgou suas iniciativas, desde os tempos difíceis do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Ele não deveria ser tão ingrato. Pega mal.

Se não DESCONVIDAR o Ministro do Turismo, Dilma já assume desgastada.

Hélio Fernandes

O deputado do Rio de Janeiro, Luiz Sergio, em entrevista hoje, no Globo, reabre o caso do deputado Pedro Novais, personagem de duas novelas. 1 – Ministro do Turismo aos 80 anos. 2 – Pagou com dinheiro da Câmara a estadia no Motel Caribe, de São Luís do Maranhão. Inaceitável, imperdoável, devia ter sido DESCONVIDADO na hora.

Mas parece que Dona Dilma “acordou” agora, o Ministro das Relações Institucionais dava a impressão de estar falando pela presidente que assume dentro de 48 horas. O constrangimento é total.

O próprio Ministro (ainda é?) confessou ao devolver o dinheiro. Por que Dona Dilma quer forçar a demissão do octogenário, por intermédio (indireto) de outro Ministro?

*** 

PS – A autoridade diminui seu próprio Poder ao tentar agir por interpostas pessoas. Demitindo o Ministro, ainda hoje ou amanhã, obteria enorme e positiva repercussão.

PS2 – Sem DESCONVIDÁ-LO, já assume desgastada.

Mais uma diferença entre Quércia e FCH. Qual dos dois FINGIU ter sido CASSADO?

Helio Fernandes

Como mostrei no artigo publicado hoje, há muitas diferenças entre as trajetórias políticas de Quércia e FHC. Quércia, por exemplo,  não saiu do Brasil, FHC não ficou aqui. Fingiu que havia SIDO CASSADO, farsa e mentira completa. Já desafiei muitas vezes, em discurso na ABI, como conselheiro, na Tribuna impressa, que ele provasse a CASSAÇÃO.

 Como podia ter sido CASSADO e candidato a senador em 1978, em plena ditadura? O próprio José Serra, em 1978, tentou ser candidato a deputado estadual, não foi registrado. ESTAVA CASSADO.

 

Faltam dois dias para Dona Dilma tomar posse. Com as dificuldades visíveis e previsíveis, surgiu um problema novo planejado contra ela: a presidência da Câmara.

Helio Fernandes

O último presidente da República Velha, Washington Luiz, como tantos, não terminou o mandato. Deixou uma frase que ele mesmo não cumpriu: “Governar é abrir estradas”. Não é, vá lá, também é.

Em 1894, quando Henry Ford botou o primeiro carro na rua, os EUA estavam  completamente cortados por ferrovias (a marcha para o Oeste, que depois virou a exaltação dos filmes de bangue-bangue) e estradas. O Brasil tinha ferrovias pertencentes a trustes (como se dizia então) e com nomes complicados e dificilmente pronunciáveis até mesmo em áreas urbanas. Não tínhamos a não ser “estradas carroçáveis”, precisamos começar do zero.

Os países cresceram, as populações aumentaram, os problemas se multiplicaram, chegamos a Dona Dilma. Que ultrapassou os problemas da transição, tinha a impressão de que enfrentaria dificuldades, mas não agora e não tão complicadas.

Pois surgiu um que não estava na agenda, foi tramado, planejado e executado por políticos sem expressão individual, mas que coletivamente podem complicar, tumultuar e infernizar o início do governo de Dona Dilma.

Falo da presidência da Câmara. Parecia tudo acomodado, a disputa era entre o PT e o PMDB, proporcionalmente os dois com maiores bancadas de deputados. A dúvida ou divergência: quem assumiria nos 2 primeiros anos e nos 2 últimos. Acertado, o PT começaria, o PMDB terminaria.

Os candidatos naturais do PT e do PMDB se afastaram, até mesmo os que pareciam favoritos, como Candido Vaccarezza, do PT.  Surgiu então como candidato natural do grupo majoritário, o deputado do PT do Rio Grande do Sul, Marco Maia.

O grupo de lobistas (revelei aqui) pretendia eleger João Paulo Cunha, que já presidiu a Câmara, perdeu tudo, envolvido no mensalão, embora não cassado. Parecia haver acomodação, mesmo os lobistas e os partidários dos não-fichas-limpas, davam a impressão de desarticulados.

Só que não estavam desligados, esperavam o descontentamento e o ressentimento das escolhas ministeriais, para se organizarem, se comporem com a oposição. E encontrarem um nome que juntasse todos, satisfação geral na oposição, que quebrava regulamentos, práticas, costumes e tradições, mas voltavam a ser procurados.

Só que o novo candidato não era mais o deputado do mensalão, e sim o do PCdoB, Aldo Rebelo. Este está sempre à disposição, como não pode ser prefeito, senador, governador (os votos só chegam para deputado), se realiza como presidente da Câmara, destruindo o princípio rígido da proporcionalidade.

Quando Fernando Gabeira, com “o grito do Ipiranga”, perdão, “da Esplanada”, derrubou o presidente Severino Cavalcanti, na confusão, Aldo Rebelo se fez presidente da Câmara. Agora não é nada por acaso, foi um envolvimento preparado.

Dona Dilma precisa prestar atenção redobrada, não é apenas a presidência da Câmara que está em ebulição. É a segurança do seu próprio governo, nessa articulação do deputado do PCdoB. Deputados de todas as órbitas, de todas as legendas, da oposição (até natural), mas principalmente da base. Como próprio deputado do PCdoB, que recebeu muito mais do que merecia eleitoralmente.

 ***

PS – Dona Dilma, teoricamente, tem todo o mês de janeiro para conversar, mas tem que resolver com a URGÊNCIA e a IMPORTÂNCIA do movimento. O principal lema dessa rebelião é INTIMIDAÇÃO e RECOMPENSA.

PS2 – Por causa disso, Dona Dilma não pode se descuidar ou pensar que é pura reivindicação. Querem o cargo, de grande visibilidade, mas pretendem também testar a resistência da presidente.

PS3 – É a primeira batalha da grande guerra da arte de governar. Muitos pensavam ou admitiam que os obstáculos políticos estavam superados. Pois é precisamente pelo setor político que começa a contestação de Dona Dilma.

PS4 – Tudo dependerá de como reagirá a esse desafio-intimidação-contestação.

Excluído e extraído o desgaste e desperdício dos dinheiros públicos, Quércia foi mais importante do que FHC. Fez verdadeira carreira político-eleitoral, de vereador a tudo, menos presidente.

Helio Fernandes

Se formos levar em consideração a CORRUPÇÃO (que no título dessas notas, chamei delicadamente de desperdício de dinheiros públicos), quantos personagens sobraram (ou sobrariam) para analisar e comparar? Portanto, não levemos em consideração esse fato, no momento não CONDENAMOS nem ABSOLVEMOS ninguém.

Apenas como registro indispensável. Quércia era tido e havido como tendo enriquecido em cargos públicos. Os mais diversos. Essa é a prática e a norma da vida pública brasileira, a IMPUNIDADE cobre e inocenta no geral. Só que Quércia enriqueceu no plano brasileiro e interno, FHC DOOU o patrimônio nacional. Todos enriqueceram com ele, mas as riquezas nacionais são irrecuperáveis.

Se existe um parâmetro para os corruptos que são também corruptores, FHC é mais condenável, execrável, irresponsável, irrecuperável. Se conseguisse o terceiro mandato, teria consumado a DOAÇÃO total, através dos vastamente enriquecidos DOADORES da COMISSÃO DE DESESTATIZAÇÃO. Que como o próprio FHC, jamais serão responsabilizados.

Os leitores-comentaristas compreenderam o que pretendo fazer aqui, não precisam concordar e têm o direito de discordar, mostremos fatos históricos, nada mais do que isso. Quércia foi vereador, prefeito, deputado, só depois chegou a plano nacional.

Em 1974, passando um pouco dos 35 anos (naquela época, idade-limite para senador e governador), ainda sem chegar aos 36, foi o senador mais votado do país. Derrotou, com uma diferença de 3 milhões de votos, o ex-governador Carvalho Pinto, isso, em São Paulo.

FHC, que tinha ódio de Quércia, só foi “eleito” senador em 1978, com 44 anos de idade. Lógico, não foi eleito nada, era suplente de Franco Montoro, que quatro anos a seguir se elegeria governador, na primeira eleição direta, depois da “anistia ampla, geral e irrestrita”.

A eleição de Montoro levou o suplente a assumir por 4 anos. Em 1982, a primeira batalha ou guerra aberta entre Quércia e FHC. Os dois queriam ser vice de Montoro, que ia ganhar facilmente, como ganhou mesmo. Montoro preferiu Quércia, o que deixou FHC desesperado. Um lembrete: todos eram do PMDB. Só que FHC, arrogante como sempre, dizia: “Eu sou do PMDB INTELECTUAL, Quércia é do PMDB da ROUBALHEIRA”.

Quércia não deixou sem resposta, acusou FHC de patrocinar uma porção de atos ilegais e irregulares, cometidos por amigos, com seu conhecimento e consentimento. (FHC não fez a réplica obrigatória).

Em 1986, sucessão de Montoro, nova derrota de FHC, aí diretamente diante de Quércia. Os dois eram candidatos a governador, Quércia obteve facilmente a legenda, e mais grave para FHC: foi eleito governador. FHC e Covas se candidataram ao Senado, eram só os dois. Mas para se garantirem, “fecharam” acordo com Lutfalla Maluf, o próprio. (Grande demonstração, de FHC e Covas, de credibilidade e honestidade).

Em 1987, houve a fundação do PSDB, uma “costela” do majoritário PMDB. FHC, Covas, Jereissati e outros, foram os fundadores. Não falaram no nome de Quércia, que era governador, deram como justificativa: “Com o doutor Ulisses ninguém tem chance, ele quer tudo”.

Na verdade o doutor Ulisses não queria nada. Ficou sempre como deputado, várias vezes presidente da Câmara. Com espantosa liderança, que não se traduzia em votos para senador ou governador.

Em 1976, em plena ditadura, Quércia gritava que “a indústria brasileira estava sendo desnacionalizada”. Os militares então, usaram dos mesmos recursos de sempre: utilizavam “jornais amigos” para combater e denunciar os adversários. Em manchete, o “Correio Braziliense” juntou denúncias de irregularidades de Quércia, de 10 anos antes, em Campinas.

Começaram a dizer que seria cassado, deu entrevista enorme no Jornal do Brasil, denunciando interesses antinacionais. Em 1986 foi eleito governador de São Paulo, uma gozação e resposta a FHC, que, em 1985, um ano antes, perdera a Prefeitura de São Paulo para Janio Quadros, então com 68 anos e tendo abandonado a política há muito tempo.

Mas o apogeu, o auge eleitoral de Quércia, foi em 1990, na sua própria sucessão. Lançou o desconhecido Luiz Antonio Fleury contra Paulo Maluf, tido como favorito. E que tinha o apoio aberto de Covas e FHC. Fleury foi eleito. Quércia deixou o governo, foi presidir o PMDB nacional.

O grande equívoco de Quércia; candidato a presidente da República em 1994, com São Paulo inteiramente dividido. Ulisses, Covas e mais dois paulistas foram candidatos em 1989, massacrados por Collor. Em 1994, a segunda candidatura Lula, fortíssima. Tão forte que FHC, lançado pelo PSDB reduziu o mandato presidencial de 5 para 4 anos. Justificativa: “Como Lula vai ganhar mesmo, que fique menos tempo”.

Surpreendentemente (até para ele), FHC foi vencedor. Quércia já estava praticamente fora da política, voltado para os negócios. As rádios, jornais (sem grande tiragem) e outros órgãos de comunicação, apenas para sustentação.

 ***

PS – Em 1999, se afastou de tudo, por causa de um câncer na próstata, que o mataria agora, 10 anos depois. Há 4 ou 5 anos apoiou José Serra, estiveram juntos longos anos no PMDB. Estava praticamente eleito senador, o câncer voltou em plena campanha, abandonou tudo.

PS2 – Tudo isso é História, fatos, fatos, fatos. Morto agora, continua sem ser desmentido o “Disque Quércia para a corrupção”, lampejo histriônico do governador Requião.

PS3 – FHC foi o “retrocesso dos 80 anos em 8”, pior do que ele (ou igual, vá lá), só os quatro marechais. Nem ele nem Quércia foram cassados.

 

Da base de Dona Dilma, os governadores mais importantes são os da Bahia (Jaques Wagner) e de Pernambuco (Eduardo Campos), reeleitos no primeiro turno. E não é só por isso.

Helio Fernandes

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, que também ganhou no primeiro turno, era ministro da Justiça, todo poderoso, íntimo de Dona Dilma. Acontece que Tarso fala muito, já se coloca na “linha do pênalti” para 2014.

Minas e São Paulo têm governadores de legendas adversárias, embora isso não signifique muito. E no Estado do Rio, um governador desastrado, não se pode confiar nele.

NENHUM CHEFE DE ESTADO NA POSSE

O Itamarati insiste em marcar os lugares para as “autoridades”. E eu insisto: só estarão aqui, representantes, duvido que indiquem um presidente ou primeiro-ministro. Nem é desprestígio e sim a aberração da posse no primeiro dia do ano. Quem ficará satisfeito de estar num avião amanhã ou depois?

A CORRERIA DOS GOVERNADORES

Os governadores, todos, mesmo os reeeleitos, tomam posse no dia 1º. Mas querem ir a Brasília, apertar a mão da nova presidente.  Estão marcando a posse para mais cedo, aviões com motores roncando para levar governadores a Brasília. Alguns já garantiram até “carona” com vizinhos mais importantes.

RECORDANDO 1986: SARNEY E TASSO

José Sarney convidou o então governador do Ceará, Tasso Jereissati, para ministro da Fazenda. Meia-noite, quando Sarney telefonou (convidou também um personagem do Rio), Tasso não tinha transporte, ligou para o governador de Sergipe, sabia que ele tinha avião.

Jereissati, satisfeitíssimo, viajou para Brasília, chegou por volta das 7 horas da manhã. Não adiantou tanto esforço, já estava VETADO pelo Doutor Ulisses Guimarães.

O representante do Rio tomou posse, como se não tivesse acontecido nada. Não roubou, mas foi inutilidade completa, substituído logo depois.

MARCOS FREIRE E A REFORMA AGRÁRIA

Com Sarney não deu nada certo. Convidou o senador Marcos Freire (belo personagem) para ministro da Reforma Agrária. Estive com ele no Rio Grande do Norte, na inauguração da TV Cabogy, de Aluizio Alves.

Intimíssimo de Marcos Freire, me revelou: “Helio, estou fazendo a reforma agrária para valer. Acho que está com 50 anos de atraso. Mas estou recebendo muitas ameaças, “para ou morre”.

Marcos não era homem de parar coisa alguma, continuou a reforma. Poucos meses depois, o ministro da Reforma Agrária morria num estranho acidente de avião, que explodiu no Pará ao decolar, matando ele e mais sete pessoas. Agora na posse de 37 ministros, é hora de lembrar a eles: “Fazer pode ser perigoso e até mortal”.

Conversa com leitores-comentaristas, sobre a inutilidade de fazer oposição a Dilma antes mesmo dela assumir

Antonio Aurelio: “Helio, não há como esquecer que você não duvidou um minuto sequer da vitória de Dona Dilma. Mas não era dilmista tão ferrenho como hoje. O que houve? Como diziam antigamente, mudou o Natal ou mudou o senhor?”

Comentário de Helio Fernandes:
Ah! Aurélio, ela ainda não me decepcionou tanto quanto você. Queria que eu combatesse uma presidente que ainda nem está no governo? Isso seria insensato. Segundo tua observação, um jornalista, para ser coerente, deveria fazer oposição antecipada, e torcer para que ela errasse bastante.

Não dá, Aurélio. Luto sempre pelo Brasil, pelo seu desenvolvimento, seu progresso, pela prosperidade do país, não pelo fracasso geral. Como eu já disse, Aurélio, Dona Dilma não precisa de mim para nada, o contrário também é verdadeiro.

DILMA NÃO SOFRERÁ INFLUÊNCIA DE LULA?

Marina: “Helio, você acredita que a mudança de governo será notada logo no primeiro dia da posse? Dilma não sofrerá influência de Lula? É difícil acreditar”.

Comentário de Helio Fernandes:
O dia todo, Marina, ele fica atordoado, não só mentalmente, por causa do fato de ter atingido o último posto da carreira política. E fisicamente, não só a posse, mas a emoção do juramento, do discurso, dos cumprimentos. Depois desse dia longo e interminável, irá para casa descansar, no dia 2, então terá que estar preparada para tudo. O previsível e o imprevisível, o aceitável e o inaceitável, a rotina esperada e a perplexidade não imaginada. É um jogo de xadrez, até agora sem tabuleiro, apenas imaginativo.

Já terá dormido a primeira noite no Alvorada, estará em condições de ir para o Planalto. O Poder se assume e se concretiza com essas duas palavras,

Por trás da megalomania ou o Dr. Pangloss tropical

Carlos Chagas

Mais do que  megalomania, é remorso,  diria um estudante do primeiro ano de Psicologia. Uma necessidade absoluta de, autoelogiando-se, tentar  inutilmente demonstrar  que fez o melhor para o país e que não traiu seu eleitorado em 1994. Porque quando Fernando Henrique Cardoso  firmou-se como candidato, graças ao apoio do então presidente Itamar Franco, trazia o perfil de um socialista moderado. Era alguém que daria mais alguns passos no rumo da justiça social, que governaria para o andar de baixo e para a classe média, respeitando e até ampliando os direitos trabalhistas e afirmando a soberania nacional.
                                             �
Não é brincadeira: por isso ele foi votado, em contraposição a um Lula ainda tido como o lobisomem das elites e do mercado. O país queria mudanças, mas dentro da tranqüilidade, sem radicalismos.
                                             �
Depois, foi o que se viu. A farsa da flexibilização, que o candidato jamais admitiu em campanha. O desmonte dos direitos sociais fixados na Constituição, a  quebra dos monopólios essenciais à nacionalidade e a entrega pura e simples de nossa economia ao estrangeiro. Mais  as  privatizações, boa parte com dinheiro público,  dos fundos de  pensão, do BNDES, do Banco do Brasil e similares.
                                              �
Tudo isso era o oposto do que o Brasil esperava, mas,  como o andar de cima entrou em orgasmo  financeiro, ampla campanha de propaganda ofuscou a perplexidade e a indignação nacional. O campeão do socialismo transmudou-se em tirano do neoliberalismo sem que seus eleitores nada pudessem fazer.
                                                �
Nem  se fala, hoje, do golpe sujo da reeleição comprada a dinheiro vivo, muito menos do uso da máquina pública para garantir-lhe mais um mandato.�
                                                �
O resultado aí está: de forma compulsiva, FHC não perde um dia sem aparecer na mídia, buscando travestir a História e mostrar-se como quem mudou o Brasil, conforme ainda esta semana declarou num programa de televisão. Chegou a dizer, “sem falsa modéstia”, que o país era um, antes dele, passando a ser outro, depois.  Nesse particular pode ter razão: outro que ele transformou em  paraíso dos especuladores e inferno do trabalhador e dos  assalariados de pequena renda, sem falar nos miseráveis cujo número  multiplicou-se.�
                                                  �
Vendo as coisas  mudarem nos anos Lula, ainda que nem tanto na economia, o ex-presidente passou a exaltar o que realizou de pernicioso como se tivesse sido a base do que o sucessor realizou de benéfico para a população carente. Um artifício de raciocínio digno do Pinóquio, no qual ninguém mais acredita.
                                                    �
Assim estamos quando o ex-presidente começa a trocar o  alvo de suas invejas. Do Lula, está passando para Dilma, a quem acusou de não terminar raciocínios, não entendendo o que ela quer dizer. Deve-se, essa oclusão, a estar utilizando um tipo novo de óculos, no caso, de um dr. Pangloss dos trópicos…

MALHAR EM FERRO FRIO

Será repetir o que muitas vezes temos escrito, mas o absurdo vem desde 1988 e o Congresso, em sucessivas Legislaturas, não se animou a corrigir. A posse de presidentes da República no primeiro dia de janeiro, de quatro em quatro anos, significa uma aberração. Não dá para nenhum ser humano festejar a passagem do ano, em família ou sem família, e  horas depois assistir a cerimônia de posse de um novo chefe de governo. 

Não é por conta da presença ou da ausência de chefes de estado e de governo, muitos impossibilitados de pegar o avião e chegar a Brasília  a tempo  homenagear quem entra e quem sai. Falta, propriamente, eles não fazem, numa festa essencialmente nossa. O que salta aos olhos é a diversidade de situações. Dizem vir por aí a reforma política, mais uma oportunidade de alterar o calendário para dez dias antes ou dez dias depois do Ano Novo, já que este não pode mesmo ser mudado.

De Gary Cooper a Sérgio Cabral: Matar ou Morrer

Pedro do Coutto

O governador decidiu instituir no Estado do Rio de Janeiro, acolhendo projeto da Secretaria de Segurança, uma estranha e surpreendente gratificação para a PM e Polícia Civil: a gratificação por redução de mortes em conflito. Absurdo. Não é por aí. Os vencimentos dos policiais, muito baixos, sem dúvida, precisam ser melhorados, porém não dessa forma. Não faz sentido. Os desfechos fatais não dependem apenas dos agentes da lei e sim da ousadia dos criminosos e de sua disposição de resistir às ordens de captura e prisão.

Os leitores já perceberam que tenho o hábito citar as fontes de informação que comento. Vamos lá. São três: a reportagem de Fábio Vasconcelos e Sérgio Ramalho, O Globo de 28, o filme famoso de Fred Zinnemann, com Gary Cooper, Grace Kelly e Katy Jurado, as mensagens impressionistas de Élio Gáspari, criando correspondências do além entre os que já se foram e os administradores que permanecem aqui.

Em “Matar ou Morrer” (High Noon), Gary Cooper é o xerife solitário que tem de enfrentar bandidos presos por ele, mas que retornam à cidade para matá-lo. A curiosidade do filme é que ele tem a mesma duração do espaço que marca o início da ação e o duelo final. Duas horas.

Duelo final. O problema é este, não outro. O governador Sergio Cabral instituindo uma recompensa pela não morte (exatamente o contrário do que fez Marcelo Allencar), indiretamente está contribuindo para, em vez de diminuir, aumentar os riscos dos policiais que aparentemente tenta gratificar.

Os problemas financeiros atingem os contingentes, inclusive a tropa de elite, e a perspectiva de ganho extra pode levar a vacilações que contribuam para elevar, não a morte dos criminosos, mas sim a dos agentes da lei. Sergio Cabral não pensou bem no assunto. Não pesou todas as parcelas que conduzem a situações de risco. Ele se baseou em estatísticas. Tudo bem. Mas não analisou devidamente os números.

Vejam só. Partiu da comparação entre os Estados do RJ e o de São Paulo, para uma população de 40 milhões de habitantes, houve – revelam Fábio Vasconcelos e Sérgio Ramalho – 2.312 homicídios no primeiro semestre do ano. No Rio de Janeiro, total de 18 milhões de habitantes ocorreram 2.556 crimes de morte. Uma desproporção enorme. Que acentua ser o RJ muito mais perigoso do que SP.

Houve no Rio, no mesmo espaço de tempo, 134 latrocínios (roubo seguido de morte). Em São Paulo muito menos: 76. Os homicídios e latrocínios são situações limite. Sergio Cabral não levou este aspecto em conta, precipitando-se em dar uma solução a um problema tão múltiplo quanto complexo.

O governador baseou-se nas mortes assinaladas como praticadas em atos de resistência. Em São Paulo (estado todo, não esqueçamos) 281. No RJ, 505. A partir daí, Cabral traçou um patamar comparativo e resolveu – não se sabe ainda como – pagar gratificações em escala variada pela redução em 6,7% dos casos em que a Polícia Militar e a Polícia Civil matam bandidos.

A ideia não tem pé nem cabeça, como se diz. Aferir o número de mortes não é tarefa difícil. Mas avaliar o grau de risco dos policiais não é possível. A variação de situações, à base de escalas estatísticas, é impraticável. E mais um aspecto essencial que diferencia o Rio de São Paulo: as favelas. As áreas de risco paulistas construídas pela pobreza e ocupadas pelo tráfico são planas. As cariocas montanhosas. Os bandidos atiram de cima. Veja-se o exemplo do Complexo do Alemão. Foram necessários tanques de combate para derrubar as barricadas.

E não é só. Em 2007, o governo estadual tentou, durante 90 dias, invadir o local e a Vila Cruzeiro. Não conseguiu. Morreram policiais e inocentes. Para os policiais, em ação nas favelas, a alternativa mais lógica é agir como Gary Cooper no clássico de Fred Zinnemann.

Com 1,6 milhão de dólares no bolso, Assange agora tem como se defender na Justiça e seguir lutando pela democratização das informações, via WikiLeaks

Carlos Newton

Com a decisão de lançar seu livro de memórias, o que já era mais do que esperado, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, vai marcar mais um grande ponto em sua luta pessoal pela democratização das informações, com a divulgação de documentos secretos dos mais diversos países.

O livro será lançado pelo editor americano Alfred A. Knopf e depois, é claro, vai se tornar um filme de sucesso, garantindo a Assange a retaguarda financeira de que necessita para enfrentar os mais poderosos governos do mundo.

Assange declarou ao jornal “The Sunday Times”, na Grã-Bretanha, que se viu obrigado a fazer um acordo sobre um livro por causa das dívidas que começa a acumular para se defender nos processos que abrem contra ele.

“Não quero escrever esse livro, mas tenho de fazer isso”, disse Assange, citando a crescente conta de serviços jurídicos, que já passa de 200 mil libras. “Tenho de me defender e manter o WikiLeaks no ar.”

Assange, de 39 anos, é um australiano especialista em computadores que enlouquece as grandes potências mundiais ao divulgar despachos diplomáticos secretos em seu website, fazendo acordo com alguns jornais no mundo para amplificar o impacto das revelações.

Ele está agora sob liberdade condicional, em prisão domiciliar em uma casa na região rural da Inglaterra, enquanto luta contra a extradição para a Suécia, onde as autoridades querem interrogá-lo numa acusação de delitos sexuais.

As acusações são ridículas, mas perigosas. Ele foi denunciado por fazer sexo com várias mulheres (separadamente, destaque-se) sem usar preservativo. Na Suécia isso é crime, e grave, vejam vocês, apesar de as parceiras sexuais dele terem consentido.   

Mas afinal o que é o tal de WikiLeaks? Na verdade, trata-se de uma organização transnacional sem fins lucrativos, sediada na Suécia, que publica, em seu site, posts de fontes anônimas, documentos, fotos e informações confidenciais, vazadas de governos ou empresas, sobre assuntos sensíveis.

Ou seja: o site aceita as informações e garante o anonimato das fontes, o que é essencial para a democratização das informações. Para a postagem, a WikiLeaks recomenda expressamente o uso do Tor, visando a preservar a privacidade dos seus usuários, e garante que a informação colocada pelos colaboradores não é rastreável.

Assange explica que o site foi construído com base em vários pacotes de software, incluindo MediaWiki, Freenet, Tor e PGP. Apesar do seu nome, a WikiLeaks não é uma wiki – ou seja, leitores que não têm as permissões adequadas não podem editar o seu conteúdo.

O site, administrado por The Sunshine Press, foi lançado em dezembro de 2006 e, em meados de novembro de 2007, já continha 1,2 milhões de documentos. No site, a organização The Sunshine Press informa ter sido fundada por dissidentes chineses, jornalistas, matemáticos e tecnólogos dos Estados Unidos, Taiwan, Europa, Austrália e África do Sul. Assange, como jornalista, é o diretor do site.

O WikiLeaks só começou a ser mundialmente famoso em abril deste ano, quando divulgou um vídeo mostrando um helicóptero Apache dos Estados Unidos, no contexto da ocupação do Iraque, matando pelo menos 12 pessoas – entre as quais dois jornalistas da agência de notícias Reuters – durante um ataque a Bagdá , em 2007.

Outro documento polêmico mostrado pelo site é a cópia de um manual de instruções para tratamento de prisioneiros na prisão militar norte-americana de Guantánamo, em Cuba.

Bem, esperamos que Assange se livre logo dessas acusações ridículas e passe a fazer sexo com preservativo. Nunca custa nada ter essa precaução, especialmente porque agora está provado que a falta do uso da camisinha tem múltiplas utilidades, inclusive no mundo da política diplomática.

Faltam 3 dias para a posse de Dona Dilma, e o ainda presidente Lula só fala na sua reeleição, “ela tem todo o direito”. É estranho, não surpreendente, mas inexplicável.

Helio Fernandes

Eleita em 2010, a posse marcada para o primeiro dia de 2011, seu grande inventor, patrocinador e eleitor, não esquece de 2014, Repete e insiste, no que todos sabem, não foi inventado por ele e sim pelo antecessor, FHC. Quer dizer, comprado por ele, herdado por Lula, que como FHC, queria mais. O terceiro mandato.

Lula esteve mais perto dessa sucessão tão ansiada do que FHC. Não importa se vale ou não vale a pesquisa. A verdade é que Lula sai com 83 por cento de aprovação. Curiosa e contraditoriamente, foi essa inédita e inacreditável popularidade, que impediu Lula de tentar continuar de “forma legítima”, espremendo os votos do Congresso.

Para Dona Dilma, três dias que representam a eternidade da lentidão. Para Lula, velocidade incrível, ele mesmo deixa que isso fique bem visível, embora todo e qualquer objetivo a partir daí, seja rigorosamente invisível e até insensato. E para o povão, para os brasileiros, para toda a coletividade, o que pedir e esperar?

Lula deu entrevista coletiva, multidão de jornalistas querendo saber do Lula que está indo embora, e ele com a obsessão Dona Dilma. Lula disse algumas coisas que não tem como provar ou garantir, se referem ao futuro. Mas sobre ele mesmo, deu respostas interessantes.

Um jornalista desativado sem saber, perguntou ao presidente: “Como o senhor terá muito tempo, aproveitará para estudar?”. E Lula com simplicidade, mostrando ao jornalista o quanto ele mesmo precisa aprender, respondeu: “Em qualquer lugar ou qualquer época eu não poderia aprender o que aprendi nos 8 anos de governo”. Perfeito.

Dominando o ambiente, e vendo como eram e normalmente são primários tantos jornalistas, “botou banca”, flertou com a arrogância, afirmou serenamente: “Pensei que fosse mais difícil governar. Foi até fácil e gostoso”. Evidente que era gozação.

Demonstrou total “fé e certeza de que a Dilma fará um grande governo, cumprirá todos os compromissos assumidos com os 55 milhões que votaram nela”. Sobre isso, não há nem análise, avaliação ou comentário, tudo fica no terreno da imaginação. E do tempo.

É lógico que ela sabe que tem que FAZER e IMEDIATAMENTE, mas por onde irá começar? Os 37 ministros recolhidos, escolhidos, admitidos e a partir do dia 1º já nomeados e assumidos, serão participantes de um processo que tem que ser sempre positivo, avançado, executado sem qualquer interrupção. Ela sabe, participou de muita coisa, de quase tudo, que governar não tem nenhuma facilidade. Não é mesmo, haja o que houver. Lula estava apenas tentando confundir e impressionar alguns jornalistas.

Poucos perceberam que era o último show de Lula no Poder, ele se mostrava saudoso e pomposo, só tinha três dias no Planalto-Alvorada. Pode voltar ao Planalto, excepcionalmente, para um cafezinho, ao Alvorada não voltará nunca mais, e sabe muito bem disso.

Dessa forma, tenta confundir os fatos e as previsões. Os fatos precisam acontecer e não dependem dele. As previsões são dele, mas não se baseiam em fatos. Na entrevista coletiva insistiu tanto no “direito à reeeleição, garantido para Dona Dilma”, que fez uma parada, botou a mão na cabeça: “A Dilma só não ficará mais 4 anos, a partir de 2014, se não quiser”. Ha!Ha!Ha!

Reconheçamos: ninguém quis tanto a presidência, perseguiu tanto o Poder quanto Lula. Perdeu três vezes seguidas. Em 1998, sabia que não tinha nenhuma chance, perderia no primeiro turno. Mas teve a percepção exata; o companheiro que disputasse em 1998, perderia, mas ganharia o direito de concorrer novamente em 2002.

Assim, muitos acreditavam que Lula “estaria indo para o sacrifício”, esse sacrifício era dos concorrentes. Ganhou então na quarta e na quinta disputa, não conseguiu materializar a sexta, apesar do grande trabalho de bastidores.

Portanto, como Dona Dilma se alimenta e se sustenta, política e eleitoralmente do mesmo cardápio de Lula, se lutou tanto pela primeira presidência, por que recusaria a segunda? Lula não pode nem criaria deliberadamente, obstáculos para ela? Mas esses obstáculos existem, querendo ou não querendo.

Por exemplo: assim que assumir, haverá o prolongamento do que está havendo agora; a luta pela presidência da Câmara, cargo importantíssimo. Parecia tudo resolvido, mas “aliados e adversários”, não satisfeitos com o que receberam, tentam a intimidação, sempre baseada e impulsionada pelo subserviente PCdoB.

(Amanhã relatarei o que está acontecendo, e o esforço que Dona Dilma terá que fazer, durante todo o mês de janeiro, para garantir o esquema aprovado. Precisará dispor de mais cargos para “aplacar o exibicionismo e a ambição” de alguns).

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PS – Manchete interpretada, mas errada. Texto adivinhação na Primeira: “Lula agora diz que Dilma será sua candidata daqui a quatro anos”. Não afirmou nada, confundiu tudo, fez questão de se manter em primeiro plano. “Se Dilma quiser”, é a incógnita que colocou.

PS2 – FHC não aguentou tanto silêncio em relação a ele, e o festival de noticiário envolvendo Lula e Dilma. Não resistiu, veio a público, assumiu: “Sem falsa modéstia, quem mudou o Brasil fui eu”.

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AMANHÃ:

Quércia morto, continua o “Disque para a Corrupção”.
FHC vivo (?) não consegue se habituar com o ostracismo.
Entra na História como o DOADOR das riquezas.
E enriquecedor nacional e multinacional.