Intervenção, já

Carlos Chagas

Completam-se dois meses desde  que  o Procurador Geral da República, com o apoio do presidente Lula, encaminhou ao Supremo Tribunal Federal pedido de intervenção federal em Brasília. Os argumentos são claros: deterioração dos poderes Executivo e Legislativo, com a prisão  do governador e os flagrantes de pelo menos nove deputados distritais e altos funcionários  recebendo propina.  Além das ameaças à ordem pública.

Pois é. Quem vive na capital federal enfrenta o caos. Os apagões  sucedem-se  várias vezes por semana, atingindo não apenas alguns bairros e cidades satélites, mas o Distrito Federal inteiro. Ora o lado Norte, ora o lado Sul. Não só o Congresso fica sem luz.  O centro administrativo e bancário também, além dos tribunais. Semáforos apagados geram  engarrafamentos sem conta. Dias atrás o presidente do Senado, José Sarney,  foi visitar o governador Roberto Requião, na representação do Paraná. Ficou preso  no elevador, precisando escapulir entre dois andares.

O metrô está em greve.  A Justiça determinou que entre 30 e 50% dos serviços continuassem funcionando, como manda a Constituição. Os grevistas dão de ombros e o resultado está sendo o tumulto, pela falta de ônibus capazes de compensar a falta dos trens, sem que nenhuma autoridade obrigue o cumprimento da lei. Já não se estaciona apenas em fila dupla, nas principais ruas e avenidas, mas em fila tripla. E não se encontra um guarda, um policial militar, um agente do Detran para botar ordem.

Mas tem mais. Na periferia, virou aventura sair de casa, ou chegar em casa, depois que o sol se põe. Multiplicou-se o número de assaltos e invasões a residências. Quando  manifestações públicas se sucedem, se é para reprimir estudantes, aparece a cavalaria da Polícia Militar. Se são policiais que protestam, recebem garantia para a ocupação de prédios públicos, jardins e avenidas por horas a fio.

Enquanto isso, a Câmara Legislativa prepara-se para eleger um governador-tampão, já que o atual sumiu. Os deputados distritais vão votar num deles, sem limitações para a eleição sequer dos flagrados botando dinheiro podre no bolso, na bolsa ou na meia. O governador, já deposto pela Justiça Eleitoral, continua preso.

Indaga-se: é ou não caso para a intervenção federal? Com a palavra o Supremo Tribunal Federal.

Daqui a trinta anos

Não adianta, o “cara” continua  em sua  cruzada contra a mídia. Disse esta semana que daqui a trinta anos os historiadores irão basear-se nos jornais para reconstituir o período atual, correndo o risco de se deixarem influenciar pelo noticiário distorcido e maldoso hoje apresentado.  Não foram bem as palavras que o presidente usou, porque de novo atropelou  o vernáculo, mas a idéia é essa.

Mais uma vez com todo o respeito, o presidente Lula carece de razão. Apesar de erros monumentais que os meios de comunicação cometem, muitos até por má-fé e interesses escusos, a verdade é que desde Guttemberg  a imprensa vem se constituindo  na fonte primária da História. Apresenta os fatos sem retoque, ao contrário das versões posteriores,  encomendadas para ajeitar situações e poupar personagens.

Tome-se o exemplo do mensalão.  O universitário do futuro tomará conhecimento de uma das maiores lambanças verificadas nos tempos atuais pelas versões do PT e as negativas do próprio primeiro-companheiro ou pelo noticiário dos jornais?

Lições de Pedro Aleixo

Em depoimento no Senado, o ministro Edison Lobão lembrou episódio de 1969, quando o então presidente Costa e Silva,   pretendendo livrar-se do AI-5, pediu a Pedro Aleixo para elaborar uma emenda à Constituição, restabelecendo a normalidade institucional. Foram semanas de imensas  dificuldades, com os radicais que Lobão chamou de “áreas sensíveis” atropelando o trabalho do vice-presidente,  afinal malogrado pela doença do chefe do governo.

Sobre o  período, vale acrescentar um detalhe. No final de uma  daquelas reuniões onde certos “jurilas”, mistos de juristas e gorilas, tentavam sabotar o trabalho do dr. Pedro,  ele deixou a ante-sala presidencial cabisbaixo e abatido. Um amigo aproximou-se, buscando levantar seu ânimo, porque das vinte e uma sugestões que havia formulado naquela tarde,  apenas a última tinha sido aceita. Encaminhando-se para o elevador, recomendou ao interlocutor: “Passe na minha sala daqui a meia hora e conversaremos”.

O amigo, então muito jovem, foi e ouviu do vice-presidente: “Você não entende nada de política. Estou satisfeitíssimo com a reunião de hoje. Eu só queria, mesmo, aprovar a última sugestão. As demais foram cortina-de-fumaça para fazer-me parecer derrotado e, no final, aceitarem como prêmio de consolação a verdadeira mudança pretendida”…

O PAC II e o futuro

Declarou o presidente Lula que o PAC II, a ser divulgado nos próximos dias, servirá para que o seu sucessor (ou sucessora) não perca tempo elaborando planos de obras, mas já encontre definidas as metas a desenvolver.

Novamente com todo o respeito, mas esse raciocínio significa que o chefe do governo pretende engessar quem vier a sucedê-lo, determinando o que deve fazer. Uma intromissão indevida no livre arbítrio de quem vier a liderar a nação. Se for Dilma Rousseff,  menos mal. Ela é uma espécie de papel carbono do Lula. Mas se for José Serra, que reação terá ao receber um prato-feito referente ao seu mandato? Botará no fundo da gaveta, se for educado, ou na lata do lixo, se não for. Menos por conta do conteúdo, capaz até de surpreender pela qualidade, mais  por tratar-se de megalomania de quem, devendo desencarnar, imagina transformar-se em anjo da guarda ou alma penada…

Sarney: Também posso ser vice

Assim que começaram a falar e a coordenar o nome de Itamar Franco para vice de Serra, (no caso de Aécio não aceitar) o presidente do Senado gritou: “Por que não eu? Já fui presidente como ele, também fui governador, estou no quinto mandato de senador, tenho a mesma idade”.

Sarney esqueceu de duas coisas. 1 – Ninguém lembrou do nome dele. 2 – Itamar tem muitos inimigos, o que natural, mas jamais foi acusado de desonestidade.

Suplicy, “descandidato
depois da derrota de 1994

Pretende ser candidato a governador de São Paulo, foi derrotado fragorosamente, que palavra, há 16 anos. E não quer prévias e sim pesquisas.

O presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, derrotado para governador, para senador e governador, não quer nem ouvir falar no assunto. O PT não ganha de ninguém em SP. Talvez a ex-mulher dele ainda seja a que perderá em melhores (?) condições.

Arruda, em liberdade, ignorado, no ostracismo

Como disse ontem, o governador afastado-licenciado-cassado, será posto em liberdade. Ninguém se preocupa mais com ele. Hoje, pela manhã, me falaram que está providenciando passaporte, não quer estar no Brasil no 3 de outubro, dia da eleição.

Tentei saber para onde iria, resposta: “Para a Suiça”.

Perguntei se ele gosta tanto de “relógio ou chocolate”, o informante, rindo, “você esqueceu, Helio, do outro grande fato de importãncia da Suiça?”

E lembrou: “Noutro dia você registrou a informação de um  amigo: O que é que o filho de Lula está fazendo, entrando no maior banco de Zurich?”.

Desaba o prestígio do Papa

A frase, vulgar e premeditada: “Não se lava roupa suja em público”. Pode ser, mas essa “roupa estava suja”, pela omissão dele mesmo, antes de chegar ao Vaticano.

O Papa perdoou um padre,  que “molestou 200 meninos surdos”. Que apetite de indecência, vergonha, insensibilidade, atentado à fe e à humanidade. Por causa da condição dos “molestados”, Bento XVI fez questão de ficar surdo e mudo. Agora vem a público pedir o esquecimento. No Vaticano não há impeachment?

Condenação do casal Nardoni

Não têm uma possibilidade em 1 milhão de serem absolvidos. Na opinião pública estão condenados pela emoção, uma parte verdadeira, outra fabricada.

No Tribunal do Júri criado na Inglaterra e seguido no mundo todo, são 12 jurados e a exigência de UNANIMIDADE, (muitas vezes obtida) pode prevalecer a “DÚVIDA RAZOÁVEL“, que foi o que inspirou o rei João Sem Terra a criar esse tribunal.

Com 7 jurados e a decisão por MAIORIA SIMPLES, como se o tribunal fosse um órgão político, muitos resultados foram de 4 a 3. No caso Nardoni, terão no máximo 1 voto. Poderão e deverão recorrer ao Tribunal de Justiça, que examinará se o resultado não correspondeu à MANIFESTA PROVA DOS AUTOS.

(Estou escrevendo esta nota às 9 da manhã, quando começará o que deve ser o último dia do julgamento).

O homem público Bernardo Cabral

Vicente Limongi Netto:

“Quero participar das homenagens amanhã, sábado, dia 27, para o jurista, professor, ex-ministro, ex-senador, cidadão do mundo, Bernardo Cabral, que completa 78 anos de idade. Cabral pode olhar para o passado e ver que o tempo não passou em vão. Pelo caminho, deixou marcos de realizações que representam contribuições para o Brasil e para a coletividade. Mais um aniversário de Bernardo Cabral é data cheia de significados. Espero que o Brasil possa contar com o talento e a experiência de Cabral por muitos anos.”

Comentário de Helio Fernandes:
Bernardo representou sempre o Amazonas pensando no Brasil. Cultura notável, títulos e mais títulos na sua área de advogado e jurista, mas em outras, bastante diversas, diversificadas, diferentes. É brilhante em todas.

No dia 26 de março de 1981, às 4 da madrugada, quando a Tribuna ia pelos ares, Bernardo estava lá diante dos escombros, lamentando e revoltado. Ao lado de Sobral Pinto, doutor Barbosa Lima, meu amigo Alceu Amoroso Lima e tantos outros.

Cassado, quando descassado, fez carreira notável. Agora, no Amazonas, foi convidado a voltar ao Senado, duas vagas e apenas um vencedor, o governador. Disse NÃO, seus planos são o de viver e estar com os amigos. Esse é um objetivo já alcançado, mas que tem no mínimo, no mínimo, mais 22 anos para consolidar.

A sucessão de Lula, uma semana antes da desincompatibilização. A mais vergonhosa, mistificadora e sem projeto de toda a história. Teremos saudades da “República Velha”, quando candidatos tinham plataforma

Na Primeira República, (a conhecida “República Velha” ou “carcomida”) apesar de todas as acusações e até injúrias, as coisas se passavam a descoberto, com regras impostas pelos governantes, e o povo não sabia de nada. O presidente escolhia seu sucessor, só havia um partido, o Republicano, tudo se encerrava dessa forma.

Não havia campanha, a eleição era em 1º de março e a posse em 15 de novembro. O país, enorme, a eleição levava muito tempo. Mas 3 meses antes da eleição, o candidato (único, naturalmente, excetuando Rui, quando disputava, que usava o voto independente) lia a sua “PLATAFORMA” de governo. Era no “Clube dos Diários”, na Rua do Passeio, num prédio em frente à belíssima escultura de Mestre Valentim, hoje no Jardim Botânico.

Era uma grande festa, dita democrática, pelo menos existia um projeto ou compromisso de governo, embora logo depois da posse tudo ficasse esquecido. O “Clube dos Diários” desapareceu (na época tinha representatividade), hoje apareceu a inútil, inexistente, imprevidente e humilhada ANJ (Associação Nacional de Jornais).

Foi assim até 1930, pulemos logo para 2010, nesses 80 anos, várias ditaduras e os naturais períodos de transição para “salvar a cara” dos ditadores. Representatividade, convenções partidárias, escolha democrática dos candidatos, tudo igualzinho ao passado.

Os governantes inventaram a “reeeleição”, e só não obtiveram a BIREEELEIÇÃO, ficou impossível.

Esgotada a possibilidade do “terceiro mandato”, (que FHC também não conseguiu), Lula partiu para a entronização de um candidato que não atrapalhe a sua volta em 2014. Concordando inteiramente: Lula acertou em cheio implantando Dona Dilma.

É lógico que não concordo com ela e sim com ele. E concordo com ele pela sabedoria (?) de pretender eleger quem não tem voz, não tem vontade, não tem voto. Se for eleita, terá que perguntar tudo a ele, que acabará explodindo: “Mulher, faça alguma coisa por você mesma, tudo eu, tudo eu”?

Outra vitória retumbante de Lula foi patrocinar uma candidata que não tem um voto dentro do partido, diz ela que é o PT. (O Santos Aquino, que sabe das coisas, diz que ela era do PDT, saiu levando muita gente. Brizola havia morrido, ela adora vulgaridade, recitou, “rei morto, rei posto”, mudou imediatamente).

Como as coisas estão complicadas no Planalto-Alvorada, não há vice, a “base” se esfacelou. Lula continua querendo Meirelles, está difícil. Portanto esperemos, as dúvidas são muitas.

Rapidamente, então, examinemos o outro candidato, arrogante, insignificante, prepotente, petulante, imprudente e eleitoralmente masoquista. Com todas essas indicações, nem precisa a redundância de dizer que se chama José Serra.

Sem um pingo de coragem, fugiu no 1º de abril, passou 15 anos fingindo que havia recebido uma “bolsa de combatente”, era exatamente o contrário. Esgotou o “caviar do exílio”, voltou, passou a se alimentar com a feijoada ou o churrasco do Poder. Não largou mais.

(Excetuado o período da “corretora de valores”, que empresários poderosos de São Paulo movimentaram para ele. Apostavam NELE E NO FUTURO, NADA MUITO DIFICIL. Apesar disso tudo, está com enormes problemas, tão grandes que teve que retardar a saída do governo).

Repetindo: como não tem o mínimo de coragem cívica, ao dizer que é presidenciável, completou: “Meu adversário não é Lula”, o que contornou a disputa, e inflou o ego do próprio Lula. Também não tem vice, insistiu durante quase um ano no nome de Aécio.

Em setembro-outubro escrevi aqui, depois repeti: “Se o governador de Minas aceitar ser vice do governador de São Paulo, podem dizer que eu sou o pior analista do mundo”. Era fácil de afirmar, por causa deste fato: quem garante a Aécio vice, que Serra será presidente?

Não é desprendimento de Minas e sim incerteza em São Paulo. Podendo ganhar 8 anos de senador, por que o atilado Aécio iria aceitar a migalha não garantida de 4 anos de vice subordinado?

Portanto, o jogo preliminar, perdão, primário, começa dentro de uma semana. Serra terá que passar o cargo a um vice ainda mais insignificante, o ex-stalinista Alberto Goldman, que não tem votos nem prestígio.

Nesse item, Dona Dilma leva vantagem circunstancial pelo fato do eleitor maior permanecer no cargo. A luta se travará entre os vices, e na contagem dos palanques, que não terão a menor importância.

***

PS – Importantes os minutos da televisão. (Com a ressalva para o Enéas, que com 26 segundos, teve a criatividade de usar o tempo para lembrar, “Meu nome é Enéas”).

PS2 – Para terminar por hoje, por hoje, uma referência ao dinheiro que será gasto. A “capacidade” e a falta de constrangimento dos dois (lógico, Serra e Dilma) de GERAR DINHEIRO, SÓ COMPARÁVEL À DE FHC E LULA, DE ENDIVIDAR O PAÍS.

PS3 – Para lembrar e estarrecer a todos: FHC foi conversar com Joaquim Roriz, o CORRUPTO DOS CORRUPTOS, que iniciou Arruda no crime de se aproveitar dos dinheiros públicos.

PS4 – Com Arruda quase vice de Serra, este afirmou, “nem sei quem é esse Arruda”. Agora, o ex-presidente procura Roriz, mas garante: “Não tenho procuração ou credencial do PSDB para conversar com Roriz”. Ha!Ha!Ha!

Desenterrando Delfim

O ministro ainda não embaixador, era um grande frasista, sempre se renovava. Quando registrei o que ele falou de sua felicidade, usei a palavra EXTRAORDINÁRIO. Desculpem, ela não existiu.

O que Delfim falou para os seus “meninos”, empolgado e embevecido: “Os dias do Poder são ESPLENDOROS, mas as noites do Poder, ah!, as noite do Poder são EMBRIAGADORAS”.

Ponte Rio-Niterói:
SATURADA, dizem alguns

É evidente que está, tem 13 mil e 200 metros, menor apenas do que a ponte sobre o Rio Tejo. Era desejada há muito tempo, o que não significa que tivesse que custar tanto, com tanta comissão por fora. Especialidade do ministro-embaixador.

Jogo de compadres

Carlos Chagas

José Serra acaba de levantar a bola para o Lula cortar. Declarou que meta não é promessa, ao justificar porque algumas estações do metrô de São Paulo não foram entregues à população na data antes anunciada. Sendo assim, melhor argumento não haverá para explicar o atraso nas obras do PAC I.  Foram metas, não promessas, mais da metade das quais furadas.

Quem quiser que se engane quando, dentro de poucos dias, o governo divulgar o PAC II. Vai valer  tudo, desde a erradicação do analfabetismo à entrega de uma casa para cada brasileiro. O desvio das águas do Amazonas para o Rio Grande do Sul, a implantação do trem-bala no trecho Manaus-Porto Alegre,  a distribuição de montes de ações da Petrobrás para cada bebê nascido desde 2003 e quantos disparates a mais poderão ser incluídos na segunda versão das promessas de campanha de Dilma Rousseff?

Por essas e outras muita gente anda desiludida com a sucessão presidencial. Entre Serra e Dilma, dão um pela outra e não querem volta. Trata-se de um exagero, é claro, mas  o governador de São Paulo dá a impressão de que entrará de salto alto na disputa. Uma coisa é a baixaria, que espera-se não venha a acontecer, mas outra igualmente triste é o compadrismo entre os candidatos. Se é para continuar tudo como está, logo aparecerá alguém sugerindo melhor deixar o Lula no governo…

Bicadas no ninho

Coube ao senador Artur Virgílio protestar contra a inusitada intervenção do ex-presidente Fernando Henrique na política do Distrito Federal. Para o líder do PSDB no Senado, o sociólogo não tem procuração para selar acordos nas sucessões estaduais e, muito  menos, para prometer a presença de José Serra nos palanques de Joaquim Roriz, por ele recebido esta semana em São Paulo.

Há quem identifique nas trapalhadas de FHC uma vontade de não se afastar do palco, ainda mais agora que lá do exterior figuras de projeção lembram o nome do presidente Lula para secretário-geral das Nações Unidas. Ele não quer, rejeita qualquer sondagem, mas a simples menção da hipótese desperta quilos de frustração no antecessor. Afinal, quem fala cinco línguas, escreve livros complicados e pronuncia conferências esotéricas pelo mundo?

A reação de Artur Virgílio não foi isolada, apesar dele ter sido escalado para único  crítico, tendo em vista não conturbar o ninho dos tucanos. Os principais dirigentes do PSDB concordam em gênero, número e grau com o representante do Amazonas, em especial porque a imagem de Joaquim Roriz não será, propriamente, edificante para a campanha de José Serra.

Uma brecha

Uma brecha foi aberta no muro das resistências do  governador Aécio Neves de rejeitar sua candidatura à vice-presidência na chapa de José Serra. Quem abriu foi o próprio governador mineiro, ao dizer que  fundamental será o escolhido ajudar na vitória do candidato. Como não será Kátia Abreu que ajudará,  nem Tasso Jereissatti, basta concluir de quem virá a ajuda mais substancial: dele mesmo, Aécio. A aliança de Minas com São Paulo assusta os adversários.

Ficha limpa, mas nem tanto

O presidente da Câmara, Michel Temer, marcou para o próximo dia 7 a votação da chamada emenda da ficha limpa, que se aprovada impedirá de se candidatarem os candidatos condenados em segunda instância pelo Código Penal. Trata-se de uma meia-sola na proposta original, que negava registro a qualquer cidadão condenado pela justiça criminal, mesmo  passada por um juiz singular.  Os interessados em não cair nas malhas da proibição alteraram o texto para “condenados por colegiado”, ou seja, os tribunais acima da primeira instância. Resta o consolo de que o júri é um colegiado, mesmo na escala inicial dos  julgamentos. Quem tiver sido condenado pelo conselho de sentença ficará de fora das eleições. Isso, é claro, se o projeto for aprovado, coisa de que muita gente duvida…

PSDB oculta FHC e portanto confessa a derrota

Pedro do Coutto

Uma reportagem extremamente importante de Noeli Menezes, Fernanda Odília e Patrícia Gomes, publicada na Folha de São Paulo de 25 de março, ontem portanto, traçou previamente o rumo da sucessão presidencial deste ano. Ao focalizar os preparativos para o lançamento da candidatura de José Serra, marcada para 1º de abril, informou que o PSDB decidiu ocultar a figura de Fernando Henrique Cardoso, colocando-o fora até da lista de oradores do evento. Impressionante.

Para piorar as coisas, a Folha destacou o encontro de FHC com o ex-senador Joaquim Roriz, que renunciou ao mandato de oito anos. Com antecipação enorme, para não ser cassado, por corrupção, focalizado recebendo dinheiro num galpão de Brasília do empresário Henê Constantino.

O PSDB fez exatamente o que o presidente Lula e a candidata Dilma Roussef queriam. Transformar o embate num plebiscito entre a administração de FHC, um desastre, com a de Luis Inácio da Silva, um sucesso de popularidade, longe das eleições. Basta agora ao PT e ao Planalto cobrarem de Serra as realizações de FHC e o conceito popular feito a seu respeito. Não é preciso mais nada.

A direção do PSDB jogou a toalha cedo demais. Talvez tenha trocado a sucessão presidencial pela de alguns estados como o Rio de Janeiro, onde Lula aparenta estar rompido com Sergio Cabral, por inexperiência e infantilidade deste. Cabral – recordam-se leitores- ameaçou não votar em Dilma Roussef se ela aceitasse subir no palanque também de Anthony Garotinho. A ameaça direta não se enquadra na política. Ao contrario. Força os protagonistas a aceitarem o enfrentamento.

O corte dos royalties do petróleo foi uma resposta. E não a única. Depois da primeira tentativa de emenda constitucional, o governo partiu para o campo  legal capaz de diminuir à metade o recebimento dos royalties de 4,9 bilhões de reais para apenas 2,8 bilhões já este ano, corte de 5% no orçamento do RJ já este ano. O mais atingido – Sergio Cabral.

O governador Cabral, aliás, vem demonstrando desequilíbrio emocional. Num dia chora ao receber a notícia do corte dos royalties. No outro, organiza uma passeata à base de samba e sai contando e dançando pelo centro das ruas do Rio. Agora, com o novo projeto Ibsen Pinheiro, não mais inconstitucional, o governador chora novamente ou retira o apoio a Dilma Roussef, abre uma dissidência no PMDB e apoiará Serra? Ninguém pode duvidar que ele fará. Mas não há dúvida quanto a disposição do Palácio do Planalto de isolá-lo das articulações necessárias. Política é assim. A duplicidade torna-se um estilo. Como disse Tenesse Willians na Gata em Teto de Zinco Quente, a mendacidade é o nosso sistema.

Duplicidade rima com mendacidade. Há poucos dias, por exemplo, morreu um político, aos 90 anos de idade, marcado pela duplicidade. Sua memória foi execrada pelos jornalistas da nova geração que só o conheceram pela face ditatorial como ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel. Era o homem do nada a declarar. Isso na triste fase final de sua vida. Mas, a bem da verdade, nem sempre foi assim. Eu me lembro dele em 54, 55 e 56. E posso afirmar: acabou indo para o céu. Pois não fosse ele ter envolvido  general Teixeira Lott, Juscelino Kubitshek  não teria assumido a presidência em janeiro de 56.

Foi Falcão que trouxe Lott para o campo da legalidade, afastando-o das pregações de Carlos Lacerda, que tentou violar todos os resultados eleitorais que perdeu. Falcão, na verdade, foi o grande líder parlamentar da vitória da Legalidade. Nem Caxias foi maior do que Lott, frase sua que ficou famosa, ao comparar o ministro ao patrono do Exercito. Falcão, apesar de tudo, descanse em paz. Não fosse você, não haveria os anos dourados de JK.

Brasília surreal e a próxima libertação de Arruda

José Carlos Werneck:
“Em Brasília tudo é surreal. Não se obedece à cadeia sucessória (a única que funciona é a Papuda). rasga-se a Lei Orgânica, tudo porque quase todo mundo está comprometido com os esquemas de favorecimento e atolados em montanhas de panetones. Tão logo a Justiça Eleitoral cassou o mandato de Arruda, a Câmara Distrital apressou-se em dizer que já estava se preparando para eleger um novo governador. Enfim, como magistralmente definiu a jornalista Eliane Cantanhede, em sua coluna na “Folha de São “Paulo”, uma formidável “ESCULHAMBAÇÃO”. E agora, para completar o quadro surrealista, Wilson Lima, o governador interino, diz que é candidato a governador de verdade. Enquanto isso, o povo, farto de tanta falta de vergonha, continua trabalhando normal e honestamente, coisa que os políticos, não só de Brasília, mas de todo o Brasil, não fazem há muito tempo.”

Comentário de Helio Fernandes:
Obrigado, Werneck, e aplausos por separar a população trabalhadora da capital, dos políticos. Para completar: Arruda deve ir para casa HOJE ou AMANHÃ. O Procurador Geral se convenceu, que sem mandato, Arruda não representa perigo algum. Ao chegar em casa, Arruda terá que passar por cima de todo o capim que cresceu na sua porta.

Lula: auxílio moradia, imitando parlamentares

O presidente tem um vasto apartamento, onde dizia que ia morar. Comprou um triplex para “descansar nos fins de semana”, mas amigos dizem o contrário. O presidente vai morar em Nova Iorque, não virá ao Brasil, a não ser raramente. Só pode ser a ONU.

Curiosidade: ele e FHC podem se encontrar na ONU. Já revelei há meses, que eleito, Serra nomeará FHC embaixador lá. Então, se Lula for secretário geral, terão pelo menos que se cumprimentar. FHC depende da vitória de Serra, Lula não depende de nada, praticamente só de Obama.

Opção para os brasileiros: Dilma ou Serra. Não é opção e sim omissão. E os eleitores?

Plano de saúde de Obama

Os Republicanos acreditavam que o projeto do presidente de estender a proteção contra doenças, (os Planos  de Saúde, que corrompem e enriquecem), não seria aprovado. Acreditavam que pelo menos 4 Democratas votassem contra, assim Obama, de 219 teria 215, e os Republicanos, de 212 pulariam para 216. Não aconteceu, os Democratas votaram “fechados”.

Os Republicanos (?) tentam sabotar o projeto-progressista. Só que o Senado ratificou a decisão da Câmara. Obama sancionou, não há lobista que dê jeito, ou melhor, prejudique mais de 30 milhões de pessoas.

CONVERSA COM LEITORES: 1 – Relações de Lacerda e Mário Lago. 2 – O enriquecimento de Lacerda. 3 – Os royalties do petróleo e pré-sal

Hugo Gomes de Almeida:
“Carlos Lacerda e Mario Lago foram muito amigos nos tempos do Partido Comunista? Depois se separaram, foram se reconciliar na prisão?”

Comentário de Helio Fernandes:
Foram muito amigos nos tempos que começavam em 1932/33, quando os que não eram abertamente comunistas, se declaravam, no mínimo, socialistas ou “trotsquistas”.

Mario Lago, admirável personalidade, era comunista declarado, sofreu muito por isso. Mas jamais quis fazer carreira. E depois do grande sucesso como compositor e no rádio, continuou comunista, era a sua convicção.

No AI-5, revoltado, lógico, não tinha por que ser preso. Mas como no filme “Casablanca”, na confusão, o chefe de Polícia (Claude Rains) determinou, “prendam os suspeitos de sempre”.

Mario Lago foi preso na tarde do dia 15, no intervalo de uma peça no Teatro Princesa Isabel. Fazia um irlandês, estava de saiote e tudo. Foi logo dizendo: “Aqui, só o Helio e o Lacerda são meus amigos, (textual) estou com esta roupa, mas não sou viado”.

***

PS- Na época, a palavra gay ainda não era muito usada, chamavam de viado mesmo.

PS2 – Dormíamos no chão, distantes uns dos outros, às vezes “sobrava um colchão”, todos ofereciam para os outros. Mario e Lacerda se deram muito bem, nunca os ouvi sequer discutir, como eu e Lacerda.

PS3 – Na época, (e depois) os comunistas brigavam tanto, que existia até a provocação expressa na frase: “Os comunistas só se unem na prisão”. Parecia verdade, mas Lacerda dizia, “jamais fui comunista”.

PS4 – Escreveu até um artigo de 32 laudas, (Lacerda era assim) no mensário “Observador Econômico e Financeiro”, tentando se explicar ideologicamente. Ninguém jamais fez tanto mal a Carlos Lacerda do que ele com esse artigo. Nunca se recuperou.

Enriquecimento de Lacerda

Saulo:
”Você não falou nada sobre a riqueza do governador e como ele acumulou fortuna, De onde teria vindo, ele só foi jornalista e governador?”

Comentário de Helio Fernandes:
Já afirmei e é rigorosamente verdadeiro: Lacerda ficou rico vendendo o jornal para o senhor Nascimento Brito. Este, casado com a filha da Condessa Pereira Carneiro, se irritava sendo chamado de genro. O Jornal do Brasil, sem jogo de palavras, era o maior jornal do Brasil, fundado em 1891, que teve a honra de ter, ao mesmo tempo, o que se chamava na época de Redator-Chefe: Rui Barbosa e Joaquim Nabuco.

Com o dinheiro, Lacerda fundou a Nova Fronteira, comprou a Construtora Magalhães (dos irmãos que tinham esse nome), terras em Ubatuba, o belíssimo sitio do Rocio, e mais e mais.

Foi criticadíssimo nas mais diversas oportunidades, menos de desonestidade. Se tivesse sido, Saulo, com os inimigos que fez, o mundo todo saberia. Apesar de tudo, não desminto, talvez você saiba de fatos extraordinários?

Como impedir a perda dos roylaties

Paulo Sólon:
“Helio, existe algum modo de impedir na Justiça, o roubo das riquezas do Estado do Rio, se não receber mais os royalties do petróleo? Podem cortar e levar à falência os estados e municiípios que tinham essas verbas no orçamento?”

Comentário de Helio Fernandes:
Existem recursos vários, todos na Justiça. É preciso ficar alerta com a votação, que provavelmente não ocorrerá este ano. Lula já deixou bem claro: “O Congresso é que decide”. Normalmente seria isso mesmo, mas sempre foi o Executivo que resolveu, com MEDIDAS PROVISÓRIAS ou COOPTANDO deputados e senadores, a BASE PARTIDÁRIA.

Veja você, Solon, o absurdo geral e total. O projeto que, ARTIFICIALMENTE, leva o nome de Ibsen tramitou na Câmara, por 7 meses. Ninguém se manifestou. Agora, cabralzinho “chora”, Serra e Dona Dilma “apoiam”, o lobista Eduardo Cunha entra no Supremo. Que República.

Mudança de uma letra

São tão pretenciosos, presunçosos, arrogantes, perniciosos e sempre voltados para eles mesmos, que economistas deveriam ser chamados de egonomistas.

Inaugurações perigosas

Carlos Chagas

A esperteza, quando é demais, come o esperto, costuma-se falar em Minas. Pois o presidente Lula e a ministra Dilma Rousseff estão em vias de ser deglutidos por conta da ânsia de inaugurarem obras que não são obras. Tome-se, esta semana, a ida deles a mais um trecho da  Norte-Sul. Quantas vezes já inauguraram seus  trilhos e dormentes, não raro em trajetos de poucos quilômetros? Do jeito que vai a implantação da ferrovia, até que  chegue a Brasília, pelo menos três novos presidentes da República deverão comparecer duas vezes por ano ao interior do Tocantins e de Goiás para iludir os ingênuos. Mais tempo levará para que a estrada faça jus ao nome, de interligar o Norte ao Sul do país.

Não é possível que a opinião pública deixe de registrar a armação, agora que nos encontramos em plena campanha eleitoral. Tome-se a propaganda antecipada do PAC II, que vem por aí enquanto o PAC I não realizou nem a metade do anunciado.

Com todo o respeito, o presidente e a candidata andam brincando com coisa séria. Inauguram até canteiros de obra, boas intenções e projetos que não saem das pranchetas. Tornam-se objeto da má-fé das empreiteiras e da vaidade de prefeitos e governadores. Talvez imaginem vir daí a imensa popularidade do governo, mas estarão enganados.  A identificação da sociedade com o Lula  tem outras raízes, a começar pelas iniciativas no campo social, difíceis  de ser inauguradas com bandas de música e palanques, mas efetivas.

Em defesa do morcego

No Senado, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes deu um exemplo que seria cômico se não fosse trágico. Disse que em Rondônia existe ao menos uma jazida de calcáreo, matéria  essencial para a produção de fertilizantes. Pois bem, a jazida está fechada por ação do Ibama, obrigando os agricultores locais a importar calcáreo da Bolívia, a preços  multiplicados.

Por quê? Porque numa das grutas antes  exploradas descobriu-se uma espécie de morcego que vem sendo obrigada a buscar outro local para reproduzir-se. O barulho das escavadeiras faz os sobrinhos do Batman perderem a tesão…

Acordo assinado, só em junho

A gangorra do PMDB não para de subir e descer. Michel Temer voltou a tornar-se otimista diante da hipótese de vir a ser escolhido  companheiro de chapa de Dilma Rousseff. Semana passada o parlamentar paulista  andou em depressão, certo de que o presidente Lula conseguiria afastá-lo, tendo em vista a pesquisa eleitoral do Ibope, levando a candidata a  encostar em José Serra. O raciocínio no palácio do Planalto era de que, continuando os percentuais a crescer, Dilma não precisaria fazer concessões a nenhum aliado, podendo selecionar quem quisesse para seu vice.

Pois os ventos  mudaram quando alguém lembrou que a verdadeira força do PMDB não está nos minguados votos capazes de ser trazidos por  Temer. Está no tempo de televisão de que o partido dispõe no horário de propaganda gratuita no rádio e na televisão. Sem o acordo  formal e assinado em torno de seu presidente, nada feito. Serra teria quase o dobro de aparições nas telinhas e microfones…

Indecisões

Pelo menos duas decisões o governo Lula vem empurrando com a barriga,  podendo encerrar  seu mandato sem adotá-las: a compra dos aviões de caça para a Força Aérea e a licença para que os bingos voltem  a funcionar.

No primeiro caso, chega a ser ridículo verificar que para comprar 36 caças a administração federal hesite tanto, quando se sabe que apenas um,  dos mais de vinte porta-aviões dos Estados Unidos, carrega 180 de última geração.

Com relação aos bingos, unem-se governo e igreja católica para supor a presença do capeta nas salas desse jogo inocente e tão profilático para a cabeça das velhinhas desocupadas.

Bem que o presidente poderia decidir, fazendo a alegria das forças armadas e das nossas avós…

Com Aécio, Itamar retorna em Minas

Pedro do Coutto

Durante a homenagem prestada pela ABL a Tancredo Neves pela passagem de seu centenário de nascimento, o governador Aécio Neves, neto do homenageado, segundo reportagem publicada dia 23 pela Folha de São Paulo, admitiu o retorno de Itamar Franco como seu companheiro de chapa ao Senado por Minas.

Uma chapa forte, sem dúvida alguma, unindo o verdadeiro autor do Plano Real, à nova geração de políticos que ingressou no presente, através de duas vitórias espetaculares para o governo do Estado, o futuro que, como se diz habitualmente a Deus pertence.

Mas em termos atuais a chapa Aécio-Itamar acrescenta também a José Serra como candidato a presidente da República, pois MG é o segundo colégio eleitoral do país. Aécio e Itamar, sem dúvida, compõem uma unidade entre o PSDB e o PPS com reflexo na sucessão presidencial. Não creio que a ponto de derrubar Dilma Roussef fortalecida pelo rolo compressor do governo Lula. Mas capaz de reduzir substancialmente uma diferença de votos que seria grande demais.

Não acredito que a candidatura José Alencar acrescente a Dilma mais votos do que Itamar a Serra. Além disso, Itamar reduz bastante a influência de Ciro Gomes, que foi seu ministro da Fazenda e já o elogiou publicamente por várias vezes. Mas deixou de trabalhar em silencio e decidiu assumir uma ofensiva que estava faltando a José Serra. Estava faltando, não. Está faltando. Pode ser que agora, contudo, com Itamar, adquira maior autoconfiança e parta para uma luta que, se não foi envolvida pelo calor do embate político, perde seu apelo e grande parte de seu charme natural. Política é emoção, já tenho dito.

Hoje, lembro a frase de um discurso do senador Otávio Mangabeira, em 57, quando faleceu o ex-presidente Bernardes, seu adversário político: ele tombou de pé, senhor presidente, ainda sentindo o cheiro da pólvora dos combates políticos. Esta pólvora falta a Serra, mas não a Itamar que, se companheiro de chapa de Aécio, em Minas, pode terminar candidato a vice na chapa do próprio Serra. A oposição não tem homem melhor e mais afirmativo. Afinal um presidente que deixou o Planalto consagrado pela opinião pública. Autor do Plano Real e –parece incrível- do último aumento geral de salários no país: 27% para todos, incluindo os servidores públicos, a partir de dezembro de 94.

Foi sucedido infelizmente por Fernando Henrique, responsável pela pior política trabalhista que o país já teve. Não ficou sozinho nesta posição. Foi acompanhado por Garotinho que agora novamente tenta o Palácio Guanabara. Ambos foram um verdadeiro desastre para os assalariados e ótimos para os banqueiros. Negócios em cima de negócios, doações em cima de doações, procedências estranhas para financiamento de campanhas eleitorais. Mas isso pertence ao passado. Agora só o presente e o futuro.

Itamar fortalece bastante a oposição. Não somente para o Senado mas como candidato a vice presidente. Transfere a Serra uma combatividade que Serra não parece ter. Além disso, retira de Serra a crise de temor que o está visivelmente envolvendo e mostra que em matéria de urna não há ninguém invencível. Com Itamar torna-se possível. Não provável, mas possível. Com Serra sozinho, é impossível.

Delfim Netto, o homem do “Bistrô”, do “empréstimo” para a ponte Rio-Niterói, das acusações do “Relatório Saraiva” (em Paris), da fraude, farsa e falsificação da inflação, quer voltar aos 82 anos, brigando com Collor, cujo plano chamou de “GENIAL” e agora nega

Apesar de jamais ter trabalhado na vida, sempre muito criativo, Delfim Netto teve “a grande ideia” de nascer num 1º de maio. Agora estará completando 82 anos, virgem (?) de tudo o que pode favorecer a comunidade, sempre teve amor pela individualidade. Acreditava que daí é que teria surgido a LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE da Revolução francesa.

Foi sempre estranho, exótico, displicente, menos em relação a favores para seu grupo e para ele mesmo. Se algum dia morrer, não acredito, duas frases terão que ser encampadas na sua última e definitiva morada.

A primeira, ministro da Fazenda: “O GOVERNO É OBRIGATORIAMENTE AÉTICO”. Ninguém contestou na época, ele muito poderoso, perigoso, mas dadivoso.

A segunda, como frequentador da boemia do Rio, ainda ministro, sempre cercado pelos meninos (não da Vila Belmiro) que o adoravam, a reciprocidade era verdadeira. Textual: “Os dias do Poder são extraordinários, mas as noites, ah!, as noites do Poder são embriagadoras”.

Tendo sido agredido “pelos seus meninos”, o grande jornalista Oliveira Bastos ainda foi processado no STM, (Superior Tribunal Militar) que em plena ditadura, se recusou a julgar o jornalista, arquivou o processo.

Ligadíssimo a Roberto Campos, foi feito secretário da Fazenda de São Paulo, e menos de 1 ano depois, com a posse de Costa e Silva, veio para o Ministério da Fazenda.

Foi o auge da farsa, da mentira, do “milagre brasileiro”, da “inflação baixa” (Ha!Ha!Ha!), criticado, veladamente, pelos mais diversos economistas.

Incapacitado Costa e Silva, assumiu Garrastazu Medici, que ficaria até 1974. Não gostava muito de Delfim, mas o que fazer? Só que quando o ministro falava em “milagre brasileiro”, o “presidente” arranjava um jeito de pronunciar e repetir a única frase que deixou: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. (A frase é do brilhante general Otavio Costa, que trabalhou, sem sucesso, para que houvesse eleição direta depois de Medici).

Sucedendo Medici, apareceu Ernesto Geisel, que tinha horror a Delfim. Não foi nomeado para coisa alguma, queria ser “governador de São Paulo, segundo ele, “4 anos em São Paulo, serei o primeiro presidente civil, em 1979”. Geisel nomeou para São Paulo, o carioca Paulo Egidio Martins, revolta e desespero para o ministro, que desaparecia, apavorado.

Mas foi “beneficiado” (MAIS?) pelo próprio “governador” Paulo Egidio, que disse ao “presidente” Geisel: “Não posso governar São Paulo com Delfim lá. Como a Fiesp jamais recebeu tantos favores, em toda e qualquer oportunidade, os empresários nem chegam até mim, só querem saber do Delfim”.

Pragmático, Geisel mandou convidar Delfim para embaixador na França, pasmem, RECUSOU. Até que intimíssimos amigos alertaram: “Delfim, ficando aqui, você vai acabar preso. Lá terá tempo de estudar, mal fala inglês, vai aprender francês, aceita, Delfim”. Aceitou.

Aqui já era acusadíssimo por levar comissão em tudo, mas nada parecido com o que foi gasto na Ponte Rio-Niterói. Era o sonho de dezenas de anos, realizou com o ministro dos Transportes, mas ele comandando tudo.

Conseguiu “empréstimo” de 800 milhões na Inglaterra, a juros de 14 por cento ao ano. Agora, verifiquem, constatem, se estarreçam: a ponte era construída de ferro, BRASILEIRO, madeira, BRASILEIRA, cimento, BRASILEIRO, pedra, BRASILEIRA, água, BRASILEIRA, areia, BRASILEIRA, tijolo, BRASILEIRO, terra, BRASILEIRA, mão de obra, BRASILEIRA, para quê o “empréstimo”?

Como divulgava que o governo “tem que ser obrigatoriamente aético”, sabia que sem EMPRÉSTIMO NÃO HÁ COMISSÃO. Com 39 anos foi pela primeira vez ministro. Passou por 3 “presidentes”: Costa e Silva, Medici, João Figueiredo. Mas o melhor ainda viria, precisamente do cargo que pretendia recusar, o de embaixador.

Foi a grande farra da vida grandiosa, proveitosa e prazerosa do ministro-embaixador. Montou dois endereços: na “margem direita”, a confortável e agradável embaixada. Na “margem esquerda”, a mansão senhorial, que os empresários franceses adoravam e diziam: “Para fazer negócio com o embaixador Delfim, existem muitos lugares”. Ficou escandaloso demais, público e notório.

Surgiu então o arrasador RELATÓRIO SARAIVA, que publiquei em parte, realmente inacreditável, grande vitória do embaixador.

O autor do documento, coronel Saraiva, era o que se chama no Exército de “oficial de escol”. É nomeado adido, mais ou menos quando é o número 10 ou 12 para ir a general. Só pode ficar dois anos, está na “bica” para ser promovido e outros querem o cargo.

Apesar do regime ser militar e Saraiva um brilhantíssimo oficial (ou não seria adido), foi sacrificado. E glorificado Delfim. Este veio para o Brasil impune, foi ministro da Agricultura de João Figueiredo, quando Mario Simonsen (Citisimonsen) se demitiu, Delfim trocou de cargo, todos já sabiam disso. Completou 12 anos e meio de ministro com diversos “presidentes”.

Na chamada redemocratização (?), ficou sempre na vez, mas não teve mais vez. Mesmo com Lula, esperava alguma coisa, espalhava, “Lula não toma decisão no setor econômico-financeiro, sem falar comigo”, Ha!Ha!Ha!

Agora, esse bisonho, bizarro e quase bizantino personagem, ministro-embaixador, vem tentando limpar a própria “identidade”. O Globo fez entrevista sobre os 20 anos do Plano Collor, ouviu os dois.

Na época foi publicada a declaração de Delfim: “Esse plano é GENIAL, nem eu como o AI-5 na mão seria capaz de fazer algo parecido”. Quer dizer, o próprio Delfim se considerava INCAPAZ. E depois, novo GENIAL, a respeito do plano: “Essa ideia do bloqueio é GENIAL, porque o DINHEIRO NÃO SERÁ DEVOLVIDO”.

***

PS – Tudo isso saiu publicado na época, e os que perderam tudo, ficaram furiosos com Collor e também com Delfim, que não estava no governo MAS APLAUDIA O CONFISCO.

PS2 – Quando Delfim e Roberto Campos, procuraram Collor, queriam (ou tinha a esperança) que Delfim fosse o ministro da Fazenda. Collor riu.

PS3 – Collor poderia ter “aproveitado” Delfim como ministro da Fazenda, teria feito o mesmo ou pior do que ela fez. Não sei quanto cobraram, mas a comissão (o famoso “por fora”, que com Delfim era obrigatório) do ministro de Costa e Silva, Medici e João Figueiredo, não teria limite.

PS4 – Hoje a saída de Delfim é esta: “Ri e diz que não se lembra de nada”, Ao contrário dos elefantes, Delfim esquece tudo, menos o número da conta numerada.

O PODER, da potência dos poderosos: história imobiliária, apropriação sem qualquer constrangimento, nada acontecerá

Espantosa, inacreditável, mas rigorosamente verdadeira. Um suplente de senador, que tem atividade empresarial em Minas e exerce o “mandato” em Brasília, na proximidade de acabar o mandato e os negócios muito bem administrados pela mãe, resolveu morar no Rio.

Não tendo problema de dinheiro, decidiu por Icaraí, comprou o maior, mais caro e mais luxuoso apartamento, num condomínio riquíssimo, nessa praia maravilhosa. Mas não foi morar, ainda tinha 2 anos em Brasília.

Um conhecido (?) advogado do Rio, soube do apartamento, conhecia o condomínio (originalmente a família é de lá), ficou encantado, se dá com o suplente, pediu a chave do apartamento, “só quero ver, me dizem que é maravilhoso”. Pela insistência, o suplente emprestou a chave, o advogado ficou com ela.

Gostou tanto do apartamento, que imediatamente mudou para lá, montou todo, levou a família e já é “proprietário” há mais de um ano. Deu festa de inauguração, convidou até vizinhos. Um destes, amigo do suplente, disse a ele: “Você vendeu o apartamento, nem me falou nem nada?”

O suplente veio então ao Rio no fim de semana, foi a Icaraí, o próprio advogado abriu a porta, quando o suplente pediu o apartamento, ele disse simplesmente: “ME TIRA DAQUI”, e entrou, deixando o suplente na rua.

Agora o suplente contratou competentíssimo advogado, que vai pedir REINTEGRAÇÃO DE POSSE, só que o advogado que mora no apartamento, nunca teve INTEGRAÇÃO DE POSSE, não comprou nem alugou.

PS – Embora no novo Código Civil, na relação inquilino-proprietário, haja vantagens para o último, NÃO SAIRÁ DO APARTAMENTO NOS PRÓXIMOS 20 ANOS.

PS2 – O advogado DESALUGADOR nem tomará conhecimento de intimações para deixar o apartamento do proprietário DESALUGADO ou DESAPROPRIADO. Conto a história, rigorosamente verdadeira, para mostrar o que podem essas potências pessoais. E a Justiça e o direito de propriedade? Que República.