Pai, Filho e Espírito Santo acertam a liturgia

Carlos Chagas

Apesar de espalhados pelo  território nacional por conta da última semana do recesso, os integrantes do Conselho de Ética do Senado tem feito a alegria das empresas telefônicas. Dialogam a mais não poder, horas a fio, através de seus celulares. Claro que  os governistas,  entre eles.  Os    oposicionistas,  da mesma forma.   Titulares e suplentes somam  trinta senadores,  dos quais quinze detém o poder decisório: dez dos partidos da base oficial, cinco  da oposição.

Em política, fica difícil fazer previsões para mais de quinze minutos, mas, do jeito que as conversas fluem,  tudo indica que nenhuma das representações apresentadas será aceita pela maioria. Nem as até agora onze formuladas contra José Sarney, nem as outras, contra Artur Virgílio.

No fim, entre mortos e feridos, salvar-se-ão todos, mesmo com  o sacrifício da imagem da instituição parlamentar. O recado vem sendo dado ao presidente do Senado por seus aliados:  resista, porque sua tropa não recuará. Até mesmo os representantes do PT, se alguns continuarem sugerindo o afastamento de Sarney, a totalidade rejeitará as representações contra ele.

Por enquanto, o ex-presidente da República não pensa em licenciar-se, muito menos em renunciar, apesar da pressão de familiares, à frente dos quais encontra-se   Fernando, encarregado dos negócios do clã e torcendo para o pai cair fora, iniciativa que  retiraria o filho do centro do palco das denúncias.  Quanto ao Espírito Santo, no caso D. Marly, mesmo hospitalizada, permanece como a instância de maior bom-senso nos conciliábulos permanentes, fazendo a balança pender para a resistência.

Quando o Conselho de Ética reunir-se, na próxima semana, saberemos se a situação permanece assim ou se terá mudado, fruto de novos petardos capazes de atingir Sarney  através das revistas semanais. Ele deverá encontrar-se com o presidente Lula, no mesmo período.

Vale repetir, o quadro é esse, hoje. Amanhã, ninguém sabe…

Lula com a razão

Por mais que se critique o presidente Lula e seus improvisos, num particular ele continua com a razão. É quando  estrila diante da  paralisação de obras   por iniciativa das variadas fiscalizações.  Tribunal de Contas,  Ministério Público, Ibama, juízos singulares e a parafernália adjacente tem todo o direito de denunciar e até condenar maracutaias e lambanças praticadas à sombra do PAC. Mas não poderiam interromper projetos de absoluta necessidade para o desenvolvimento nacional.  Se tem empreiteiros e funcionários públicos super-faturando, locupletando-se e aproveitando as obras para enriquecer ilicitamente, que sejam denunciados e punidos. O governo dispõe de mecanismos para afastá-los e substituí-los. O que não dá para aceitar  é a paralisação, mesmo diante de objeções ligadas ao meio ambiente. Caso procedentes, estas podem ser corrigidas em tempo rápido. Ou poderiam, não fosse a burocracia, também capaz de ser extirpada pelo próprio governo, desde que haja vontade política.

Além das duzentas milhas

As imensas jazidas de petróleo descobertas  em nossas costas, na camada  do pré-sal, avançam e ultrapassam o limite das duzentas  milhas estabelecido  sob total soberania brasileira.   Fica difícil estabelecer regimes diferentes para a exploração dessa riqueza. Lá embaixo a  massa de óleo é a mesma, dentro ou fora da demarcação adotada há décadas.

Há quem suponha problemas aos montes, depois da constituição da empresa estatal encarregada de orientar a Petrobrás nos trabalhos de prospecção e extração. Mesmo com a concessão a empresas estrangeiras de licença para se reunirem a nós na empreitada, quem garante que uma delas não resolva trabalhar por conta própria, alegando que o alto- mar pertence a todos?  Coincidência ou não,  além das duzentas  milhas navega a recém-criada  Quarta Frota da Marinha de Guerra dos Estados Unidos, a pretexto de patrulhar o Atlântico Sul.  Ironicamente,  suas belonaves  ainda não chegaram sequer a avistar  o litoral africano, preferindo transitar próximas  da  América do Sul. Basta somar dois e dois.

E se não der?

Apenas como especulação, volta a dúvida a respeito da reação do presidente Lula caso a candidatura de Dilma Rousseff não decole,   por motivos eleitorais ou de saúde. Farão o quê, o primeiro-companheiro, seu partido e os agregados que desde 2003 ascenderam ao poder? Entregarão os 36 mil cargos federais em comissão, preenchidos sem concurso por sindicalistas e afins? Aceitarão deixar as centenas de diretorias de empresas estatais, renunciando também à seleção das milhares de ONGs que sustentam com recursos governamentais?

Haverá alternativa para a candidata, nos quadros do PT? E não havendo, como não há, seria bem recebido no sistema algum cristão-novo, do tipo Ciro Gomes ou mesmo Aécio Neves?

Cruzaria os braços o presidente Lula, aceitando previamente a vitória de José Serra e o retorno dos tucanos, ou seja, o naufrágio de seu projeto de nação, acima e além de seu programa de governo?

Com Dilma na disputa já não será fácil ganhar a eleição, mas sem ela parece impossível. Sendo assim, sobra a hipótese de… ( cala-te boca).

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