Para acalmar o STF, Janot apresenta o pedido de prisão de Joesley, Saud e Miller

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Carlos Newton

Às vésperas de deixar o cargo, o procurador-geral Rodrigo Janot estava trabalhando em dois objetivos simultâneos de altíssima complexidade. O primeiro deles é concluir as duas flechadas que faltam. Uma delas será desfechada contra a quadrilha de deputados do PMDB, entre os quais se incluía o atual presidente Michel Temer; e a segunda, considerada a “flecha de prata”, é a nova denúncia criminal contra o chefe do governo, com mais provas de corrupção e lavagem de dinheiro. E o segundo objetivo, também com alto grau de dificuldade, era acalmar o Supremo Tribunal Federal e seguir em frente com as investigações da delação dos irmãos Batista e da JBS.

No caso das duas flechadas, tudo bem. Não falta bambu e o doleiro Lúcio Funaro fez a gentileza de contribuir com pesadíssimas denúncias contra o presidente Temer e seus principais cúmplices – entre eles, o ex-deputado Eduardo Cunha e o ex-ministro Geddel Vieira Lima. E já se sabe que a flecha de prata terá tal precisão que o relator Edson Fachin será obrigado a aceitar a denúncia, e vai começar tudo de novo, com parecer da Comissão de Constituição e Justiça e depois a decisão do plenário da Câmara, se afasta o presidente e abre processo, ou não.

DIFICULDADE – A maior dificuldade do procurador-geral neste final de maratona era acalmar o Supremo. Na quarta-feira, dia 6, Luiz Fux falou em nome dos outros nove ministros em plenário (Gilmar Mendes estava em Paris) e exigiu que Janot pedisse a prisão de Joesley Batista e de seu executivo Ricardo Saud. Tudo tinha sido combinado antes, é claro, Janot ouviu em silêncio e não moveu um só músculo da face. De lá para cá, tentava encontrar uma forma de acalmar o Supremo, mas sem deixar sequelas à Lava Jato.

Ao contrário do que diz o imponderável Gilmar Mendes, o procurador-geral não é “desclassificado” nem “desequilibrado”. Pelo contrário, tem se mostrado comedido e suas importantes decisões sempre foram confirmadas pelos relatores Teori Zavaschi e Edson Fachin.

Quem parece desequilibrado é o próprio Gilmar Mendes, que ataca Janot desesperadamente, tentando anular as provas contra o amigo Temer, e o procurador nem responde às provocações, simplesmente segue adiante.

FERIADÃO ESTRATÉGICO – Para Janot, o feriadão veio a calhar, porque a pressão diminuiu. E ele mostrou serviço, fazendo a Procuradoria trabalhar no feriado, para ouvir Joesley Batista e seus executivos Ricardo Saud e Francisco de Assis e Silva, e na sexta-feira, para o depoimento do ex-procurador Marcelo Miller, que se demitiu da Procuradoria para trabalhar na defesa da JBS.

Após os novos depoimentos de Joesley e Saud, Janot se curvou à realidade. Na noite desta sexta-feira, sem esperar o depoimento de Miller, o procurador-geral se apressou em aplacar a sede de vingança do Supremo e enviou logo o pedido para prender o empresário e dono do grupo J&F, Joesley Batista, o ex-diretor Ricardo Saud e do ex-procurador da República Marcello Miller.

Como se sabe, na gravação entregue à Procuradoria pela própria defesa da JBS, Saud e Joesley conversam sobre uma suposta interferência de Miller para ajudar nas tratativas de delação premiada.

NAS MÃOS DE FACHIN – Caberá ao ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato na Corte, analisar o documento. Não será nada fácil. Embora as notícias liberadas até esta manhã de sábado ainda não informem as bases jurídicas dos pedido de prisão, já se sabe que, no caso do ex-procurador Miller, parece arriscado lhe atribuir participação em crimes, como envolvimento com organização criminosa, exploração de prestígio e obstrução de justiça.

Miller pediu exoneração em 23 de fevereiro. A demissão saiu em 4 de março. Duas semanas depois, em 17 de março, na conversa de bêbados ocorrida exatamente no dia em que a JBS tinha sido alvo da Operação Carne Fraca, a gravação mostra que Joesley orientou Saud a então se aproximar do ex-procurador Miller, para, a partir daí, tentarem chegar a Janot.

No dia 11 de abril, quase um mês depois da demissão, Miller participou de uma reunião entre a defesa dos executivos da JBS e membros do MPF. Ele compareceu já na condição de representante do escritório Trench, Rossi e Watanabe, mas não concretizou nenhum ato formal de advogado.

No dia 18 de abril, Miller voltou à Procuradoria, mas nem entrou na reunião, porque ele só participava da tratativa do acordo de leniência. Assim, foi orientado a se dirigir a outro local, a Procuradoria da República do DF, onde haveria reunião no mesmo dia sobre o tema de sua atuação. Estes são os fatos envolvendo Miller.

HOMOLOGAÇÃO – Um mês depois, a 18 de maio, Fachin homologou o acordo de delação premiada da JBS, sem que Miller tivesse participado de qualquer reunião a esse respeito. E agora, cadê o crime de Millerm que depôs nesta sexta-feira à Procuradoria Regional da República (2ª Região), no Centro do Rio, durante dez horas. O depoimento terminou no início da madrugada deste sábado (9), por volta de 1 horas.

Seu advogado, André Perecmanis, disse que não entende a decisão de Janot. “Por que esse pedido de prisão antes do depoimento? Para que o depoimento, então? Dez horas de depoimento para se ter um pedido (de prisão) pronto? As declarações dele (Miller) não interessam para o MP?”, questionou a defesa.

Realmente, Janot apressou-se demais. Poderia deixar a prisão de Miller para depois a análise do depoimento, para lhe garantir o direito de defesa.

E JOESLEY E SAUD? – Da mesma forma, há enorme curiosidade para se saber a justificativa do pedido de prisão de Joesley e Saud. Qual o motivo? Tomar um porre federal e se jactar de que são importantes e pretendem influir na Procuradoria e no Supremo? Qual é o crime em que podem ser enquadrados esses dois caipiras irresponsáveis? Desacato à autoridade? Desobediência à ordem legal de funcionário público? Ou a prisão foi motivada por usarem a crise para especular na Bolsa?

Como diz o velho bordão humorístico, o povo quer saber…

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P.S.Talvez o ministro Gilmar Mendes, que se julga “primus inter pares” (“primeiro entre iguais” ou “melhor do que os outros”), com seu vastíssimo conhecimento jurídico, tenha contribuído para enquadrar em algum crime o ex-procurador Miller e a dupla Joesley & Saud, mas vale lembrar que no Código não existe “tentativa ou pretensão” de obstruir a Justiça.

P.S. 2 Aliás, o que aconteceu a Gilmar Mendes? Estava marcado para retornar dia 7 de setembro. Se voltou, está como a Conceição cantada pelo Cauby Peixoto: “Ninguém sabe, ninguém viu”.  (C.N.)

15 thoughts on “Para acalmar o STF, Janot apresenta o pedido de prisão de Joesley, Saud e Miller

  1. Parece no mínimo bizarro para não dizer suspeito, que nestes tempos de crise, um Procurador da República, saia da Procuradoria que é um bom emprego público com estabilidade para trabalhar em um escritório de advogados na defesa do grupo JBS.

    • “Funaro: Me faz um favor liga p geddel e ve em qual e mail ele quer que vc passe isso ou pra quem vc entrega que se ele nao resolver vou fuder ele no Michel. Esse porco e um folgado do caralho”
      O porco como era chamado Geddel por Funaro recebia a mando de Temer antes de Rocha Loures.

      Tudo muito cristalino.

      Temer tem que ser afastado imediatamente !!!

  2. 1) Pensamento do dia:

    2) “Um dia o homem vai compreender que o dinheiro não é nada, a vida é muito curta, curta demais, para que isso possa representar qualquer coisa” = Oscar Niemeyer.

    3) Fonte: jornal O Nacional, 31/10/86.

  3. Sobre a atuação de Janot na PGR há controvérsias, como diria o saudoso Francisco Milani, mas eu me permito ter uma opinião: O que interessa, afinal de contas, é o resultado de sua gestão para o país e aí não importa se é comunista, petista, desequilibrado, indeciso ou aprovado ou não pelo Gilmar, o que importa é sua produção na fiscalização da Lei, e aí ele, a exemplo do Antonio Fernando, foi campeão e se ele teve pecado, foi o de mostrar para o mundo a podridão das classes dirigentes do Brasil.

  4. Curioso … Assim como Janot na PGR, Fachin e Barroso são dois membros do STF muito admirados pela turma do combate a corrupção na linha “qualquer preço é pequeno demais”. E justamente Janot, Fachin e Barroso foram nomeados por Dilma.

  5. As declarações do Joesley, tem que ter validade, o que não deveria ser feito foi dar liberdade completa, inclusive a garantia de não ser processado, pelos seus crimes presentes e passados, diferentemente dos demais delatores, que alguns por muito menos estão atrás das grades.
    É mais fácil um bêbado falar a verdade, que um sóbrio.
    O Janot, não teve outra alternativa, atendendo a pressão correta do STF tinha que mandar prender os três, que encarcerados, vão abrir a boca e muitas verdades, até então omitidas, serão ditas e talvez complique pessoas que estão acima do bem e do mal.

  6. No Brasil tudo é por vias tortas. Alguém acredita que em 4 horas de gravação só falaram aquilo sobre os monistros do STF? E a imprensa se contenta e não argui nada, fica como se nada houvesse. A suspeição do Gilmar já esqueceram? E agora o áudio do Luladrão ninguém tem coragem de falar na mídia? O cara se mostra como é na privacidade , queria apagar o Palocci, já fez com Celso
    Daniel e Toinho do PT. É por essas e outras que também os brasileiros ficam desconfiados da grande imprensa. Ah país vagabundo.

  7. Gilmar Mentes deve esta em alguma parte do mundo , contando mentiras , arquitetando falcatruas e pagando suas despesas com cartão corporativo da nação .

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