Partidos recuam e até os evangélicos começam a desconfiar da reforma

Resultado de imagem para banqueiros charges

Charge do Tacho (Jornal NH)

Thais Bilenky e Thiago Resende
Folha

O ambiente para aprovação da reforma previdenciária se deteriorou no retorno do Carnaval na Câmara. Sem gestos claros de que o próprio presidente Jair Bolsonaro (PSL) esteja convencido da necessidade da reforma da maneira como ela foi apresentada ao Congresso, deputados favoráveis à sua aprovação recuaram. Bolsonaro disse, por exemplo, que a idade mínima prevista para aposentadoria de mulheres poderia ser reduzida.

Muitos parlamentares alegam que não querem se comprometer publicamente com pontos que podem ser postos em negociação pelo governo.

RETRAÇÃO – As bancadas temáticas, que o presidente anunciou como alicerce de seu governo no Congresso, em substituição aos partidos, tampouco estão alinhadas. A evangélica, por exemplo, passou a se omitir.

A ruralista, nos bastidores, pressiona para a exclusão de mudanças na aposentadoria de trabalhadores do campo —responsável por déficit maior que a previdência urbana.

Mesmo o líder da bancada da agropecuária, deputado Alceu Moreira (MDB-RS), um dos mais entusiastas da reforma, admite ser possível que a idade mínima proposta para trabalhadoras do campo seja alterada. “A idade mínima de 60 anos para mulheres [na aposentadoria rural] tem de ser discutida. Temos de ver o impacto disso, ou de aumentar a idade [do patamar atual de] 55 anos para 57 anos.”

PESQUISA – Resultados preliminares de uma enquete realizada pela Folha mostram que partidos que, meses atrás, defendiam a aprovação rápida da medida deram um passo atrás agora. O PRB, que integra a bancada evangélica, é um deles.

Dos 30 deputados em exercício do mandato, nenhum se declarou a favor do texto, em nenhum dos quatro aspectos questionados pelo levantamento —mudanças nas regras para o servidor público e no setor privado, alíquota progressiva para a contribuição previdenciária e alteração no BPC (Benefício de  Prestação Continuada).

Ligada à Igreja Universal, a sigla adotou tom favorável à reforma durante a campanha e depois da eleição de Bolsonaro. Agora, oferece seu silêncio como resposta à articulação do governo no Congresso.

INDEPENDÊNCIA – A bancada evangélica, de forma geral, anunciou independência em relação ao Executivo, como reflexo da insatisfação com o espaço dado a seus quadros no governo. O PSDB, embora tenha sofrido uma redução na bancada, poderia exercer influência favorável à reforma, já que advoga por sua urgência desde a campanha. Os tucanos, no entanto, estão reticentes.

Dos 14 deputados que responderam à enquete por enquanto, 4 se disseram a favor da reforma para o servidor público, 2 contra e 8 não souberam ou não quiseram comentar.

Reservadamente, argumenta-se que há iniciativas em curso para esvaziar a proposta e sacrificar trabalhadores, poupando privilégios de grupos de pressão —como os servidores públicos. A se confirmar um cenário assim, deputados que defendem a reforma da Previdência dizem que se verão obrigados a votar contra.

SAÍDA DE GUEDES – Por causa desse ambiente é que já se começa a falar até em uma eventual saída do ministro Paulo Guedes (Economia) do governo. A sua obstinação em aprovar a reforma deu lastro a Bolsonaro e o ajudou a se eleger.

No MDB, partido do ex-presidente Michel Temer, que tentou aprovar uma reforma da Previdência, a bancada também adota uma posição de cautela com a proposta. Emedebistas afirmam que o texto de Bolsonaro é mais duro e a articulação política é falha.

Congressistas favoráveis à reforma apontam como mais um fator negativo a indefinição da bancada do PSL, partido do presidente. A enquete da Folha mostra um cenário bem mais favorável entre deputados do PSL de forma geral, mas o BPC acende o sinal de alerta.

PSL INDECISO – Dos 32 consultados, 15 se disseram a favor da mudança proposta e 15 não souberam ou não quiseram responder. Dois foram contra. Nos bastidores, deputados do partido do presidente defendem alterações na proposta para beneficiar setores específicos.

Além do PSL, as bancadas mais afinadas com a reforma são as do DEM e do Novo. O primeiro é o partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), fiador e principal articulador da proposta. Seis deputados da legenda se dizem favoráveis à alíquota progressiva para a contribuição, 1 é contra e 13 não souberam ou não quiseram responder. Sete não foram localizados ainda.

Já o Novo é praticamente consensual em seu apoio ao texto enviado. Os oito deputados se disseram a favor dos termos propostos para o setor público e privado e para a alíquota progressiva. Apenas um não quis ou não soube se posicionar em relação ao BPC.

BPC É DÚVIDA – As mudanças propostas para esse benefício, que é pago a idosos carentes, sofrem resistência especialmente entre parlamentares do Norte e do Nordeste. Todos os ouvidos são contrários à ideia.

Esse é um dos pontos mais criticados pela oposição, mas também por partidos alinhados à pauta econômica. O PSDB da Câmara, por exemplo, já anunciou um acordo para que toda a bancada tucana vote contra alterações no benefício.

Diante do cenário, o governo já costura alternativas. “Até alguns dias atrás, eu pensei que o governo teria um encaminhamento mais fácil. Estou reavaliando”, disse Augusto Coutinho (PE), líder do Solidariedade, cuja bancada está dividida.

FALTA COMUNICAÇÃO – “O governo não está conseguindo ainda comunicar bem a Previdência. Existia um sentimento anterior ao envio do projeto da necessidade de sua aprovação. Hoje você já começa a ver parlamentares tergiversarem”, diz o líder Coutinho.

Interlocutores de Bolsonaro tentam reverter essa tendência. A líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), se reuniu com aproximadamente 50 parlamentares em três dias.

E o governo levantou quais cargos nos estados podem receber indicação de congressistas em uma tentativa de formar a base de apoio. “Mas não abrimos mão do critério técnico”, disse Joice.

BASE ALIADA – Para o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), o presidente não loteou ministérios e, por isso, as alianças ainda estão em andamento. Evitar indicações políticas para pastas “é excepcional para o país”, disse.

“Mas, por outro lado, traz uma consequência para a formação da base. Deixa de ser algo automático. Então, estamos construindo aproximações sucessivas para que, num momento mais para a frente, a gente consiga uma base para aprovar nossos projetos.”

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Aleluia, irmão! Até os evangélicos já estão desconfiados com essa reforma que protege os altos salários e reduz os benefícios sociais. O fato concreto é que, se tivesse havido uma auditoria, seria mais fácil convencer os deputados. O sistema de capitalização, que favorece os banqueiros e fracassou no Chile, não é previdência, porque não ampara o trabalhador quando fica doente ou inválido e não garante pensão à viúva. Pense nisso antes de defender a reforma sem auditoria. (C.N.)

8 thoughts on “Partidos recuam e até os evangélicos começam a desconfiar da reforma

  1. Peço aos nobres colegas que compartilhem opiniões sobre a necessidade de termos a aposentadoria rural.

    Penso que haveria um melhor controle nas concessões desses benefícios se fosse extinto essa modalidade de benefício e os trabalhadores rurais fossem agregados às regras gerais, com algum redutor de idade por exemplo, devido a suas particularidades do trabalho no campo.

    Carlos Newton tem algum comentário antigo sobre esse tema tão atual, que possa me informar?

    • Prezado Roope,

      Aposentadoria rural ou urbana de quem jamais contribuiu para o INSS não pode ser considerada “Previdência Social”. É caso típico de “Assistência Social”. Seus gastos jamais poderiam entrar na rubrica da Previdência. Apenas isso.

      Abs.

      CN

  2. Meus gzuis que tara por esse negócio de auditoria. E outra tara é esse negócio de banqueiros, como seco culpado por uma dívida fosse o emprestador. A previdência já é constantemente auditada. O sistema de capitalização não fracassou no Chile, na realidade foi um sucesso que permitiu ao país manter um dos melhores índices de crescimento da América Latina. O sistema de solidariedade é desastre no mundo inteiro, mas o autor quer por quer acreditar que no Brasil elecé um sucesso. A questão é simples cada pessoa deve ser responsável pela sua própria aposentadoria, esse é o único sistema justo de verdade, o resto é fazer caridade com dinheiro alheio. Se o Brasil demorar um pouco mais a votar essa reforma o país vai entrar em colapso e aí não vai ter auditoria, banqueiro para por a culpa, está será dos que continuam não querendo enxergar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *