Presos políticos-traficantes e bicheiros, MDB, depois PMDB

Antônio Santos Aquino

“Hélio, há muito de folclore na influência que os presos políticos tiveram sobre os marginais. Tudo começou com os assaltos a bancos. Os marginais, liderados por Escadinha, Gordo e outros, também começaram a assaltar, ficando a ditadura sem saber quem era quem. Passaram a enquadrar todos na lei de segurança e colocá-los juntos na Ilha Grande.

A influência não se deveu ao tóxico; foi muito mais na organização. Os presos políticos se organizavam repartindo o que chegava de fora e discutiam a melhor maneira de enfrentar as dificuldades. Foi nessa época que o traficante, assaltante e outros “afazeres”, conhecido por “Bagulhão”, criou a “Falange Vermelha” que muito depois virou “Comando Vermelho”. (Isso mais ou menos na época em que Aldo Moro foi sequestrado e morto pelas “Brigadas Vermelhas” na Itália).

Esse contato com os presos políticos foi relativamente curto. Quanto ao tóxico, já existia a venda de maconha na Praça Mauá em 1950 por um tal de Henrique Fim Fim (naquela época tudo de ilegal na Mauá girava em torno do portugês Zica, dono do bar Flórida). A cocaína se disseminou logo após o golpe de 1964. Quando prendiam alguém com sacolés de cocaína, estampavam nos jornais: foi preso fulano de tal com sacolés de “brizola”, no propósito de desmoralizar Leonel Brizola.

Quanto ao “capitão Guimarães”, esse não foi preso em 1968, Castor e Anísio sim. O “capitão Guimarães” entrou na contravenção em 1977 quando já tinha sido expulso do Exército. Isso vai longe.

Hélio, somente você que viveu este período com intensidade, tendo conhecido todos os movimentos que antecederam o PMDB. (Estou falando do MDB e da ARENA, partidos da “Ditadura Militar”; na ARENA estavam os políticos do sim senhor, no MDB os do sim, e alguns políticos muitas vezes se rebelavam).

Você em 1966 entrou no MDB e poucos dias antes da eleição a ditadura te cassou. Com a anistia em 1979, o MDB se transformaria no PP, liderado entre outros por Tancredo Neves. Não deu certo porque, criado o PP, pulverizaria o MDB, favorecendo Brizola que tentava refundar o PTB, sendo notório que uma grande quantidade de trabalhistas estava no MDB. Assim sendo, o PP, onde ias te filiar, nasceu morto, e o MDB, que ia morrer, continuou vivo com o implante da letra “P”. É por esta razão que dizem ser o PMDB uma Federação imposta pelos militares. Vi assim os acontecimentos. Mas não sou o dono da verdade.”

Comentário de Helio Fernandes

Antonio Santos Aquino me escreve sobre os dois assuntos, que clareza, conhecimento, facilidade na explicação. Mostra dados que não vieram a público, dá aula sintética que poderia ser muito mais longa, corrige, discorre com facilidade sobre os prisioneiros da Ilha Grande. (Começamos antes da terrível calamidade).

Diz quem é quem, e quem foi quem em 1969/79. E termina afirmando: É a minha visão e o meu conhecimento, NÃO SOU DONO DA VERDADE”.

Obrigado, Aquino, mas se não é, está muito perto, principalmente por ter vivido intensamente os maiores acontecimento de uma época.

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