Privatizar a Eletrobras será um retrocesso brutal na política energética do país

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Charge do Nico (Arquivo Google)

Assis de Mello e Silva

Nelson Rodrigues costumava dizer que, no Brasil, até os oportunistas não tem senso de oportunidade. Na verdade, o governo Temer se insere com perfeição na sentença do dramaturgo. Refiro-me à privatização da Eletrobrás. Desde sempre, busca-se privatizar as empresas públicas no intuito de imprimir maior eficiência, além de afastá-las do apetite dos políticos, que exercem influência nefasta sobre suas administrações. Por tais razões, há quem defenda a entrega pura e simples das empresas à iniciativa privada, na casa de milhões ou bilhões, pouco importa o preço da venda, desde que se transfira a companhia para algum grupo com reconhecida visão de mercado.

Infelizmente, nem sempre o sucesso empresarial do comprador é garantia de pujança da empresa alienada. Na verdade, desde meados dos anos 90, o setor elétrico brasileiro é majoritariamente privado e, infortunadamente, este simples fato não resultou em eficiência para as empresas e muito menos traduziu vantagens para a sociedade.

AUMENTOS REAIS – Basta dizer que, nesse período, a tarifa residencial subiu 50% e a industrial quase 120% (aumento real, sem considerar a inflação). Seja como for, a Eletrobrás está prestes a liderar o primeiro lugar na fila das privatizações para acontecer no próximo ano. O mercado respondeu à notícia com euforia, a Bolsa subiu e o ministro da Fazenda bateu palmas.

Entretanto, esse maravilhoso mundo dos negócios ainda não percebeu que a Eletrobrás, provavelmente, é uma das pouquíssimas empresas que precisa ser mantida na mão do Estado.

Ronaldo Bicalho, pesquisador emérito da UFRJ, estudioso do setor de Energia há mais de 40 anos, revela que, pela primeira vez, em 2016, o mundo despendeu mais investimentos em energia elétrica do que em petróleo e seus derivados. Este simples fato aponta para um mundo em franca transformação.

MENOS POLUIÇÃO – Sonha-se com um planeta mais limpo para nossos filhos e netos. O mundo não quer mais se valer de óleo, gás, carvão e urânio para preencher suas necessidades civilizadas elementares. Pelo contrário, exige apenas os recursos do sol, do vento, da água.

Em muito menos tempo do que se presume, o combustível fóssil deixará de ser a prioridade. Assim, nesse momento de travessia para o novo, de mudanças extraordinárias na matriz energética, o governo brasileiro se detém em tolas questões internas pontuais e não vê que o Brasil foi abençoado com algo que pouquíssimos países do mundo podem contar – a água represada em imensos reservatórios.

O Brasil tem backup, o Brasil tem reservas, o Brasil na estiagem, na falta de vento ou de sol, tem como manejar a volubilidade da natureza por causa da sua extensa transmissão e dos seus reservatórios. Mas, para isso, precisa de um braço forte, o braço do Estado, aquele que centraliza o poder, porque sua obrigação é vencer a guerra do suprimento de energia.

EXEMPLO DOS EUA – O presidente Franklin Roosevelt, na década de 30, percebendo a dimensão e o significado da energia elétrica para a nação, determinou que os investidores se mantivessem distantes e entregou sua administração ao Exército. Quem queria lucros, devia se afastar do ramo de energia elétrica e se aventurar na exploração de petróleo, gás ou carvão.

O Brasil foi atropelado pela má gestão, quando a ex-presidente Dilma Rousseff convenceu-se de que entendia de economia e de energia. O grande desastre foi no final de 2012, com a edição da Medida Provisória 579, que antecipou as concessões de algumas usinas, presumidamente amortizadas, em troca de violenta redução na tarifa. O remédio matou o doente. As empresas estatais de energia praticamente quebraram e o preço para o consumidor, poucos meses depois da redução apregoada, subiu para os mais altos níveis. Uma lambança sem igual. Basta dizer que a Eletrobrás perdeu metade do seu valor de mercado e a capacidade de investimento.

VOZ ISOLADA – Naquela oportunidade, uma voz isolada se fez ouvir, a de Roberto Araújo, diretor do Instituto Ilumina, talvez o maior especialista brasileiro em energia elétrica. Ele previu tudo o que viria pela frente, mas preferiram não acreditar. Na época, o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa, escreveu artigo defendendo a MP, mas agora vem a público execrá-la.

O atual presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior, defendeu a preservação da empresa na sua condição estatizante, mas depois mudou de ideia. Diz ter se assustado com o baixo nível técnico das chefias da empresa, em confronto aos altos salários percebidos. Mas nada impedia que tivesse apresentado um programa de reformulação da política de pessoal e tivesse demitido os maus gerentes, pois não é vedada a demissão nas estatais.

Há uma revolução mundial em andamento no âmbito da energia, com enormes transformações em curso. No caso do Brasil, o impedimento para a privatização da Eletrobrás é real e fundado em questões de Estado. É preciso modernizar e sanear a empresa, que pode assegurar ao país uma travessia muito mais tranquila e segura para um novo modelo operacional. O Brasil não tem mais o direito de cometer erros dessa envergadura. O tempo da burrice terminou, é preciso acordar Nelson Rodrigues para que o “óbvio ululante” retorne e nos ajude neste eterno combate contra a estultice e a mediocridade.

25 thoughts on “Privatizar a Eletrobras será um retrocesso brutal na política energética do país

  1. Primeiro “quando a ex Dilmanta se convenceu de que entendia tudo de energia e economia”; está errado, pois ela nunca teve dúvidas de que é expert em tudo e se erra é porque escutou algum assessor que deu conselho errado; vide a compra da refinaria americana.
    Segundo: não existe burrice entre nós; e quem precisa acordar é o “Povo” brasileiro e aniquilar estes lesa pátria; pois eles sabem muito bem o que estão fazendo contra o nosso amado país.

  2. Parece que não somos mais uma nação e é cada um por si; infelizmente.
    Eu tenho horror das doações feitas no governo do fhc e pensei que não detestaria mais ninguém como ele.
    Errei; o temeroso é imbatível.

  3. “O mundo não quer mais se valer de óleo, gás, carvão e urânio para preencher suas necessidades civilizadas elementares. Pelo contrário, exige apenas os recursos do sol, do vento, da água.”

    -Que é esse que o autor do artigo se refere mundo? O mundo da lua?

  4. O Estado é mau patrão, mau gestor, mau administrador, é incompetente, ineficiente e ineficaz. O Estado não tem que ser dono de nada, nem de um botequim. Temos que privatizar tudo. Se a Vale do Rio Doce fosse estatal, teria todos os escândalos que ocorreram na Petrobrás.

  5. Caro Adami,

    A JBS não é estatal.
    A ENCOL não era estatal.
    O Marka não era estatal.
    O Banco Nacional não era estatal.
    A Avestruzmaster não era estatal.
    A Rede Globo não é estatal.
    As empresas telefônicas que derrubam as ligações e praticam a venda casada não são estatais.
    Os cartéis de postos de gasolina não são estatais.
    As revendedoras de autopeças autorizadas não são estatais.
    As montadoras de automóveis não são estatais.

    -E todas ROUBARAM e/ou AINDA ROUBAM o contribuinte/cidadão brasileiro, seja diretamente, seja através da sonegação fiscal.

    Não é a argamassa ou as divisórias de madeira que emitem miasmas e fluidos etéreos que fazem um pessoa roubar ou ser honesta.

    O que faz uma pessoa roubar é a certeza da IMPUNIDADE, que no Brasil é garantida pelos cúmplices dos criminosos aninhados no SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.

    Sem mudar a CAUSA, em vão se combate os EFEITOS.

    Abraços.

  6. A JBS não é estatal.
    …e se aliou AO ESTADO para ter o monopólio…

    A ENCOL não era estatal.
    …e se aliou AO ESTADO para ter o monopólio…

    O Marka não era estatal.
    …e se aliou AO ESTADO para ter o monopólio…

    O Banco Nacional não era estatal.
    …e se aliou AO ESTADO para ter o monopólio e financiar partidos políticos…

    A Avestruzmaster não era estatal.
    …e se aliou AO ESTADO para ter o monopólio…

    A Rede Globo não é estatal.
    …e se aliou AO ESTADO para ter o monopólio…recebendo bilhões por ano do governo, principalmente do governo Lula…

    As empresas telefônicas que derrubam as ligações e praticam a venda casada não são estatais.
    …e se aliaram AO ESTADO para ter o monopólio…

    Os cartéis de postos de gasolina não são estatais.
    …e são grandes financiadores dos agentes do Estado, os políticos…

    As montadoras de automóveis não são estatais.
    …e se aliaram AO ESTADO para terem o privilégio de não terem concorrentes. É só ver o que o presidente da Mercedes-Benz Brasil disse sofre o país abrir o mercado para a livre concorrência!

    http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,se-mercado-for-aberto-industria-automotiva-fecha-diz-presidente-da-mercedes,70002100177

    • … o Barata solto pelo Supremo não trabalha em estatal.
      …o médico estuprador também não trabalhava.
      …nem o Cacciola, quando fugiu do país com habeas corpus, era funcionário público.

      -E agora? Então vamos acabar com o Estado?
      -Ou seria melhor acabar com a corrupção tirando os bandidos do Supremo e dos tribunais superiores?

      A ideia de que a privatização aconteceu para se combater a corrupção foi uma grande mentira. Daria até um livro “Mentiram para mim sobre a privatização”. A privatização de antes aconteceu pelo mesmo motivo que está acontecendo a privatização de hoje: Conseguir dinheiro. Estado quebrado.
      Tanto é verdade, que privatização de ontem e a de hoje foram/são comandadas por pessoas sabidamente criminosas!

      Abraços.

      • Todos os tais corruptos tem como garantia a fidelidade a alguma “autoridade” estatal.

        Todos os mencionados por você tem o seus parceirinhos dentro do Papai Estado.

        “A ideia de que a privatização aconteceu para se combater a corrupção foi uma grande mentira.”

        Não é apenas privatizar. É privatizar e liberar o mercado para que essas empresas que agora foram privatizadas tenham CONCORRÊNCIA.

        Privatizar por privatizar e manter o monopólio é continuar a mesma coisa. Antes era o monopólio estatal, agora o monopólio de uma empresa estatal privatizada.

  7. Com esses governos que temos não haverá período que não teremos escândalos relacionados aos roubos nas estatais.

    É de praxe, hoje em dia, roubar, justamente porque os ladrões têm a garantia da impunidade!

    Logo, as portas para a desonestidade não só permanecem abertas como há um convite para entrar e sair com dinheiro no bolso.

    Diante desse quadro desanimador e inexorável, a privatização da Eletrobrás se impõe, assim como as demais estatais porque cabides de empregos para apaniguados e fontes de recursos ilícitos e infindáveis para legislativo e executivo.

    Obviamente a corrupção continuará, mas o cidadão brasileiro verá as falcatruas em empresas particulares, e não mais naquelas que lhes pertencem, as estatais.

    Indiscutivelmente que devemos nos lamentar em nos desfazer do nosso patrimônio dessa forma, mas não podem servir como meios de enriquecimento para partidos e parlamentares, haja vista que este procedimento delituoso faz parte desse processo político ignóbil, deletério e abjeto.

    • Não rapaz! A corrupção é devido a existência desses monstrengos estatais.

      Ou você é ingenuo o bastante para achar que anjos irão administrar essas empresas estatais de forma honesta e transparente?

      A corrução das estatais corrompe tudo, a té mesmo o judiciário, já que membros desse poder também se envolve em corrupção em grande parte das próprias estatais?

  8. O enorme problema no País, reside no IMPÉRIO GILMARMATIC!
    Falo isso há muito tempo.
    As decisões são completamente contrárias ao povo.
    São onze pessoas normais (que se acham Deuses) que decidem a vida de duzentos milhões de pessoas. Trabalhadores honestos que apenas tem tempo pra levar um pouco de pão pra suas casas.
    Não é mais possível isso! É inaceitável o poder absurdo destes “juízes” aloprados.
    Decidindo não em prol do país e dos brasileiros, e sim em prol de pouquíssimos homens que ironicamente nós os escolhemos pra dar-lhes tudo de bom que a vida pode oferecer… ótimos salários, belíssimas casas, fazendas, terrenos, empresas sempre prósperas, sim, eles tem tempo de fazer suas empresas prosperar mais e mais. Como? Não sei! É inexplicável como conseguem…
    E nós só olhando eles enriquecendo… e eles olhando o povo empobrecendo.
    No ano que vem, vamos assistir o Dias Toffoli ser presidente deste manicômio, um homem que FOI REPROVADO DUAS VEZES e jamais conseguiu ser um juiz!
    Não que os outros 10 sejam melhores, mas esta situação é inaceitável… e o povo permite… pra tudo o distinto povo olha pro lado, resignado sem forças.
    Aos poucos nos tiraram a vontade de viver, aos poucos foram sugando todas as nossas energias… aos poucos estão nos matando…
    Que país cruel, que país injusto.
    O Gilmar Mendes decidiu que não há dinheiro pra comprar impressoras, decidiu uma coisa que não é da competência dele. O que ele tem que fazer é fazer cumprir a lei, afinal, há dinheiro pra tudo, menos pra fazer cumprir a lei!
    Não dá mais!
    Estamos adentrando na Venezuela pela porta grande, com todas as honras…
    Mas ninguém está se incomodando.
    Deve ser bom pro Brasil, talvez eu esteja sendo pessimista demais.
    Atenciosamente.

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