Reprodução do artigo publicado no dia 11 de março de 1967, com o título textual: “O PRESIDENTE HUMBERTO DO AMARAL PEIXOTO”. (Com acesso de raiva e promessas de vingança).

Não é de hoje que comparo os dois, Castelo Branco e o almirante, genro de Vargas, que começou como capitão da Marinha, Ajudante de Ordens do ditador, casou com sua filha, fez uma das carreiras mais longas da História do Brasil. Ministro, senador, almirante, que “enjoava” na Barca da Cantareira, nunca entrou num navio. Só não chegou a presidente, o general depois marechal, chegou, mas entre aspas.

Além da farda, os dois têm muito em comum. Falta de caráter, desinteresse pela humanidade, o desapreço pela cultura, pela verdade, o fato de se considerarem “maquiavélicos”, uma visão deturpada do que a palavra significava ou significa, pois jamais leram Maquiavel.

Os dois, Castelo e Amaral Peixoto, deram demonstração irrefutável e indiscutível de quanto se parecem ou se assemelham, antes mesmo da posse. E pode ser tido como fato rigorosamente verdadeiro, que Amaral Peixoto facilitou, em muito, a chegada ao “governo” de Castelo Branco.

Agora que Castelo Branco se prepara e deixará o governo, é fácil constatar o quanto de mentira, de manipulação, de apoio de banqueiros e empresários poderosos, foi necessário para FAZER CASTELO “presidente”. Tudo o que vão contando nesses quase 3 anos, não tem a menor veracidade. Quem mais trabalhou, militarmente para Castelo, se chama Humberto de Alencar Castelo Branco. A confusão era tanta em 31 de março/1º de abril, que se João Goulart não fizesse os dois comícios de 13 de março na Central e 28 também de março, no Automóvel Clube, continuaria no Poder, 6 governadores eram candidatos a presidente em 1965. (Além de JK, que passando o cargo a Jânio Quadros em 31 de janeiro de 1961, lançou a própria candidatura para novo mandato em 1965. Como Prudente de Moraes em 1898, não admitiu reeleição).

Do ponto de vista civil, o grande artífice da “presidencia” Castelo, foi Amaral Peixoto, presidente do PSD, o maior partido do país. Sendo ao mesmo tempo militar e civil, ambiguidade que a Constituição de 1946 acabou de direito mas não de fato, sabia de tudo, era bem informadíssimo.

No dia 3 de abril, Ranieri Mazzili como presidente substituto, (Jango já era o vice, Ranieri teve que assumir como presidente da Câmara), o espertissimo Amaral Peixoto, telefonou para Negrão de Lima, (o “Correio do Czar” de Vargas para implantar o “Estado Novo” e que diziam era “compadre” de Castelo), relatou seu plano, que o ainda mais esperto Negrão apoiou estusiasmado.

Sumariamente: Negrão procurou o tão desprendidamente ‘NÃO” candidato Castelo Branco, e ofereceu o apoio do Congresso à sua candidatura a presidente. Lógico, Castelo perguntou imediatamente: “E o presidente Juscelino, como ficará?”. Resposta: “Primeiro o senhor conversa com o Almirante Amaral Peixoto, e sua obrigação é convencê-lo”;

Negrão saiu da casa de Castelo, encontrou com Amaral Peixoto, foram para o apartamento de Joaquim Ramos, deputado de muitos mandatos e irmão de Nereu Ramos.

Se estou contando a entrada de Castelo Branco na história no momento de sua saída, é por causa de um fato: ele traiu a todos, não traiu a si mesmo porque não tinha convicções. Chegou a telefonar para o general Amaury Kruel, com quem não falava desde os tempos da Escola Militar.

Motivo: Kruel, aquele “alemanzão” de quase 2 metros de altura, gozava e satirizava Castelo o tempo todo, identificando-o como “quasimodo”, por causa de sua quase deformação física. Depois, na FEB, Kruel acusou o então Tenente-Coronel Castelo Branco, (frente a frente, Castelo chorou) de ter sido o responsável pelo desastre da “subida do Monte Castelo”. (O nome é coincidência).

Mas não é coincidência ou irresponsabilidade, o fato do general Floriano de Lima Brayner, (Chefe do Estado Maior do Marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB) ter escrito 2 livros, contando minuciosamente, os erros monumentais de ESTRATEGIA E PLANEJAMENTO, na importante missão.

No dia 5 de abril (continuava a “arquitetura” militar dos amigos de Castelo) no plano civil, Amaral dominava tudo. O encontro foi marcado para as 10 da manhã. Castelo chegou com Negrão, o presidente do PSD já estava lá. Conversaram, não faltava muito. Quando falaram em Juscelino, Amaral Peixoto respondeu, tinha procuração para isso: “O presidente Juscelino estará aqui, a hora que for marcada e conversará com o senhor”. O futuro “presidente”, dentro de alguns dias, ex-“presidente”, foi embora com Negrão.

No dia seguinte, Juscelino estava lá, conversou pela primeira vez com Castelo. O que é que JK podia fazer? Compromisso de Castelo: “Presidente, só quero defender as instituições, não posso deixar que elas se DETERIOREM”. (Palavra textual).

E mais de Castelo: “O senhor é candidato a presidente em 1965, GARANTO A ELEIÇÃO. Mas se eu assumir como Chefe do governo Provisório, não terei Poder algum. O Poder não estará nas minhas mãos”.

Juscelino levara com ele, José Maria Alckmin, seu Ministro da Fazenda, e o mais extraordinário coordenador político que já existiu. Era tanta a vontade de Castelo de “resolver” tudo ali, que disse a JK: “Para confirmar meus compromissos eleitorais e democráticos, agora mesmo convido seu amigo, Ministro Alckmin, para vice-presidente na minha chapa”.

É esse o presidente que está deixando o Poder, odiado por todos e com aversão pelo espelho, no qual raramente se mirava, e as razões eram muitas.

***

PS – Para terminar, dois fatos que não estão no artigo transcrito. Depois que Castelo e JK, foram embora , (separadamente), Amaral, Negrão, o já vice-presidente Alckmin e o dono da casa, abriram champanhe. E Amaral fez a saudação: “Estamos novamente no Poder”. Não era exagero.

PS2 – Assim que o jornal foi para as bancas, Carlos Lacerda me telefonou: “Você não pode juntar Castelo Branco com Amaral Peixoto, são pessoas diferentes”. Ele tinha o direito de dizer o que bem entendesse, e eu de não escutar. Foi o que aconteceu.

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