Se no puderem comprar, vo tomar

Carlos Chagas

Sendo quatro ou sendo sete as novas bases militares americanas na Colmbia, parece bom atentar para nmeros bem superiores e mais perigosos. Porque no mundo inteiro eram 865 os estabelecimentos castrenses que os Estados Unidos mantm fora de seu territrio. Alis, agora so 872. Registre-se que por bem ou por mal, 46 pases abrigam essas bases, em todos os continentes, perfazendo o total de 290 mil soldados ao preo de 250 bilhes de dlares por ano.

Some-se a esse predomnio indiscutvel das foras armadas americanas no planeta a presena de sete frotas da sua Marinha de Guerra, patrulhando todos os oceanos com porta-avies e submarinos nucleares. Para no falar, claro, dos msseis de todos os tamanhos e alcances, incrustados em boa parte das bases terrestres. E fora delas, tambm.

At a queda do Muro de Berlim, a explicao envolvia a bipolaridade mundial, pois a extinta Unio Sovitica dispunha, seno de igual, ao menos de razovel presena militar em pases ao seu redor. Desaparecido o perigo vermelho, porm, faltam justificativas para a existncia de tamanho poder fora de suas fronteiras. Afinal, mesmo que o complexo industrial-militar dos Estados Unidos se beneficie enormemente com encomendas sempre maiores de armas letais, 250 bilhes de dlares anuais bastariam para o presidente Barack Obama estabelecer o mais formidvel sistema de sade pblica de todo o Universo, favorecendo sua populao. Como isso no acontece, h que indagar porque.

Quem deu a resposta foi o Assessor de Segurana Nacional da Casa Branca, general James Jones, em recente visita ao Brasil. Em demorada audincia com o ministro Edison Lobo, o gringo abriu o jogo. Reconheceu que segurana, hoje, para a nao americana, traduz-se em energia. Garantir petrleo e outras fontes energticas transformou-se na maior preocupao e no principal objetivo de seu pas. Sem combustvel, que no produz mais nas quantidades necessrias ao consumo, os Estados Unidos iriam atrs da vaca, quer dizer, para o brejo. Assim, todo o aparato militar mobilizado para sustentar o abastecimento.

O general no falou, e nem precisava, que por esses motivos os americanos invadiram o Afeganisto e o Iraque, como podero estar a um passo de fazer o mesmo com o Ir. Fica ridculo inventar perigos e provocaes inexistentes, como a existncia de armas de destruio em massa ou instalaes nucleares nos pases cobiados por dispor de petrleo.

Como o Brasil acaba de requerer passaporte para entrar no clubinho dos privilegiados produtores em massa, bom tomar cuidado. Por certo que adiantar muito pouco mantermos as reservas enterradas no pr-sal. Precisamos extrair e vender, lgico que para os maiores compradores, entre os quais destacam-se os Estados Unidos. A China tambm, mas essa outra histria. O perigo est em nossa histrica falta de recursos e nossa natural mania de deixar para amanh o que podemos fazer hoje. Mesmo tendo os chineses oferecido quinze bilhes de dlares, e o Eximbank, sete, para ajudar nas operaes do pr-sal, a coisa pode demorar. E eles exigem pagamento em petrleo, daquele que vier a ser extrado. Se a demora causar preocupao ou acirrar necessidades prementes por parte dos Estados Unidos, explica-se a razo de tantas bases, frotas e msseis. Se puderem obter o produto por vias comerciais, timo. No podendo, tomaro…

Para comprovar no se tratar de sinistrose essa previso, basta olhar para a Histria. Ao entrar na II Guerra Mundial os Estados Unidos decidiram comear pela invaso do Norte da frica. Naqueles idos, nenhum avio conseguia sair de seu territrio e chegar ao Marrocos ou, mesmo, Mauritnia. Tornavam-se necessrias bases intermedirias. O Nordeste e at o Norte brasileiros eram essenciais. Antes mesmo que o presidente Franklin Roosevelt se encontrasse com o presidente Getlio Vargas, em Natal, os gringos j haviam fincado p em Belm, Fortaleza, Recife e Salvador, para no falar na capital do Rio Grande do Norte. Construram aeroportos, pistas e estradas que hoje fingimos s terem aparecido depois do aval do presidente brasileiro. Mentira. J estavam sendo implantados, sabe-se l em funo de que acordo. Com a reunio dos dois presidentes mascarou-se a face da soberania nacional atravs da verso de que as bases s vieram depois que o americano comprometeu-se a mandar, desmontada, uma usina siderrgica para sediarmos em Volta Redonda. Acrescente-se que os Estados Unidos estavam prontos para conseguir pela fora o que conseguiram pelo dilogo a posteriori. Foi muito bom porque, naquele caso, estariam l at hoje.

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