Sem segundo turno, Vargas teve 43 por cento dos votos, Juscelino 36, Lacerda 29. Mas constitucional

Valmor Stédile:
“Nobre jornalista, poderia comentar em que circunstâncias decidiram adotar no Brasil as eleições em dois turnos? Primeiro, a presidencial de 1989, que acabou excluindo Leonel Brizola da disputa final.

Não teria sido exatamente com esse fim, concretizado com o campo oposicionista dividido entre Brizola, Lula e Mario Covas?”

Comentário de Helio Fernandes:
Inicialmente, examinemos rapidamente 1989 e os dois turnos. Na tua lista do “campo oposicionista”, faltou o doutor Ulisses, que ultrapassado em 1985 pelo fato da eleição ter sido INDIRETA, só foi candidato em 1989.

Sou insuspeitíssimo (pelas minhas ligações com Brizola) para dizer que não foi PREJUDICADO e sim FAVORECIDO. Se tivesse sido o mais votado e portanto o vencedor da eleição em um turno só, aí, concordo com você, estaria eleito. Mas como tirou terceiro, quase foi para o segundo turno com Collor e teria ganho apesar do apoio em massa da Organização Globo ao “marechal” das Alagoas.

Perdeu o segundo lugar para Lula, por menos de meio ponto, revoltado chamou-o de “sapo barbudo”, mas teve que apoiá-lo.

Agora a implantação do segundo turno. Há muito tempo queriam isso. Mas a democracia brasileira tinha e teve sempre uma vida tão breve, que era impossível modificar qualquer coisa.

Na Primeira República (1889 a 1930), não existia nada, dominada pelo militarismo autoritário e o civilismo subserviente. Na Segunda República (1930 a 1945), ditadura do principio ao fim, não houve eleição, nem primeiro nem segundo turno.

Na Terceira (1946 a 1964), também não houve oportunidade, embora líderes esclarecidos dos dois partidos importantes, PSD e UDN, tivessem conversado sobre isso. Essa República e a Constituição morreram antes de completarem 18 anos. (NASCEU em 18 de setembro de 1946, MORREU em 1º de abril de 1964).

A Quarta República, novamente outra ditadura um pouco mais longa do que a Primeira, 21 anos em vez de 15. Acabada a ditadura, veio a          “transição”, apesar do que dizem, dominada pelos generais, já sem farda, sem bordados ou condecorações, mas no poder.

Finalmente a Constituição de 1988 estabeleceu os dois turnos para 1989. Sem esse segundo turno, em 1950, Vargas se elegeu com 43 por cento dos votos. Em 1955, Juscelino teve ainda menos, 36 por cento.

Nem falo do Marechal Dutra, não foi eleito. No “Estado Novo”, garantia Vargas como ditador, (era o “condestável”), derrubada a ditadura foi “jogado para cima”.

Para terminar, um esclarecimento quase inacreditável para quem não viveu ou conheceu esses tempos. Desde 1946, Lacerda (sempre com Golbery, depois grandes inimigos) lutou contra a posse de Vargas e de Juscelino, segundo ele, “por não terem obtido maioria absoluta” (que nenhuma Constituição exigia).

Ainda sem segundo turno, Lacerda (e mais 8 candidatos) disputou o governo da criada Guanabara. Foi eleito com 29 por cento dos votos, Sergio Magalhães teve 28 por cento, Tenório Cavalcanti 15 por cento, Mendes de Moraes, ex-prefeito, 8 por cento.

Se houvesse segundo turno, Lacerda jamais teria sido governador, todos se juntariam contra ele. Da mesma forma como disse no comentário sobre Brizola, sou ainda mais insuspeito para escrever sobre Lacerda. Mas é imposição da HISTÓRIA.

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