Simon no poderia ter sido o vice de Tancredo

Pedro do Coutto

A histria, incrvel isso, sofre muitos atentados e corre riscos permanentes de distoro atravs do tempo, como se o passado fosse imprevisvel e at mutvel. Foi o que aconteceu na sesso de segunda-feira do Senado Federal. No impulso de apoiar de qualquer maneira a permanncia de Jos Sarney na presidncia da Casa e, por isso, tentando desqualificar o pronunciamento de Pedro Simon que cobrava a renncia, o senador Renan Calheiros procurou mudar a histria moderna do pas. Disse que o parlamentar gaucho guarda at hoje mgoa de Sarney por no ter sido escolhido vice de Tancredo Neves nas eleies indiretas de 85.

No fato. Pedro Simon no poderia ser o candidato. Simplesmente porque a vitria de Tancredo, que era do PMDB, deveu-se ao apoio que recebeu da dissidncia do PDS, partido dos governos militares. Ao qual Sarney pertencia. Era inclusive o presidente da legenda. Portanto o vice teria que ser indicado pela dissidncia, como de fato aconteceu. Havia necessidade de maioria absoluta e o PMDB s tinha 40% dos votos. Os dissidentes acrescentaram o que faltava e assim contribuiram para encerrar o ciclo dos militares no poder, como escreveu Carlos Castelo Branco.

Como toda ruptura apresenta sempre um sinal singular, a lei complementar nmero 15/1973, que havia regulado os colgios eleitorais que escolheram Ernesto Geisel e Joo Figueiredo, em 74 e 79, afastava a exigncia da filiao partidria, que havia permitido a habilitao poltica dos generais. O pargrafo nico em seu artigo 10 dizia o seguinte: se qualquer dos candidatos escolhidos pela conveno no estiver filiado ao partido, ser-lhe- aberto prazo de oito dias para faz-lo. Sarney, naquele momento ento, transferiu-se para o PMDB, livrando-se da exigncia de fidelidade partidria que est hoje na legislao. Foi a escolha de Sarney que viabilizou a dissidncia no plano legal. Dentro desse quadro, Simon no poderia sequer desejar a vice. Bloquearia Tancredo, impediria a incorporao dos dissidentes.

Renan Calheiros, na segunda-feira desta semana, parece ter confundido inconfidentes com dissidentes. A histria, seja moderna ou antiga, est sempre exposta a verses impressionistas que no refletem a realidade. No exprimem o que efetivamente ocorreu em momentos decisivos. Que fazer? Faz parte da existncia humana. portanto necessrio ter-se ateno com tais episdios para evitar que se incorporem como verdade ao domnio pblico e memria futura do pas, do Brasil no caso que estamos tratando.

No mundo inteiro, a cada dia surgem informaes sem base, tentativas de distoro, transformaes indevidas, apropriaes de idias, palavras e imagens de pessoas que afirmaram coisas em determinados sentidos, mas cujas direes so mudadas ao sabor de intrpretes da irrealidade. O caso do colgio eleitoral de 85 fcil ser elucidado, pois afinal de contas passaram-se apenas 24 anos. Mas existem outros captulos alterados por historiadores que, s vezes, assumem o papel de personagens daquilo a que no assistiram e do que julgam ter acontecido. A histria, dessa forma, enfrenta uma ameaa permanente. Por isso, essencial traduzir-se bem os momentos crticos. No fcil.

Como os jovens de hoje, por exemplo, depois de ouvirem dos seus pais, iro compreender o apoio arrebatado, no de Renan, mas de Fernando Collor a Sarney, depois do conceito que formulou a respeito de seu antecessor na presidncia da Repblica na campanha de 89? Como interpretar o apoio de Leonel Brizola ao mesmo Collor no processo do impeachment? A histria complicada. Por isso fascinante.

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