Só o emprego leva à saida da crise mundial

Pedro do Coutto

Duas matérias bastante amplas publicadas na Folha de São Paulo, edição de 13 de julho, reforçam novamente a certeza de que só o mercado de emprego funcionando firmemente, com reflexo direto na massa salarial, pode levar à saída da crise econômica mundial, cujos reflexos fazem-se sentir claramente no Brasil. Aliás como não poderia deixar de ser. Pois tudo o que se desenrola no universo financeiro converge para o consumo, início e fim de todo processo produtivo. Não se produz para estocar, ou para se realizar algo semelhante à obra de arte. Produz-se para vender e portanto lucrar. Não existe nada fora deste círculo. Por isso, são muito importantes as reportagens de Pedro Dias Leite e Fernando Canzian, este correspondente da FSP nos EUA.

Pedro Dias Leite entrevistou o historiador Niall Ferguson, professor da Universidade de Harvard, especialista em história econômica e política. Ele previu A continuidade – e não o corte a curto prazo – da crise aberta com a explosão do subprime, a qual considera mais profunda do que a depressão de 29 (administração Herbert Hoover) que perdurou até 33, primeiro ano do governo Franklin Roosevelt.

O autor da “A Ascensão do Dinheiro” sustenta que as medidas tomadas para o combate à crise recente foram bem sucedidas num primeiro momento, mão são incompletas e podem levar a uma nova década perdida como a que atingiu o Japão em 1990. Ferguson é um analista que parte da ótica que se baseia no entrelaçamento: economia e política. Aliás –digo eu – a impressão que se tem é que, no fundo, tudo parte da economia política. Uma não caminha sem a outra, mas o ser humano está muito mais voltado para a concentração do que para a distribuição. Daí a dificuldade de se atribuir a verdadeira importância a este fator decisivo chamado salário e emprego. É fundamental: na verdade a base de tudo.

Muitas provas da assertiva podem ser relacionadas, porém a mais próxima encontra-se na reportagem de Fernando Canzian a que me referi no início deste artigo. Um levantamento em torno das 500 maiores empresas americanas revela que no segundo trimestre deste ano tiveram elas lucros em média 35% menores que os alcançados no idêntico período de 2008. Já no primeiro trimestre, a tendência se delineava. Um confronto entre Janeiro, fevereiro e março de 2009 em relação aos mesmos meses de 2008 apresentava uma redução de 33%na margem operativa.

Porque isso? Porque o consumo popular se retraiu em consequência do aumento do desemprego ou temor da perda de emprego. Diante de tal sombra assustadora, o comportamento leva a prática de cortes no orçamento familiar de forma geral. Corte portanto no consumo. E o consumo das famílias norteamericanas (*são mais ou menos 75 milhões, pois a população global é de 300 milhões de habitantes) possui peso –acentua Canzian – de 70% no PIB. E olha que o Produto Bruto dos EUA eleva-se a 15 trilhões de dólares, um terço do que é produzido por ano em todo o mundo. Por sua vez, a massa salarial representa 60% do PIB, algo portanto em torno de 9 trilhões de dólares. No Brasil, o volume de salários significa apenas 30% do PIB. A diferença é essencial. A distribuição americana é concretamente muito maior que a distribuição proporcional brasileira.

Mas, diferença à parte, uma convergência eterna e inapelável: sem consumo não se sai do redemoinho da crise. E para que haja este consumo, não pode faltar emprego. Pois se faltar, ou ele estiver sob ameaça, todos terminam se perguntando: como adquirir produtos e pagar as contas? Sem salário é simplesmente impossível. O emprego é a saída. Aliás a única. Seja para se vencer a crise, seja para a dignidade humana.

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