Traçadas as linhas centrais da campanha

Pedro do Coutto

As matérias de Gerson Camaroti e Adriana Vasconcelos, O Globo, e Vera Rosa, O Estado de São Paulo, ambas publicadas na sexta-feira passada, forneceram bem a idéia básica de qual será, no lado do governo, a estratégia a ser adotada na campanha eleitoral deste ano pela presidência da República. Em primeiro lugar, o presidente Lula deseja que o PMDB forneça uma lista tríplice de nomes para a escolha do candidato a vice na chapa de Dilma Roussef. Logo, não é pacífica a aceitação do deputado Michel Temer. Pois se a indicação pertencesse exclusivamente ao PMDB não haveria necessidade de serem colocados três nomes na mesa de negociação governista. Isso de um lado.

De outro, o presidente da República quer conduzir no embate para o terreno plebiscitário, como sempre se calculou: não pretende o debate restrito entre a chefe da Casa Civil e o governador José Serra. Deseja a campanha, isso sim, no fundo da questão, entre o seu governo, iluminado pela popularidade, e a administração Fernando Henrique. Habilmente, deseja ser ele próprio o candidato subliminar embora sem que seu nome esteja na cédula, o que não acontece desde 1989. O desafio, para a oposição, é agir para não aceitar o confronto nestes termos. Afastá-lo de tal ângulo emocional. Porém tanto de um lado como de outro as articulações também vão depender dos elos entre os candidatos a presidente e aqueles que vão disputar os governos estaduais. A esse propósito já surgiu a primeira divergência na área oposicionista: o PSOL de Heloísa Helena não apoiará Marina Silva, no primeiro turno, se ela aceitar uma articulação independente com o PSDB em torno da candidatura de Fernando Gabeira a governador do Rio de Janeiro. Importante este fato porque o RJ é o terceiro colégio eleitoral do país e a divergência tem a aparência de se estender ao segundo turno. Mas não é este apenas o único complicador para a oposição. No pleito de 2006, o PSDB com Geraldo Alckmin venceu em todo o Sul, abrangendo São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Agora, neste ano, com a governadora Ieda Crusius o Rio Grande do Sul está perdido. A oposição não pode mais contar com o expressivo colégio eleitoral gaúcho. Lá as pesquisas estão apontando um empate em torno de 30% das intenções de voto entre o ministro Tarso Genro e oo prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, do PMDB. Não sobra assim espaço para o PSDB. Um dado a considerar.

Enquanto isso, Ciro Gomes desapareceu do noticiário político. Realmente se Lula empenha-se para que a eleição seja um julgamento entre o seu governo e o de FHC, o ex governador do Ceará perde importância em tal cenário. Para estabelecer a polarização que deseja, Ciro no máximo seria um coadjuvante à distância. Sua presença nas urnas destinar-se-ia apenas, no caso de disputar a presidência, assegurar o segundo turno. A menos que viesse a disputar o governo de São Paulo através de uma aliança PT-PSB, o que poderia fazer com que bases paulistas do Partido dos Trabalhadores se retraíssem na campanha. Como candidato a vice de Dilma, Ciro explodiria a coligação PT-PMDB. São dilemas, todos estes, que só o desenrolar da jornada poderá equacionar e resolver. Mas as linhas centrais já foram traçadas. Difícil mudá-las.

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