Tragédia da Somália é desprezada pela ONU, pelos países desenvolvidos e pela imprensa mundial.

O sempre atento comentarista Mario Assis nos manda um importante artigo de Jacques Gruman que está circulando na internet, sobre o desprezo da ONU, dos países desenvolvidos e da imprensa sobre o drama que vive hoje a Somália.
Realmente, é abominável que isso esteja acontecendo em pleno Terceiro Milênio, sob as vistas impassíveis de praticamente todos nós.  

***
KALTUM NÃO TEM OLHOS AZUIS

Jacques Gruman

Há cerca de dez mil anos, o mundo passava por uma revolução. Até então, grupos humanos, dependentes de caça e coleta de alimentos para sobreviver, eram forçados a migrar permanentemente. Cada vez que os recursos de uma determinada área se esgotavam, levantava-se acampamento e partia-se em busca de áreas promissoras. Um acúmulo de observações e criatividade mudou esse quadro. O plantio de sementes, base da Revolução Agrícola, permitiu a fixação territorial, diminuiu a vulnerabilidade alimentar e viabilizou a construção de cidades. Assim, há pelo menos cem séculos o homem aprendeu a plantar e colher para não morrer de fome.

Com isso na cabeça, olhei as imagens que chegam de Mogadício. Algumas lembram as primeiras fotos dos sobreviventes de campos de concentração e extermínio na Europa dominada pelo nazismo. Gente com olhos mortos, pele e osso, sem forças sequer para chorar. Cerca de 29 mil crianças menores de cinco anos morreram de fome nos últimos três meses na Somália.

Levantamento da ONU registra que ao menos 640 mil crianças somalis estão desnutridas. Uma catástrofe monumental e que, no entanto, não causa grande comoção. A morte de Amy Winehouse, por exemplo, ocupou muito mais espaço na mídia. Por que será ? Amy, cujo drama pessoal não subestimo, tinha valor de mercado. Os filhos de Kaltum Mohamed não ajudavam a vender discos, roupas, i-isso, i-aquilo, ilusões.

Kaltum é apenas uma entre as milhares de refugiadas somalis. Perdeu quatro dos cinco filhos por causa da fome em menos de 24 horas. Mas quem se interessa por ela ? Quanto valem suas ações na bolsa da vida ?  Seu tormento é uma gota no mar trágico de dor, silêncio e indiferença que aprisiona os países africanos tragados pela seca. Quem não tem colírio, usa óculos escuros. Quem não tem petróleo, nem olhos claros … que se vire !

Imaginemos que fossem, por exemplo, os dinamarqueses a passar fome. Alguém duvida que uma gigantesca mobilização mundial resolveria rapidamente o problema ? A fome aguda na África não se resolverá, é claro, apenas com medidas emergenciais. Ocorre que – fala, Betinho – quem tem fome, tem pressa. Quando houve os atentados às Torres Gêmeas, em menos de um mês os Estados Unidos se organizaram para atacar o Afeganistão – com os resultados pífios que se conhece. A lógica do império exigia ação imediata e recursos ilimitados não faltaram.

Quando se trata de salvar da desnutrição centenas de milhares de africanos, fica-se na retórica. Pra que pressa ? Os africanos não têm olhos claros. São descartáveis no mercado globalizado. Como disse o escritor moçambicano Mia Couto: “A África continua sendo distante e ignorada. Mais do que ignorada, é um continente sobre o qual pensa-se que sabe.”

Não existe nenhuma razão objetiva para existir fome no planeta. Tecnologia, terras, meios de produção, tudo está disponível e é amplamente conhecido. Apesar disso, a cada seis segundos uma criança morre de fome no mundo. Calcula-se que um investimento anual de US$ 200 bilhões em agricultura primária nos países em desenvolvimento seria suficiente para erradicar a fome. Isso representa pouco mais de 12% dos gastos militares globais em 2010. Os Estados Unidos, onde 42 milhões de cidadãos dependem de ajuda governamental para não passar fome, são responsáveis por quase metade dos dispêndios militares mundiais. Estranho ? Não.

O capital é amoral, torto e desequilibrado por natureza, migra para onde o lucro é maior. Não importa que, atrás de si, deixe um rastro de destruição e miséria. Guerras são negócio altamente lucrativo. Um exército de Kaltums não passa de sombra nos gráficos financeiros dos estrategistas da Morte. Um dia, esses espectros ganharão carne e voz. Nesse dia, a Terra tremerá.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *