Um desesperado poema de Casimiro de Abreu, para descrever que sentia medo de amar

Paulo Peres
Poemas & Canes
O poeta Casimiro Jos Marques de Timo Abreu (1839-1860) nasceu em Barra de So Joo (RJ) e foi um intelectual brasileiro da segunda gerao romntica. Sua poesia tornou-se muito popular durante dcadas, devido linguagem simples, delicada, cativante e aos temas comuns do lirismo romntico: o amor impossvel e platnico, o conflito entre o desejo e a pureza, a depresso e a morte. No poema Amor e Medo, sintetiza a insegurana adolescente frente ao sexo.

AMOR E MEDO
Casimiro de Abreu

Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!

Como te enganas! meu amor, chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo que te adoro louco
s bela eu moo; tens amor, eu medo

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O vu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremeo de cruis receios.

que esse vento que na vrzea ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: que seria da plantinha humilde,
Que sombra dela to feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

Ai! se te visse no calor da sesta,
A mo tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espduas nuas!

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volpia doce,
Os braos frouxos palpitante o seio!

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trmula a fala, a protestar baixinho
Vermelha a boca, soluando um beijo!

Diz: que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descala,
Criana louca sobre um cho de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
brio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocncia que teu lbio encerra,
E tu serias no lascivo abrao,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois desperta no febril delrio,
Olhos pisados como um vo lamento,
Tu perguntaras: que da minha coroa?
Eu te diria: desfolhou-a o vento!

Oh! no me chames corao de gelo!
Bem vs: tra-me no fatal segredo.
Se de ti fujo que te adoro e muito!
s bela eu moo; tens amor, eu medo!

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