Um dos falsos mitos do envelhecimento: o deterioramento mental seria inevitável

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Diogo Sponchiato
MSN Notícias

O envelhecimento é marcado por falsos mitos, um deles indica que “agora não adianta mais se matricular na academia” ou “exercício é coisa para jovem”. Eles não passam de desculpa daquelas pessoas que não se cuidaram quando jovens e acreditam que já não há nada que possa ser feito hoje para afastar ou enfrentar problemas de saúde. Desculpa sem fundamento.

Outro mito insiste em que o deterioramento mental é inevitável. Esta afirmação é parcialmente verdadeira, pois, à medida que envelhecemos, as células-tronco — das quais todo tecido corporal se desenvolve, inclusive o cerebral — se reproduzem mais devagar. Porém, assim como a musculação ajuda a conservar a massa magra, exercitar o cérebro colabora na manutenção das habilidades cognitivas. Exercitar de que jeito? Lendo livros, escrevendo um diário ou poesias, jogando Paciência… Quando algumas habilidades diminuem, outras podem ser aprimoradas para compensar.

UMA HIPÓTESE – Imagine o cenário hipotético: você está em uma festa e conhece uma pessoa nova. O nome dela é Luiz. Há muita gente na festa e, enquanto papeia com o Luiz, você também está escutando cochichos de outra conversa nas proximidades. O assunto da discussão paralela é futebol — e não tem relação alguma com o que você está abordando com o Luiz. Bom, a conversa ao lado termina, após um tempinho você se despede do Luiz e, em seguida, vai embora para casa.

Na semana seguinte, eis que você encontra novamente o Luiz e inexplicavelmente acaba lembrando de um jogo de futebol que acontecerá domingo que vem. O que uma coisa tem a ver com a outra? Por que isso aconteceu?

A conversa paralela parecia irrelevante no momento da festa, mas sua mente, distraída e interessada pelo assunto, se conectou a esse ruído sem importância e à memória recém-formada sobre o Luiz.

EXPERIÊNCIA – Cientistas da Universidade de Toronto, no Canadá, adaptaram essa historinha para um experimento de laboratório a fim de testar se tal fenômeno só acontecia pra valer em idosos — e quais as suas repercussões.

Os pesquisadores recrutaram dois grupos de voluntários, o primeiro com jovens de 19 anos e o segundo com adultos de 60 anos, em média. Eles mostraram a todos os participantes uma sequência de imagens no computador que continham palavras aparentemente irrelevantes sobrepostas. Isso é como conhecer o Luiz e ouvir conversas paralelas ao mesmo tempo. Os voluntários foram informados para ignorar as palavras e focar apenas nas imagens.

Em seguida, ocorreram dois testes de memória. No primeiro, os participantes tinham que apertar uma tecla assim que a mesma imagem aparecesse duas vezes seguidas. Foi no segundo que rolou a surpresa. As pessoas tinham que tentar recordar qual palavra estava associada a cada desenho. E o intuito era comparar depois o desempenho nessa tarefa entre as mentes mais jovens e as mais experientes.

VISÃO DO TODO – Os resultados foram incríveis. Os voluntários mais velhos foram claramente incapazes de ignorar as palavras de distração mesmo quando sendo instruídos para isso. Eles guardaram as palavras irrelevantes ligando-as com suas imagens correspondentes. O que isso sugere é que a turma acima dos 60 possui uma regulação mental mais fraca e uma “visão do todo” mais ampla, armazenando informações importantes e sem importância indiscriminadamente.

Elas guardam esse novo conhecimento para uso posterior e o fazem sem sequer ter consciência disso. Mas essa distração não seria um obstáculo terrível? Não iria apenas confundir ainda mais a mente com muita informação “desnecessária”? Não foi isso que os cientistas concluíram.

 

Na verdade, pode ser uma vantagem e tanto. O envelhecimento geralmente traz consigo alguns declínios cognitivos leves — de fato, os idosos foram mais lentos e menos precisos em algumas partes dessas experiências de memória. Mas a consciência de como os eventos se conectam no cotidiano — mesmo acontecimentos aparentemente bobinhos — pode desempenhar um papel crítico em certos tipos de raciocínio e julgamento, favorecendo diversas resoluções no dia a dia.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Amanhã, a parte final da matéria enviada pelo auditor Darcy Leite, sobre sexo na terceira idade. (C.N.)

8 thoughts on “Um dos falsos mitos do envelhecimento: o deterioramento mental seria inevitável

  1. 1) Ótima série de artigos que o Darcy Leite enviou, lembro dele em nosso memorável almoço: veio a pé da Urca até a Lapa.

    2) Sugiro mais artigos semelhantes, na área da saúde e temas afins.

    3) Abraços !

  2. Uma dúvida, Carlos Newton.

    A matéria é da autoria do leitor, comentarista e Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, aposentado desde Junho de 2015, Darcy Leite Pereira Filho? ou o referido leitor obteve e enviou para a publicação?.

  3. A gente envelhece como viveu. Com todas as qualidades e defeitos. Se viveu como “irmã Paula, morrerá como irmã Paula.
    Fisicamente, o velho no espelho é aquilo que ele não queria ser: flácido, com rugas, manchas senis.
    “O velho é sempre o outro”, disse Simone de Beauvoir.
    Mas a gente não pode generalizar nada sobre velhice. Há escritores idosos nos dias de hoje, como ontem: Sófocles escreveu Édipo aos 90 anos;Platão até morrer escreveu leis, 83 anos.Nosso grande jornalista Hélio Fernandes, 87, dá aulas de História, em sua página no Face.
    Doença progressiva que destrói a memória e outras funções mentais importantes, como o Alzheimer, é uma realidade irreversivel. Claro que gostariamos de ser eternamente jovens, como Dorian Gray – jovem e belo – como em sua foto. A história, todos sabemos.
    Affonso Romano de Sant’Anna escreveu: A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fotos de sua juventude tinha sempre a sensação de que ele estava inventando uma estória para me convencer de alguma coisa. Enm “O velho olhando o mar”.

  4. De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

    Fernando Sabino – O Escolhido in O Encontro Marcado. Editora Record. 79ª edição. 2005.

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