Um grande brasileiro

Sebastião Nery

“Uma semana após tomar posse (7.9.61), Jango convidou o amigo e deputado petebista Wilson Fadul para uma pescaria na ilha de Bananal. Com ele iria o chefe da Casa Militar, general Amaury Kruel. Em certo momento na pescaria, Fadul, homem sensível, percebeu que Jango o convidara a ouvir, porque sabia que o general seria o que falaria”.

2. – “Kruel simplesmente propôs que Jango fechasse o Congresso, restituísse seus poderes presidenciais e decretasse as reformas de base. Aproveitando a presença de Fadul, o general sugeriu que ele, no golpe, assumisse o governo de Brasília. O cenário era sugestivo: enquanto Jango segurava uma vara de pescar, Kruel portava uma espingarda. Era sábado e o general planejava o golpe para dois dias depois: – “Segunda-feira eu tenho as tropas todas na mão. Nós fechamos o Congresso  e estabelecemos as reformas por decreto”. Jango permanecia em silêncio enquanto Kruel, insistindo no plano, mostrava os mapas das tropas, com que comando poderia contar, entre outros assuntos relacionados com o golpe”.

3. – “Ao voltarem ao hotel, Jango convidou Fadul a ir ao seu quarto. Deitou-se na cama ainda de botas, a mão na cabeça e, antes de dizer o que pensava, perguntou: “O que é que tu achas desse negócio?” Fadul dissertou longamente em defesa da legalidade, reforçando um argumento: o país se levanta em defesa da Constituição e da democracia para dar posse a um presidente que, uma semana depois de assumir, fecha o Congresso Nacional. Jango, com seu jeito paciente, demorou alguns minutos para responder: “Você tem razão. E vou lhe dizer mais uma coisa, o dia em que um general sentar nessa cadeira (presidencial), não levanta mais.”

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JANGO

 4. – “Goulart tomou um avião com destino a Porto Alegre (no dia 2 de abril de 1964) acompanhado do general Assis Brasil, que não o abandonou. Mas o Coronado da Varig que ele havia requisitado teve uma pane quando se preparava para decolar. Por duas angustiantes horas, ele esperou o reparo, ouvindo uma série de desculpas. O ministro da Saúde, Wilson Fadul, no passado oficial medico da Aeronáutica, foi categórico:

– “Jango, esse avião está sabotado, ele não vai decolar, você vai ser preso aqui. Vamos pegar outro avião que eu mandei reabastecer.” Um Avro turboélice da FAB estava pronto. Nele, partiram para a capital gaúcha”.

5. – “No pequeno Avro, Wilson Fadul observava que Jango demonstrava tranquilidade. Logo, o Presidente o chamou para sentar-se ao seu lado. A seguir, perguntou: “O que é que você está achando disso tudo?” Fadul respondeu: “Bom, disso tudo não resta grande coisa. Resta você chegar ao Rio Grande do Sul e examinar a situação do Estado. Se o Rio Grande estiver unido em torno do seu nome, que é um problema a ser verificado, você só tem um caminho, que é resistir. Porque não pode abandonar o povo e o Exército no Rio Grande. Aí você tem que resistir. Mas se o Rio Grande estiver dividido, eu acho que você não deve resistir, porque vamos ser esmagados como o último reduto comunista do país.”

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GOLPE
 

6. – “O presidente, depois de pesar a disposição de forças, não aceitou a proposta de resistir. A resistência jogaria o país em uma guerra civil de consequências imprevisíveis, foi a sua avaliação. Segundo a versão de Brizola, Goulart teria dito: – “Eu verifico o seguinte: que a minha permanência no governo terá que ser à custa de derramamento de sangue. E eu não quero que o povo brasileiro pague esse tributo. Então eu me retiro”.  Apesar dos apelos insistentes de Ladário e Brizola, a decisão foi tomada.

Esses são pequenos trechos de um livro essencial para a historia do pais, que já comentei aqui: “João Goulart” (Jorge Ferreira, ed. Civilização).

E tem o retrato de um grande brasileiro, que acaba de morrer, aos 91 anos. 

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WILSON FADUL

Fluminense de Valença, no Estado do Rio, filho de comerciante libanês estabelecido em Minas, Wilson Fadul formou-se na Faculdade Fluminense de Medicina e trabalhou na Santa Casa do Rio. Entrou para a Aeronáutica e foi servir em Campo Grande, Mato Grosso. Em 1950 já era vereador pelo PTB e presidente da Camara. De1953 a 55  prefeito e em 1956 deputado federal. Em 60, candidato a governador, sempre pelo PTB, perdeu para Francisco Correa (UDN). Em 62, novamente deputado federal.

Em 1963, substituiu o mineiro Paulo Pinheiro Chagas no ministério da Saúde, onde fez uma pesquisa sobre a desnacionalização da industria farmacêutica (95% estrangeira), exigindo a uniformização dos preços em todo o pais, obrigando os laboratorios a marcá-los nas embalagens. Na briga entraram o notório embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, e o embaixador do Brasil em Washington, Roberto Campos.

Homem publico exemplar, integro e inatacável, Fadul foi demitido  pelo golpe de 64 logo em 4 de abril e teve cassados o mandato e os direitos politicos pelo AI nº 1. Anistiado em 79, candidatou-se ao governo de Mato Grosso do Sul , pela legenda do PDT, perdendo para Wilson Martins, do PMDB. De 84 a 87, foi diretor do Banerj no primeiro governo Brizola.

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