Um partido posto em frangalhos

Carlos Chagas

Prevista para a próxima semana, dia 21, a reunião do presidente Lula com dirigentes do PMDB marcará o engajamento formal do partido na candidatura Dilma Rousseff. Representará o assassinato explícito da tentativa de as bases peemedebistas se reunirem em  novembro,  conforme estava combinado, para um Congresso Nacional onde se debateria a hipótese da candidatura própria e a  elaboração de um programa mínimo para uni-los na sucessão do ano que vem.

Foi o que denunciou  o senador Pedro Simon, no fim de semana, acentuando ter sido  a proposta  atropelada por obra e graça do presidente licenciado do PMDB, Michel Temer, na verdade quem ainda manda na legenda. Disposto a tornar-se candidato a vice-presidente na chapa de Dilma, já que por ser paulista, não conseguiria ser vice de Serra, o presidente da Câmara recebeu contundentes críticas do  senador gaúcho. Conforme Simon, ficou selado um presente negro e um futuro triste para o PMDB,  na humilhante reunião de líderes, semana passada, para a qual não foi convidado  e  nem iria, se tivesse sido. Lá estava o grupo empenhado em vender o partido em troca de cargos e benesses no futuro governo.  De Dilma Rousseff, se ela vencer, ou de José Serra, se o presidente Lula não conseguir transferir sua popularidade para a candidata. Porque um jeito sempre haverá para se aproximarem do governador paulista.   Além de Michel Temer, segundo Simon, esse grupo é comandado por Renan Calheiros, ex-ministro de Fernando Henrique e hoje porta-voz  do governo atual; Geddel Vieira Lima, líder de Fernando Henrique na Câmara e agora ministro do Lula; Eliseu Padilha, também ministro do governo passado e cheio de paixão pelo presidente da República; José Sarney, capaz de vender a alma ao Lula por conta de sua permanência na presidência do Senado; e outros da mesma estirpe.

Por essas e outras, completou o senador,  o PMDB tornou-se insosso, amorfo e inodoro, um arremedo  que em breve perderá a condição de maior partido nacional, empenhado em namorar os dois lados da equação sucessória, ou qualquer outro que possa aparecer, sem comprometer-se com a solução  natural que seria o lançamento de uma candidatura própria. Seus dirigentes  formarão com quem  vencer, qualquer que seja.

“Não  merecemos o comando que temos”,  afirmou, lembrando que todos mantém  cargos no governo do PT, como mantinham  no governo do PSDB. E terão nos próximos,  até o dia em que perceberem estar reduzidos a frangalhos, desprezados pelo eleitorado.   Por essas e outras,  Simon anunciou que abandonará a vida pública, uma vez encerrado seu mandato, em 2014…

Depois do Estado, a Folha

Seria de fazer corar frades de pedra, se eles ainda existissem, a denúncia publicada ontem pela “Folha de S.Paulo”.  Degravações de conversas entre o filho mais velho do senador José Sarney, Fernando Sarney, mostram conversas, pedidos e instruções dadas por ele ao ministro Edison Lobão e assessores, interferindo em audiências e atos do ministério das Minas e Energia.

Lobão defendeu-se, dizendo que amigos podem pedir, mas não são atendidos. Pode ser, mas choca todo mundo  a desenvoltura com que Fernando Sarney e o ex-ministro Silas Rondeau, outro integrante do clã do ex-presidente da República, tratam da coisa pública junto a um ministro do governo Lula.

O jornal “O Estado de S. Paulo” já se encontra censurado por  ato judicial, proibido de divulgar denúncias envolvendo o filho de Sarney. Pelo jeito, chegará rápido  a vez da “Folha de S. Paulo”,  já que os processos correm em segredo de justiça. Fica estranho, também, saber que  a Polícia Federal monta sistemas de escuta telefônica  atingindo  o gabinete de um  ministro.   Bem fazia  Tancredo Neves ao recomendar a seus amigos e  assessores que, pelo telefone, não abordassem nada além da rotina e do futebol.

Um episódio a esclarecer

Por falar em Tancredo Neves, um episódio a esclarecer. O presidente eleito mas não empossado encontrava-se internado num hospital de São Paulo, já submetido a diversas operações. Seus médicos divulgavam boletins diários, sempre pessimistas.

Em Brasília, o  então  ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo, acompanhava com a apreensão o drama do tio, ao tempo  em que procurava conduzir a política econômica do presidente interino, José Sarney.

Certa manhã,  este que vos escreve recebeu telefonema de Dornelles, pedindo-me comparecer ao seu gabinete, na Esplanada dos Ministérios. Lá, numa pequena sala de reuniões ao lado de sua escrivaninha, estavam dois senhores de aparência modesta, dizendo-se monges de um mosteiro desconhecido do interior de Goiás. Há dias tentavam avistar-se com o ministro para avisa-lo de que a doença de Tancredo ligava-se a “trabalhos”  de magia negra. Autorizados por Dornelles, tinham acabado de voltar do apartamento particular do presidente eleito, onde foram investigar. Haviam sido acompanhados por um outro sobrinho de Tancredo, primo de Dornelles, Gastão Neves, hoje falecido. No quarto de dormir, abriram com uma faca o travesseiro,encontrando nele o que, naquela salinha do ministério da Fazenda, encontrava-se sobre pequena mesa redonda: o travesseiro rasgado e, dentro dele, um boneco vudu, todo espetado por espinhos, e mais um terço desses que se vê matronas rezando na Igreja.

Dornelles perguntou-me, entre espantado e cético, o que fazer com aquela estranha composição, ao tempo em que deu a palavra aos dois monges. Eles explicaram que a magia negra  era forte, responsável pelo péssimo estado de saúde de Tancredo.  Mais ainda, recomendavam duas ações: iriam naquele momento mesmo a algum local próximo de Brasília onde encontrassem uma cachoeira de águas límpidas, para lá depositar as duas peças de feitiçaria, limpando-as. E em seguida queriam ser conduzidos a São Paulo, para rezarem em local o mais próximo de Tancredo, buscando  neutralizar o feitiço com orações.

A pergunta que Dornelles me fez já era uma decisão, com a qual  obviamente concordei, mesmo sem acreditar na versão dos monges: “devo  mandá-los  agora mesmo para São Paulo?”

Um telefonema foi providenciado para o então delegado Romeu Tuma, que cuidava da segurança de Tancredo no hospital, informando que o jatinho do ministério da Fazenda levaria dois amigos que deveriam ser obedecidos na  medida do possível  em tudo o que pleiteassem.

Lá se foram os dois monges, que Tuma não permitiu entrassem no  quarto do presidente eleito, mas colocou-os no andar superior, bem em cima dos aposentos do paciente. Lá eles rezaram a noite inteira.

O epílogo do episódio aconteceu no dia seguinte, quando à tarde o professor-doutor encarregado de divulgar o boletim surpreendeu o país, anunciando que o estado geral do dr. Tancredo havia melhorado sensivelmente. Recebi minutos depois telefonema de Dornelles: “você viu?”

Respondi que tinha visto, que não acreditava mas que curvava-me a qualquer fato envolvendo a saúde do presidente. Realmente, mais um dia e voltaram as informações pessimistas, novas operações e, no fim, a morte de Tancredo.  Mas que eu tinha visto também o boneco vudu, isso tinha…

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