Um teste necessrio

Carlos Chagas

Comeou ontem um teste fundamental para a candidatura Dilma Rousseff, com o incio da longa viagem do presidente Lula ao exterior e a divulgao da queda nos percentuais de aprovao da ministra, nas pesquisas eleitorais. Nos prximos quinze dias, apesar de um pouso de dois dias do Lula no Brasil, para reabastecimento poltico, a candidata precisar demonstrar condies para voar sozinha. Traduzindo: aparecer, criar fatos e manter-se na mdia ser problema exclusivo dela.

A presidncia da Repblica est, h dois dias, formalmente entregue ao herico Jos Alencar, mas o funcionamento da mquina administrativa fica com dona Dilma. Mesmo sem a previso de acontecimentos inusitados que exijam sua participao, caber a ela retirar dividendos da rotina. No poder permanecer sombra. Esperam-se viagens para fiscalizao das obras do PAC, assim como participao no dilogo do governo com o Congresso. Sem ser presidente da Repblica, a candidata dever comportar-se como tal. Prestando, por certo, as devidas homenagens ao vice-presidente em exerccio, mas exercendo diante do ministrio um comando ainda mais ostensivo do que aquele que j exerce.

A oportunidade mpar, ainda que perigosa. Dilma estar sob os holofotes dos meios de comunicao, desde sua caminhada matinal na Pennsula dos Ministros, em Braslia, ao contato com o pblico e com certas raposas da poltica. Dando certo, poder recuperar e ampliar os ndices de preferncia popular. Mergulhando, sofrer os efeitos de um impacto fatal. H quem suponha mais do que coincidncia nesse afastamento do Lula: um teste necessrio.

Alta exposio

Do discurso na Assemblia Geral das Naes Unidas a encontros agendados com chefes de estado e de governo a entrevistas variadas imprensa internacional, em Nova York; da reunio com presidentes e primeiros-ministros do G-20, em Pittsburg; do encontro com dirigentes da Amrica Latina e da frica, em Caracas; da presena na deciso sobre onde acontecero os Jogos Olmpicos de 2016, em Copenhague at a visita oficial Blgica, em Bruxelas a quantos banquetes, gapes, coquetis, cafs-da-manh, almoos e jantares comparecer o presidente Lula, da ltima segunda-feira at o dia 5 de outubro? Mesmo com a oportunidade de um regime salutar no dia 28 e parte do dia 29, quando estar em Braslia, o Lula condena-se a adquirir mais um quilinhos. o preo da alta exposio poltica a que se submeter nos Estados Unidos, Venezuela, Dinamarca e Blgica.

Vem de tempos imemoriais esse protocolo a que presidentes e chefes de governo, assim como reis, rainhas, imperadores e ditadores submetem seus estmagos em nome da boa vizinhana. Se a lgica e o bom-senso valessem, mudanas aconteceriam nesse comeo do Sculo XXI. At em nome do combate fome no mundo, por que no suprimir tanta provocao gula generalizada? Viagens de trabalho, como so todas, poderiam muito bem acontecer sem essas gastanas e lambanas, sobrando mais tempo para o trato de questes de importncia vital para as naes e seus lderes. Parece coisa boba, suprflua, mas no .

Memorial dos vencidos

Do Palcio do Planalto s sedes dos governos estaduais e at as prefeituras, so centenas as galerias com fotos de antigos presidentes, governadores e prefeitos. Uma exaltao necessria, homenagem prestada aos vitoriosos para suas imagens ficarem inscritas na Histria.

Tudo bem, s que a moeda tem duas faces. Por que os governos federal, estaduais e municipais no dedicam um pedacinho de parede, sequer, para homenagear os derrotados? Seria, no mnimo, uma contribuio memria nacional.

Ficando apenas na presidncia da Repblica, e tomando-se como marco a democratizao de 1945, por que no inaugurar uma galeria capaz de fazer justia, entre outros, ao brigadeiro Eduardo Gomes, Yeddo Fiuzza, Cristiano Machado, Juarez Tvora, Ademar de Barros, Plnio Salgado, Henrique Teixeira Lott, Ulysses Guimares, Mrio Covas, Aureliano Chaves, Paulo Maluf, Roberto Freire, Afonso Camargo Netto, Leonel Brizola, o prprio Lula em trs tempos, Jos Serra, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e tantos mais?

Esse comentrio se faz a propsito da prxima sucesso. Na galeria dos vencedores s haver lugar para um. Arriscam-se os vencidos a cair no esquecimento, como aqueles acima citados. No seria a oportunidade de uma reconciliao com o passado, daqui a alguns anos?

A Quinta Coluna

Em tempos de guerra funciona um setor to importante quanto os batalhes e regimentos dispostos em confronto. a chamada Quinta Coluna, formada por naturais de um pas que discordam fundamentalmente de seus governos e passam a trabalhar para a prpria derrota, informando o inimigo e sabotando de todas as formas a estratgia de seus governantes.

Mesmo em tempos de paz a Quinta Coluna exerce suas atividades. Tome-se a recente indicao de Jos Antnio Dias Toffoli para o Supremo Tribunal Federal. Enquanto na chefia da Advocacia Geral da Unio, ningum o incomodava. Era elogiado pela competncia com que assessorava o presidente Lula e cumpria suas tarefas. Ficaria at a eternidade na funo, caso o presidente tambm ficasse, sem despertar a mnima animosidade.

De repente, logo que divulgado seu nome integrar a mais alta corte nacional de justia, desaba na imprensa a histria de haver sido o escritrio de advocacia em que ele trabalhava, em 2001, prestado servios ao governo do Amap, tendo a Justia daquele estado considerado irregular o contrato. Divulga-se que precisa ressarcir o errio em 420 mil reais, por deciso de uma vara cvel.

Faltasse uma prova da existncia da Quinta Coluna no governo Lula e ela acaba de ser exposta. Trata-se de sabotagem pura, no propriamente a deciso judicial do Amap, mas sua pronta divulgao no momento em que Toffoli foi indicado. Seria o caso de os rgos de informao a servio do Executivo investigarem de onde partiu a operao. Se possvel, revelando o nome dos Quinta Colunas, partindo da premissa de no serem da oposio. Podero ser encontrados no prprio governo…

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