Vá com calma, companheiro

Carlos Chagas

Um aviso, apenas. Um pequeno sinal de que é preciso ir com calma no exercício de qualquer função, mesmo a de presidente da República. Fala-se da crise de hipertensão que acometeu o presidente Lula. Não dá para ninguém manter sem risco  uma agenda como a dele, plena de viagens, inaugurações, reuniões as mais variadas, despachos e, há pelo menos  dois anos,  campanha eleitoral. No caso dos aviões,  chama-se fadiga dos metais.  Do gênero humano, excesso de trabalho.

Por ironia,  essa sobrecarga que atropelou o Lula acontece quando mais se aprimora a tecnologia dos meios de comunicação,  em condições de  restringir a presença física dos governantes num país das dimensões do Brasil. Além do que, governar não é  viajar, moda inaugurada  por Juscelino Kubitschek há mais de cinqüenta anos. Não foi por coincidência que ele enfrentou  um enfarte em pleno mandato presidencial, acidente abafado e escondido até de seus  ministros. Nem é preciso lembrar o derrame sofrido por Costa e Silva e o desmaio de João Goulart, no México. Ou a frustração da doença de Tancredo Neves, depois de visitar os principais líderes da  Europa e Estados Unidos em menos de uma semana

Fica a lição para o Lula: vá com calma, mesmo que isso signifique dificuldades para a candidatura de  Dilma Rousseff.

E o compromisso com Eunício?

A memória do povo é fraca, mas a do PMDB,  mais ainda. Como reação  à   má-vontade do presidente Lula diante da indicação  de Michel Temer para companheiro de chapa de Dilma Rousseff,  foi antecipada  para o próximo dia 6 a convenção que reelegerá o deputado na presidência do partido. Tudo de acordo com a estratégia dos cardeais peemedebistas, não fosse…

Não fosse o compromisso solene assumido pelo próprio Temer para fazer do deputado Eunício Oliveira o novo presidente do PMDB.  Estava tudo acertado, parece que até por escrito. A saída parece ser a designação de Eunício para primeiro vice-presidente. Caso Michel Temer se torne mesmo parceiro de Dilma Rousseff, pediria licença do cargo. Se eleito, poderia até renunciar.  Mas que Eunício Oliveira está sendo garfado, não se duvida.

A verdadeira razão

Na convenção do  sábado, dia 6, a cúpula do PMDB decidiu não colocar em discussão, muito menos em votação, o apoio do partido à candidatura Dilma Rousseff  e até a indicação de Michel Temer para seu  vice.  Sucessão presidencial será tema proibido.  A explicação para a imprensa é de que, assim, ficaria mais fácil o presidente Lula acomodar-se à presença de Temer na chapa oficial. Deixando em aberto  a formalização da  aliança, o PMDB contaria com um cacife extra na mesa de jogo.

Na verdade, não é bem assim. A decisão de não ser levantada a sucessão presidencial na convenção de Brasília baseia-se no temor de que a maioria dos diretórios regionais  poderia pronunciar-se pela candidatura própria, no caso, do governador Roberto Requião. O resultado seria desastroso para Michel Temer e seu grupo, porém, mais ainda   para   Dilma Rousseff.

O presidente de honra do PMDB, Paes de Andrade, está disposto a botar água no chope da cúpula do partido, levantando a exigência de os convencionais se pronunciarem desde já sobre a candidatura própria. Pode dar bolo.

Acertou mais uma vez

Por mais que se critiquem certas iniciativas do presidente Lula, a verdade é que na maioria dos casos ele  age de acordo com o sentimento nacional. Apesar de as elites torcerem o nariz, o   povão adorou quando o primeiro-companheiro foi fotografado, na praia, com uma caixa de isopor na cabeça, à maneira dos vendedores de sorvete.

Repete-se o mesmo fenômeno agora, quando o presidente, contrariando o Tribunal de Contas da União, mandou continuarem quatro obras da Petrobrás. Elas haviam sido consideradas irregulares, com preços superfaturados e  vício nos projetos. Através de um veto ao Orçamento da União, o presidente  manteve a dotação para as obras e elas não serão paralisadas.  A explicação é de que, embargadas, determinariam a demissão de 25 mil trabalhadores.

Onde está o sentimento nacional? Com o Lula, caso fosse realizado um plebiscito. E apesar da reação também   muito justa dos que pregam o  respeito à lei e às decisões dos tribunais superiores. Através da História, já causou muita confusão  esse conflito entre o que é e o que deveria ser.

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