
Charge do Zé Dassilva (NSC Total)
Pedro do Coutto
A eleição presidencial de 2026 chega à reta final com uma característica que já se tornou difícil de ignorar: Lula e Flávio Bolsonaro concentram a maior parte das intenções de voto, enquanto os demais candidatos disputam um espaço muito menor. Isso, porém, não significa que a chamada terceira via seja politicamente irrelevante. Pelo contrário.
Embora o sistema eleitoral brasileiro não permita que um terceiro candidato participe do segundo turno, os votos que hoje estão fora da polarização podem ser determinantes para definir quem avançará e, posteriormente, para estabelecer a correlação de forças na disputa final.
ÍNDICES – A pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro mostra Lula com 37% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 33%. Augusto Cury aparece com 6%, Ronaldo Caiado com 4%, Renan Santos com 3% e Romeu Zema com 1%. Há ainda 8% de eleitores indecisos e 7% que afirmam não pretender votar em nenhum dos candidatos apresentados.
O dado mais importante talvez esteja menos na distância entre os dois primeiros e mais na possibilidade de movimentação dos eleitores que ainda não consolidaram sua escolha. A própria Quaest identificou, em levantamento realizado entre 17 e 20 de setembro, que parte dos eleitores de candidatos da terceira via admite mudar de voto. Segundo o instituto, entre esses eleitores, cerca de 70% indicaram uma eventual migração para Flávio Bolsonaro e 30% para Lula em um cenário de segundo turno.
O Datafolha encontrou movimento semelhante, embora com números diferentes. Ao analisar os eleitores de Romeu Zema, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury, o instituto estimou que, num eventual segundo turno entre Lula e Flávio, 43% desse eleitorado declararam preferência pelo senador, enquanto 30% escolheriam Lula. Outros 26% disseram que votariam em branco, anulariam o voto ou não escolheriam nenhum dos dois. A margem de erro desse recorte é de quatro pontos percentuais.
DISTINÇÃO – Esses números ajudam a compreender uma distinção importante. A terceira via pode não ter, neste momento, força suficiente para superar os dois candidatos mais competitivos nas pesquisas, mas isso não significa que seus eleitores estejam condenados à irrelevância. Em uma eleição decidida por margens estreitas, alguns milhões de votos distribuídos entre candidaturas intermediárias podem alterar a composição do segundo turno e, depois, influenciar o resultado da etapa final.
É justamente por isso que afirmar que “não existe terceira via” seria uma conclusão excessiva. O que os dados permitem dizer é que, até aqui, nenhuma candidatura alternativa conseguiu se aproximar do patamar de Lula e Flávio. A eleição continua submetida a uma forte polarização, mas o comportamento dos eleitores que estão fora dela permanece uma variável relevante.
A própria fotografia das pesquisas reforça essa cautela. No Datafolha divulgado em 17 de setembro, Lula aparecia com 39% no primeiro turno e Flávio com 36%. No segundo turno, eram 46% e 44%, respectivamente, dentro da margem de erro de dois pontos. Na Quaest mais recente, o segundo turno aparecia ainda mais apertado: 42% para Flávio e 41% para Lula, também em empate técnico.
POLARIZAÇÃO – O cenário, portanto, está longe de autorizar conclusões definitivas sobre o desfecho. O que parece mais consolidado é a concentração da disputa em torno dos dois principais nomes. O que permanece aberto é a capacidade de cada um deles de incorporar os votos que hoje pertencem a outros candidatos ou permanecem indecisos.
Essa dinâmica ganha uma dimensão adicional quando se observa que Lula e Flávio também apresentam elevados índices de rejeição. No Datafolha de setembro, 46% dos entrevistados afirmaram que não votariam em nenhum dos dois de jeito nenhum. Entre os demais candidatos, os índices eram significativamente menores. Isso significa que existe um eleitorado potencialmente disponível para mudar de posição, mas não necessariamente disposto a transferir automaticamente seu voto para qualquer um dos dois polos. É nesse espaço de incerteza que a campanha entra em sua fase decisiva.
PROBIÇÃO DAS BETS – E é também nesse momento que outro tema de forte impacto econômico e social entrou na agenda nacional: a decisão do governo Lula de proibir as bets. Em 25 de setembro, o presidente editou a Medida Provisória nº 1.394, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das loterias de apostas de quota fixa no território nacional, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A medida também alcança as autorizações estaduais e distritais.
A decisão representa uma mudança profunda em relação ao modelo criado pela Lei nº 14.790, de dezembro de 2023, que havia estabelecido um regime legal para as apostas de quota fixa e condicionado sua exploração à autorização do Ministério da Fazenda.
O debate político, portanto, não termina na edição da medida provisória. Pelo contrário: começa uma nova disputa entre Executivo, Congresso, empresas do setor, entidades esportivas e eventualmente o Judiciário. A MP tem força de lei desde sua publicação, mas precisa ser analisada pelo Congresso. Pela Constituição, sua vigência é de 60 dias, prorrogável uma vez por igual período caso a votação não seja concluída nas duas Casas.
TRANSIÇÃO – Há, portanto, uma diferença importante entre a decisão política de Lula e sua consolidação jurídica. O governo tomou a iniciativa, mas o destino definitivo da proibição dependerá do processo legislativo e, eventualmente, de disputas judiciais. A própria MP estabelece uma transição: as autorizações existentes serão extintas ao final de 30 dias, enquanto as plataformas terão de interromper o acesso aos seus sites e aplicações dez dias após a publicação da medida.
O argumento do governo está relacionado, entre outros pontos, à proteção dos apostadores, ao combate ao endividamento e aos efeitos sociais associados às apostas. Mas a questão também envolve arrecadação, empregos, patrocínios esportivos e a relação entre o Estado e um mercado que foi legalizado pelo próprio Congresso apenas recentemente. É essa contradição que torna o debate mais complexo do que uma simples oposição entre “proibir” e “liberar”.
Também merece correção a ideia de que o dinheiro das bets simplesmente deixa de circular na economia e, por isso, não estaria sujeito à tributação. A realidade tributária é mais complexa. A legislação de 2023 estabeleceu regras específicas de tributação e destinação de recursos das apostas, inclusive para áreas como esporte e segurança pública. Com a proibição, a discussão passa a ser outra: qual será o impacto fiscal e econômico de retirar do mercado uma atividade que havia sido formalmente regulada?
CUSTO DO CRÉDITO – Esse ponto ganha importância porque ocorre simultaneamente a outro problema que pesa sobre a vida cotidiana: o custo do crédito. Os juros brasileiros continuam em patamares elevados, especialmente nas modalidades de cartão. Dados do Banco Central referentes ao início de agosto mostram instituições cobrando taxas do rotativo superiores a 10% ao mês e, em alguns casos, taxas anuais próximas ou superiores a 200%. No crédito parcelado do cartão, também havia instituições com taxas superiores a 10% ao mês.
Por isso, não é correto tratar “juros zero” no comércio como sinônimo de ausência de custo financeiro em todas as operações. O custo do crédito depende da modalidade, da instituição, do prazo e das condições oferecidas ao consumidor. Da mesma forma, não se deve comparar diretamente uma taxa mensal de crédito com a inflação anual, porque são medidas diferentes e calculadas sobre bases distintas.
A inflação, por sua vez, estava em 4,22% acumulados em 12 meses até agosto, segundo o IPCA divulgado pelo IBGE. O contraste entre uma inflação anual nessa faixa e determinadas taxas de crédito que chegam a dois ou três dígitos ao ano ajuda a explicar por que o custo financeiro permanece uma questão tão sensível para as famílias.
PERCEPÇÕES – No fundo, os dois assuntos — a eleição e as bets — se encontram em um mesmo ponto: o eleitor está sendo chamado a avaliar decisões que ultrapassam a disputa entre nomes. A escolha presidencial também será influenciada pela percepção sobre renda, consumo, crédito, segurança, regulação e capacidade do Estado de interferir em mercados que passaram a fazer parte da vida cotidiana.
A terceira via, nesse contexto, não precisa necessariamente chegar ao segundo turno para produzir efeitos eleitorais. Seus candidatos podem perder espaço, mas seus eleitores continuarão existindo. E, quando uma eleição é tão equilibrada quanto indicam as pesquisas mais recentes, a pergunta decisiva deixa de ser apenas quem lidera hoje. Passa a ser quem conseguirá conquistar os votos que ainda não pertencem definitivamente a nenhum dos dois polos.
É por isso que a última semana não deve ser lida apenas como uma contagem regressiva para o confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ela será também o momento em que milhões de eleitores terão de decidir se permanecem com a escolha já feita, se migram para outro candidato ou se aguardam o segundo turno para definir sua posição. A polarização pode estar consolidada entre os líderes. O comportamento de quem está fora dela, porém, continua sendo uma das principais incógnitas da eleição.