Entre a queda do ditador e o peso da força: a Venezuela no fio da navalha

América do Sul observa ações de Trump com apreensão

Pedro do Coutto

É difícil — para não dizer impossível — aplaudir a ação militar americana que resultou na prisão de Nicolás Maduro ao lado de sua esposa. A política internacional raramente oferece escolhas simples, e a Venezuela, hoje, está no centro de um dilema que preocupa não apenas seus cidadãos, mas todo o continente sul-americano.

A captura de Maduro não encerra a crise venezuelana; ao contrário, abre uma fase ainda mais delicada. A pergunta inevitável é: quais serão os próximos passos de Washington? A história recente da política externa dos Estados Unidos recomenda cautela. Intervenções realizadas em nome da democracia frequentemente produziram efeitos colaterais duradouros, instabilidade regional e dependência política.

“ADMNISTRAÇÃO” – O anúncio do presidente Donald Trump de que haverá uma “administração de transição” para conduzir o país rumo a uma solução democrática soa, no mínimo, vago. Não há prazos, não há um desenho institucional claro e tampouco garantias de que essa transição será, de fato, temporária.

O próprio Trump demonstrou incerteza ao falar sobre como essa administração funcionará e por quanto tempo permanecerá. Essa indefinição alimenta o temor de uma ocupação prolongada, ainda que não formal, em um país já devastado por anos de crise. A ausência de um cronograma e de compromissos objetivos com a soberania venezuelana fragiliza o discurso democrático e fortalece a narrativa, tão comum na região, de que a força se sobrepõe ao direito.

Há também o custo humano, frequentemente relativizado nos discursos oficiais. A operação militar que levou à prisão de Maduro deixou cerca de 40 mortos. Não se trata de um “dano colateral” abstrato, mas de vidas interrompidas em um país que já convive com escassez, migração em massa e trauma coletivo. Democracia alguma se constrói sobre cadáveres ignorados, e esse preço pesa sobre qualquer avaliação moral da ação.

PETRÓLEO – O petróleo, por sua vez, surge como um elemento central — talvez decisivo — nesse novo capítulo. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas do mundo, e Trump foi explícito ao afirmar que empresas americanas terão papel relevante na retomada do setor petrolífero.

Do ponto de vista econômico, é compreensível que os Estados Unidos busquem segurança energética e oportunidades para suas companhias. Do ponto de vista político, porém, isso torna o discurso humanitário mais frágil. Quando a democracia caminha lado a lado com interesses econômicos bilionários, a desconfiança se instala quase automaticamente.

SEM LEGITIMIDADE – O complexo petrolífero venezuelano é extremamente sensível. Qualquer mudança abrupta, sem consenso interno e sem legitimidade reconhecida pela sociedade, pode aprofundar tensões e gerar novos conflitos. A reconstrução institucional do país exige mais do que a substituição de um líder autoritário; requer pactos, inclusão política, eleições confiáveis e, sobretudo, protagonismo dos próprios venezuelanos.

A América do Sul observa esse processo com apreensão. O precedente é perigoso: um ditador cai, mas pela força externa; a promessa democrática existe, mas sem contornos claros; e os interesses estratégicos falam alto desde o primeiro momento. O risco é que a queda de Maduro, em vez de inaugurar uma era de estabilidade, acabe reforçando a lógica da tutela e da dependência.

32 thoughts on “Entre a queda do ditador e o peso da força: a Venezuela no fio da navalha

  1. Vejamos aos fatos.

    Quem está sendo enfáticos contra a prisão do ditador, sanguinário, bárbaro, torturador que acabou com a empresa de petróleo estatal e manteve o povo da miséria em cima da maior reserva de petróleo do mundo: Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha

    https://www.metropoles.com/mundo/brasil-e-outros-5-paises-divulgam-nota-sobre-ataque-a-venezuela

    Esta turma exclui o povo do conceito de Democracia. Ignorantes, totalitaristas ou de rabo preso?

    Recorrendo à DeepSeek:

    Soberania Popular vs. Soberania do Estado/Governante

    Em uma Democracia: A soberania reside no povo. O povo é o titular do poder político. Ele exerce esse poder diretamente (ex: referendos) ou indiretamente, através de representantes eleitos livremente (parlamentares, presidente).

    Em uma Ditadura: A soberania é usurpada por um indivíduo, um partido único, uma junta militar ou um pequeno grupo. Eles concentram todos os poderes (executivo, legislativo, judiciário) e não estão submetidos a um controlo popular genuíno. O povo é excluído do exercício do poder soberano.

    Ou será, Lula, último bastião do Foro de São Paulo, que não seja isto?

    “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

  2. A América do Sul está apreensiva há décadas com os traidores acordos de submissão nuclear.

    Com o sucateamento das suas Forças Armadas.

    Com a sua redução ao patamar de corruptas colônias.

      • Que viagem …. Lula não se candidata se for por saúde.

        Acham que isso é bom, o sequestro de Maduro é algo que pode ocorrer em qualquer país da America Latina independente de ser de Direita, Esquerda ou Centro.

        Basta tomar alguma atitude contra os EUA.

  3. Lula, sem qualquer causação de cunho econômico e dos interesses da Nação, isola cada vez mais o Brasil no cenário internacional, por pura dilentantismo ideológico reacionário, atrasado, retroutópico, de base totaliátaria, que expressa um verdadeiro lixo anticivilizacional.

    E deve estar em desespero vendo o Foro de São Paulo indo pro lixo da História.

    A Sociedade precisa perceber que tornou-se um estorvo pro país.

  4. Donald Trump está se transformando no neo Mussolini da América Latina.
    Está bastante claro, que para fazer a América Grande de novo e impedir o avanço da China rumo ao primeiro lugar no mundo, Trump avança como um pirata do solo para surrupiar na mão grande, mão de gato louro, as riquezas das nações amazônicas.

    A primeira vítima foi a Venezuela, que é a maior província petrolífera do mundo. A captura de Nicolas Maduro serviu apenas de cortina de fumaça, porque nenhum general do chavismo/ madurismo foi preso ou morto pelas bombas assassinas.
    Os preços políticos continuam nas prisões da Venezuela, Trump não exigiu a libertação dos oposicionistas e não mencionou uma única vez na palavra Democracia.

    Portanto, nada mudou na Venezuela e Trump nunca se preocupou com isso. Tanto, que a vice Delcy Rodrigues, assumiu imediatamente a presidência, com o respaldo de Trump e do secretário de Estado Marco Rúbio, provável sucessor de Trump. Dizem nos bastidores, que Delcy traiu Maduro e o compromisso de entregar o petróleo da Venezuela para Trump em troca da permanência dela e da cúpula militar no Poder na Venezuela.

    Pragmático, Donald Trump está cumprindo o acordo e a prova contundente foi o descarte explícito de Maria Corina Machado e Edmundo Gonzales. Sobre Corina, Trump afirmou que ela é fraca e sem liderança na Venezuela. Trump se vinga dela, que tirou o Prêmio Novel dele. É caso de psiquiatria.

    Portanto, nada vai mudar na Venezuela, a ditadura continua, os presos permanecem intocados e torturados dia após dia e quem se insurgir contra a interina podem morrer nas mãos sujas das milícias bolivarianas comandadas pelo comandante Deosdado, o poderoso ministro do Interior.

    Quem acredita no Democrata Donald Trump, acredita também no Papai Noel, cegonha, cabra cega, saci Pererê e no capitão América.

  5. Se há alguma lei internacional que proteja um ditador sanguinário como o Maduro, que prendia, torturava a matava seus opositores, que comandava o tráfico internacional e manteve seu povo na miséria em cima da maior reserva de petróleo do mundo, tem que ser urgentemente revogada.

    Lei que protege canalhas antivilizacionais nasceu nula.

  6. O que causa espanto nesta ação americana, é que agora, um ministro venezuelano esta denunciando que os seguranças do Maduro, foram assassinados friamente.
    Mas como? Não reagiram? Entregaram a “rapadura” assim numa boa e ainda foram mortos?
    A tão decantada segurança feita quase que pela totalidade por cubanos, não funcionou? Ou pode-se dizer que era uma segurança de “mierda”? Para usar termos em espanhol.
    Agora, lá em Cuba, já estão chamando os “seguranças” abatidos de heróis.
    Isso faz lembrar um monumento que dizem existir no interior do Paraguai, onde em uma batalha da guerra,
    paraguaios foram mortos por um brasileiro, e que tal monumento celebra que naquele local, dez “valientes” paraguaios foram mortos por um covarde brasileiro. Seria o presente caso, algo semelhante?

    • Isto mostra a articulação inter-ditaduras narcotraficantes, membras do Foro de São Paulo, que já pode ter a desconfiança, ainda que incipiente, de que controlava a corrupção e tráfico de drogas em âmbito continental.

      Ou, não?

      Esperemos o julgamento do Pollo Carvajal dia 23 de fevereiro e, quiçá, uma delação do Maduro e de sua esposa.

      ______

      Porque o Brasil meteu a colher de pau numa barafunda destas?

  7. Não devemos esquecer a miséria em que vive o venezuelano e a corrupção de seus generalecos associados a narcotraficantes.
    Era preciso dar um basta .

    O Brasil também precisa de uma atitude firme e constante de certos grupos fortes da sociedade para frear os criminosos comuns, políticos e juízes.Chega de sofrer!

    • Rue des Sablons, mudou alguma coisa na Venezuela.
      O basta de Trump atingiu os generais chavistas,? As milícias bolivarianas foram presas,?
      Os presos políticos foram libertados?
      O governo mudou ou permanece o mesmo com a vice, Delcy Rodrigues.

      Você pode me responder sobre essas dúvidas?

  8. A guarda pessoal de Maduro era composta de 32 cubanos

    O mínimo que um Jornalista teria que fazer na cobertura jornalística do caso seria perguntar (ou informar): Por que guarda-costas cubanos?

    Maduro não teria confiança na guarda militar venezuelana? E, por isso, importou os guardas cubanos para sua segurança e proteção?

    A notícia é que os 32 cubanos foram mortos no episódio do sequestro do Maduro.

    Uma segunda pergunta seria: Mortos por quem?
    Pelos invasores americanos?

    Ou por venezuelanos traidores que, não vendo a possibilidade de adesão dos cubanos para entregar o Maduro, por eles serem fiéis ao presidente venezuelano, liquidaram todos, também traiçoeiramente?

    • A guarda pessoal de Maduro era composta de 32 cubanos, que talvez tenham morrido por não fazerem “vista grossa”

      O mínimo que um Jornalista teria que fazer na cobertura jornalística, do caso Maduro, seria perguntar (ou informar): Por que guarda-costas cubanos?

      Maduro não teria confiança na guarda militar venezuelana? E, por isso, importou os guardas cubanos para sua segurança e proteção?

      A notícia é que os 32 cubanos foram mortos no episódio do sequestro do Maduro.

      Uma segunda pergunta seria: Mortos por quem? Pelos invasores americanos?

      Ou por venezuelanos traidores que, não vendo a possibilidade de adesão dos cubanos ao plano de traírem e entregarem Maduro aos americanos, liquidaram todos, também traiçoeiramente?

  9. Panorama, muito boa pergunta. Temo que nunca vamos saber a verdade.
    Esse episódio não foi explicado por Trump. Vai permanecer um mistério.
    O fato é, que Maduro foi traído pelos generais e pela vice presidente.

    É a repetição do golpe no Chile. Augusto Pinochet, comandante do exército chileno, traiu o presidente Salvador Allende, invadiu o Palácio Lá Moneda em Santiago e matou o presidente assumindo a ditadura no Chile.
    Morreu doente e abandonado na Inglaterra para onde fugiu para não ser preso por corrupção.

  10. O “Evento Maduro” abre a temporada de narrativas, discursos, meias verdades e meias mentiras ao gosto do missivista.
    Se o vivente torce pra um lado mete a ripa na cacunda do outro, e ainda tem os que aproveitam o andar da carruagem para dar um coicezinho de porco no Bolsonaro.
    Assim é se assim lhe parece, entonces todos estão prenhes de razões.
    Na CNN traduziu-se o termo espanhol, ‘carajo’, por caramba.
    Me lembrei da Cristina da Argentina, “La presidenta soy io, Carajo!”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *