Gilmar reabre ação antiga e impede investigação que incriminaria seu amigo Toffoli

Maridt recorreu a atalho jurídico para ‘ressuscitar’ ação

Rafael Moraes Moura
Johanns Eller
O Globo

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes de anular a decisão da CPI do Crime Organizado que determinou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt, ligada à família do ministro Dias Toffoli, foi tomada no âmbito de uma ação que o próprio Gilmar mandou arquivar há três anos. O processo, porém, não chegou a ser efetivamente arquivado pelo STF. Ficou dormitando nas gavetas do tribunal até ser “ressuscitado” nesta sexta-feira.

Na prática, a Maridt “se intrometeu” uma ação movida pela Brasil Paralelo em 2021, buscando um atalho jurídico para ser atendida pelo ministro. Usou para isso argumentações parecidas com as da Brasil Paralelo para anular requerimentos da CPI da Covid que haviam determinado quebras de sigilo bancário, telefônico e telemático da empresa.

VIOLAÇÃO DE DIREITOS – A empresa alegou que a medida violava os direitos à liberdade de expressão, de imprensa, ao sigilo de fonte, à privacidade e à intimidade, além do princípio da legalidade. Em setembro de 2021, Gilmar atendeu o pedido da empresa, suspendendo o afastamento do sigilo telefônico e telemático da empresa. Mas determinou que as demais informações obtidas pela CPI fossem mantidas sob a guarda do presidente, Omar Aziz, e compartilhadas com o colegiado “apenas em reunião secreta e quando pertinentes ao objeto da apuração”.

Em 8 de março de 2023, Gilmar Mendes mandou arquivar a ação por concluir que a medida já havia sido cumprida pelo Senado Federal. O que a Maridt fez nesta semana foi apresentar uma petição dentro da ação do Brasil Paralelo, como se fosse ela mesmo parte do processo, pedindo que Gilmar suspendesse a sua própria quebra de sigilo. Gilmar acatou, considerando que os dois casos são relacionados.

A quebra de sigilo da Maridt foi aprovada pela CPI do Crime Organizado a partir de um requerimento apresentado pelo relator da comissão, senador Alessandro Vieira (MDB-SE). A comissão aprovou também a convocação de dois irmãos de Toffoli que constam como sócios da companhia, José, Carlos e José Eugênio. Em outra decisão, o ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master no STF, decidiu que eles não serão obrigados a prestar depoimento.

QUESTIONAMENTOS – A Maridt é uma empresa de sociedade anônima controlada pelos irmãos de Toffoli e que foi sócia do resort de luxo Tayayá em Ribeirão Claro (PR). O ministro do Supremo passou a ser alvo de questionamentos depois da revelação de que a companhia vendeu uma parcela de sua participação para um fundo controlado pelo empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado do CEO do Master, Daniel Vorcaro, em 2021. O magistrado posteriormente admitiu ter sido sócio do empreendimento ao lado dos irmãos, pouco antes de deixar a relatoria do caso Master.

Os pagamentos de Vorcaro para a família Toffoli vieram a tona quando o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entregou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, um relatório com as evidências desconbertas no celular de Voraco indicando as conexões entre o banqueiro e Dias Toffoli que poderiam caracterizar a suspeição do ministro para continuar relatando o caso do banco Master.

Oficialmente, Toffoli negou ter recebido qualquer pagamento de Vorcaro ou de Zettel. Em nota divulgada no último dia 12, após a repercussão do relatório da PF, o gabinete do ministro no STF admitiu pela primeira vez que o magistrado é sócio da Maridt e que recebeu dividendos pela venda da cota para o Arleen, fundo que tem o cunhado do executivo como único cotista, em 2021.

PAGAMENTOS – A versão vai contra o que indicam as conversas entre Vorcaro e Zettel detalhadas pela PF no dossiê. Os diálogos ocorreram em dezembro de 2024, três anos após a venda das cotas para o Arleen. Nas conversas, Zettel pergunta ao banqueiro como deveria proceder em relação aos pagamentos para o ministro. O controlador do Master respondeu que preferia que os repasses se dessem por meio do fundo.

No pedido apresentado à CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira argumentou que a quebra de sigilo era uma medida de “extrema urgência” e tinha como objetivo “desmantelar a complexa rede de influência e lavagem de capitais que orbita em torno do Banco Master e de suas conexões com agentes públicos de cúpula”.

O senador sergipano apontou ainda “suspeitas fundadas de que a Maridt tenha funcionado como um canal de recebimento de vantagens indevidas sob o manto de contratos de consultoria e prestação de serviços mensais pagos por grandes escritórios de advocacia que possuem interesses diretos em causas relatadas pelo próprio ministro Toffoli no STF”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – A iniciativa de Gilmar Mendes é uma ação entre amigos, que não soluciona o problema de Toffoli, apenas atrasa a investigação sobre ele e mostra que a sujeirada que envolve o Supremo não tem limites, pois o escândalo já está fedendo a centenas de milhas daqui, como diria Djavan. (C.N.)

27 thoughts on “Gilmar reabre ação antiga e impede investigação que incriminaria seu amigo Toffoli

  1. Fechando com a chave de ouro da Malu Gaspar:

    “O que faz a gente pensar que o tamanho do desespero deste pessoal, só podde ser proporcional ao que tem pra vir por aí sobre sobre o que vorcaro e seus amigos fizeram no verão passaso”.

    Infelizmente não como pipoca!

  2. Mendonça: De terrivelmente evangélico a terrivelmente corporativista

    André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” ministro do STF nomeado pelo ex-mito, é também “terrivelmente corporativista” ao decidir dispensar os irmãos de Toffoli de depor na CPI do Crime Organizado.

    Outra coisa não se esperava dele depois do que disse na sessão secreta do tribunal que terminou com o afastamento forçado de Toffoli da relatoria do processo sobre o Caso Master. Mendonça disse:

    “Tem uma questão sobre o que é descrito como relação íntima do ministro Toffoli [com o presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro]. Isso não existe. Está aqui claro que não existe relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa. Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado.”

    Disse também:

    “E a questão de eventos [dos quais Toffoli participou], se for considerada, todos nós somos suspeitos de tudo. […] Pode acontecer com qualquer um de nós [a investida da Polícia Federal]. Quero saber se vão dar esse tratamento para mim.”

    A sessão era para ser secreta, mas foi gravada. Até agora não se sabe por quem. Somente dois dos 10 ministros se negaram a defender Toffoli: Edson Fachin e Cármen Lúcia. Luiz Fux, que no ano passado votou para absolver o ex-mito dos seus crimes, foi o autor da fala mais curta:

    “O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo.”

    Mendonça sucedeu a Toffoli na relatoria do processo sobre o Caso Master. E para ser coerente com a posição tomada antes de defendê-lo, estendeu sua proteção aos dois irmãos do colega convocados para depor na CPI do Crime Organizado.

    Ao fazê-lo, Mendonça mandou às favas a independência dos Poderes da República.

    De acordo com a Constituição, a Câmara e o Senado, ou ambos em conjunto, podem investigar fato determinado por força da sua função fiscalizadora. Possuem, portanto, poder de polícia. Convocados para depor numa CPI são obrigados a comparecer (…).

    Pelo visto, para Mendonça, isso só não seria suficiente. Então os irmãos de Toffoli foram dispensados de depor.

    A prevalecer tal entendimento, a independência do Congresso irá para o lixo e não haverá mais razão para que se instale uma CPI. De resto, a Constituição terá que ser reescrita.

    Mendonça deveria esclarecer o alcance de sua decisão. Ela só se aplicará a casos que envolvam ou possam envolver parentes de ministros de tribunais superiores? Ou valerá para todo mundo?

    Metrópoles. Opinião, 27/02/2026 05:30 Por Ricardo Noblat

  3. Uma hora o cordão estoura!

    Quem vai largar a mão de quem primeiro?

    “O caminho que leva para a perdição é amplo, e sua porta é bastante larga; multidões escolhem passar por ela. Mas a porta que leva à vida é estreita e o caminho é apertado, e poucos o encontram.”

    Mateus 7:13-14

  4. Perdendo de Fábio em pesquisas, Barba recua de alta no imposto em itens de tecnologia

    (Barba manda e) Camex cancela alta do imposto sobre 15 itens de informática, como smartphones e notebooks após forte pressão (de queda nas pesquisas)

    Fonte: Revista Veja, Economia, 27 fev 2026, 17h27 Por Luana Zanobia

    Se Barba já está apavorado com as duas pesquisas que deram Fábio na frente no segundo turno, imagine o desespero até chegar a pesquisa Datafolha.

  5. Senhor Eliel , não é a primeira vez que um juiz do STF , manda destruir provas contra pessoas suspeitas e envolvidas em diversas ” tramoias e falcatrua ” Brasil afora , principalmente quando elas são ricas , endinheiradas e poderosas .

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