Ao se envolverem com teorias conspiratórias, os Imbecis ganham seus 15 minutos de fama

Segundo James Fetzer, ataques foram uma encenação para enganar o povo. (Foto: Steve Ludlum/The New York Times)

Ataque a Torres Gêmeas deram origem a várias teorias

Eduardo Affonso
O Globo

Quase 50 anos separam as declarações de que as redes sociais dariam voz a uma legião de imbecis e que chegaria o dia em que todos teriam seus 15 minutos de fama. Teria Andy Warhol vislumbrado a internet e a cultura dos conspiracionistas? Ou pensava apenas nas subcelebridades instantâneas e deu a deixa para Umberto Eco ampliar o escopo da profecia, de modo a incluir a infâmia?

A palavra “imbecil”, em sua origem, designava “o que não se aguenta de pé”. Por extensão, foi aplicada aos tolos, àqueles cujas ideias não se sustentam. Isso antes de o insustentável ganhar fama e um megafone virtual para apregoar suas elucubrações.

TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO – A verdade pode ser enunciada de forma límpida. A mentira, para convencer, precisa ser cheia de cantinhos. Daí as teorias da conspiração serem tão elaboradas: quanto mais estapafúrdias, mais poderosas. Elas consistem num sistema dotado de razoável coerência, em que se estabelece um encadeamento lógico entre (falsas) causas e (discutíveis) consequências — ou vice-versa.

E são tão caras aos imbecis por lhes dar a ilusão de deter conhecimento — diferentemente do pensamento mágico, que não exige muita coordenação motora dos neurônios. O até então in bacillum (literalmente, “sem cajado”) se sente apoiado por um arremedo de razão.

O Sapiens — ensinou Yuval Harari — é capaz de se unir em tribos graças à ficção partilhada. A conspiração tem o mesmo propósito: congregar os imbecis em torno de coisas “que só eles sacaram”: a Nova Ordem Mundial, a Big Pharma, os reptilianos, a existência de fascistas no armário e de comunistas embaixo da cama.

OS ANTIVACINAS – Algumas conspirações são inócuas (o terraplanismo, os teóricos dos antigos astronautas), mas é por causa dos “antivax” que sarampo e poliomielite — quase erradicados — estão voltando.

E que a Covid-19 faz mais vítimas do que seria de esperar numa época em que se sabe tanto de virologia e infectologia. Negar a doença continua sendo o mecanismo de defesa preferido por quem não consegue lidar com a angústia que ela provoca.

Há hoje excesso de informação e escassez de compreensão. Sabemos que o cientista tem crenças e expectativas — por isso, experimentos precisam ser replicáveis e estudos passam por revisão. Há um método, que valida — ou não — o que a ciência produz.

NOTÍCIA FALSA – O imbecil tem ligação emocional com a conclusão. Tudo é arquitetado para confirmar sua hipótese. O que não convém é adulterado ou descartado.

Quem cria notícia falsa ou teoria conspiratória desconstrói os fatos e os rearranja numa narrativa que lhe seja favorável. Quem compartilha — sem verificar as fontes — tem consciência, intimamente, dessa falsidade. Acredita na mentira que é de seu interesse. Desmascarado, cria nova conspiração contra os mecanismos de checagem de conteúdo.

A internet, segundo Eco, “promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade” — do seu simulacro de verdade, agora com audiência amplificada. Resta saber quanto tempo ainda vão durar — e a que custo — esses 15 minutos de fama.

4 thoughts on “Ao se envolverem com teorias conspiratórias, os Imbecis ganham seus 15 minutos de fama

  1. Já estou careca de tanto receber mensagens de amigos que eu considerava cultos.
    Cada uma pior que a outra. No início eu até tentei esclarecer que não acreditassem em tudo, mas foi em vão.
    Depois do Trump, desisti. Até o último minuto haveria uma revolução nós USA! A tal revolução foi até adiada.
    Não aconteceu, e me pergunto porque casos assim não são bastante para voltarem a razão?

  2. O problema dos “espertos” é achar que todos somos imbecis, “os espertos” atuam a favor dos mais “espertos” que eles, funcionam somente como peças do jogo do domínio das elites, sem sê-lo, em troca de alguns trocados.

  3. “O argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit : uma expressão em latim que significa apelo à autoridade ou argumento de autoridade. É uma falácia lógica que se vale da palavra ou reputação de alguma autoridade a fim de validar um argumento desprovido de embasamento factual. Este raciocínio é absurdo quando a conclusão se baseia, exclusivamente, na ‘credibilidade’ do autor da proposição e não nas razões que ele apresentou para sustentá-la”
    Exemplo: Apelo por parte do argumentador, aos ditos de figuras célebres, na tentativa de fazer o seu plúbico-alvo acreditar que ele tem o aval daquele aforista, em muitos casos, já falecido. Ou para que as pessoas se sintam nada diante da sentença de uma “sumidade inquestionável”.
    Na maioria das vezes, o peso dessas máximas está na rima, na eufonia; ou para quem crer, no poder da palavra mantrificada!
    -Mas o sofista não é um idiota, não! Ele se apoia em um conceito, crença ou tendência crível, preexistentes naquela comunidade, onde ele pretende plantar seu impingimento.
    Será se numa sociedade desabusada, cujo hino fosse aquela música do Tiririca – Ele é corno, mas é meu amigo – chamar outrem corno, surtiria o mesmo efeito, se fosse numa sociedade puritana?
    Nosso amigo Edir Macedo incutiu, na mentalidade de muitos cristãos, a Fé Inteligente: aquela que prescreve o pagamento desmedido de dízimos, com a “garantia” ao doador de um retorno 1.000 vezes superior à contribuição. E quem não aderir à fé Inteligente, é tachado de quê? De burro. Quem quer ser burro?
    Nessas tramóias, os estadunidenses são exímios. Se eles ambicionam algo de um país “A”, e não enxergam outra brecha para se apossarem deste. A saída será lançar o “A” contra o seu vizinho”B”. Aí já começam faturando bilhões com vendas de armas à nação “ameaçada”, para ela se proteger. Depois passam a despejar o máximo de suas multinacionais lá dentro: uma custódia que sai mais caro do que fazer pacto com diabo. Pronto, mais uma neocolônia ianque!
    Nos tempos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, os didatas do imperialismo norte-americano ensinaram os seus concidadãos a se referirem à URSS como “império do mal”. Cá, na filial, os pedagogos da ditadura cunharam: A coisa da ruça (complicada, difícil, ruim), para se confundir com russa!
    Rotular uma pessoa, na zona rural, de perseguidora ou praga: Fulano atenta que só uma cubana! Cubana: uma formiguinha de cor ígnea que atacava os cultivares. Percebam a intenção: a revolução cubana começava pelo campo, e tinha a população campesina como propagadora!

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