Bastidores de “Dark Horse” revelam choque ideológico, luxo milionário e tensão política

Eduardo muda versão e admite investimento no filme sobre Jair Bolsonaro

Produção de “Dark Horse” está repleta de indagações

Deu no Estadão

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro mudou a versão sobre sua participação no financiamento do filme “Dark Horse”, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Seu irmão, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, pediu recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção cinematográfica.

Num vídeo publicado nas redes sociais, o deputado admitiu ter investido R$ 350 mil (cerca de 50 mil dólares) no longa, provenientes da receita obtida com a venda de um curso, e que posteriormente recebeu de volta essa quantia. Eduardo Bolsonaro não esclareceu como e quem lhe pagou a restituição dos valores inicialmente destinados ao projeto.

PRODUTOR-EXECUTIVO – Ele também reconheceu ter constado como produtor-executivo num contrato antigo com a produtora responsável pelo filme, posição da qual teria saído posteriormente, ao se mudar para os Estados Unidos, limitando-se a ceder os direitos autorais — uma vez que foi representado por um ator no longa.

Na quinta-feira, 14, ele negou ter aplicado dinheiro no projeto. “Não exerci qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem”, declarou, numa nota nas redes sociais, omitindo que já figurara como produtor-executivo e investira dinheiro do filme.

O aporte foi feito, segundo ele, para garantir um contrato com o diretor de Hollywood Cyrus Nowrasteh, para que este pudesse elaborar o roteiro e dar início ao projeto. O contrato permitiu manter o diretor por dois anos, segundo Eduardo. “Próximo ao final do contrato, e diante da possibilidade de perder o diretor, surgiu a oportunidade de atrair um grande investidor, que posteriormente se consolidou em um grupo de investidores”, afirmou o ex-deputado.

VERSÃO – A nova explicação foi dada após o site Intercept publicar nesta sexta-feira, 15, que Eduardo atuou como produtor-executivo do filme. Também respondeu a reportagens, como a do Estadão, mostrando que a Polícia Federal vai investigar se o dinheiro do banco Master foi usado para custear a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.

O site já tinha publicado na quarta-feira que o irmão dele, o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pediu 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões, em valores da época) a Vorcaro para financiar a produção do filme. Desse montante, o banqueiro teria pago 10,6 milhões de dólares (R$ 61 milhões) entre fevereiro e maio de 2025.

“PERSEGUIÇÃO” – Nesta sexta-feira, 15, Eduardo disse que, diante do que chama de “perseguição sofrida no Brasil”, ele e os outros produtores escolheram levar a estrutura de captação do filme para os Estados Unidos. Parte do dinheiro pedido por Flávio a Vorcaro foi transferida pela Entre Investimentos e Participações (que atuava em parceria com empresas de Vorcaro) para o Havengate Development Fund LP (sediado no Texas). O fundo tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo.

“Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro ou deste fundo que foi criado nos Estados Unidos está mentindo para você. Eu recebi o dinheiro de volta, por conta do contrato com a produtora, mas isso não passou pelo fundo. Eu recebi o dinheiro que era meu, e acho até que nem foi corrigido o que era meu. 100% do risco. 50 mil dólares para mim faz falta”, declarou.

Até então, Eduardo vinha compartilhando notas publicadas pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo do longa, e da GO UP Entertainment, produtora do filme no Brasil, segundo as quais “não houve nenhum centavo” de Vorcaro no filme. No seu perfil do X, Eduardo postou na noite de quinta-feira, uma nota com sete pontos em que garante não ter ligação com dinheiro de Vorcaro.

ÍNTEGRA DA PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO DE EDUARDO BOLSONARO:

1- A história que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca. Meu status migratório não permitiria, se isso tivesse acontecido o próprio governo americano me puniria. No meu processo migratório expliquei às autoridades americanas toda a origem dos meus recursos e não tive qualquer problema, porque aqui não vigora um regime de exceção. Não exerci qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem.

2- Falam do advogado que cuidou de todos os detalhes como se ele fosse um mero escritório de migração, não é. O advogado tem mais de 40 anos de experiência, mestrado e doutorado. Seu escritório atua em gestão de patrimônio e fundo de investimento há mais de uma década. A parte de migração é apenas um departamento deles, devido a necessidade de clientes de alto nível migrar o capital e residência para o local de seus investimentos.

3- Nós não somos donos do filme, mas sim os mais de uma dezena de investidores. O escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos. Apresentei ele ao Mário, que estava procurando investidores para o filme, por saber da sua competência. Gostariam que apresentassem advogados petistas e que não conheço?

4- O filme não é um produto inexistente ou um serviço fake de advocacia, é um produto real com grandes estrelas.

5- Todos os investimentos foram feitos nos EUA porque a produção foi americana, com atores americanos. Além do mais, devido ao estado de exceção, ninguém se arriscaria investir num filme do Bolsonaro no Brasil, pois seria devidamente perseguido pelo regime e atrelado como financiador de golpe, como faziam. Investimento nos EUA garantem segurança jurídica em uma jurisdição séria.

6- que tipo de vantagem nossa família poderia dar na época além de perseguição da tirania? Meu pai preso, eu exilado e meu irmão sequer sonhava em ser candidato? Vocês tentam sugerir que havia interesse outro, qual interesse poderia existir em uma época em que todos nos consideravam liqüidados

7 – Tudo não passa de uma tentativa tosca de assassinato de reputação, que tenta atrelar ilicitude em patrocínio para um filme.

Gilmar acusa Fachin de travar julgamentos e expõe guerra interna na Corte

Gilmar tornou pública mensagem enviada a Fachin

Mariana Muniz
O Globo

A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou um novo capítulo após o ministro Gilmar Mendes tornar pública uma mensagem enviada ao presidente da Corte, Edson Fachin, em que o acusa de paralisar julgamentos relevantes por meio de pedidos de destaque e controle da pauta do tribunal.

Na mensagem, Gilmar afirma que “impressiona o número de processos importantes paralisados” por iniciativa de Fachin e classifica a atuação do presidente da Corte como “o filibuster aplicado ao STF” — expressão usada para descrever manobras regimentais destinadas a atrasar deliberações. O decano do STF ainda diz que “a não decisão de temas relevantes vai se tornando a marca” da atual presidência.

EXPOSIÇÃO – Segundo integrantes do Supremo, Fachin não respondeu às mensagens enviadas por Gilmar. A decisão do decano de divulgar o conteúdo foi interpretada dentro da Corte como um movimento deliberado para expor publicamente o desgaste entre ministros e pressionar a presidência do tribunal. O episódio ocorreu na mesma semana em que Fachin endureceu regras internas de distribuição de petições apresentadas em processos antigos para evitar direcionamento de pedidos a ministros.

A mudança foi anunciada após questionamentos envolvendo a tramitação de um pedido apresentado pela CPI do Crime Organizado contra uma decisão de Gilmar que suspendeu a quebra de sigilo da empresa Maridt, que tem entre seus sócios o ministro Dias Toffoli. O requerimento havia sido protocolado dentro de um processo antigo sob relatoria do decano, o que permitiu que o caso chegasse diretamente ao seu gabinete.

Ao analisar o tema, Fachin decidiu alterar o procedimento interno da Corte para impedir novos questionamentos sobre direcionamento de petições. Pela nova regra, pedidos apresentados em processos antigos passarão a seguir mecanismos adicionais de validação administrativa e análise da prevenção antes de serem distribuídos aos ministros.

JULGAMENTO TRAVADOS – Na mensagem divulgada, Gilmar lista uma série de julgamentos que, segundo ele, estariam travados por decisões de Fachin de retirar os casos do plenário virtual ou deixar de pautá-los no plenário físico. Entre eles estão ações sobre exploração mineral em terras indígenas, o projeto da Ferrogrão, gratuidade de justiça na Justiça do Trabalho e a chamada “revisão da vida toda” do INSS, que teve pedido de destaque por Fachin na semana passada.

Integrantes do Supremo ouvidos reservadamente pelo O Globo avaliam que a troca de mensagens escancara um mal-estar que já vinha crescendo nos bastidores da Corte em meio a disputas sobre o funcionamento interno do tribunal, sobretudo com o impasse envolvendo o Código de Conduta e o que uma ala de ministros entende como uma “falta de defesa pública” do STF por Fachin.

CRISE – O episódio também ocorre em um momento de fragmentação interna do STF em meio a uma das mais graves crises de imagem enfrentadas pela Corte, capitaneada pelo caso Master e embates sobre atuação de CPIs.

Interlocutores do STF afirmam, por outro lado, que os pedidos de destaque têm sido utilizados em processos considerados complexos ou de elevada repercussão institucional, permitindo um debate mais aprofundado no plenário físico. Ministros próximos ao presidente também rejeitam a interpretação de que haja paralisação deliberada de julgamentos.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGFachin (e quase todos os demais ministros) sempre foi submisso a Gilmar Mendes, que manda e desmanda no Supremo. Agora, na função de presidente, acordou e resolveu dar um freio, mas é ilusão, porque Gilmar Mendes continuará fazendo o que bem entende no Supremo e evitando que Alexandre de Moraes e Dias Toffoli sofram impeachment ou qualquer constrangimento. Apenas isso. (C.N.)

Produção ligada a Eduardo Bolsonaro oferecia “atalho” para residência nos EUA

Com Bolsonaro afastado, indicação dos filhos ao Senado enfrenta resistência

Aliados resistem em acatar indicação de Flávio e Eduardo

Bruno Ribeiro
Ana Luiza Albuquerque
Folha

A primeira decisão política tomada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sem aval público do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), enfrenta resistências da direita.

Aliados do ex-presidente criticam a escolha do presidente da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), André do Prado (PL), para o Senado em São Paulo, feita por Eduardo com a concordância de Flávio. O argumento principal é de que André não pertenceria ao grupo político —seria um integrante do centrão.

SEM JUSTIFICATIVA – Um membro do grupo disse à reportagem, sob reserva, que não há nada que explique a indicação do deputado estadual para a chapa e que, portanto, não há uma justificativa plausível para se apresentar ao eleitor.

Bolsonaro já havia externado, segundo aliados, que, caso Eduardo não pudesse disputar o cargo, seu indicado seria o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL). Eduardo, contudo, atendendo a pedidos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de Tarcísio de Freitas (Republicanos), optou por André.

Enquanto esteve detido na unidade conhecida como Papudinha, em Brasília, Bolsonaro vinha sendo procurado por aliados para dar aval a candidaturas estaduais e resolver conflitos internos no bolsonarismo. Em fevereiro, levantamento da Folha mostrou que, no período de um mês, o STF (Supremo Tribunal Federal) havia recebido 25 pedidos de visitas de políticos interessados na chancela a suas candidaturas.

FORA DAS ARTICULAÇÕES – Desde que passou para a prisão domiciliar, no fim de março, o ex-presidente está impedido de receber visitas, com exceções dos filhos, de advogados e de médicos. Na última terça (12), Prado disse, durante um evento em São Paulo sobre segurança pública promovido por Tarcísio, que ele foi escolhido “pelo Eduardo Bolsonaro, pelo Flávio Bolsonaro, pelo governador Tarcísio de Freitas e pelo Partido Liberal”.

“No dia a dia, essas pessoas [que criticam] vão me conhecer e vão saber por que o Eduardo me escolheu, o que eu agrego para a campanha do Flávio Bolsonaro em São Paulo”, disse o deputado estadual, afirmando ainda que é uma pessoa “leal”.

“Jamais o Eduardo, juntamente com Flávio, faria um anúncio de apoio à minha candidatura se não tivesse o aval do presidente Bolsonaro. Estou muito tranquilo em relação a esse apoio”, completou André, reconhecendo, porém, que o nome preferido do ex-presidente era o de Mello Araújo. À Folha o vice-prefeito paulistano disse: “Se o Tarcísio gosta tanto do André do Prado, por que não o levou para ser vice, que seria o certo?”

PEDIDO NEGADO – Mello Araújo afirmou que não fez lobby por sua candidatura ao Senado nem mantém contato com os filhos do ex-presidente, mas que tentou marcar uma visita a Bolsonaro para o próximo dia 18, o que foi negado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Como não renunciou ao cargo dentro do prazo, o vice-prefeito não pode mais se candidatar neste ano.

“O PL tem um papel importante [na eleição], deveria sim ser protagonista [em São Paulo], e ficou de fora. E aí o Tarcísio, para amenizar, começou a fazer campanha para André do Prado para ser senador”, disse Mello Araújo.

O deputado federal Ricardo Salles (Novo), que também pretende concorrer ao Senado por São Paulo, deve disputar os votos do eleitorado da direita contra André e o também deputado federal Guilherme Derrite (PP). No último fim de semana, Salles insinuou que a indicação foi fruto de um acordo financeiro.

“FILHOTE DO VALDEMAR” – Em uma publicação no X (ex-Twitter) no sábado (9), disse que, caso tirassem da chapa “o filhote do Valdemar” —em referência à aliança entre André e o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto—, ele retiraria sua candidatura. “Se fizer isso, abro mão na hora. Se não fizer, é porque realmente não querem devolver a grana do tal acordo com o centrão.” A Folha procurou o deputado para perguntar sobre a publicação, mas ele não quis dar detalhes.

No evento desta terça, André respondeu: “O Salles tem que saber que eu fui escolhido do grupo bolsonarista”. Valdemar foi procurado via WhatsApp, mas não respondeu. Eduardo publicou um vídeo no YouTube em resposta, com o título: “Aqui não, Salles”. “Ele [Salles] começou partindo para calúnia, dizendo que eu sou bandido, que eu sou corrupto, que eu estou aceitando dinheiro em troca do voto, de indicar as pessoas votarem no André do Prado.”

MOTIVOS DA INDICAÇÃO – Aliados de Tarcísio, sob reserva, citam três fatores que levaram o governador a trabalhar pela indicação de André: a lealdade demonstrada pelo presidente da Alesp até o momento, o passado de atritos entre o governador e Mello Araújo —que já fez uma série de críticas públicas a seu trabalho— e a perda de esperança na vitória de Derrite.

A reportagem procurou Tarcísio via email ao Palácio dos Bandeirantes, mas não teve resposta. No fim da semana passada, após confirmar a escolha de André, em entrevista à rádio Jovem Pan, ele disse que o presidente da Alesp seria o candidato mais votado ao Senado. “Ele é muito agregador. Vai ter os votos da direita, vai mobilizar os votos do centro”, afirmou. A Folha procurou a equipe de Flávio para tratar da indicação de André, mas não teve resposta.

Tarcísio reagiu com desconforto ao caso Vorcaro e questionou condução da crise bolsonarista

O “Zero Um” na linha de fogo: escândalo com Vorcaro ameaça afundar candidatura

Lei da Dosimetria já se transformou em símbolo da batalha por poder em Brasília

Charge dp Gilmar Fraga (Zero Hora)

William Waack
CNN

Quando foi aprovada, no fim do ano passado, a dosimetria surgiu como um compromisso político para evitar um confronto ainda maior entre Judiciário, que não iria deixar passar uma anistia, e um Congresso com clara maioria para aliviar de alguma maneira a situação dos condenados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por conta da trama golpista.

De lá para cá, com vetos e derrubada de vetos, o confronto só piorou e está escalando com a decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes de suspender a Lei da Dosimetria aprovada no Congresso. O confronto entre Judiciário e Legislativo vai piorando, pois a natureza dele não é simplesmente técnica ou baseada na interpretação de normas da Constituição ou no entendimento do regimento interno do Congresso, embora também seja.

DISPUTA DE PODER – Ela é uma disputa de poder entre um Parlamento que se vê ainda mais empoderado diante da perspectiva de aumentar a proporção de centro-direita nas próximas eleições, e nem estamos falando do resultado das presidenciais. E um Supremo cujos supremos poderes estão sendo erodidos por pressão política-pública, que é resultado em boa medida do comportamento político e pessoal de integrantes da própria Suprema Corte.

E aí não importa o que sejam as justificativas jurídicas para a decisão de Moraes, nem o que o Congresso possa apontar de falhas nelas para se propor a peitar o juiz Alexandre de Moraes. O Supremo encara seu papel como o supremo poder – e, se necessário for, impondo limites aos outros, especialmente o Legislativo, que está claramente disposto a devolver na mesma moeda.

Documentos apontam Eduardo como produtor-executivo e gestor financeiro de “Dark Horse”

Contrato liga Eduardo Bolsonaro a filme

Deu na Folha

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) atuou como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e assinou um contrato com poderes sobre a gestão financeira do projeto, de acordo com o site The Intercept Brasil. Os documentos obtidos contradizem declarações públicas de Eduardo de que ele teria apenas cedido direitos de imagem, sem exercer nenhum cargo de gestão na produção.

Segundo o Intercept, o contrato, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024, designa ele e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) como produtores-executivos, ao lado da produtora GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos. A função conferiria poder para lidar diretamente com o controle de orçamento e a gestão financeira de um projeto audiovisual.

RESPONSABILIDADE – Ainda de acordo com o site, os produtores-executivos teriam responsabilidade sobre decisões estratégicas de financiamento, preparação de documentação para investidores e identificação de fontes de recursos para o filme —que, na época, se chamava “O Capitão do Povo”.

Também haveria uma minuta de aditivo contratual, datada de fevereiro de 2024, citando Eduardo como “financiador” da produção. O Intercept ressalva que não há confirmação de que o aditivo tenha sido, de fato, assinado. Procurado pela Folha, Eduardo não se manifestou até a publicação deste texto.

Em entrevista à CNN na tarde desta sexta (15), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o contrato mostrado pelo Intercept é antigo e que Eduardo publicaria um vídeo para explicar a situação. Segundo o senador, seu irmão nunca fez a gestão dos recursos do filme.

REPASSE – Na quarta-feira (13), o Intercept revelou que Flávio articulou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o repasse de R$ 134 milhões para financiar a produção, dos quais R$ 61 milhões já foram pagos. Um áudio de setembro de 2025 mostra o senador cobrando mais recursos ao banqueiro. Flávio confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro para o filme, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens em troca.

Nesta sexta, o Intercept também publicou mensagens em que Eduardo orienta o empresário Thiago Miranda, intermediário entre Vorcaro e a família Bolsonaro, sobre como enviar recursos aos Estados Unidos. “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo”, teria dito Eduardo. Em outra mensagem, sugere: “Enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual”.

As mensagens indicam que parte dos valores negociados por Flávio com Vorcaro foi transferida ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas (EUA) e controlado por aliados de Eduardo —entre eles Paulo Calixto, advogado responsável pelo processo imigratório do ex-deputado nos Estados Unidos.

DESPESAS NOS EUA – A Polícia Federal apura se o dinheiro de Vorcaro para o filme teria custeado despesas de Eduardo nos EUA, para onde ele se mudou em fevereiro de 2025 alegando perseguição do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

Em postagem em redes sociais na quinta (14), Eduardo negou ter recebido recursos do fundo e afirmou que a suspeita “não se sustenta e é tosca”. Disse ainda que seu status migratório nos EUA não permitiria tal operação. Já Mario Frias informou ao Intercept que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo” do filme.

O orçamento total da produção, segundo documentos obtidos pelo site, está estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões —valor que condiz montante que Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro: US$ 24 milhões.

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“Merecia o benefício da dúvida”: Flávio tenta conter desgaste após ataque de Zema

Crise de Flávio Bolsonaro transforma CPI do Master em nova guerra política no Congresso

Aliados de Alcolumbre descartam destravar comissão

Luísa Marzullo
O Globo

A crise provocada pela revelação das negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro uniu governistas e oposicionistas no Congresso na defesa pública da criação de uma CPI para investigar o Banco Master.

Nos bastidores do Senado, porém, aliados do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmam que a ofensiva é vista mais como instrumento de disputa política e comunicação pública do que como uma articulação real para instalar uma comissão investigativa e, por isso, descartam destratar a criação do colegiado.

NEGOCIAÇÕES – A nova onda de pressão ocorre após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de mensagens, áudios e documentos que apontam negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a publicação, a negociação previa aportes de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para a produção cinematográfica.

Depois da repercussão do caso, Flávio decidiu transformar a defesa da CPI numa das principais linhas de reação política da pré-campanha presidencial. Em nota divulgada após uma reunião de emergência com integrantes do núcleo político e jurídico do PL, o senador afirmou que buscava apenas “patrocínio privado para um filme privado” sobre a história do pai e voltou a cobrar a instalação da comissão parlamentar. “Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero: CPI do Master já”, afirmou.

Nos bastidores da campanha, a avaliação é que a defesa da investigação parlamentar pode ajudar Flávio a tentar se dissociar politicamente do escândalo e deslocar parte do desgaste para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No campo governista, a reação caminhou na mesma direção, ainda que com objetivo oposto.

“BOLSO MASTER” – Integrantes da base passaram a intensificar a tentativa de associar o escândalo do Banco Master ao bolsonarismo, numa ofensiva apelidada de “Bolso Master”. O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirmou que o caso reforçou a necessidade de instalação imediata da comissão. “Agora está claro o acordão no Congresso para aliviar corruptos do Centrão e da extrema-direita”, disse.

Apesar do endurecimento do discurso público dos dois lados, lideranças do Congresso avaliam que o tema se transformou sobretudo numa disputa sobre quem ficará politicamente associado ao escândalo do Banco Master às vésperas da corrida presidencial de 2026.

A resistência de Alcolumbre em relação à CPI do Banco Master antecede a crise envolvendo Flávio Bolsonaro e segue, até agora, inalterada. Na última sessão conjunta do Congresso, realizada há duas semanas, o presidente da Casa optou por não fazer a leitura do requerimento de criação da comissão, passo necessário para oficializar a instalação do colegiado.

TENSÃO – Nos bastidores, a decisão foi interpretada como um movimento para evitar a abertura de uma nova frente de instabilidade política num momento em que o Congresso já enfrentava tensão com o avanço de investigações relacionadas ao sistema financeiro. Na semana seguinte, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), aliado de primeira hora de Alcolumbre, se tornou alvo de um mandado de busca e apreensão, esfriando ainda mais qualquer chance de instalação.

Ao não ler o requerimento, Alcolumbre criou também um precedente político importante: mostrou que, mesmo diante de pressão pública e de assinaturas suficientes, a instalação de uma CPI pode continuar dependendo da conveniência política da presidência do Congresso.

Segundo interlocutores próximos ao senador, o cenário permanece o mesmo mesmo após a explosão do caso envolvendo Flávio e Vorcaro. Aliados afirmam que não existe previsão de nova sessão conjunta do Congresso no curto prazo e tampouco disposição política de Alcolumbre para destravar a comissão neste momento.

DESGASTE – Esses aliados afirmam que há receio de que uma CPI do Master produza desgaste transversal sobre lideranças do Centrão, contaminando as eleições deste ano. A avaliação no entorno do presidente do Senado é que tanto governistas quanto oposicionistas passaram a defender a CPI mais como ferramenta de discurso político do que como prioridade institucional real.

Interlocutores afirmam que nenhum senador procurou diretamente Alcolumbre nas últimas 24 horas para fazer um pedido efetivo de instalação da comissão, apesar da escalada pública das cobranças após a divulgação da reportagem do Intercept.

Aliados do presidente do Congresso também lembram que, nas semanas anteriores, a própria oposição havia concordado reservadamente em não pressionar pela leitura imediata do requerimento durante negociações internas no Senado. Houve um acordo para que o veto da dosimetria aos envolvidos no 8 de janeiro de 2023 pudesse ser votado sem a deliberação do colegiado.

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Um em cada cinco brasileiros diz já ter recebido oferta para vender o voto

Charge do Bennett (Instagram)

Maria Magnabosco
Estadão

Um em cada cinco brasileiros (22%) afirma já ter recebido oferta para vender o voto em alguma eleição, segundo pesquisa Ipsos-Ipec realizada em conjunto com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e divulgada nesta semana.

O levantamento faz parte da campanha “Voto não tem preço, tem consequências” e mostrou que a maioria dos entrevistados, ou seja, 62% da população, não se sente segura para denunciar o crime eleitoral, tampouco sabe como fazê-lo.

COMPRA DE VOTOS – A pesquisa mostra que três quartos da população consideram a oferta de dinheiro uma forma de compra de votos. Segundo a socióloga Adélia Franceschini, consultora do levantamento, porém, essa não é a única maneira de abordar os eleitores. “Há muitas outras formas de compra de voto que não chegam nem a 30%, como oferecer consultas médicas, facilitar o acesso a benefícios sociais, oferecer churrasco ou festa, entre outras”, explica.

“Temos dois problemas: um é a compra de votos em si, porque 22% já é muita gente. O outro é que cerca de 70% não entendem muitas moedas de troca como compra de voto, mas sim como um ‘favorzinho’”, afirma a socióloga.

A pesquisa também mostra que candidatos a cargos municipais são os que mais motivam tentativas de coação de eleitores. Os vereadores correspondem a 59% dos relatos de pessoas que afirmam já terem sido abordadas por candidatos ou cabos eleitorais com esse tipo de proposta. Os prefeitos aparecem em seguida, com 43%. Além disso, mesmo entre os que não foram diretamente abordados para vender o voto, 39% relatam que essa prática ocorre “sempre” onde moram. A soma dos que dizem que isso acontece “frequentemente” ou “às vezes” chega a 30%.

MAIOR INCIDÊNCIA – O levantamento mostra que o Nordeste é a região com maior incidência de entrevistados que apontaram ter recebido abordagens para vender o voto: 32%, dez pontos a mais que a média nacional e bem acima dos 18% do Sudeste, a mais populosa do país.

“Quanto menor a cidade, mais compra de votos. Mais gente depende de emprego na prefeitura, por exemplo. O dinheiro também é mais ‘útil’, ao permitir mais facilmente a satisfação de necessidades. Já nas cidades maiores, as cestas básicas são mais ‘práticas’ para os candidatos”, diz o cofundador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, Chico Whitaker.

COMO DENUNCIAR –  Um dos objetivos da campanha do MCCE é incentivar denúncias de compra de votos ao Ministério Público e à Justiça Eleitoral. A pesquisa mostra, porém, que 62% dos brasileiros não sabem como denunciar o crime, enquanto 52% afirmam não se sentir seguros para fazer a denúncia.

A compra de votos, chamada pela legislação de “captação ilícita de sufrágio”, pode ser denunciada por meio do aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral e do Ministério Público, além de delegacias, promotorias, e-mails e ouvidorias. O crime inclui oferecer dinheiro, benefícios ou vantagens em troca de votos e pode levar a até quatro anos de prisão.

A pesquisa foi feita pelo Ipsos-Ipec entre 4 e 8 de dezembro do ano passado, com 2000 entrevistas em 131 municípios. O nível de confiança utilizado é de 95%. A margem de erro para as perguntas que englobam toda a amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

PL já admite risco de Eduardo Bolsonaro ficar fora das urnas após ação no STF

Copa de 1970 tem muitas narrativas e há versões que nada têm de realidade

Entenda o papel de Neymar na contratação de Ancelotti

Carlo Ancelotti enfim está admitindo convocar Neymar

Tostão
Folha

Na lista final dos convocados para a Copa do Mundo, Ancelotti ainda deve ter algumas dúvidas, especialmente do meio para frente, com quatro jogadores (Andrey, Paquetá, Rayan e Neymar) para duas vagas. A polarização sobre Neymar, se ele deve ou não ir ao Mundial, está tão radical quanto à da política brasileira.

Carlo Ancelotti será o juiz e espero que tenha sabedoria para decidir. Ou a melhor solução seria jogar a moeda para cima e ver se dá cara ou coroa?

MUITA TENSÃO – Os jogadores que ainda não estão certos na Copa certamente estão tensos. Nos dois Mundiais em que atuei, 1966 e 1970, corri risco de ficar de fora por motivos diferentes. Em 1966, foram convocados 44 jogadores e apenas 22 estariam na Inglaterra.

Alguns foram cortados durante treinos e amistosos. Passamos 20 dias na Suécia e a lista final só ia sair dias antes da ida para a Inglaterra. Eu tinha 19 anos, era reserva de Pelé, e havia outros concorrentes.

Na véspera do anúncio dos 22 que iriam para o Mundial, encontrei no hall do hotel o supervisor Carlos Nascimento, um homem austero e de poucas palavras. Eu, por distração, convicção ou prepotência, perguntei a ele sobre o horário da viagem para a Inglaterra. Ele me olhou duramente e não disse nada. Não dormi, com medo de ser cortado por causa da gafe cometida. No outro dia, felizmente, estava na lista para a Copa.

MAIS PROBLEMAS – Em 1970, corri risco de não ir ao Mundial porque tinha sido operado de descolamento da retina e teria de ficar seis meses em completo repouso. Havia uma discussão nacional se eu poderia ou não jogar a Copa. Eu tinha sido artilheiro das Eliminatórias.

Fui convocado por João Saldanha, mas só me apresentei depois dos outros jogadores e fazia treinamento separado. Com a liberação médica, demonstrei que tinha condições de jogar.

Faltava convencer Zagallo de que eu deveria ser o titular, ao lado de Pelé. O time do Mundial foi escalado após um jogo-treino em Guanajuato, no México.

TIME ESCALADO – Pela primeira vez, Zagallo escalou o time com o volante Piazza de zagueiro, o meia Rivellino mais recuado e pela esquerda, formando um trio no meio-campo com Gerson e Clodoaldo, e eu de centroavante, ao lado de Pelé e Jairzinho.

Quando acabou o jogo-treino, Zagallo entrou no campo todo sorridente e disse, pelo olhar, que aquele time seria o da Copa.

A história, com o tempo, é contada de maneiras diferentes. Muitas pessoas deturpam a realidade e narram as coisas como elas gostariam que tivessem ocorrido. As versões costumam ser mais interessantes que as verdades.

MUITOS CRAQUES – A seleção brasileira de 70 encantou o mundo porque tinha muitos craques, era muito coletiva, organizada, equilibrada, com um trio no meio-campo e outro no ataque. Era uma equipe revolucionária para a época, pois marcava e atacava com muitos jogadores.

Porém, o que mais se diz e se repete é que era uma seleção extremamente ousada, ofensiva, que tinha cinco meias-atacantes (camisas 10) e que os jogadores tinham liberdade para fazer em campo o que queriam.

Logo após o título, mesmo os ativistas políticos que diziam que não iriam torcer pela seleção por causa da nefasta ditadura, e até os corruptos que roubavam dinheiro público, saíram pelas ruas comemorando, enrolados na bandeira nacional.

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