Trump está diante do espelho persa e ameaça os limites do poder americano

Na escalada com Teerã, Trump subestimou variáveis importantes

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Certos conflitos decorrem de equívocos táticos; outros expõem deslocamentos estruturais no sistema internacional. A atual escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã pertence a esta segunda categoria. O que se apresentou como demonstração de força destinada a restaurar a dissuasão tornou-se um teste da capacidade americana de converter supremacia militar em controle político num cenário global que já não reage de forma automática à sua liderança.

Desde a retirada unilateral dos Estados Unidos do acordo nuclear firmado em 2015 — o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) — decisão tomada pela administração Trump em 2018, a política de “máxima pressão” impôs ao Irã o regime de sanções mais severo da história recente. Segundo dados do Departamento do Tesouro dos EUA, milhares de indivíduos e entidades iranianas foram alvo de restrições financeiras. Ainda assim, o resultado não foi colapso institucional.

ADAPTAÇÃO ESTRATÉGICA – Pelo contrário. Relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica indicaram expansão gradual das capacidades nucleares iranianas após o abandono do acordo. A pressão produziu adaptação estratégica, não capitulação.

Trump partiu de uma premissa clássica: ação rápida, demonstração tecnológica, choque psicológico e reposicionamento do adversário. A fórmula funcionou em contextos assimétricos anteriores. Mas o Irã não é um ator isolado nem opera sob lógica de rendição imediata.

Teerã respondeu dentro de sua doutrina de guerra híbrida e dissuasão escalonada. A estratégia iraniana combina projeção indireta por meio de aliados regionais, capacidade de saturação por drones e mísseis e manipulação do risco energético. Aproximadamente 20% do petróleo comercializado globalmente transita pelo Estreito de Ormuz. Qualquer instabilidade ali impacta imediatamente mercados globais, como demonstram oscilações recentes nos preços do Brent após episódios de tensão naval.

SOBREVIVÊNCIA – Em conflitos assimétricos, vencer não significa destruir o oponente. Significa sobreviver, impor custos e alongar o tempo estratégico. O Irã compreende isso com clareza. Trump subestimou três variáveis centrais. A primeira é a resiliência estrutural iraniana. Quatro décadas de sanções não desmantelaram o regime. Ao contrário, consolidaram mecanismos paralelos de comércio, aprofundaram relações energéticas com a China e ampliaram canais financeiros alternativos fora do sistema dominado pelo dólar.

A segunda variável é sistêmica. O mundo de 2026 é substancialmente distinto do ambiente unipolar pós-2003. Rússia e China não precisam intervir militarmente para alterar equilíbrios. A coordenação diplomática no Conselho de Segurança da ONU, acordos energéticos bilaterais e iniciativas como sistemas de pagamento alternativos ao SWIFT reduzem a eficácia coercitiva tradicional americana. A erosão é incremental, mas cumulativa.

A terceira variável é doméstica. Conflitos prolongados historicamente afetam ciclos eleitorais americanos. Dados do Congressional Research Service mostram que operações militares extensas tendem a gerar pressões orçamentárias e desgaste político, sobretudo quando objetivos estratégicos permanecem ambíguos. A política externa não está imune à dinâmica interna.

DIFICULDADES – O paradoxo atual é evidente: os Estados Unidos mantêm orçamento de defesa superior ao das dez nações seguintes combinadas, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), um dos principais centros globais de monitoramento de gastos militares. Ainda assim, enfrentam dificuldade crescente em traduzir superioridade bélica em estabilidade política duradoura. A dissuasão clássica pressupõe que o adversário não suportará os custos. O Irã sinaliza disposição para absorvê-los.

Israel opera sob lógica existencial distinta. Para Jerusalém, conter a expansão estratégica iraniana é imperativo imediato. Para Washington, o cálculo envolve implicações globais: mercados energéticos, alianças atlânticas, posicionamento no Indo-Pacífico e competição estratégica com Pequim. A convergência tática não elimina divergências estruturais de risco.

O elemento mais preocupante é a fragilidade diplomática. Não há arquitetura robusta de negociação paralela comparável ao processo que levou ao JCPOA em 2015. A ausência de canal institucionalizado aumenta o risco de erro de cálculo.

LIDERANÇA FRAGMENTADA – O que está em jogo transcende o Oriente Médio. Trata-se da natureza da liderança americana em uma ordem internacional fragmentada. Desde o fim da Guerra Fria, Washington operou sob a suposição de que poderia intervir, reconfigurar e retirar-se mantendo influência decisiva. Hoje, sair tornou-se mais complexo do que entrar.

O conflito com o Irã revela limite estrutural: poder militar absoluto não equivale a controle político absoluto. Hegemonia contemporânea depende de legitimidade, coalizões e previsibilidade sistêmica. Quando a previsibilidade se deteriora, o custo da liderança aumenta exponencialmente.

Trump acreditou que projetaria força controlada. Enfrenta uma dinâmica que escapa ao controle linear. O Irã não precisa derrotar militarmente os Estados Unidos para alterar o equilíbrio. Precisa apenas estender o conflito, elevar seus custos e regionalizar seus efeitos.

TRANSIÇÃO DE HEGEMONIA – Se a escalada evoluir para um ciclo duradouro de desgaste, poderá simbolizar algo mais amplo: a transição de uma hegemonia incontestada para um cenário de competição sistêmica permanente. Não se trata do colapso do poder americano, mas da metamorfose de sua natureza.

O espelho persa devolve à Casa Branca uma verdade que Washington reluta em admitir: a superioridade militar permanece, mas a capacidade de determinar os desfechos já não lhe pertence integralmente. A distância entre poder e controle tornou-se visível.

O que está em curso pode ultrapassar os limites de um confronto regional. Pode assinalar o instante em que a hegemonia americana deixou de operar como garantia automática de resultados e passou a enfrentar as fricções de um sistema internacional em redistribuição. Os Estados Unidos continuam fortes. O que já não é absoluto é sua margem de decisão sobre o rumo dos acontecimentos.

Ucrânia, quatro anos depois: a guerra que se tornou retrato de uma época

Na guerra fria na família Bolsonaro, a disputa pelo espólio do poder

Bolsonarismo entra em fase aberta de autodevoração política

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, apresentada como herança direta de Jair Bolsonaro, está longe de constituir consenso no próprio clã e muito menos no campo conservador que orbitou o ex-presidente desde 2018. O que se projeta para 2026 não é uma transição orgânica de liderança, mas um movimento defensivo para preservar um capital político em evidente perda de capacidade agregadora. A tentativa de naturalizar a sucessão esbarra numa realidade incômoda: sem o vértice indiscutível que antes organizava o grupo, tensões acumuladas emergem e transformam a pré-candidatura em foco explícito de disputa doméstica.

Não se trata de continuidade, mas de administração de espólio. O bolsonarismo, frequentemente descrito como bloco monolítico, sempre operou como coalizão pragmática de interesses heterogêneos — militares, liberais radicais, lideranças evangélicas, antipetistas históricos e operadores do Centrão — unificados menos por um programa consistente do que pela força agregadora de uma liderança personalista. Enquanto esse poder arbitral se mantinha intacto, divergências eram contidas. Com a inelegibilidade e o afastamento do jogo eleitoral direto, porém, a engrenagem perdeu o eixo e as fissuras deixaram de ser silenciosas.

APOSTA ARRISCADA – A escolha de Flávio, nesse cenário, não surge como solução consensual, mas como aposta arriscada numa lógica dinástica que parcela relevante da própria direita considera politicamente contraproducente. A contradição é direta: o movimento que se construiu como antítese das “velhas oligarquias” passa a flertar com a reprodução hereditária de poder. A promessa de ruptura converte-se, assim, em continuidade familiar — e essa inversão simbólica é percebida com crescente desconforto por aliados estratégicos.

Entre os primeiros sinais de tensão, destacam-se críticas oriundas do próprio campo ideológico. O pastor Silas Malafaia, figura central na mobilização do eleitorado evangélico, já indicou preferência por alternativas consideradas mais competitivas e chegou a avaliar que intervenções públicas de Eduardo Bolsonaro prejudicam mais do que contribuem para a viabilidade eleitoral do irmão. A mensagem implícita é inequívoca: lealdade ao fundador não implica adesão automática ao herdeiro designado.

A equação torna-se mais complexa com o fortalecimento do capital político próprio de Michelle Bolsonaro. Consolidada como liderança com linguagem mais moderada e forte apelo entre mulheres e evangélicos, ela deixou de ser mera extensão simbólica do ex-presidente para tornar-se alternativa real dentro do campo conservador. Seu apoio público ao nome de Flávio, nesse contexto, soa menos como aclamação espontânea e mais como gesto de disciplina familiar diante de um processo sucessório ainda indefinido.

REORGANIZAÇÃO – A disputa alcança também a nova geração da direita. O protagonismo digital e eleitoral de Nikolas Ferreira evidencia que o conservadorismo brasileiro já não gravita exclusivamente em torno da família Bolsonaro, mas se reorganiza como ecossistema competitivo de lideranças que disputam legitimidade junto à base ideológica. Nesse ambiente, a candidatura do herdeiro não produz unidade automática; torna-se apenas mais um polo na corrida por hegemonia no campo conservador.

As fricções estendem-se à estrutura partidária. Divergências entre Carlos Bolsonaro e o comando do Partido Liberal (PL), liderado por Valdemar Costa Neto, revelam um conflito estratégico nítido: enquanto o partido busca ampliar alianças e dialogar com setores moderados, o núcleo ideológico insiste numa linha permanente de confronto. O dilema é estrutural — moderar-se para ampliar viabilidade ou radicalizar para preservar identidade mobilizadora.

Esse ambiente de disputa doméstica produz um efeito decisivo: a cautela pragmática do Centrão. Diferentemente do bolsonarismo ideológico, esse bloco opera por cálculo frio de viabilidade eleitoral e governabilidade futura. Nesse horizonte, a candidatura de Flávio surge como ativo incerto: carrega o peso do sobrenome, mas carece de experiência executiva robusta e enfrenta resistências no próprio campo que deveria sustentá-lo. Para atores pragmáticos, herança familiar não substitui densidade política nem probabilidade concreta de vitória.

COMPETIÇÃO DOMÉSTICA – O próprio clã, por anos apresentado como núcleo indissociável, revela agora dinâmica competitiva doméstica. A política familiar, antes extensão direta do projeto presidencial, converte-se em arena de protagonismos paralelos. Cada integrante busca preservar ou ampliar espaço, e a escolha de um sucessor prioritário altera inevitavelmente esse equilíbrio. Divergências públicas, recados indiretos e movimentos autônomos indicam que a lealdade convive, de forma cada vez mais evidente, com rivalidades latentes.

No plano eleitoral, a fragilidade torna-se ainda mais visível. Sem trajetória executiva de grande porte, Flávio enfrenta o contraste com governadores conservadores que acumulam resultados administrativos concretos e ambições presidenciais próprias. Instala-se, então, um dilema silencioso: entre fidelidade ao sobrenome e pragmatismo eleitoral, qual escolha maximiza as chances reais de poder? A ausência de resposta unânime aprofunda a fragmentação.

O ponto central é inequívoco: a candidatura de Flávio não emerge de convergência natural, mas de uma decisão verticalizada para preservar a centralidade de um nome no imaginário político da direita. Contudo, hegemonia não se transmite por herança; constrói-se por legitimidade reconhecida pelos pares e pela base social. Sem essa validação, a tentativa de sucessão tende a intensificar, e não pacificar, as disputas no interior do próprio campo.

RESERVAS – A ausência de unanimidade, portanto, não é detalhe periférico — é o elemento definidor dessa pré-candidatura. As reservas de lideranças evangélicas, a autonomia crescente de Michelle, o protagonismo de quadros jovens, os atritos entre irmãos e as tensões com a direção partidária compõem um mosaico que desmonta a imagem de coesão automática. O bolsonarismo já não opera sob comando incontestável.

Nesse contexto, a candidatura de Flávio Bolsonaro simboliza menos a continuidade de um projeto do que a exposição de sua crise estrutural. O que se apresenta como sucessão revela-se, na prática, uma guerra fria doméstica pelo controle de um capital político em progressivo desgaste.

No fim, a tentativa de transmissão dinástica explicita a fragilidade estrutural do movimento: privado do eixo que lhe garantia unidade, o bolsonarismo passa a enfrentar o peso das próprias ambições que o sustentaram — e que agora, sem mediação central, operam como força centrífuga de fragmentação.

Argentina em choque: Milei e o desmonte do trabalho e dos direitos

Anexação como ruptura: Israel, Cisjordânia e o colapso do direito internacional

Anexação gradual ameaça a solução de dois Estados

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

O controle territorial de Israel desafia os pilares jurídicos do pós-guerra e testa os limites do direito internacional. Na Cisjordânia, a anexação gradual ameaça a solução de dois Estados e redefine o que se torna aceitável no cenário global.

Há momentos na história em que decisões políticas deixam de ser meramente táticas e passam a representar verdadeiros pontos de inflexão civilizatórios. Os planos controversos de Israel para aprofundar o domínio sobre a Cisjordânia se enquadram nessa categoria. Não se trata apenas de mais um capítulo de um conflito prolongado, mas de uma escolha estratégica com consequências diretas para a arquitetura jurídica internacional construída após 1945.

AQUISIÇÃO PELA FORÇA – O que está em jogo não é somente a gestão de um território disputado, mas a própria consistência do princípio da inadmissibilidade da aquisição de território pela força, consagrado na Carta da Organização das Nações Unidas e reiterado em múltiplas resoluções do Conselho de Segurança. A consolidação progressiva de uma presença permanente na Cisjordânia, ainda que sob formas administrativas ou de segurança indiretas, constitui um desafio estrutural à credibilidade da ordem jurídica internacional. Se esse processo for normalizado, a mensagem é clara: normas fundamentais podem ser relativizadas quando confrontadas com realidades de poder consolidadas no terreno.

Os defensores dessa estratégia invocam imperativos de segurança e realidades geopolíticas complexas. Argumenta-se que a fragmentação política palestina, a presença de atores armados hostis e a instabilidade regional tornam inviável uma retirada significativa sem garantias robustas. Essa leitura, contudo, tende a privilegiar uma lógica de gestão permanente do conflito em detrimento de uma solução política estruturada. A segurança, entendida como domínio territorial duradouro, substitui gradualmente a perspectiva de compromisso político como horizonte estratégico.

Limitar a análise ao plano estritamente jurídico, porém, seria insuficiente. O aprofundamento da presença israelense na Cisjordânia tem implicações políticas e simbólicas de grande alcance. No plano interno de Israel, reforça correntes que defendem a integração de fato do território, esmaecendo a distinção entre ocupação temporária e soberania permanente. Entre os palestinos, amplia a percepção de inviabilidade de uma solução negociada, alimentando frustração e enfraquecendo atores moderados, enquanto fortalece discursos maximalistas.

CONSENSO JURÍDICO – Essa dinâmica enfrenta, entretanto, um obstáculo decisivo: sua incompatibilidade com a lógica da solução de dois Estados e com o consenso jurídico internacional que a sustenta. A crescente fragmentação territorial da Cisjordânia — marcada por enclaves, corredores de segurança e regimes administrativos diferenciados — compromete a viabilidade de um Estado palestino territorialmente contínuo e politicamente funcional. O resultado é um paradoxo estratégico: quanto mais se consolidam os fatos no terreno, mais distante se torna qualquer solução negociada, alimentando ciclos de frustração que radicalizam posições e reduzem o espaço para compromissos diplomáticos duradouros.

As reações externas revelam inquietação, ainda que moderada. Diversos governos europeus e organismos multilaterais têm ressaltado que a expansão da presença israelense na Cisjordânia constitui um desenvolvimento profundamente preocupante, por fragilizar as bases jurídicas e políticas do processo de negociação. A linguagem diplomática, cautelosa porém persistente, indica um consenso implícito: a anexação indireta representa uma ruptura com o marco normativo que orientou as negociações desde Oslo e sinaliza um afastamento gradual das referências jurídicas multilaterais.

É nesse ponto que a questão da Cisjordânia assume dimensão verdadeiramente global. Se a incorporação gradual de territórios ocupados for tolerada, mesmo sob formas juridicamente ambíguas, cria-se um precedente de amplo alcance para outros conflitos territoriais contemporâneos. A credibilidade da ordem jurídica internacional depende da consistência de sua aplicação. A seletividade na condenação de violações territoriais transforma o direito em instrumento contingente, moldado por conveniências políticas momentâneas e pela assimetria de poder entre Estados.

EFEITOS – Mais do que um debate regional, está em jogo a robustez das normas que estruturam a convivência entre nações desde o pós-guerra. A erosão silenciosa desses princípios, ainda que gradual e justificada por argumentos imediatos de segurança, produz efeitos cumulativos que ultrapassam amplamente o teatro do conflito israelo-palestino. Cada exceção tolerada enfraquece o caráter vinculante das regras destinadas a limitar a lógica da força nas relações internacionais.

O risco final é o de uma normalização da excepcionalidade: a ideia de que determinadas situações, por razões históricas ou estratégicas, justificam uma suspensão prolongada de princípios universais. Aplicada de forma seletiva, essa lógica corrói a confiança no sistema multilateral e incentiva outros atores a reinterpretarem normas fundamentais à luz de seus próprios interesses estratégicos.

Assim, a evolução da política israelense na Cisjordânia não deve ser lida apenas como uma decisão de gestão territorial ou como uma resposta conjuntural a desafios de segurança. Trata-se de um teste decisivo à capacidade da comunidade internacional de preservar a coerência do quadro normativo que afirma defender. Se a consolidação de realidades de fato prevalecer sistematicamente sobre compromissos jurídicos assumidos, o resultado será uma progressiva desvalorização do direito como instrumento regulador das relações entre Estados.

REAÇÃO INTERNACIONAL – A experiência contemporânea mostra que sistemas internacionais raramente entram em colapso de forma súbita; tendem antes a perder densidade normativa gradualmente, à medida que derrogações sucessivas corroem, pouco a pouco, a autoridade das regras comuns. A trajetória da Cisjordânia se insere nesse processo mais amplo. A reação internacional — firmeza normativa ou resignação pragmática — será decisiva.

No fim, a questão ultrapassa fronteiras e narrativas nacionais. O que está verdadeiramente em jogo é saber se o sistema internacional continuará baseado em princípios universalmente aplicáveis ou se evoluirá para uma ordem em que a força, direta ou indireta, redefina progressivamente os limites do aceitável. Esse é o dilema central colocado pelos desdobramentos na Cisjordânia: entre a conveniência do fato consumado e a preservação de um sistema que, após 1945, buscou substituir a lei do mais forte pela força do direito.

No fio da legitimidade, o Supremo depende do conteúdo do celular de Vorcaro

Caso Master leva Toffoli ao centro da crise

Marcelo Copelli
Revista Fórum

O Supremo Tribunal Federal entrou em uma zona de desconforto institucional que não pode ser tratada como detalhe. O Caso Master, iniciado como investigação sobre a liquidação de um banco, passou a envolver diretamente o ministro Dias Toffoli, após a Polícia Federal identificar menções ao seu nome em mensagens extraídas do celular do controlador da instituição, Daniel Vorcaro. A partir daí, o que era um processo financeiro tornou-se um teste de credibilidade para a mais alta Corte do país.

Os fatos conhecidos são objetivos. A empresa da qual Toffoli é sócio — a Maridt Participações — recebeu valores decorrentes da venda de participação no resort Tayayá, no Paraná, operação que envolveu fundos ligados ao grupo empresarial de Vorcaro.

O ministro confirmou a transação e afirmou que os valores foram recebidos de forma regular, negando qualquer favorecimento ou vínculo que comprometesse sua atuação. No plano formal, a operação foi apresentada como legítima. No plano político, porém, a coincidência entre a transação empresarial e a relatoria do caso abriu um campo inevitável de questionamentos.

RELAÇÕES EMPRESARIAIS – A tensão não reside na existência da venda, mas na sobreposição entre relações empresariais e função jurisdicional. Em democracias constitucionais maduras, imparcialidade não se resume à ausência de ilegalidade.

Exige também distância inequívoca de qualquer circunstância que possa comprometer a aparência de neutralidade. Quando o nome do ministro surge em comunicações apreendidas de um investigado — ainda que em contexto negocial — a discussão sobre eventual suspeição deixa o terreno abstrato e passa ao centro do debate institucional.

O impacto extrapolou o Supremo quase imediatamente. Em Brasília, o avanço das investigações passou a ser acompanhado com atenção redobrada por setores políticos que mantiveram interlocução institucional com o Banco Master antes de sua liquidação.

LIGAÇÕES PERIGOSAS – A instituição operava com entes públicos e mantinha relações com bancos regionais, inserindo seu controlador em ambientes de influência relevantes.

No Distrito Federal, operações envolvendo o Banco Master e o BRB, banco estatal vinculado ao governo local, acrescentaram sensibilidade ao cenário. O governador Ibaneis Rocha, cuja administração mantém relação institucional com o banco regional, observa o desdobramento dos fatos sob pressão ampliada.

Não há, até o momento, imputação formal contra o governador no âmbito do inquérito. Ainda assim, a possibilidade de que a análise de dados telemáticos amplie o mapa de conexões institucionais já é suficiente para tensionar o ambiente político.

REDES DE CONTATO  – Entre as lideranças do Centrão, a leitura é pragmática. O bloco consolidou influência a partir de presença estratégica em estruturas administrativas, instituições financeiras públicas e articulações parlamentares. Investigações que tangenciam agentes com trânsito político raramente permanecem circunscritas ao ponto de origem. A experiência recente mostra que a exposição de comunicações digitais tende a revelar redes de contato que, mesmo quando institucionais, tornam-se politicamente sensíveis sob escrutínio público.

Nesse contexto, o Caso Master deixa de ser apenas um inquérito financeiro e passa a representar um foco potencial de instabilidade. A previsibilidade institucional é elemento central para a sustentação das coalizões no Congresso. Qualquer tensão envolvendo o Supremo — sobretudo quando cruza interesses do sistema financeiro e atores políticos — repercute imediatamente na arena legislativa.

Para o STF, contudo, o desafio é mais profundo. A Corte não enfrenta apenas uma questão processual, mas uma decisão de natureza simbólica. A permanência de Toffoli na relatoria poderia encontrar amparo nas regras formais. A discussão sobre o seu afastamento, entretanto, transcende a literalidade da norma. Ela alcança o campo mais sensível das instituições: a confiança pública.

ISENÇÃO – A autoridade de uma Corte constitucional não se sustenta apenas na validade técnica de seus atos, mas na convicção coletiva de que seus julgadores atuam sem qualquer sombra capaz de comprometer sua isenção. Em momentos críticos, instituições sólidas costumam optar por medidas que preservem sua integridade estrutural, mesmo quando a estrita legalidade não as impõe.

É nesse ponto que o afastamento de Tofffli deixa de ser percebido como gesto individual e passa a assumir natureza institucional. O instituto da suspeição não existe apenas para sancionar desvios, mas para resguardar a autoridade do julgamento. Quando circunstâncias externas produzem questionamentos consistentes — mesmo que não configurem irregularidade — o afastamento pode funcionar como instrumento de proteção da própria decisão futura.

A manutenção da relatoria prolongava o debate sobre isenção. O afastamento, por sua vez, não encerra a controvérsia no plano simbólico nem reforça a autoridade do desfecho que vier a ser proferido.

DIVISOR – O Caso Master tornou-se, assim, um divisor. Ele mede não apenas a capacidade investigativa do Estado, mas a maturidade institucional do Supremo. A Corte não está apenas julgando um processo. Está sendo avaliada quanto à sua habilidade de preservar a própria credibilidade em meio à turbulência.

Em um ambiente de polarização estrutural, não basta estar juridicamente correto. É necessário estar institucionalmente incontestável. A história das cortes constitucionais demonstra que momentos críticos não são lembrados pela minúcia técnica das decisões, mas pelo grau de prudência adotado diante da crise.

A questão que se impõe é objetiva. A resposta define se o Supremo atravessará este episódio apenas formalmente intacto — ou historicamente fortalecido. E, em tempos de tensão institucional, essa diferença não é detalhe. É destino.

Trump cruza todos os limites ao lançar ataque racial a Obama e Michelle

Sem herdeiro, sem projeto: Tarcísio, Bolsonaro e o colapso da sucessão

O mundo segundo Donald Trump: ameaças, pressões e instabilidade

Sem bússola, sem projeto e dividida: o colapso da direita brasileira em 2026  

Venezuela e o novo neocolonialismo com base no petróleo

A irrefreável ascensão da inteligência artificial como força geopolítica

A democracia na era dos algoritmos: quem decide quando já não somos nós?

Trump, petróleo e poder: a Venezuela e a erosão da ordem internacional

Orçamento capturado: o poder invisível do Congresso

Preso ao próprio reflexo, o bolsonarismo se aprisiona na sucessão familiar

Movimento sequer consegue unificar a própria direita

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A decisão de Jair Bolsonaro de avalizar a pré-candidatura presidencial do filho, o senador Flávio Bolsonaro, não se limita a um gesto de continuidade política. Ela revela um erro estratégico profundo: a crença de que o bolsonarismo se confunde com o país — e de que seus votos são automaticamente transferíveis para além do próprio núcleo ideológico. Não são.

O movimento ocorre em um contexto de retração evidente. Bolsonaro está juridicamente impedido, politicamente fragilizado e institucionalmente isolado. Diante disso, sua reação não é ampliar alianças ou reconstruir pontes, mas fechar o jogo e concentrar poder. Ao optar pela sucessão familiar, transforma capital político em patrimônio privado, como se liderança fosse bem transmissível. A política, no entanto, não opera segundo a lógica do testamento — sobretudo quando identidade é confundida com maioria eleitoral.

CIRCUSTANCIAL – Desde 2018, o bolsonarismo consolidou uma base fiel, ruidosa e altamente mobilizada. Mas essa base nunca correspondeu à totalidade da direita brasileira, tampouco funcionou como bloco homogêneo. Parte relevante dos votos que levaram Bolsonaro ao Planalto resultou de circunstâncias específicas: rejeição ao sistema, antipetismo conjuntural e ausência de alternativas viáveis naquele momento. Eram votos voláteis — e a volatilidade não se transfere por sobrenome.

Ao ungir Flávio Bolsonaro como sucessor, Bolsonaro parece acreditar que o nome da família basta para manter unido um campo que sempre foi plural, competitivo e atravessado por disputas internas. A decisão ignora um dado central do tabuleiro político: o bolsonarismo possui votos próprios, mas a direita brasileira abriga projetos distintos, ambições concorrentes e lideranças que aguardavam a abertura da corrida presidencial. Ao fechar essa possibilidade, Bolsonaro não agrega — fragmenta.

A imposição de um herdeiro não organiza a direita; tensiona-a. Ao substituir o debate por lealdade e a competição por obediência, o bolsonarismo converte aliados potenciais em dissidências silenciosas. O resultado tende a ser menos convergência e mais dispersão: candidaturas paralelas, projetos regionais autônomos e um campo conservador dividido entre fidelidade pessoal e viabilidade eleitoral.

CONTROLE – A escolha do filho tampouco se ancora em densidade programática ou trajetória nacional consolidada. Fundamenta-se na confiança absoluta e no controle. Em um movimento moldado pela desconfiança permanente das instituições, da imprensa e da política profissional, a família surge como último espaço de previsibilidade. O problema é que previsibilidade interna não gera, por si só, competitividade externa — especialmente em um país complexo, desigual e exausto de confrontos permanentes.

O gesto também evidencia o esgotamento de um projeto de expansão. Em vez de disputar hegemonia dentro da própria direita, o bolsonarismo prefere preservar-se como identidade fechada. Em vez de dialogar com correntes conservadoras não radicalizadas, opta por submetê-las ou descartá-las. Em vez de formular respostas para desafios estruturais do país, reafirma a fidelidade como critério central de pertencimento político. O efeito não é fortalecimento, mas redução do campo.

Do ponto de vista eleitoral, trata-se de uma escolha defensiva. Bolsonaro sabe que carrega rejeições profundas, acumuladas por uma gestão marcada pelo conflito institucional, pelo desprezo às políticas públicas e pela retórica autoritária. Transferir o protagonismo ao filho é uma tentativa de manter mobilizado o núcleo mais fiel, ainda que isso implique perder capacidade de articulação com outros setores da direita.

ESPÓLIO –  Flávio Bolsonaro recebe o espólio do bolsonarismo, mas não o conjunto do campo conservador. Parte com uma base leal, porém limitada. Ganha visibilidade, mas também carrega passivos políticos e simbólicos: investigações, controvérsias e a associação direta a um projeto que fracassou em produzir consensos mínimos e respostas duradouras às crises do país. O peso do legado acompanha o nome.

Ao antecipar a sucessão, Bolsonaro tenta ainda interditar o debate sobre o esgotamento do bolsonarismo como projeto nacional. Em vez de refletir sobre as perdas de apoio, o isolamento internacional e a incapacidade de converter retórica em políticas públicas estruturantes, o movimento escolhe reafirmar a obediência como valor político supremo.

MEDO DA DISPERSÃO – O gesto não expressa força, mas receio. Medo da dispersão, do esquecimento e da irrelevância. Medo, sobretudo, de que o bolsonarismo seja lembrado não como um projeto político consistente, mas como um surto de mobilização sustentado por uma figura mítica — mais ruidosa do que dirigente, incapaz de organizar maiorias duradouras.

Quando um movimento político passa a confundir sua base com o país — e sua família com o futuro — deixa de disputar consensos e passa apenas a administrar limites. Projetos que abdicam de convencer para se dedicar a controlar não constroem legado: sobrevivem por inércia, até que o mito se desgaste, a base se reduza e reste apenas o registro de um poder que falou alto, mas nunca soube governar o tempo.

 

A ofensiva conservadora pela impunidade

A silenciosa ofensiva da extrema-direita contra a democracia europeia

O dilema centrale travar a ameaça enquanto ainda é possível

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

Há momentos na história em que o perigo não se anuncia por explosões de violência, mas por rupturas discretas: votos que desestabilizam equilíbrios duradouros, discursos que corroem instituições e uma normalização gradual da intolerância.
A Europa vive hoje exatamente esse momento. A ascensão da extrema-direita — antes vista como um fenômeno periférico — tornou-se força estrutural, capaz de influenciar governos, reescrever agendas e mexer profundamente com o imaginário democrático.

O que está em jogo já não é apenas o crescimento eleitoral de partidos radicais, mas a transformação silenciosa da ordem democrática em algo mais vulnerável, permeável a um autoritarismo difuso e à política do medo. A linguagem que estigmatiza minorias, desumaniza imigrantes, desacredita o jornalismo e tenta subjugar magistrados tornou-se, em muitos países, parte do cotidiano político. O extremismo não avança com rupturas bruscas; infiltra-se aos poucos, como uma rachadura que se estende silenciosamente até comprometer toda a estrutura.

ABANDONO  – A origem dessa crise não está apenas no mal-estar social acumulado. Está, sobretudo, no abandono prolongado de setores que se sentiram deixados para trás por modelos econômicos desiguais, promessas governamentais descumpridas e lideranças políticas que perderam contato com a vida real das populações. É nesse vazio que a extrema-direita floresce, oferecendo respostas aparentemente simples para problemas complexos e apontando inimigos convenientes para canalizar frustrações.

Mas há um fenômeno ainda mais preocupante: a erosão moral e política do centro democrático. Por décadas, governos sucessivos evitaram enfrentar contradições estruturais de suas sociedades — a precariedade laboral, o abandono de regiões periféricas, o envelhecimento populacional, os custos da transição energética. Ao não responderem a essas tensões, deixaram vagas áreas essenciais do debate político, prontamente ocupadas por atores que transformam ressentimento em arma e conflito identitário em estratégia eleitoral. A extrema-direita prospera porque ocupou territórios que o centro abandonou.

À medida que acumula influência, essa nova direita radical segue uma lógica consistente: primeiro, ataca a independência da imprensa, acusando-a de parcialidade; depois, questiona a legitimidade do Judiciário; por fim, tenta redesenhar regras eleitorais, restringir direitos fundamentais e ocupar instituições de controle democrático.
A democracia não desmorona de uma vez; degrada-se por meio de pequenas mudanças estratégicas, sempre justificadas como medidas “necessárias”, “urgentes” ou “em nome do povo”. Assim é que o autoritarismo se normaliza.

SINAIS – A Europa enfrenta esses sinais em várias frentes. Em diversos países, há tentativas discretas de influenciar nomeações de juízes, limitar a atuação de órgãos de fiscalização, pressionar veículos de comunicação críticos ou reescrever regras eleitorais sob o pretexto de garantir “estabilidade governamental”. Ao mesmo tempo, pressões migratórias, desigualdades territoriais, insegurança econômica e os efeitos persistentes da guerra criam um ambiente em que discursos radicais ganham terreno com facilidade.

A crise climática — com seus custos elevados e impactos desiguais — intensifica percepções de injustiça. Paralelamente, a proliferação de desinformação digital e o aumento da polarização reduzem a capacidade coletiva de diálogo, compromisso e moderação.

O maior perigo, no entanto, não está apenas no sucesso eleitoral da extrema-direita. O risco real surge quando partidos democráticos passam a adotar parte de sua retórica — normalizando ideias antes inaceitáveis e empurrando todo o espectro político para posições mais duras. Quando o discurso do medo se torna parâmetro de governança, até a política tradicional se contamina. O extremismo vence não apenas quando chega ao poder, mas quando redefine os limites do possível.

INSTABLIDADE – Portugal — como qualquer país europeu — não está imune a essas forças. A instabilidade do continente influencia o ambiente interno, molda expectativas e pressiona instituições. A crise da habitação, a desigualdade econômica, a fragmentação partidária e a crescente polarização tornam o país vulnerável às mesmas dinâmicas que já remodelam democracias vizinhas. Proteger a democracia exigirá, portanto, muito mais do que declarações formais: é preciso reformas profundas, vigilância cívica e capacidade de antecipação política.

A resposta necessária deve ser firme e estrutural. Passa pelo fortalecimento das instituições públicas, pelo combate efetivo à corrupção, por políticas sociais que reduzam desigualdades e por um compromisso inequívoco com o pluralismo democrático. Inclui também a revalorização do espaço público como ambiente de debate racional e informado — algo impossível sem imprensa forte, educação cívica robusta e transparência governamental.

A democracia não está perdida — mas está fragilizada. E é na fragilidade que os autoritarismos prosperam. Evitar uma regressão democrática passa por reconstruir a confiança dos cidadãos, devolvendo-lhes segurança econômica, expectativas realistas e a convicção de que o sistema democrático ainda é capaz de entregar justiça.

CONSEQUÊNCIA POLÍTICA – A ascensão da extrema-direita não é destino inevitável; é consequência política. E tudo aquilo que é consequência pode ser transformado. A questão essencial já não é “como chegamos aqui?”, mas “quais escolhas faremos agora?”.

O futuro da democracia europeia não depende apenas das urnas, mas da determinação coletiva em proteger seus alicerces — antes que o silêncio da resignação se torne o som final de uma era que acreditávamos ter superado.

Câmara reescreve crimes para reabilitar o golpismo

A implosão do campo conservador no pós-bolsonarismo