Tarifaço 2.0: o preço político da viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA

Política externa transformada em extensão da disputa doméstica

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Durante anos, a proximidade com lideranças conservadoras estrangeiras foi apresentada pelo bolsonarismo como demonstração de influência, prestígio e capacidade de articulação internacional. O tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros não inaugurou os questionamentos sobre essa estratégia.

Críticas semelhantes já haviam surgido quando disputas políticas internas passaram a ser projetadas para o ambiente internacional. O episódio, porém, conferiu nova dimensão ao debate ao associá-lo diretamente a potenciais impactos econômicos para o país. Esse é o verdadeiro problema político enfrentado por Flávio Bolsonaro após sua viagem a Washington. Não porque tenha participado da formulação da medida anunciada pela Casa Branca. Tarifas comerciais são instrumentos definidos por governos nacionais segundo interesses econômicos e geopolíticos próprios. Nenhum parlamentar brasileiro possui influência decisiva sobre decisões dessa natureza. O desgaste surgiu em outro plano.

ASSOCIAÇÃO – A coincidência entre a viagem do senador aos Estados Unidos e a imposição de barreiras comerciais contra produtos brasileiros produziu uma associação politicamente desconfortável para um campo que construiu boa parte de sua identidade pública em torno da defesa da soberania nacional.

Na política, fatos e percepções raramente caminham separados. Muitas vezes, a repercussão de um acontecimento é determinada menos por sua origem do que pelo significado que passa a assumir perante a opinião pública. Foi exatamente isso que ocorreu.

Independentemente das razões que levaram o governo americano a adotar a medida, o episódio acabou incorporado a uma discussão mais ampla sobre os efeitos da internacionalização crescente da disputa política brasileira.

ALÉM DAS FRONTEIRAS – A questão não está na manutenção de relações políticas internacionais. Isso faz parte do funcionamento normal das democracias contemporâneas. O ponto de tensão surge quando essas conexões passam a ser associadas à tentativa de ampliar, fora das fronteiras nacionais, conflitos que pertencem ao ambiente político brasileiro.

Durante muito tempo, essa estratégia produziu benefícios evidentes. Para seus apoiadores, reforçava a imagem de um movimento com influência além das fronteiras nacionais. Para seus críticos, representava uma aposta arriscada na busca de apoio externo para fortalecer disputas internas. O tarifaço tornou essa divergência mais visível.

Pela primeira vez de forma tão evidente, a discussão deixou de se concentrar apenas sobre instituições, decisões judiciais ou embates políticos e passou a envolver interesses econômicos concretos. Exportadores, empresas e setores produtivos entraram no centro de uma controvérsia que antes permanecia mais restrita ao debate político.

IDENTIDADE POLÍTICA – É justamente aí que reside a dimensão mais delicada do episódio para o bolsonarismo. Desde sua origem, o movimento transformou patriotismo, soberania e defesa dos interesses nacionais em pilares centrais de sua identidade política. Esses conceitos ajudaram a mobilizar apoiadores, orientar discursos e consolidar uma das narrativas mais poderosas da direita brasileira nos últimos anos.

Por isso, situações que parecem colocar em tensão interesses nacionais e estratégias partidárias tendem a produzir desgaste político. O problema não está apenas nos fatos. Está na dificuldade de conciliar determinadas percepções com uma narrativa construída ao longo do tempo.

A repercussão do tarifaço revelou essa vulnerabilidade. Uma estratégia que durante muito tempo foi apresentada como demonstração de influência passou a ser observada sob uma perspectiva diferente. O debate deixou de girar exclusivamente em torno de acesso, prestígio ou articulação internacional e passou a incluir perguntas sobre prioridades, coerência e responsabilidade política.

PREÇO POLÍTICO – Flávio Bolsonaro viajou aos Estados Unidos em busca de protagonismo político. Voltou associado a uma discussão muito maior do que aquela que pretendia protagonizar. O verdadeiro preço político da viagem não está na tarifa anunciada por Washington. Está no fato de que o episódio ampliou um questionamento que já vinha sendo formulado por adversários e observadores críticos: quais são os limites de uma estratégia que busca projetar disputas domésticas para o cenário internacional?

Quando uma ação concebida para demonstrar influência passa a alimentar dúvidas sobre soberania, prioridades e interesses nacionais, a controvérsia deixa de ser apenas conjuntural. Ela se transforma em um teste de coerência política. E foi exatamente esse teste que o tarifaço colocou diante do bolsonarismo.

A silenciosa transformação do poder em Brasília, que é presidencialista, mas nem tanto

Destruição ininterrupta de Gaza significa um desgaste moral de todo o Ocidente

Vulnerabilidade e impotência marcam o cotidiano em Gaza

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

Quando ativistas europeus surgiram algemados após a interceptação israelense da flotilha humanitária que tentava se aproximar de Gaza, o impacto político das imagens foi imediato em diversas capitais europeias. Não apenas pelo incidente diplomático em si, mas porque aquele episódio expôs, de forma particularmente desconfortável para o Ocidente, uma realidade cada vez mais difícil de ignorar desde o início da guerra: a de que o conflito deixou há muito de ser apenas uma questão regional do Oriente Médio e passou a se transformar em um teste decisivo à credibilidade moral e política das democracias ocidentais.

Pela primeira vez em muitos meses, cidadãos europeus surgiam expostos, ainda que momentaneamente, à mesma lógica de vulnerabilidade e impotência que passou a marcar o cotidiano em Gaza. O episódio condensou simbolicamente uma inquietação crescente dentro da Europa, onde aumenta o receio de que o custo internacional da guerra já ultrapasse largamente os limites da dimensão militar e humanitária do conflito.

CONTRADIÇÕES – A verdadeira dimensão geopolítica da guerra talvez resida precisamente nesse ponto. Gaza transformou-se em um espelho desconfortável das contradições da ordem internacional construída pelos Estados Unidos e pela Europa após a Segunda Guerra Mundial.

Durante décadas, o poder ocidental não se apoiou apenas na superioridade militar, tecnológica ou financeira, mas sobretudo na capacidade de apresentar seus valores políticos como referências universais de legitimidade internacional. Direitos humanos, legalidade multilateral, proteção de civis, defesa da democracia liberal e respeito ao direito internacional converteram-se em instrumentos centrais de influência global. Foi essa autoridade moral que permitiu ao Ocidente condenar invasões, impor sanções e definir, em larga medida, os parâmetros éticos da política internacional contemporânea.

Existem momentos históricos em que a distância entre os princípios proclamados e a realidade observada se torna visível demais para continuar sendo administrada diplomaticamente. Gaza talvez esteja se tornando exatamente esse momento. A devastação humanitária acumulada ao longo dos últimos meses, o colapso da infraestrutura civil, a dimensão das mortes, os deslocamentos forçados e a percepção crescente de punição coletiva começaram a produzir um desgaste político internacional muito superior ao inicialmente previsto pelas principais capitais ocidentais.

DESTRUIÇÃO HUMANITÁRIA – A dificuldade tornou-se particularmente delicada porque o conflito expôs uma contradição estrutural profundamente desconfortável para as democracias liberais. Desde 7 de outubro de 2023, governos europeus e norte-americanos tentaram equilibrar duas realidades politicamente difíceis de conciliar: o reconhecimento do trauma provocado pelos ataques do Hamas e das preocupações de segurança israelenses e, ao mesmo tempo, a crescente incapacidade de justificar, diante de parte significativa da comunidade internacional, a dimensão da destruição humanitária produzida pela guerra.

Esse equilíbrio se deteriorou à medida que bairros inteiros reduzidos a ruínas, civis encurralados e hospitais colapsados passaram a dominar o espaço midiático internacional. O problema deixou então de ser exclusivamente militar ou diplomático. Tornou-se moral, narrativo e civilizacional.

SELETIVIDADE – Em grande parte do Sul Global — especialmente em países africanos, árabes, asiáticos e latino-americanos — consolidou-se a percepção de que o Ocidente aplica os princípios do direito internacional de forma seletiva, condicionando frequentemente a defesa dos direitos humanos a seus interesses estratégicos e alianças políticas.

Essa leitura não se disseminou apenas entre governos tradicionalmente hostis a Washington ou Bruxelas. Espalhou-se também por universidades, organizações internacionais, fóruns diplomáticos e setores da sociedade civil que durante décadas olharam para a Europa e para os Estados Unidos como referências relativamente estáveis de legitimidade democrática.

A crescente pressão no espaço político europeu pelo reconhecimento formal do Estado palestino reflete precisamente esse desconforto. Nos bastidores de Bruxelas tornou-se evidente o receio de que a continuidade do conflito provoque um dano estrutural à imagem internacional do continente, sobretudo diante das novas gerações e dos países emergentes.

CREDIBILIDADE – O reconhecimento da Palestina deixou gradualmente de ser encarado apenas como uma questão diplomática ligada ao Oriente Médio e começou a assumir, em várias capitais ocidentais, o significado político de uma tentativa de recuperar parte da credibilidade internacional perdida ao longo da guerra.

Essa erosão de legitimidade tornou-se ainda mais sensível porque ocorre em um momento de fragilidade crescente das próprias democracias ocidentais. A polarização política, a ascensão dos populismos, a radicalização digital e a perda de confiança institucional já fragilizavam a autoridade moral do Ocidente muito antes de Gaza ocupar o centro do debate internacional. A guerra funcionou, nesse contexto, como um acelerador brutal de tendências que já estavam em curso.

QUESTIONAMENTO –  Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, parte significativa da opinião pública internacional começou a questionar não apenas decisões concretas da política externa ocidental, mas a própria coerência do modelo político e moral que sustentou durante décadas a liderança internacional dos Estados Unidos e da Europa.

A China percebeu rapidamente o alcance estratégico dessa transformação. A Rússia também. Pequim explora de forma sistemática o desgaste moral do Ocidente para reforçar a ideia de uma ordem internacional multipolar menos subordinada aos critérios políticos definidos por Washington.

Moscou utiliza o conflito para denunciar aquilo que descreve como incoerência estrutural das democracias liberais sempre que interesses estratégicos entram em colisão com princípios humanitários. Ambos compreenderam que, em um sistema internacional cada vez mais fragmentado, a perda de legitimidade narrativa pode produzir efeitos geopolíticos tão relevantes quanto crises econômicas ou derrotas militares.

RUPTURA GERACIONAL – Mas talvez o aspecto mais significativo dessa transformação esteja ocorrendo dentro das próprias sociedades ocidentais. Entre setores mais jovens das elites acadêmicas, midiáticas e políticas, Gaza passou gradualmente a simbolizar uma ruptura geracional mais profunda: a erosão da convicção de que o Ocidente atuaria, apesar de suas contradições, como referência relativamente coerente da ordem liberal internacional construída após a Guerra Fria.

O poder internacional nunca depende apenas de força militar ou capacidade econômica. Depende também da confiança que uma potência consegue projetar sobre os valores que afirma defender. Quando essa confiança começa a se deteriorar, o desgaste ultrapassa rapidamente o plano diplomático e se instala no próprio imaginário político internacional. É precisamente esse tipo de fragilidade que o conflito em Gaza parece hoje expor de maneira particularmente incômoda para o Ocidente.

Gaza talvez venha a ser lembrada não apenas pela dimensão da devastação humanitária que produziu, mas pelo impacto político e moral que esse conflito provocou na percepção global sobre o Ocidente. À medida que a guerra avançava, tornou-se progressivamente mais difícil para os Estados Unidos e para a Europa convencerem parte significativa da comunidade internacional da coerência dos princípios que durante décadas sustentaram sua influência política e diplomática.

O Brasil chegou ao limite da escala 6×1, e a nova regra não quebrará as empresas

A corrupção “invisível” que desafia o Brasil é fruto da total impunidade

A corrupção passou a integrar a disputa pública

Marcelo Copelli
Revista Veja  

A corrupção brasileira já não se deixa capturar, em sua forma predominante, por escândalos visíveis ou personagens constrangidos pela evidência. Essa referência, ainda dominante no imaginário político, tornou-se insuficiente para descrever o fenômeno como ele de fato opera.

O que se consolidou nas últimas décadas foi uma forma mais sofisticada de distorção do interesse público, menos dependente da violação explícita da lei e mais estruturada na apropriação das próprias engrenagens institucionais.

PRÁTICAS ILÍCITAS – Isso não significa que a corrupção visível tenha desaparecido. Casos investigados por órgãos de controle continuam a revelar práticas ilícitas relevantes e demonstram que as instituições mantêm capacidade de resposta.

Esses episódios, no entanto, tendem a representar a dimensão mais evidente — e não necessariamente a mais estruturante — do problema. A capacidade de investigação permanece central, mas incide com maior precisão sobre manifestações mais explícitas, enquanto formas mais complexas e adaptadas seguem integradas ao funcionamento institucional.

Não se trata apenas de desviar recursos, mas de orientar decisões, fluxos e prioridades de modo a produzir resultados sistematicamente desalinhados do interesse coletivo, sem a necessidade de um marco inequívoco de ilegalidade. Nesse estágio, a corrupção deixa de ser exceção e passa a operar como método, incorporada à dinâmica do próprio sistema.

CORRUPÇÃO – Essa transformação decorre de um ambiente institucional que se expandiu em normas, controles e procedimentos, mas não avançou na mesma proporção na capacidade de tornar o Estado inteligível. O Brasil consolidou instrumentos relevantes de fiscalização, ampliou mecanismos de transparência e sofisticou o monitoramento de gastos públicos. Ainda assim, a percepção de corrupção permanece elevada de forma persistente.

A explicação de que esse descompasso decorre apenas da subjetividade dos indicadores é insuficiente. Quando a confiança não acompanha a evolução institucional, a questão não está apenas na forma de medir, mas na consistência do que é entregue em termos de integridade e previsibilidade.

A corrupção contemporânea encontrou na complexidade administrativa um ambiente propício. Já não depende de decisões abertamente ilegais, mas de arranjos que exploram lacunas normativas, sobreposições de competência e margens interpretativas amplas. Decisões formalmente sustentáveis podem produzir efeitos direcionados sem violar regras de forma direta.

PADRÃO DIFUSO – O desvio deixa de ser um evento isolado e passa a se manifestar como padrão difuso, incorporado a rotinas administrativas que, analisadas individualmente, não evidenciam irregularidade, mas que, em conjunto, revelam distorções consistentes. A ilegalidade deixa de ser o único parâmetro relevante; a integridade do processo passa a definir a qualidade das decisões públicas.

Nesse ambiente, a opacidade não se limita a uma disfunção — ela assume papel estrutural. A expansão do volume de dados não foi acompanhada por integração e organização compatíveis, o que compromete sua utilidade analítica. Informações são disponibilizadas, mas permanecem fragmentadas, dispersas e de difícil interpretação, reduzindo a transparência a um atributo formal, sem conversão efetiva em capacidade de controle.

O sistema aparenta abertura, mas sua rastreabilidade depende de elevada capacidade técnica, integração manual de dados e tempo de análise — condições que restringem seu uso efetivo e limitam o controle contínuo. A dificuldade não está na ausência de informação, mas na forma como ela se apresenta. Sem estrutura, dados não produzem compreensão.

DISPUTA PÚBLICA – A dimensão política intensifica esse quadro. A corrupção deixou de ser tratada predominantemente como falha institucional e passou a integrar a disputa pública. Denúncias são mobilizadas conforme interesses circunstanciais, enquanto sua validação frequentemente se subordina ao alinhamento político.

Esse processo compromete a precisão do conceito. Quando o termo se torna elástico, perde capacidade de diferenciar situações e orientar respostas consistentes. O debate se afasta da evidência e se aproxima da interpretação. O efeito mais profundo é a deterioração da confiança institucional. A dificuldade de distinguir entre decisões legítimas e distorções de interesse reduz a previsibilidade do ambiente público e eleva o custo de coordenação estatal. A desconfiança, nesse cenário, deixa de ser instrumento de vigilância e passa a atuar como fator de instabilidade.

Processos decisórios se tornam mais lentos, escolhas administrativas mais defensivas e a execução de políticas públicas perde eficiência. O sistema opera sob tensão permanente, sem que isso se traduza em maior controle.

MECANISMOS DE CONTROLE – O Brasil enfrenta, portanto, um problema que vai além da corrupção em sentido estrito. Trata-se de uma acomodação estrutural a um modelo em que a ambiguidade se torna funcional. A manutenção de zonas de baixa clareza preserva mecanismos formais de controle, mas também evita maior exposição de práticas recorrentes.

Nesse ambiente, o combate tende a se concentrar no que é mais visível, enquanto padrões mais sofisticados permanecem protegidos pela própria complexidade que os sustenta. Superar esse quadro exige mais do que ajustes incrementais. Implica reorganizar a forma como o Estado estrutura e integra suas informações, permitindo análise contínua e identificação de padrões. Transparência, nesse contexto, não pode ser apenas exposição de dados; precisa ser capacidade de explicação.

LEGALIDADE APARENTE – A corrupção que mais compromete o país hoje não é a que se impõe pela evidência imediata, mas a que se sustenta na dificuldade de ser plenamente compreendida. Opera dentro da legalidade aparente, molda decisões e produz efeitos cumulativos sem exigir ruptura explícita.

Enquanto essa dimensão permanecer fora do centro do debate, o país continuará enfrentando apenas a parte visível do problema — e chamando de combate aquilo que, na prática, permite sua continuidade.

Estabilidade do Ocidente é frágil e a Europa já não tem certezas sobre Washington

Trump alterou a lógica da liderança americana

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

A imprevisibilidade americana, a ascensão chinesa e a guerra na Ucrânia começaram a produzir uma mudança silenciosa no equilíbrio global: pela primeira vez desde o pós-guerra, parte da Europa já não considera garantida a continuidade da liderança estratégica dos Estados Unidos.

Durante grande parte do pós-guerra, a estabilidade do Ocidente se apoiou em uma convicção raramente verbalizada, mas profundamente enraizada nas capitais europeias: independentemente das crises políticas internas americanas, os Estados Unidos continuariam comprometidos com a defesa da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

ESTABILIDADE – Governos mudavam, presidentes passavam, conflitos surgiam, recessões abalavam mercados, mas a ideia de continuidade permanecia intacta. Pela primeira vez em mais de sete décadas, essa certeza começou silenciosamente a desaparecer. Nos bastidores diplomáticos europeus, uma hipótese que durante muito tempo pareceu impensável deixou de ser tratada como mera abstração acadêmica: a possibilidade de os Estados Unidos continuarem sendo a maior potência do planeta sem permanecerem plenamente dispostos — ou politicamente capazes — de sustentar sozinhos a estabilidade do Ocidente.

Essa mudança ainda não produziu nenhuma ruptura formal. Não existe anúncio oficial, tratado revogado ou declaração histórica que marque claramente o início dessa nova fase. Como acontece nas grandes inflexões internacionais, o processo começou por meio de sinais dispersos, hesitações sucessivas e desgaste gradual de confiança.

A sucessão de crises dos últimos anos acelerou essa percepção de forma profunda. A guerra na Ucrânia expôs limitações industriais e militares que o Ocidente preferia ignorar. A rivalidade crescente entre Estados Unidos e China demonstrou que a globalização deixou de funcionar como mecanismo automático de equilíbrio internacional. A escalada no Oriente Médio ampliou a sensação de fragmentação estratégica. Ao mesmo tempo, a radicalização política americana começou a afetar diretamente a previsibilidade da política externa de Washington.

CONTINUIDADE – O problema não está em um eventual declínio clássico dos Estados Unidos. Militarmente, tecnologicamente e financeiramente, os americanos continuam incomparavelmente mais poderosos do que qualquer outra potência isolada. O que começou a se deteriorar foi algo menos visível, mas historicamente decisivo: a capacidade de transmitir continuidade, previsibilidade e estabilidade institucional aos próprios aliados.

Donald Trump acelerou essa mudança de forma brutal. Não apenas pelo estilo confrontador ou pela retórica agressiva, mas porque alterou a própria lógica da liderança americana. Ao longo de gerações, Washington tratou alianças militares como pilares permanentes da organização internacional. Trump passou a abordá-las frequentemente sob uma lógica transacional, submetida a cálculos imediatos de custo, benefício e retorno político interno. A OTAN deixou de ser apresentada apenas como estrutura de defesa coletiva do Ocidente e passou também a ser descrita em linguagem financeira, comercial e negocial.

A inquietação europeia, contudo, ultrapassa amplamente a figura de Trump. O verdadeiro problema para os aliados americanos é a percepção crescente de que a imprevisibilidade dos Estados Unidos deixou de ser episódica e passou a integrar a própria dinâmica política interna do país. A polarização atingiu níveis que começaram a comprometer a capacidade de Washington de produzir continuidade prolongada em política externa. A sucessão de administrações radicalmente divergentes reduziu parte da confiança que sustentava a liderança americana desde o pós-guerra.

VULNERABILIDADE – Em política internacional, percepção de fragilidade altera comportamentos antes mesmo de modificar relações concretas de poder. A China compreendeu isso antes da Europa. Pequim percebeu que a principal vulnerabilidade americana talvez já não esteja na dimensão militar ou tecnológica — áreas em que os Estados Unidos continuam dominantes —, mas sim na dificuldade crescente de sustentar consensos duradouros em um ambiente político cada vez mais fragmentado.

Taiwan tornou-se o símbolo mais sensível dessa nova realidade. A ilha representa hoje muito mais do que uma disputa territorial: transformou-se em um teste global da credibilidade americana no Indo-Pacífico. Japão, Coreia do Sul e Austrália organizam parte substancial de suas políticas de defesa a partir da convicção de que Washington continuará disposto a garantir equilíbrio militar na região. Pequim, porém, parece cada vez menos interessada em precipitar um confronto direto. A estratégia chinesa tornou-se mais paciente, baseada na percepção de que o tempo pode produzir desgaste mais eficaz do que choque imediato.

A nova disputa global também passou a ser uma disputa entre diferentes percepções de tempo. Democracias ocidentais enfrentam dificuldade crescente para sustentar políticas de longo prazo sob ciclos eleitorais curtos, polarização permanente e pressão midiática contínua. A liderança chinesa opera segundo horizontes históricos muito mais extensos. Política industrial, expansão tecnológica, reorganização militar e diplomacia econômica passaram a integrar um projeto coordenado de longo alcance orientado para expansão gradual de influência internacional.

DESCONFORTO – A Europa observa essa transformação em uma posição particularmente desconfortável. Durante muito tempo, o continente construiu sua própria estabilidade sobre três pressupostos hoje claramente abalados: dependência da proteção militar americana, confiança na globalização econômica como mecanismo de moderação internacional e convicção de que grandes confrontos entre potências pertenciam definitivamente ao passado. A guerra na Ucrânia destruiu parte substancial dessas certezas.

Ao mesmo tempo, a rivalidade sino-americana colocou os europeus diante de um dilema profundamente complexo. O continente mantém alinhamento político e militar com Washington, mas permanece economicamente dependente da China em setores fundamentais de sua estrutura industrial. O resultado é uma Europa economicamente poderosa, mas geopoliticamente hesitante, obrigada a equilibrar dependências contraditórias em um sistema internacional cada vez mais instável.

O erro central das elites ocidentais talvez tenha sido acreditar que interdependência econômica produziria inevitavelmente estabilidade política global. O século XXI evoluiu na direção oposta. A Rússia transformou energia em instrumento de pressão. A China converteu tecnologia, infraestrutura e comércio em mecanismos globais de influência. Os Estados Unidos passaram a utilizar sanções econômicas, restrições industriais e cadeias de abastecimento como ferramentas centrais de política externa. A economia internacional entrou silenciosamente em uma era de militarização crescente.

CONFIANÇA – Existe, porém, uma dimensão ainda mais profunda nessa mudança histórica. O Ocidente começou progressivamente a perder aquilo que durante décadas constituiu sua principal vantagem: capacidade de transmitir estabilidade institucional, continuidade política e confiança ao restante do mundo. Os Estados Unidos continuam extremamente poderosos. A Europa continua rica e influente. Mas a sensação de previsibilidade que sustentava a liderança ocidental começou lentamente a se deteriorar.

As grandes mudanças internacionais raramente se anunciam de forma clara. Tornam-se visíveis apenas quando antigos consensos deixam de orientar comportamentos, alianças começam a perder previsibilidade e potências historicamente centrais passam a ser observadas com prudência pelos próprios aliados. O mundo continua formalmente organizado em torno da liderança americana. Mas uma parcela crescente da Europa já começou discretamente a se preparar para uma hipótese que, até poucos anos atrás, parecia impensável: a possibilidade de os Estados Unidos continuarem centrais sem assumirem plenamente a liderança política do Ocidente.

E talvez seja exatamente aí que esteja o significado mais profundo desta mudança de época. Não no eventual fim do poder americano, mas no início de uma nova era em que os próprios aliados dos Estados Unidos deixaram de considerar automática a continuidade da ordem internacional que definiu o mundo ocidental desde 1945.

Escândalo faz Flávio Bolsonaro se tornar um risco para a própria direita

Entorno de Flávio Bolsonaro recalcula distâncias

Marcelo Copelli
Revista Fórum

O desgaste acumulado em torno de Flávio Bolsonaro começou a produzir o efeito que lideranças políticas mais temem em Brasília: o afastamento silencioso de aliados, operadores e setores pragmáticos do poder. O ponto mais delicado para a direita bolsonarista já não está apenas na sucessão de controvérsias envolvendo o senador, mas no enfraquecimento da principal blindagem que sustentou esse núcleo durante anos.

O entorno liderado por Jair Bolsonaro atravessou crises sucessivas porque conseguiu construir algo mais eficiente do que uma simples identidade ideológica. Sua força nunca esteve apenas no conservadorismo, na radicalização retórica ou na mobilização digital. O movimento prosperou ao alimentar a ideia de enfrentamento às engrenagens tradicionais de Brasília, mesmo convivendo, desde cedo, com investigações, personagens e episódios frequentemente associados justamente ao tipo de prática que dizia combater.

SOBREVIVÊNCIA – O centro dessa sustentação era a crença de que aquele campo representava algum tipo de ruptura com os padrões históricos de poder no país. Foi essa percepção que permitiu ao grupo sobreviver a escândalos, confrontos institucionais e crises contínuas sem perder completamente seus setores mais fiéis.

Grande parte do eleitorado tolerava a turbulência permanente porque acreditava apoiar uma força distinta daquela historicamente associada a acordos obscuros, elites protegidas e relações promíscuas entre influência econômica e poder. O problema para Flávio Bolsonaro é que essa distinção começou a perder credibilidade.

O dado mais relevante da crise talvez nem esteja apenas nos episódios recentes que passaram a cercar seu nome, mas na mudança silenciosa de atmosfera dentro da própria direita. Nos bastidores de Brasília, setores que até pouco tempo tratavam o senador como herdeiro natural do bolsonarismo começaram a recalcular distâncias, reduzir exposição pública e discutir alternativas para 2026. Em política, movimentos assim raramente acontecem por acaso.

REVELAÇÕES – A aproximação do nome de Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu um efeito particularmente destrutivo não por inaugurar suspeitas envolvendo aliados e figuras próximas da família, mas por reforçar uma sequência de episódios que passou a comprometer justamente a narrativa de ruptura que sustentava o movimento.

Esse núcleo consolidou sua força denunciando a proximidade entre influência econômica, proteção política e elites privilegiadas. E mesmo convivendo com suspeitas, investigações e controvérsias recorrentes, conseguiu preservar entre seus apoiadores a percepção de que operava fora desse circuito, sobretudo por meio do confronto permanente, da radicalização discursiva e da deslegitimação constante de críticas e denúncias. Quando esse mecanismo começa a perder eficácia, o problema deixa de ser circunstancial. Passa a atingir a base que sustentava sua força política.

Esse é o ponto mais perigoso para o entorno liderado por Jair Bolsonaro. Em disputas presidenciais, projetos nacionais raramente desmoronam apenas por causa de fatos isolados. O colapso costuma começar quando se consolida uma percepção pública difícil de neutralizar. E poucas são mais destrutivas do que a distância entre discurso moral e prática de poder.

CONTROVÉRSIAS – O eleitor conservador brasileiro já demonstrou ser capaz de sustentar apoio político mesmo diante de contradições evidentes, denúncias recorrentes e episódios potencialmente devastadores para qualquer outro grupo. O ponto de inflexão surge quando o acúmulo desses fatos começa a reduzir a eficácia dos mecanismos discursivos que, durante anos, impediram que essas controvérsias produzissem ruptura relevante entre seus apoiadores mais mobilizados.

Em um país marcado por sucessivos escândalos e elevada desconfiança institucional, a corrupção continua funcionando como poderoso instrumento de desgaste político. Não porque exista expectativa realista de integridade absoluta na vida pública, mas porque parte significativa da população reage duramente quando identifica distância entre o discurso apresentado e a realidade percebida.

Durante muito tempo, adversários da direita bolsonarista subestimaram a natureza dessa dinâmica. Parte importante da força do movimento vinha da capacidade de se apresentar como contraponto aos padrões tradicionais de funcionamento do poder em Brasília. É justamente essa condição que começa a perder sustentação.

CENTRÃO – O impacto ganhou dimensão ainda mais delicada porque passou a alterar o comportamento dos setores mais pragmáticos da política brasileira. O sinal mais importante não veio da oposição, das redes sociais ou do debate ideológico. Veio do Centrão — segmento especializado em perceber antes dos outros quando o custo de determinada aliança começa a subir.

Seu funcionamento jamais esteve ligado a fidelidade programática ou lealdade pessoal. O cálculo sempre foi outro: sobrevivência, risco e perspectiva de poder. Quando lideranças desse setor começam a reduzir proximidade, evitar associação pública e ampliar discussões sobre alternativas antes mesmo do início formal de uma campanha presidencial, normalmente já chegaram a uma conclusão silenciosa sobre o tamanho do problema envolvido.

Nos bastidores, o campo conservador começou a fazer aquilo que projetos politicamente enfraquecidos mais temem: discutir sucessão antes mesmo da ruptura. Governadores passaram a ser observados com mais atenção como alternativas viáveis para a direita. Operadores políticos intensificaram conversas sobre cenários pós-bolsonaristas. Setores empresariais passaram a demonstrar desconforto crescente diante da possibilidade de uma candidatura marcada por instabilidade permanente e imprevisibilidade política.

DESGASTE – O fator mais corrosivo para Flávio Bolsonaro é o momento em que tudo isso acontece. Sua eventual candidatura começou a acumular sinais de inviabilidade antes mesmo de existir formalmente. Campanhas presidenciais raramente sobrevivem quando entram na disputa carregando sensação prévia de desgaste estrutural.

Nenhum projeto nacional competitivo se sustenta apenas na fidelidade da militância mais radicalizada. É necessário ampliar alianças, reduzir rejeição e transmitir algum grau mínimo de previsibilidade política e institucional. Hoje, porém, o nome de Flávio Bolsonaro produz o movimento oposto: amplia resistências e aprofunda incertezas justamente entre setores que tradicionalmente funcionam como fiadores pragmáticos de candidaturas viáveis.

ALTERNATIVAS – Essa dinâmica começou a produzir uma consequência ainda mais profunda dentro do campo conservador: a busca silenciosa por continuidade sem dependência direta da família Bolsonaro. Até pouco tempo, a principal preocupação da direita era encontrar um nome capaz de herdar o capital político do ex-presidente. Agora, cresce outro temor: o de que a deterioração acumulada em torno desse núcleo comprometa a própria competitividade eleitoral desse campo nos próximos anos.

O que ameaça Flávio Bolsonaro já não é apenas a repercussão de episódios específicos nem o impacto momentâneo de divergências recentes. O que começa a ruir é justamente a percepção de diferença em relação ao sistema que prometia enfrentar.

SINALIZAÇÃO – Em política, crises públicas raramente marcam o início do problema. O sinal decisivo costuma aparecer antes, quando aliados passam a recalcular custos, operadores deixam de investir capital político e estruturas de poder abandonam silenciosamente a convicção de que determinado nome ainda representa um ativo estratégico. É exatamente esse ambiente que começa a cercar Flávio Bolsonaro.

Em Brasília, o isolamento raramente chega acompanhado de anúncios ou rompimentos dramáticos. Primeiro desaparece o entusiasmo. Depois, a disposição de defender. Por fim, desaparece aquilo que sustenta qualquer projeto presidencial competitivo: a percepção de viabilidade. E, na política, poucas sentenças são mais devastadoras do que deixar de ser visto como futuro para passar a ser tratado como risco.

A política sequestrada pelos algoritmos, com o mundo vivendo em modo digital

O efeito Vorcaro é cada vez mais intenso e ameaça o bolsonarismo

O herdeiro e o banqueiro podem causar o colapso de um projeto de poder

Revelações atingem o centro da crise sucessória bolsonarista

Marcelo Copelli
Revista Fórum

As conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro atingem o centro da tentativa de reorganização da direita conservadora para 2026.

Em um momento no qual o senador buscava consolidar-se como herdeiro viável desse campo político, a revelação de negociações milionárias com um empresário preso e ligado a um banco sob investigação o devolve ao ambiente que mais corroeu sua credibilidade pública nos últimos anos: investigações, suspeitas financeiras, operadores controversos e relações recorrentes com personagens posteriormente alcançados por operações policiais.

DESMONTE DA ESTRATÉGIA – O impacto do caso vai muito além do constrangimento provocado pelos diálogos divulgados. O episódio desmonta parte importante da estratégia conduzida silenciosamente desde a derrota eleitoral de 2022: reconstruir a imagem do grupo político ligado ao ex-presidente sem romper com os mecanismos de influência, financiamento e articulação que produziram desgaste crescente durante sua passagem pelo Palácio do Planalto.

O problema para Flávio não está apenas na proximidade com Daniel Vorcaro. Está na natureza dessa relação e no momento em que ela vem à tona. O senador não ocupa posição periférica dentro da direita brasileira. Hoje, é tratado por aliados como potencial presidenciável, participa diretamente das articulações nacionais do campo conservador e tenta apresentar-se ao mercado e aos setores empresariais como uma versão mais previsível e institucionalmente aceitável do que a liderança original desse grupo político. As revelações divulgadas agora produzem exatamente o efeito contrário.

Ao aparecer negociando cifras milionárias com um banqueiro associado ao Banco Master — instituição cercada por investigações e suspeitas de irregularidades financeiras —, Flávio retorna justamente ao terreno que sua articulação política tentava abandonar: o universo das suspeitas financeiras, das relações pouco transparentes e das conexões permanentes com personagens envolvidos em controvérsias judiciais.

DESGASTE POLÍTICO – A tentativa do senador de reduzir o episódio ao argumento de que se tratava de “dinheiro privado” dificilmente elimina o desgaste político. Flávio não atua como empresário particular. Trata-se de um senador da República, potencial candidato presidencial e integrante do núcleo político que governou o país nos últimos anos. Quando um agente público com esse peso negocia recursos milionários com um banqueiro posteriormente preso e ligado a uma instituição sob investigação, o episódio inevitavelmente ultrapassa a esfera privada.

A contradição torna-se ainda mais delicada porque o próprio Flávio passou a defender investigações sobre o Banco Master enquanto aparecem diálogos que revelam sua proximidade política e financeira com Daniel Vorcaro. A coexistência entre o discurso público de fiscalização e a manutenção de relações privadas dessa dimensão aprofunda questionamentos sobre a credibilidade de sua atuação política e amplia o desgaste de sua tentativa de consolidar-se como alternativa viável para eleição de outubro.

O dano político torna-se ainda maior porque o caso atinge diretamente sua principal fragilidade eleitoral: a dificuldade de ampliar aceitação para além do núcleo mais radicalizado da direita. Nos bastidores, existe há meses um movimento para construir uma alternativa conservadora capaz de preservar parte da agenda econômica e ideológica desse campo sem carregar o passivo político, judicial e reputacional acumulado ao longo dos últimos anos.

CRISES SUCESSIVAS – O episódio envolvendo Daniel Vorcaro amplia justamente a percepção, dentro da própria direita, de que a sucessão conservadora dificilmente conseguirá avançar enquanto permanecer associada ao desgaste institucional, às controvérsias financeiras e às sucessivas crises que passaram a acompanhar esse grupo político.

Parte importante do empresariado, lideranças partidárias, governadores e setores do mercado financeiro já demonstrava desconforto crescente com o ambiente permanente de crise, radicalização e desgaste institucional associado a esse campo político. Agora, as conversas divulgadas oferecem mais um elemento para aprofundar a percepção de que o mesmo padrão continua presente: relações nebulosas, conexões de bastidor e proximidade recorrente com personagens envolvidos em investigações e suspeitas financeiras.

O silêncio de parte relevante da direita diante do episódio talvez seja tão revelador quanto as próprias gravações. Diferentemente de outros momentos de crise, já não existe mobilização automática e homogênea em defesa do grupo político ligado ao ex-presidente.

IMPACTO – Isso ocorre porque muitos setores que antes orbitavam esse campo passaram a enxergá-lo mais como fonte permanente de desgaste do que como ativo eleitoral seguro para 2026. Esse processo ajuda a explicar por que o caso possui impacto que ultrapassa o noticiário imediato.

O episódio revela uma mudança estrutural no funcionamento desse movimento político após a perda do poder federal. O grupo deixou de depender exclusivamente das estruturas formais do Estado e passou a operar através de redes privadas de financiamento, influência econômica, comunicação digital e produção contínua de narrativa política. Sua sobrevivência tornou-se cada vez mais associada à capacidade de manter mobilização ideológica permanente enquanto enfrenta avanço de investigações, desgaste judicial e erosão progressiva de credibilidade pública.

É nesse contexto que o projeto audiovisual mencionado nas conversas assume relevância estratégica. A tentativa de financiar um filme sobre Jair Bolsonaro não deve ser interpretada apenas como iniciativa cultural ou gesto de lealdade pessoal. O objetivo central parece ser preservar simbolicamente uma liderança em processo acelerado de desgaste político e institucional. Em tempos de polarização digital permanente, a disputa pela memória pública tornou-se peça central da sobrevivência de movimentos políticos radicalizados.

NARRATIVA EM CONTRADIÇÃO – O problema é que a tentativa de preservar essa imagem ocorre justamente enquanto se acumulam episódios que corroem sua narrativa original. O grupo que chegou ao poder prometendo combate à corrupção, ruptura moral e enfrentamento das práticas tradicionais da política tornou-se progressivamente associado a investigações, suspeitas financeiras, operadores controversos e relações de bastidor semelhantes às que dizia combater. O caso envolvendo Daniel Vorcaro aprofunda exatamente essa percepção pública.

Mais do que um escândalo episódico, as conversas divulgadas ajudam a revelar o estágio atual da crise enfrentada por esse campo político: uma estrutura cada vez mais dependente de redes privadas de sustentação, cercada por desgaste judicial e pressionada pelo avanço de setores da própria direita interessados em acelerar a construção de uma nova liderança conservadora sem o passivo acumulado nos últimos anos.

LIGAÇÕES PERIGOSAS – O episódio talvez seja lembrado menos pelo conteúdo específico dos diálogos e mais pelo retrato político que acabou produzindo. O de um grupo que chegou ao poder prometendo ruptura moral, combate à corrupção e enfrentamento das velhas estruturas da política brasileira, mas que hoje se vê novamente cercado por investigações, suspeitas financeiras, relações opacas e articulações de bastidor.

A principal ameaça à tentativa de sobrevivência desse projeto político já não parece vir apenas das investigações, das disputas eleitorais ou do avanço de adversários externos. Ela começa a surgir dentro da própria direita, onde cresce a percepção de que o custo político de permanecer associado a esse legado pode ter se tornado alto demais até mesmo para setores da direita que, até pouco tempo atrás, apostavam em sua sobrevivência política.

Compliance Zero chega ao núcleo do poder em regime de democracia plena

EUA, Irã e o estreito de Ormuz: o limiar de uma ruptura global

Congresso esvazia condenações e redefine a resposta a ataques à democracia

Derrubada do veto reabre a disputa sobre a responsabilização

Marcelo Copelli

Revista Fórum

A derrubada do veto à lei da dosimetria pelo Congresso altera, de imediato, o alcance das respostas do Estado diante de episódios que colocaram a democracia sob ataque. Ao permitir a aplicação retroativa de regras mais favoráveis, o Parlamento reduz o peso concreto de condenações já estabelecidas e, com isso, reconfigura o grau de reprovação atribuído a essas condutas. Não se trata apenas de pena — trata-se da medida pela qual o Estado decide julgar o próprio passado.

O resultado é claro: decisões permanecem formalmente intactas, mas perdem densidade prática. Ao alterar o ambiente normativo, o Legislativo esvazia a força de condenações sem enfrentá-las diretamente. Trata-se de uma operação juridicamente possível, mas politicamente orientada, que incide sobre seus desdobramentos — e, por consequência, sobre a memória jurídica dos fatos.

FIXAÇÃO DE LIMITES – Quando essa intervenção alcança eventos de ruptura institucional, seu impacto se amplia. O direito não apenas pune; estabelece critérios de gravidade e fixa limites. Ao rever esses marcos após os julgamentos, o Estado não corrige apenas excessos — recalibra o sentido das respostas que já deu. A fronteira entre o que era tratado como exceção grave e o que passa a admitir relativização se desloca.

A base jurídica existe, mas não encerra o debate. A aplicação de normas mais favoráveis convive com exigências constitucionais igualmente relevantes: coerência, estabilidade e proteção da ordem democrática. Quando esses vetores entram em tensão, a análise deixa de ser apenas formal. Passa a exigir leitura de contexto, de timing e de consequências. É nesse ponto que a decisão deixa de parecer neutra.

Há um mecanismo central nessa engrenagem: o Congresso não anula decisões do Supremo Tribunal Federal, mas redefine as regras que condicionam seus efeitos. O julgamento permanece; sua eficácia é redimensionada. Não há confronto direto entre poderes, mas um ajuste silencioso de alcance — e é justamente isso que torna o movimento mais sofisticado e mais difícil de conter.

MANOBRA DE ALCOLUMBRE – O processo que levou a esse desfecho reforça a leitura política. A condução pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, incluiu a retirada prévia de trechos com maior potencial de resistência, viabilizando a maioria necessária. A manobra foi eficiente e revela domínio do procedimento. Ao mesmo tempo, expõe o uso estratégico das regras para atingir um resultado previamente calibrado. Quando o rito se adapta ao objetivo, a discussão sobre legitimidade deixa de ser periférica — passa ao centro.

Esse movimento não ocorre no vazio. Ele se conecta a uma pressão política mais ampla por revisão de punições relacionadas à crise institucional recente. Setores ligados ao entorno de Jair Bolsonaro vêm defendendo a redução dessas respostas. Ainda que a lei não mencione casos específicos, seus efeitos caminham nessa direção. Não há anulação explícita — há algo mais eficaz: o esvaziamento progressivo do alcance das decisões.

Os números ajudam a dimensionar a amplitude da mudança. A ampliação da possibilidade de redução de pena para quem cumpre regime domiciliar — antes limitada e dependente de decisão judicial — altera a dinâmica da execução e pode alcançar, em potencial, mais de 200 mil pessoas. Não se trata de aplicação automática, mas de uma mudança estrutural que reorganiza incentivos, estratégias jurídicas e o funcionamento cotidiano do sistema.

REFLEXOS – Aqui se concentra a principal tensão. A revisão pode ser apresentada como correção de distorções, mas, ao incidir sobre episódios de alta gravidade institucional, produz um efeito inevitavelmente simbólico. O sistema de justiça não apenas pune; ele define o grau de gravidade das condutas. Ao rever esses critérios posteriormente, o Estado reescreve a intensidade de sua própria resposta.

No plano político, a decisão revela mais do que capacidade de articulação. Expõe uma disputa concreta sobre quem define o alcance das respostas institucionais em momentos críticos. Ao avançar sobre esse terreno, o Congresso amplia sua influência não apenas sobre a legislação, mas sobre a interpretação prática de acontecimentos recentes.

O legado mais duradouro está no precedente que se consolida. Ao admitir alterações com alcance sobre respostas já dadas a episódios de ruptura democrática, abre-se uma trilha que tende a ser reutilizada. No direito, decisões dessa natureza não se esgotam — redefinem o campo do possível.

DESLOCAMENTO – A controvérsia deve retornar ao Supremo Tribunal Federal, que terá de avaliar os limites dessa reconfiguração à luz da Constituição. Mas, independentemente do desfecho, o deslocamento já se consumou.

No fim, o debate deixa de ser técnico. Torna-se estrutural. Diz respeito à forma como o Estado sustenta — ou flexibiliza — as respostas dadas quando sua própria estabilidade foi colocada à prova. Quando a lei passa a reorganizar o passado, o problema não está apenas no que ela corrige. Está, sobretudo, no que o Estado escolhe tornar menos grave.

Na sucessão presidencial, a direita contra si mesma e o impasse de 2026

Disputa revela um campo político incapaz de se estruturar

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Enquanto o confronto entre governo e oposição organiza o debate público, uma dinâmica paralela ganha densidade no campo conservador: a disputa interna sobre direção, limites e identidade política. Não se trata apenas de candidaturas em formação, mas de um processo mais profundo de definição — ou, mais precisamente, de indefinição — sobre o que a direita brasileira pretende ser no próximo ciclo eleitoral. O que se desenha não é um ajuste pontual, mas um movimento de fundo que expõe a ausência de um princípio organizador capaz de conferir coerência ao conjunto.

A presença de nomes competitivos no cenário não resolve essa equação; ao contrário, torna-a mais visível. A tentativa de projetar Flávio Bolsonaro como vetor de continuidade não produziu alinhamento nem reorganizou o espaço conservador. Funcionou, antes, como um ponto de tensão que escancarou a falta de um critério comum capaz de ordenar interesses, discursos e estratégias. Em vez de unificar, revelou os limites de um arranjo sustentado mais por circunstâncias do que por bases estáveis.

MÚLTIPLAS CANDIDATURAS – Nesse contexto, a multiplicidade de candidaturas deixa de ser sinal automático de vitalidade e passa a indicar superposição de iniciativas. Diferentes atores avançam sobre o mesmo eleitorado, mobilizam repertórios semelhantes e disputam um território que não se expande na mesma proporção em que se fragmenta. O resultado não é diversificação estratégica, mas concorrência direta por um espaço restrito, o que intensifica tensões e enfraquece a articulação interna.

A posição de Romeu Zema ajuda a delimitar esse cenário com precisão. Ao sinalizar que não aceita compor como vice em uma eventual chapa e ao afirmar que seguirá na disputa pelo Planalto, ele não rompe com o campo conservador, mas também não se submete a uma lógica de hierarquia automática. Seu movimento explicita uma linha de atuação mais autônoma e se insere em uma tendência mais ampla, na qual diferentes atores passam a reivindicar protagonismo simultaneamente, sem que exista um mecanismo capaz de ordenar essas pretensões concorrentes.

É nesse mesmo espaço que Ronaldo Caiado atua de forma direta, aprofundando a disputa interna ao avançar sobre o mesmo segmento eleitoral. A consequência não é apenas o aumento da concorrência, mas a consolidação de um conflito que deixa de ser episódico e passa a afetar o funcionamento do conjunto. A disputa não fragmenta apenas candidaturas — compromete a própria capacidade de ação política desse campo.

SEM REFERÊNCIA – O efeito acumulado desse processo é a formação de um ambiente que opera sem referência estável. Há aproximações pontuais e entendimentos circunstanciais, mas não uma base consistente capaz de sustentar unidade ao longo do tempo. A recomposição no segundo turno, embora provável, não elimina esse problema de origem. Disputas prolongadas geram custo, e rivalidades construídas ao longo da campanha não desaparecem por necessidade eleitoral; tendem a ser administradas de forma incompleta, produzindo resistências e limitando a eficácia da convergência posterior.

Ainda assim, persiste o esforço de preservar uma aparência de coesão. Encontros públicos, agendas compartilhadas e declarações calibradas sustentam a imagem de um campo que ainda dialoga internamente. Essa imagem, no entanto, não altera o movimento real. A cooperação, quando ocorre, é episódica; a competição, por sua vez, é contínua e estruturante, moldando o comportamento dos principais atores.

No centro desse processo está uma questão que permanece em aberto: qual é, hoje, o elemento capaz de organizar a direita brasileira. O legado recente deixou marcas profundas, mas não produziu uma síntese apta a orientar o campo no presente. Sem um ponto de referência claro, o que se observa é uma disputa pelo significado desse legado — e, sobretudo, pelo seu uso político em um cenário de competição ampliada.

INSTABILIDADE –  Flávio Bolsonaro representa uma tentativa de continuidade, ainda que ajustada às novas condições. Romeu Zema opera por meio de uma reinterpretação pragmática, deslocando o foco para gestão e eficiência. Ronaldo Caiado aposta em uma reafirmação mais direta e tradicional. Nenhuma dessas estratégias, até o momento, conseguiu se consolidar como referência capaz de dar forma estável ao conjunto.

Essa ausência de síntese também se reflete no conteúdo das propostas. Há pontos de contato em críticas ao governo e na defesa de pautas conservadoras, mas falta um eixo estruturado que articule essas posições em uma agenda coerente e compartilhada. O que predomina é a coexistência de discursos paralelos, e não a construção de um projeto comum com capacidade de agregação duradoura.

Durante anos, a polarização funcionou como elemento de organização. A existência de um adversário claro era suficiente para alinhar o campo e reduzir divergências internas. Esse mecanismo, no entanto, perde eficácia quando a disputa se desloca para dentro. Nesse cenário, a coesão deixa de ser automática e passa a depender de definição interna — algo que, no momento, ainda não se completou.

INDEFINIÇÃO POLÍTICA – O problema, portanto, não está na ausência de competitividade eleitoral, mas no excesso de indefinição política. A direita brasileira entra no ciclo com presença e capilaridade, mas sem direção clara. Isso altera a natureza da disputa: antes mesmo do confronto externo, suas próprias tensões passam a operar como fator de limitação, condicionando o alcance de sua atuação.

A eleição de 2026, nesse contexto, começa antes do calendário formal e se apresenta, desde já, como um teste interno de viabilidade política. Sem articulação consistente, sem projeto unificado e com múltiplas candidaturas concorrentes, o risco não é apenas perder a disputa externa, mas chegar a ela já condicionado por divisões que dificultam a construção de uma estratégia eficaz.

No fim, a questão deixa de ser quem lidera e passa a ser outra, mais estrutural: sob quais bases essa liderança poderia se sustentar. Sem um elemento comum, a liderança deixa de ser ponto de partida e passa a ser consequência de um processo que ainda não encontrou resolução. Até aqui, o cenário permanece aberto, mas um dado já se impõe: a principal dificuldade da direita brasileira, neste momento, não está no adversário — está na incapacidade de se definir como campo político.

Irã: entre a retórica e o recuo, diante do limite do poder de Donald Trump

O dever de reciprocidade: a necessária resposta do Brasil no caso Ramagem

O impasse da jornada de trabalho torna-se uma forte disputa política no Brasil

O que está em jogo é o controle do tempo

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil deixou de ser periférica. Consolidou-se como uma das questões estruturais do presente. Em um país cuja legislação ainda reflete a lógica produtiva do século passado, a manutenção de cargas horárias extensas já não se sustenta como exigência econômica. É a expressão de uma resistência histórica à redistribuição do tempo.

O debate não é técnico. É político. Está em jogo quem controla o tempo — e até que ponto o trabalho seguirá ocupando posição dominante na organização da vida social. A proposta de uma semana de 40 horas, com a superação gradual da escala 6×1, responde a transformações materiais que já alteraram a dinâmica produtiva, sem que isso tenha sido acompanhado por uma atualização na forma de distribuir o tempo laboral.

MODELO PERSISTE – A produtividade avançou. Tecnologia, automação e transformação dos processos alteraram a relação entre tempo e desempenho. Gera-se mais, em menos horas e com maior intensidade. Sustentar jornadas prolongadas como condição indispensável ao funcionamento da economia tornou-se cada vez mais difícil. Ainda assim, o modelo persiste — não por eficiência, mas por preservar estruturas de poder.

A extensão do expediente deixou de ser requisito técnico. Passou a atuar como mecanismo de organização social, delimitando não apenas o tempo de trabalho, mas o espaço disponível para outras formas de vida. É nesse ponto que o debate revela sua natureza real.

Os dados não sustentam o discurso de risco mobilizado por setores contrários à mudança. Em vez disso, indicam que a reorganização do tempo pode ocorrer sem prejuízo estrutural à economia, desde que acompanhada de ajustes institucionais. A narrativa de ameaça persiste menos como diagnóstico e mais como contenção política — acionada sempre que se questiona a forma como o tempo é dividido entre produção e vida.

PADRÃO – O cenário internacional confirma esse padrão. Experimentos no Reino Unido com semana de quatro dias mantiveram níveis de atividade. Na Islândia, a redução foi implementada em larga escala sem ruptura. Na América Latina, Colômbia já avança na diminuição progressiva, enquanto Chile e México seguem na mesma direção. Não houve colapso. Houve adaptação.

O padrão é claro: sistemas produtivos se ajustam quando a distribuição do tempo muda. A duração da jornada não é uma imposição econômica — é uma construção moldada por relações de poder e decisões políticas.

A resistência, portanto, não decorre da falta de comprovação. Decorre da disputa pelo controle do tempo. A defesa de jornadas longas preserva um modelo que concentra poder ao definir quanto da vida pode ser apropriado pelo trabalho, limitando outras dimensões sociais, políticas e econômicas. Reduzir a jornada altera esse equilíbrio. Redistribui horas — e, com elas, autonomia.

CONTRADIÇÃO – No Brasil, a contradição é evidente. Em diversos setores, a jornada efetiva já se aproxima das 40 horas semanais. A economia opera com mais flexibilidade do que a legislação admite. O teto legal superior não responde a uma necessidade produtiva — preserva margens ampliadas de controle sobre o tempo. A norma deixou de refletir a realidade e passou a protegê-la.

A ideia de que a redução geraria desemprego segue o mesmo padrão. Não há base empírica consistente que sustente essa relação de forma generalizada. A redistribuição do tempo reorganiza a demanda por trabalho, ajusta a dinâmica ocupacional e, em determinados casos, amplia a necessidade de contratação. Esse argumento funciona como bloqueio político — não como diagnóstico econômico.

Jornadas extensas não preservam empregos. Preservam um modelo que resiste à atualização. Ao manter o tempo como variável central, esse arranjo reduz incentivos à inovação, retarda adaptações e transfere ao trabalhador o custo de uma estrutura ineficiente. Onde houve redução, houve adaptação. A rigidez não está na economia — está na forma como ela é politicamente organizada.

ORGANIZAÇÃO DO TEMPO – Persistir nesse modelo sustenta um paradoxo: níveis crescentes de produtividade convivem com uma organização do tempo que já não corresponde a essa realidade. Não é uma exigência econômica. É uma escolha política — que preserva relações de poder dependentes da centralidade do trabalho.

A redução da jornada não rompe com a racionalidade econômica. Atualiza-a. Reconhece que ganhos de produtividade não podem permanecer dissociados da forma como o tempo é distribuído — e que essa distribuição é, no limite, uma decisão política.

ATRASO POLÍTICO – O Brasil não enfrenta um dilema econômico. Enfrenta um atraso político. A realidade produtiva mudou. A produtividade avançou. O trabalho se transformou. O que persiste é a resistência em redistribuir o tempo e atualizar as regras que organizam a vida social. Manter o modelo atual é uma escolha: preservar a concentração de poder e adiar sua revisão.

No fim, não está em debate a carga horária. O que está em jogo é o controle do tempo — e quem decide quanto da vida pode ser apropriado pelo trabalho, apesar de uma realidade que já não o sustenta.

Estreito de Ormuz, o petróleo e o novo equilíbrio global: a geografia do poder

Energia redefine soberanias em um mundo mais instável

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

A geopolítica voltou ao seu estado mais implacável — e o faz no ponto mais sensível da economia global. O Golfo Pérsico voltou a concentrar uma tensão com capacidade imediata de contágio sistêmico. O reforço da presença militar norte-americana nas rotas marítimas, acompanhado por ações diretas de interdição a navios ligados ao Irã, vai além do plano da dissuasão: traduz uma reconfiguração concreta de um dos corredores vitais do planeta. Em um sistema internacional já marcado pela fragmentação e pela erosão de consensos, essa escalada devolve à energia seu papel mais antigo — o de instrumento central de poder.

O Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela relevante do gás natural liquefeito, voltou a se afirmar como o ponto de maior vulnerabilidade da economia global. Mais do que um corredor logístico, assume a função de mecanismo de equilíbrio.

OSCILAÇÕES – Nos últimos dias, o preço do petróleo de referência na Europa (Brent) registrou oscilações superiores a 6% em sessões consecutivas, refletindo a antecipação de risco. Este é o dado decisivo: no sistema energético atual, a percepção antecede o fato e, muitas vezes, o substitui. O mercado reage ao que pode acontecer com a mesma intensidade com que reagiria ao que já aconteceu.

Teerã compreende essa lógica com precisão cirúrgica. Sua estratégia se baseia na manipulação do limiar da incerteza. Ao preservar a capacidade de perturbar o tráfego marítimo por meio de ações indiretas — de forças aliadas a operações de assédio naval — o Irã transforma a ambiguidade em um ativo estratégico. Não precisa fechar Ormuz para condicionar o sistema; basta tornar plausível essa hipótese. Essa forma de poder, assimétrica e calibrada, permite projetar influência muito além de seus meios convencionais.

Em paralelo, o cessar-fogo temporário entre Israel e o Líbano oferece uma aparência de contenção que não resiste a uma leitura mais exigente. Falta densidade política e capacidade de estabilização duradoura, funcionando sobretudo como uma pausa funcional em um cenário em recomposição. O Oriente Médio se afirma, cada vez mais, como um espaço de tensões interdependentes, no qual cada frente influencia as demais e amplia o risco de escalada por contágio. A estabilidade, nesse contexto, assume caráter transitório.

LIBERDADE DE NAVEGAÇÃO – Os Estados Unidos buscam reafirmar a liberdade de navegação como princípio basilar da ordem internacional. Fazem isso, porém, em um ambiente no qual sua capacidade de dissuasão é constantemente testada. A diferença em relação a crises anteriores é decisiva: a autoridade estratégica deixou de ser presumida e passou a ser verificada em tempo real. Cada movimento é observado por rivais que operam na lógica da pressão incremental, avaliando limites e explorando hesitações. A margem de erro diminuiu, e o custo de uma leitura equivocada pode ultrapassar amplamente o plano regional.

É nesse ponto que a crise se torna incontornável para a Europa. Ainda em processo de ajuste após o choque energético provocado pela guerra na Ucrânia, o continente enfrenta agora uma nova fonte de instabilidade em um eixo crítico de abastecimento. Apesar dos avanços na diversificação, a dependência indireta permanece suficiente para amplificar perturbações relevantes. A exposição europeia persiste, ainda que sob novas formas.

Os efeitos começam a se materializar com clareza. A volatilidade recente nos preços da energia já pressiona cadeias industriais, sobretudo na Alemanha, onde setores intensivos em energia permanecem particularmente sensíveis a variações abruptas. O Banco Central Europeu acompanha esse cenário com cautela crescente, ciente de que um novo ciclo de encarecimento energético pode comprometer o equilíbrio delicado entre o controle da inflação e a retomada econômica. O impacto se estende ao investimento, à competitividade e ao ritmo de crescimento.

FRAGILIDADE – Mais do que o choque imediato, importa o diagnóstico que dele decorre. A sucessão de crises expôs uma fragilidade estrutural europeia: a dificuldade de antecipar e agir de forma estratégica em matéria de segurança energética. A resposta tem sido eficaz, mas essencialmente reativa.

No Golfo, essa limitação se torna particularmente evidente. A União Europeia dispõe de influência diplomática, mas carece de instrumentos de projeção que lhe permitam atuar com verdadeira autonomia. Permanece, em larga medida, dependente de garantias externas para proteger interesses vitais.

O momento atual impõe uma leitura sem ambiguidades. A energia se consolidou como eixo de soberania. A transição para fontes renováveis é indispensável, mas não substitui a necessidade de uma estratégia geopolítica coerente. Sem essa dimensão, a Europa permanecerá vulnerável a ciclos recorrentes de instabilidade, com impactos cumulativos.

ESTABILIDADE – O que está em jogo no Golfo vai muito além do fluxo de petróleo. Trata-se da estabilidade de um sistema que depende da previsibilidade para funcionar. Quando essa previsibilidade se dissolve, o risco deixa de ser exceção e passa a ser condição permanente. Em um contexto no qual a incerteza se impõe como norma, o custo deixa de ser apenas econômico e passa a ser também político, social e estratégico.

A crise atual não anuncia necessariamente uma guerra aberta, mas revela algo mais profundo e duradouro: a instabilidade tornou-se estrutural. O mundo entrou em uma fase na qual o risco deixou de ser um desvio e passou a constituir o próprio ambiente de decisão. Para a Europa, a questão já não é apenas adaptar-se, mas fazê-lo com rapidez e autonomia suficientes para não se tornar refém de dinâmicas externas. No novo equilíbrio global, impõe-se uma regra incontornável: quem não controla sua energia, não controla seu destino.

Hungria: a queda de Viktor Orbán e o fim de um ciclo de poder na Europa

Longevidade da direita radical expõe a sua fragilidade

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

A derrota de Viktor Orbán expõe, com nitidez, o desgaste acumulado de um modelo político que, durante 16 anos, se apresentou como resistente à alternância e imune à erosão interna. O que emerge das urnas húngaras não é apenas a substituição de uma liderança, mas a evidência de que a consolidação prolongada de autoridade — baseada na concentração institucional, na influência indireta sobre o espaço informativo e na compressão dos mecanismos de equilíbrio democrático — entra, inevitavelmente, em fase de saturação.

O resultado eleitoral na Hungria traduz um ponto de ruptura dentro desse processo. O comparecimento recorde às urnas, próximo dos 78%, identificado como um dos mais elevados da história recente do país, não reflete apenas a mobilização cívica. Indica um momento de ativação do eleitorado diante de um sistema que deixou de absorver o desgaste que ele próprio produziu. Em contextos de normalidade democrática, a participação eleitoral tende à estabilidade; quando essa lógica é quebrada, o que se observa é um mecanismo de correção em funcionamento.

SEM SUSTENTABILIDADE – O El País enquadra esse momento como uma decisão estrutural sobre o modelo de governança, enquanto o The Guardian destaca o caráter excepcional da mobilização. A convergência dessas leituras aponta para um diagnóstico preciso: o sistema perdeu capacidade de se sustentar sem recorrer de forma crescente a instrumentos de condicionamento.

Durante mais de uma década e meia, o ex-primeiro-ministro húngaro não se limitou a governar; reconfigurou o funcionamento do Estado. A designação de “democracia iliberal” não foi apenas retórica política, mas a expressão de um método consistente de reorganização institucional. A capacidade de moldar o espaço informativo, a reengenharia do sistema judicial e a construção de redes de dependência política e econômica criaram um ambiente de estabilidade dirigida, no qual a alternância se tornava progressivamente improvável.

Esse modelo, amplamente analisado por observadores internacionais, consolidou-se como uma referência para setores da direita que procuram conciliar legitimidade eleitoral com domínio estrutural do aparelho de Estado. Sua derrota altera esse enquadramento de forma direta.

FRAGILIDADES – O que está em jogo não é apenas a substituição de uma liderança, mas a exposição das fragilidades inerentes a sistemas que dependem de um equilíbrio artificial entre legitimidade democrática e acumulação de influência. A longevidade de Orbán funcionava como argumento empírico a favor da viabilidade desse modelo; sua queda transforma esse argumento em uma contingência histórica. A dependência do consentimento eleitoral se mantém, mesmo em estruturas altamente concentradas — e se revelou determinante.

No plano europeu, as implicações são imediatas e estratégicas. Orbán representou, durante anos, um dos principais fatores de instabilidade interna da União Europeia, bloqueando decisões, relativizando consensos e introduzindo um padrão de confronto permanente com Bruxelas.

Sua saída do poder não elimina automaticamente essas tensões, mas reduz significativamente sua capacidade de projeção. A Reuters identifica nesse resultado um potencial ponto de reequilíbrio institucional, com impacto direto na previsibilidade política do bloco, na gestão de fundos europeus e na articulação de posições comuns em temas sensíveis, como a relação com a Rússia.

INSTABILIDADE –  Esse reposicionamento tem uma dimensão que ultrapassa a geografia europeia. A trajetória de Orbán foi frequentemente invocada por Donald Trump e por setores do conservadorismo norte-americano como demonstração da eficácia de modelos políticos baseados na concentração de autoridade e no confronto com instituições tradicionais. Sua derrota introduz um elemento de instabilidade nessa leitura.

A longevidade deixa de garantir continuidade. Esse fator reduz a margem de previsibilidade de estratégias baseadas na permanência prolongada no poder. Do ponto de vista analítico, a transição que se segue não deve ser interpretada como linear. Sistemas moldados ao longo de um ciclo prolongado não se desconstroem por via eleitoral imediata.

Estruturas administrativas, redes de influência e mecanismos de condicionamento permanecem ativos e continuarão a moldar o funcionamento do Estado. A fase subsequente exigirá capacidade de reconfiguração institucional em um contexto ainda marcado por assimetrias acumuladas, o que introduz complexidade e risco no processo de governança.

LIMITES OPERACIONAIS – Ainda assim, o ponto crítico já foi atingido. A derrota de Orbán redefine os limites operacionais de modelos políticos baseados na concentração prolongada de poder. Ao evidenciar a capacidade de resposta do eleitorado diante de um sistema em desequilíbrio, o caso húngaro reintroduz um elemento frequentemente negligenciado nas análises contemporâneas: a resiliência funcional dos mecanismos democráticos.

Em um contexto internacional marcado por tendências de polarização, contestação institucional e fortalecimento de lideranças personalistas, o resultado húngaro altera o enquadramento estratégico de forma silenciosa, mas substantiva. A Hungria deixa de ser apresentada como exemplo de continuidade ininterrupta de um modelo iliberal e passa a integrar o conjunto de sistemas nos quais a alternância permanece uma possibilidade concreta.

FIM DE UM CICLO – A derrota de Viktor Orbán não encerra um ciclo político; expõe a fragilidade estrutural de uma arquitetura construída sobre a acumulação contínua de autoridade. Durante anos, apresentou-se como estável, resistente e replicável. Quando essa aparência se rompe, sua premissa deixa de se sustentar.

O que emerge não é apenas o fim de uma liderança, mas a evidência de que a concentração prolongada de influência, quando submetida ao teste democrático, encontra inevitavelmente seu ponto de ruptura. A partir daí, o desfecho deixa de ser hipótese — torna-se consequência.

A ilusão da estabilidade fugaz: por que o cessar-fogo não resolve o Oriente Médio