Em forma de poesia, as reflexões de Millôr Fernandes sobre suas reflexões

Millôr: o humor como forma de indignação | Curso Enem Play | Guia do EstudantePaulo Peres
Poemas & Canções

O desenhista, humorista, dramaturgo, tradutor, escritor, jornalista e poeta carioca Milton Viola Fernandes (1923-2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, no poema “Reflexão Sobre a Reflexão”, fala de suas decisões relacionadas ao ato de pensar.

REFLEXÃO SOBRE A REFLEXÃO
Millôr Fernandes

Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto
Com o meu pensamento
Que às vezes penso
em não pensar jamais.
Mas isto requer
ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando
tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando
nisso o tempo todo.

O sentimento clássico do amor que não se completa, na poesia de Moacyr Félix

Moacyr Felix — Vida e Obra — os poemas essenciais — Escritas.org

Moacyr Felix e seus poemas essenciais

Paulo Peres
Poemas & Canções

O editor, escritor e poeta carioca Moacyr Félix de Oliveira (1926-2005), no poema “Sentimento Clássico”, expõe a dor que colocamos em tudo e, calados, procuramos ser o que jamais seremos.

SENTIMENTO CLÁSSICO
Moacyr Félix

Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.

Que distâncias lamento, e que contraste!
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.

Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.

Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.

Gonzaguinha ia à luta e acreditava contribuir para um futuro melhor

Artistas se reúnem para homenagear Gonzaguinha | VEJA RIO

Gonzaguinha com o pai, Luiz Gonzaga

Paulo Peres
Poemas & Canções

O economista, cantor e compositor carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Junior (1945-1991) , mais conhecido como Gonzaguinha, é, sem dúvida, um dos maiores talentos da Música Brasileira em seus diversos estilos populares. Sua obra teve, inicialmente, como característica sua postura de crítica à ditadura, conforme mostra a letra de “E Vamos à Luta”, que fala das pessoas que lutavam contra o regime militar. Essa música foi gravada por Gonzaguinha no LP De Volta ao Começo, em 1980, pela EMI.

E VAMOS À LUTA
Gonzaguinha

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada

Aquele que sabe que é negro
o coro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares
Ainda se orgulha de ser brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí…

Eu acredito é na rapaziada

O poeta Patativa do Assaré já dizia: é preciso votar no candidato certo

PERFIL | Patativa do Assare - 2 de 3Paulo Peres
Poemas & Canções 

Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples e poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme afirma ser “O Que Mais Dói”, referindo-se à possibilidade de os eleitores escolherem um presidente ruim.

O QUE MAIS DÓI
Patativa do Assaré

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.

Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.

O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.

“Quando eu me chamar Saudade”, a despedida de Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Paulo Peres
Poemas & Canções

Nelson Cavaquinho: vida e obra do sambista de estilo único, morto há 40 anos | Stories | Flipar | O Dia

Nélson e Guilherme, dois amigos inseparáveis

O pintor, escultor, cantor e compositor carioca Guilherme de Brito Bollhorst (1922-2006), na letra de “Quando Eu Me Chamar Saudade”, parceria com Nelson Cavaquinho (1911-1986), pede aos amigos que façam tudo quanto quiserem fazer por ele, somente enquanto estiver vivo.

Este samba imortal foi gravado por Nora Ney no LP “Tire seu Sorriso do Caminho, que Eu Quero Passar com a Minha Dor”, título de outra grande parceria dos dois, em 1972, pela Som Livre.

QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão

Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora

Me dê as flores em vida
O carinho
A mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

As assombrações da escravidão, na poesia rebelde de Olegário Mariano

Olegário Mariano, retratado por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata, político e poeta pernambucano Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889-1958), membro da Academia Brsileira de Letras, no soneto “A Velha Mangueira”, fala de assombrações do tempo da escravidão.

A VELHA MANGUEIRA
Olegário Mariano

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa…
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa…

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos

“No novo tempo, apesar dos perigos, estamos na luta, pra sobreviver, pra sobreviver…”

Ivan Lins e Vitor Martins: Novabrasil celebra 50 anos da parceria da dupla  - Novabrasil

Ivan e Vitor, uma dupla de grande talento

Paulo Peres
Poemas & Canções

O pianista, cantor e compositor carioca Ivan Guimarães Lins, em parceria com o letrista Vitor Martins, fala em um novo tempo, que é o momento de se mostrar, de lutar pelo seu espaço, por um país livre, sem censura e repressão política.

A música foi gravada por Ivan Lins no LP Novo Tempo, em 1980, pela EMI-Odeon.

O NOVO TEMPO
Vitor Martins e Ivan Lins

No novo tempo
Apesar dos castigos
Estamos crescidos
Estamos atentos
Estamos mais vivos
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
Da força mais bruta
Da noite que assusta
Estamos na luta
Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver

Pra que nossa esperança
Seja mais que vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança

No novo tempo
Apesar dos castigos
De toda fadiga
De toda injustiça
Estamos na briga
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
De todos pecados
De todos enganos
Estamos marcados
Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver

Pra que nossa esperança
Seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança

No novo tempo
Apesar dos castigos
Estamos em cena
Estamos na rua
Quebrando as algemas
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
A gente se encontra
Cantando na praça
Fazendo pirraça
Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver   

Uma simples palhoça, que nos dá vontade de morar para sempre no interior

ARQUIVO MARCELO BONAVIDES - Estrelas que nunca se Apagam - : RELEMBRANDO O COMPOSITOR  J. CASCATA

J. Cascata, um compositor de talento

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Álvaro Nunes (1912-1961), conhecido por J. Cascata, expressa na letra de “Minha Palhoça” um bonito, bucólico e romântico convite para a pessoa amada. Este samba de breque foi gravado pela primeira vez por Sylvio Caldas, em 1935, pela Odeon.

MINHA PALHOÇA
J. Cascata

Se você quisesse
Morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão
Uma roseira
Cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada
Abençoar nossa união

Tem um cavalo
Que eu comprei em Pernambuco
E não estranha a pista
Tem jornal, lá tem revista
Uma Kodak para tirar nossa fotografia
Vai ter retrato todo dia
Um papagaio que eu mandei vir do Pará
Um aparelho de rádio-batata
E um violão que desacata

Meu Deus do céu que bom seria..
Se você quisesse
Morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão
Uma roseira
Cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada
Abençoar nossa união

Tem um pomar
Que é pequenino,
É uma teteia
É mesmo uma gracinha
Criação, lá tem galinha
Um rouxinol
Que nos acorda ao amanhecer
Isso é verdade pode crer
A patativa
Quando canta faz chorar
Há uma fonte na encosta do monte
A cantar chuá-chuá…

Meu Deus do céu que bom seria..

A geometria dos ventos, na fronteira da loucura poética, com Rachel de Queiroz

rachel de queiroz – @frasespoesiaseafins on Tumblr

Rachel foi a primeira mulher na Academia

Paulo Peres
Poemas & Canções

A romancista, contista, tradutora, jornalista, cronista e poeta cearense Rachel de Queiroz (1910-2003), primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, em “Geometria dos Ventos”, mostra uma poesia livre, sem limites de idioma, espontânea, mas na fronteira da loucura.

GEOMETRIA DOS VENTOS
Rachel de Queiroz

Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma.
Ela flui, como um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada –
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio;
onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta
no mistério ao mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.

“Quando olhaste bem nos olhos meus, e o teu olhar era de adeus…”

Serenata Do Vadinho - Francis Hime — Chico Buarque & Francis Hime | Last.fm

Chico e Hime, uma parceira realmente notável

Paulo Peres
Poemas & Canções

O  cantor, escritor, poeta e compositor carioca Chico Buarque de Holanda, em parceria com Francis Hime, deixou sua genialidade invocar inspiração para fazer a letra de “Atrás da Porta”, que confessa a dor de uma mulher por seu amor perdido, da humilhação de ser abandonada, da aflição surpreendente do final de uma paixão e de um amor.

Hime deu a música a Chico para fazer a letra em 1966 e ele demorou mais de seis meses para concluí-la. O resultado é que tudo é perfeito nesta canção. Desde o desespero até a vontade de se vingar e a decepção de saber que depois de ser apagada de um coração, nada mais surte efeito para trazer de volta este amor. A música faz parte do álbum Elis, gravado por Elis Regina, em 1972, pela Phonogram.

ATRÁS DA PORTA
Francis Hime e Chico Buarque

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua

O significado dúbio das palavras, na visão poética de Malú Mourão

Ilustração reproduzida no Arquivo Google

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta cearense Maria Luíza Mourão, conhecida como Malú Mourão, explora poeticamente o significado dúbio das palavras que norteiam o destino de cada um de nós,

PALAVRAS
Malú Mourão

Ah, palavras!…
Palavras de amor,
Palavras de dor…

Ah, palavras!…
Palavras de encanto,
Palavras de espanto…

Ah, palavras!…
Palavras de paixão,
Palavras de traição…

Ah, palavras!…
Palavras escritas,
Palavras ditas…

Ah, palavras!..
De amor?
Ou dor?
De encanto?
Ou espanto?
De paixão?
Ou traição?
Escritas?
Ou ditas?

Palavras surgidas
Que revelam o saber,
De almas incontidas
Buscando viver!…

Uma canção de amor, para lembrar a camisola do dia, tão transparente e macia…

Tribuna da Internet | “Pensando em Ti”, uma canção imortal, de David Nasser e Herivelto Martins

Herivelto e Nasser, grandes parceiros e amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O  jornalista, escritor e letrista paulista David Nasser (1917-1980) e seu parceiro musical, cantor, músico e compositor Herivelto Martins (1912-1992) são autores de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “A Camisola do Dia”, cujo teor poético revela não somente a felicidade, mas também a tristeza acontecida num amor infindo. Este belo samba-canção, de grande sucesso, teve sua primeira gravação feita por Nelson Gonçalves, em 1953, pela RCA Vitor.

A CAMISOLA DO DIA
Herivelto Martins e David Nasser

Amor, eu me lembro ainda
Era linda, muito linda
Um céu azul de organdi
A camisola do dia
Tão transparente e macia
Que eu dei de presente a ti

Tinha rendas de Sevilha
A pequena maravilha
Que o teu corpinho abrigava
E eu era o dono de tudo
Do divino conteúdo
Que a camisola ocultava

A camisola que um dia
Guardou a minha alegria
Desbotou, perdeu a cor
Abandonada no leito
Que nunca mais foi desfeito
Pelas vigílias de amor

A duríssima vida dos sertanejos pobres, na poesia realista de Mauro Mota

O bê-á-bá de Mauro Mota - Revista Literária Pernambuco

Mauro Mota, grande poeta pernambucano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, professor, memorialista, cronista, ensaísta e poeta pernambucano Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (1911-1984), membro da Academia Brasileira de Letras, no poema “Construção”, fala da vida difícil dos moradores pobres do interior do país.

CONSTRUÇÃO
Mauro Mota

Vem vindo José Maria,
vem de São Bento do Una,
vestido de roupa cáqui
e de botinas reiúnas.
No conselho de família,
só encontra a hierarquia
do avô cabo de polícia.
O pai na barbearia
do povoado trabalha,
mal completa o pagamento
da prestação da navalha.

Vem vindo José Maria,
o amarelinho de São Bento
do Una, sem genealogia.
Vem montado no jumento.
Saiu da escola. (Não tinha
nem livros nem fardamento.
Aprendeu a ler sozinho.)

Oh, que infância sem infância,
essa do José Maria!

Entrava na terra o casco
do seu cavalo de pau,
que o cabo da enxada era
a escoiceante montaria.
Tirava leite das vagas,
mas o leite não bebia.
Os animais da fazenda,
com que doçura os tangia!
Carregava areia e lenha
com o gosto do engenheiro
que uma obra construía.

Foi bicheiro e negociante
de passarinhos na feira.
Vendeu frutas e roletas
nas festas da Padroeira.
Lavou frascos na botica,
lavou os pratos do hotel,
fez os serviços miúdos
da casa do coronel.

– Pega o carneirinho mocho
para Jorginho montar.
– Vê se a novilha cinzenta
já voltou para o curral.
– Leva o peru para a ceia
do Doutor pelo Natal.

Vem vindo José Maria
vem de São Bento do Una,
vestido de roupa cáqui
e de botinas reiúnas.

Puxa ainda o seu jumento,
remexe nos caçuás.
Carrega barro e madeira
para a construção que faz
com alicerces na poesia
dos desesperos rurais.

Em tempo de Copa do Mundo, o gol tão esperado na poética de Ferreira Gullar

title :: Ferreira Gullar por Blima Bracher

Como todo brasileiro, Gullar adorava futebol

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico de arte, teatrólogo, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e poeta maranhense José Ribamar Ferreira, o famoso Ferreira Gullar (1930-2016), no poema “O Gol”, narra a trajetória da bola, a arte do jogador e a emoção do torcedor. 

O GOL
Ferreira Gullar

A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a pára
no ar
depois
com o joelho
a dispõe a meia altura
onde
iluminada
a esfera
espera
o chute que
num relâmpago
a dispara
na direção
do nosso
coração.

Guilherme de Almeida e sua poética paixão pelos filmes em preto & branco

Boa Noite !!! 🌙🌟 “Lá se vai a vida, Lá se vai a flor. Passa o sonho da vida, E fica a dor.” Guilherme de Almeida (1890-1969) #BoaNoite #versos #poesia #poetas #guilhermedealmeida

Paulo Peres
Poemas & Canções

O desenhista, cinéfilo, jornalista, advogado, tradutor, cronista e poeta paulista Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969), o Príncipe dos Poetas Brasileiros, revela que somente enxerga os olhos de sua amada na sala escura do “Cinema”.

CINEMA
Guilherme de Almeida

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons…

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz.

Os olhos da amada de Antonio Maria, numa desesperada canção romântica

Antonio Maria, com Ary Barroso, Vinicius de Moraes, Isaac Zuckman e Paulo Mendes Campos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, radialista e compositor pernambucano Antônio Maria Araújo de Morais (1921-1964), diante do sofrimento que uma separação amorosa acarreta, fez a letra de “A Canção dos Seus Olhos”, em parceria com o violonista João Pernambuco, e o samba-canção  foi gravado por Elizeth Cardoso no LP Sax-Voz, em 1960, pela Copacabana.

A CANÇÃO DOS SEUS OLHOS
Pernambuco e Antônio Maria

Ai, você foi embora,
Era hora de ir.
Depois quem sabe
Que tristeza haveria?
Ai, foi bom separar
Os meus sonhos dos seus
No meu olhar,
O poder do seu olhar.

Ai, não faz mal a distância
Ai, não faz mal a saudade.
Hoje é melhor eu saber
Que você não sofreu,
Se eu sofri não faz mal

Ai, nasceu no sofrimento
Na esperança e no amor,
Nasceu de mim
A canção dos seus olhos

Em forma de poema, a imensa saudade que Gonçalves Dias sentia fora do Brasil

Tribuna da Internet | A paixão jovem de Gonçalves Dias, quando a amada  estava entre menina e mulherPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, etnógrafo, teatrólogo e poeta romântico maranhense Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), no poema “Minha Terra”, retratou a fortíssima saudade que sentia ao estar longe de seu país.

MINHA TERRA
Gonçalves Dias

Quanto é grato em terra estranha
Sob um céu menos querido,
Entre feições estrangeiras,
Ver um rosto conhecido;

Ouvir a pátria linguagem
Do berço balbuciada,
Recordar sabidos casos
Saudosos — da terra amada!

E em tristes serões d’inverno,
Tendo a face contra o lar,
Lembrar o sol que já vimos,
E o nosso ameno luar!

Certo é grato; mais sentido
Se nos bate o coração,
Que para a pátria nos voa,
P’ra onde os nossos estão!

Depois de girar no mundo
Como barco em crespo mar,
Amiga praia nos chama
Lá no horizonte a brilhar.

E vendo os vales e os montes
E a pátria que Deus nos deu,
Possamos dizer contentes:
Tudo isto que vejo é meu!

Meu este sol que me aclara,
Minha esta brisa, estes céus:
Estas praias, bosques, fontes,
Eu os conheço — são meus!

Mais os amo quando volte,
Pois do que por fora vi,
A mais querer minha terra,
E minha gente aprendi.

Guimarães Rosa e seu poético corisco de esperança, riscando lá no alto…

O correr da vida embrulha tudo, a vida... Guimarães Rosa - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O médico, diplomata, romancista, contista e poeta João Guimarães Rosa (1908-1967), nascido em Cordisburgo (MG), é um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, sendo o romance “Grande Sertão: Veredas”, que ele qualifica como uma “autobiografia irracional”, a sua obra mais conhecida. Entretanto, Guimarães Rosa também enveredou pelos veios poéticos, tanto que registrou em versos a “Tentativa” de uma manhã em busca da esperança.

TENTATIVA
Guimarães Rosa

Manhã básica, alcalina,
neutralizando a gota ácida do sol.
O tornassol do céu, no fundo
do grande tubo de ensaio,
vai se espessando, cada vez mais azul.

Dos poços da marna alagada,
cheios, como frascos chatos sem gargalos,
sobem vapores alvacentos.
A pressão calca cinco atmosferas,
e o calor cresce,
nas alavancas de pirômetros negros,
dilatando as sombras.

Rápida,
uma revoada triangular de periquitos
estraleja e crepita,
flambada em alça enorme de platina,
como o fio de chama, fugidio e verde,
de um sal de boro…

Quanto esforço da manhã,
para riscar tão alto,
um corisco de esperança…

O testamento poético da criança que existe em nós, segundo Hilda Hist

Obsceno Hilda HilstPaulo Peres
Poemas & Canções

A ficcionista, dramaturga, cronista e poeta paulista Hilda Hilst (1930-2004), no poema “Testamento Lírico”, faz um lírico balanço sobre o que pediu e o que recebeu durante a vida.

TESTAMENTO LÍRICO
Hilda Hilst

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo.
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.           

Virou música a paixão de Caetano pela menina do outro lado da rua

JOVEM GUARDA - Muito mais que um site oficial! :::

O jovem Caetano estava apaixonado

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, músico, produtor, escritor, poeta e compositor baiano Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, o genial Caetano Veloso, explica que fez a música “Você é Linda” para uma menina chamada Cristina, “de quem eu gostei intensamente na Bahia, e que morava em frente a minha casa, do outro lado da rua, em Ondina.” A música foi gravada por Caetano Veloso no LP Uns, em 1983, pela Philips.

VOCÊ É LINDA
Caetano Veloso

Fonte de mel
Nos olhos de gueixa
Kabuki, máscara
Choque entre o azul
E o cacho de acácias
Luz das acácias
Você é mãe do sol

A sua coisa é toda tão certa
Beleza esperta
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás

Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz

Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir

No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer

Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz

Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Gosto de ver
Você no seu ritmo
Dona do carnaval
Gosto de ter
Sentir seu estilo
Ir no seu íntimo
Nunca me faça mal

Linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz