Jogo se ganha no campo e a previsão de uma vitória fácil não se confirmou

No futebol a tática pode neutralizar a técnica e a arte dos atletas

Pedro do Coutto

Como digo sempre, jogo de ganha no campo. A nossa seleção feminina de futebol enfrentou  um duro embate para vencer a Zâmbia por 1 x 0. A previsão de uma vitória fácil não se confirmou, isso porque no futebol a tática pode neutralizar a técnica e a arte dos atletas. Vamos em frente em busca do ouro

Já no masculino, hoje, quarta-feira, às 5h da manhã, quando os leitores virem esse texto, estarei me recuperando de uma ligeira intervenção no ombro esquerdo, consequência de um acidente doméstico.

Estou informando este fato ao Carlos Newton, editor, ao Marcelo Copelli, subeditor, e aos leitores que são numerosos e por isso tão gratificantes. Voltarei dentro de alguns dias. Deixo um abraço para todos  e vamos ver se retorno o quanto antes.

Baixa aprovação do governo torna bastante improvável a reeleição de Jair Bolsonaro

Charge do Aroeira (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Pesquisa do Ipec, instituto de Carlos Augusto Montenegro e Márcia Cavallari, do antigo Ibope, revela com base na experiência deixada pelas eleições de 2018, que a aprovação baixa de candidatos, tanto aos governos estaduais, quanto à Presidência da República, tornam improváveis as suas reeleições.

Estão alinhados os ex-governadores Amazonino Mendes, Cida Borghetti, Ivo Sartori, José Eliton, Pedro Taques, Márcio França, Fernando Pimentel, Rodrigo Rollemberg, Robinson Faria e Sueli Campos. No momento, os governadores que assumiram em 2019, entre eles Renan Filho, Camilo Santana, Rui Costa, Ronaldo Azambuja, Flávio Dino e Wellington Dias, mantiveram aceitação alcançando índices contidos no desempenho de suas campanhas.

LULA NA FRENTE – Os exemplos, portanto, estendem-se a Jair Bolsonaro,  cuja aprovação no momento encontra-se na escala de 25%, que é também o número dos que votariam nele nas urnas de 2022. Mas Lula alcança 46%, deixando também para trás Ciro Gomes com 8 pontos. Estes três números foram revelados pelo Datafolha.

O tradicional Ibope foi adquirido pela empresa internacional Kantar, especializada em medir audiências na televisão e no rádio. A transferência de controle do Ibope foi concretizada há quase dois anos e até agora não vi publicada nenhuma pesquisa da Kantar.

É possível que tais pesquisas possam não ser públicas, mas, de qualquer forma, como é tradicional, vazariam informações. Mas este é outro assunto. Aliás, como dizia meu saudoso amigo Paulo Montenegro, “a única pesquisa que pode ter prognóstico conferido na prática é o levantamento eleitoral. Nenhuma outra”.

CONFERÊNCIA – Sabemos que a TV Globo lidera amplamente a audiência na televisão e tenho a impressão que a GloboNews ocupa o primeiro lugar nos cabos políticos por assinatura. Mas ninguém tem como conferir,  a menos que as emissoras se disponham a tornar público os dados. Porém, os resultados eleitorais são facilmente conferidos pela população.

As perspectivas não são boas para Jair Bolsonaro em 2022, sobretudo porque pegou mal a sua ameaça de não realizar eleições caso o Congresso não reimplante o voto impresso, o que seria um absurdo.

PAULO GUEDES –  Reportagem de Thiago Resende, Folha de S. Paulo, revela que o ministro Paulo Guedes e sua equipe no Ministério da Economia desejam que o Trabalho e Previdência Social, que passam a integrar a pasta comandada por Onyx Lorenzoni, possam retornar para as mãos de Guedes em abril de 2022 quando Lorenzoni poderá sair do cargo para disputar as eleições para a Câmara Federal. Um sonho em uma noite de inverno.

O Ministério do Trabalho e Previdência Social jamais voltarão a ser como antes após o desastre que lhe foi imposto pela administração de Paulo Guedes. É muita ingenuidade dos diplomados pelas universidades  de Harvard e Chicago acreditarem em tal hipótese. Na realidade, é possível até que Lorenzoni prefira jogar o seu destino na reeleição de Bolsonaro do que deixar o cargo para buscar o retorno incerto para a Câmara Federal.

NASCE UMA ESTRELA – Rayssa Leal, 13 anos de idade, em plena entrada na adolescência, conquistou a medalha de prata do skate feminino na Olimpíada de Tóquio. Só foi batida por uma grande veterana japonesa.

Rayssa é um exemplo para as novas gerações, para todos os atletas que vierem, após os atuais heróis da história dos jogos. Glória eterna a Rayssa Leal. Ficará para sempre na história olímpica universal.

FUTEBOL SE GANHA NO CAMPO – Sustentei essa realidade no artigo que publiquei no domingo, focalizando a luta do amanhecer no futebol da Olimpíada. A previsão que adoto sempre com cautela se confirmou; o Brasil empatou em 0 x 0 com a Costa do Marfim no Estádio Internacional de Yokohama, no Japão, neste fim de semana. Tivemos mais chances de vencer, apesar da rigorosa expulsão de Douglas ainda na metade do primeiro tempo. Cometeu uma falta grave segurando o adversário pela camisa e o derrubando.

Mas não havia cartão amarelo anterior e o juiz foi rigoroso demais, apesar de não estar errado. Mesmo assim, dominamos bem o segundo tempo e por pelo menos três vezes estivemos a um passo da vitória. Mas ela não veio. Futebol é assim.

FASCÍNIO – Devo lembrar  que na transmissão pela TV Globo, Galvão Bueno lembrou que vários jogadores da Costa do Marfim atuam no futebol europeu. Dois atletas são titulares de um dos grandes times ingleses, no caso, o Manchester United.  Acordei às 5h para ver a partida. A bola rolando sempre me fascinou e me fascina.

Hoje, terça-feira, desperto na madrugada para não perder a seleção feminina brasileira contra a de Zâmbia. Com quatro pontos obtidos, a seleção deverá se classificar para as quartas de final. No futebol masculino, a mesma confiança em relação ao time de Jardine que tem Richarlison como grande astro. Falta somente a partida contra a Arábia Saudita amanhã, quarta-feira. Vamos torcer. Futebol só se ganha no campo e os confrontos só terminam com o apito do juiz.

Ciro Gomes, apontado como terceiro homem para 2022, não participou do movimento das ruas contra Bolsonaro

Ausência de Ciro Gomes representou uma oportunidade perdida

Pedro do Coutto

Reportagem de Jan Niklas e Bianca Gomes, edição de domingo de O Globo, destaca o protesto contra o governo Jair Bolsonaro que levou milhares de pessoas às ruas de cidades do país e também tiveram a adesão de brasileiros residentes no exterior. Todos pedindo pela vacinação e o impeachment do presidente da República, além de estenderem o movimento contra o esquema de corrupção que surgiu na questão de compra de imunizantes.

A repercussão foi muito grande, mas a ausência do ex-governador Ciro Gomes representou uma oportunidade perdida por ele de se afirmar como um candidato independente de Lula, mas ao mesmo tempo contrário à reeleição e às ameaças de Bolsonaro. Faltou perspectiva porque no fundo da questão Ciro Gomes é de fato o único nome que pode ser colocado no centro da polarização entre o ex-presidente Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro.

ALTERNATIVA – Mas é preciso considerar que ele, Ciro Gomes, para tentar chegar ao segundo turno nas urnas de outubro de 2022 só possui um caminho, além do pequeno percentual de votos que possui; arrebatar os bolsonaristas arrependidos.

Fora daí, não há espaço para ele. Não consegue tirar dez votos do líder do PT. O título deste artigo está inspirado no filme do diretor Carol Reed, “O terceiro homem”, com a participação da Orson Welles no elenco.

PRAZO – O presidente Jair Bolsonaro desde que se desfiliou do PSL não ingressou em nenhuma outra legenda partidária e terá que fazê-lo até outubro, pois a lei partidária estabelece que qualquer pessoa para se candidatar tem que ter filiação até um ano antes das eleições. O prazo colocado para Bolsonaro tem o limite de 3 de outubro deste ano.

Por incrível que pareça, Bolsonaro tem encontrado dificuldades em inscrever-se em alguma legenda, uma situação singular na história política moderna do país. De modo geral, as direções partidárias estão sempre abertas para a inscrição de um presidente da República. Mas não é o caso que se aplica a Bolsonaro.

Reportagem de Ricardo Della Coletta, Julia Chaib e Daniel Carvalho, Folha de S. Paulo, revelou ontem que o próprio PP, que participa do governo, encontra-se dividido sobre se aceita ou não o ingresso de Bolsonaro em seus quadros. Não conseguindo inscrição, Bolsonaro cria um caso único na Justiça Eleitoral; um presidente da República inelegível por falta de inscrição partidária.

RESTRIÇÕES – Correntes de outros partidos, além de uma fração PP, também levantam restrições a conceder registro eleitoral ao presidente que dentro de menos de 18 meses se dispõe a tentar a reeleição, chegando ao ponto de fazer ameaças de cancelar o pleito se as urnas eletrônicas não forem substituídas pelo voto impresso.

É claro que após o pronunciamento dos generais Braga Netto e Hamilton Mourão, o presidente da República ficou sem espaço político e terá que recuar. Aliás, já recuou. Não há outro caminho e vale lembrar que a política é a arte de comunicar coisas e situações que os lábios não pronunciam.

CONSUMO – Falei há pouco sobre o erro de Ciro Gomes ao não comparecer às manifestações. São muitas as queixas populares contra o governo que congela salários e aceita o aumento de preços, tornando o consumo alimentar dos brasileiros de menor renda impossivel. Estes, provavelmente, terão que comer um dia sim e outro não. Incluindo seus filhos e suas famílias.

Paulo Soprana, Leonardo Vieceli e Daniela Arcanjo, Folha de S.Paulo, revelam que as classes pobres sentem muito mais a alta de preços do que as classes médias e os de renda mais elevada. Isso porque para os de menor remuneração, mais atingidos inclusive pelo desemprego, o peso percentual da alimentação é maior do que para as demais categorias sociais.

Com isso, amplia-se a fome que forma, ao lado da escassez de saneamento, transporte e habitação, uma válvula de pressão e opressão permanente contra aqueles que ganham até um salário mínimo. Uma faixa que reúne também aqueles que nem o mínimo recebem por mês. Por tudo isso, ratifico, o terceiro homem para as urnas de 2022 evaporou-se no meio da multidão.

Mourão e Braga Netto esvaziaram o voto impresso e Bolsonaro ficou isolado em sua ameaça

Charge do Iotti (gauchazh.clicrbs.com.br)

Pedro do Coutto

Em matéria de política, os fatos concretos, como se verifica ao longo da história universal, predominam sobre as versões e primeiras impressões, além de permitirem uma análise transparente baseada na visão não só do fato, mas da percepção quanto ao conteúdo do acontecimento.

Reportagem de Evandro Éboli e Daniel Gullino, O Globo deste sábado, destaca bem a sequência do episódio lançado numa reportagem do Estado de S. Paulo de quinta-feira, publicando uma iniciativa do ministro da Defesa de através de um interlocutor ter pressionado o deputado Arthur Lira, presidente da Câmara, no sentido de conduzir a Casa a aprovar o voto impresso.

AMEAÇA – A mensagem dava andamento aparente à ameaça feita pelo presidente Jair Bolsonaro de que não haveria eleição em 2022 se o sistema do voto eletrônico, instituído em 1996, permanecesse no próximo ano. Tanto Braga Netto quanto Hamilton Mourão negaram que embora sejam favoráveis ao voto impresso, não haveria qualquer pressão neste sentido porque a solução depende exclusivamente do Congresso Nacional.

Os dois generais rechaçaram frontalmente a hipótese de suspensão  das urnas, destacando o respeito à Constituição do país, à democracia e à liberdade, instituições fundamentais. No artigo que publiquei ontem, acentuei que a minha leitura do episódio, depois do desmentido de Hamilton Mourão e Braga Netto, divergia da leitura da reportagem de Julia Chaib, Danielle Brant e Daniel Carvalho, Folha de S.Paulo.

DIVERGÊNCIA – Hoje, registro minha divergência ainda mais da leitura da edição de sexta-feira de O Estado de S. Paulo, publicado em reportagem não assinada, mas que destacava a reação de ministros do Supremo e do senador Rodrigo Pacheco contra a ameaça de Braga Netto.

Ontem, O Globo, ainda a reportagem de Evandro Éboli e Daniel Gullino, destacou.se ainda que na Comissão Especial que analisa o projeto do deputado Filipe Barros, 22 votos foram contrários à proposição e apenas 12 favoráveis. Mas no plenário, pelo que se lê nos jornais, a iniciativa não tem a menor possibilidade de êxito, sobretudo porque trata-se de Emenda Constitucional que necessitaria de 308 votos na Câmara, num total de 513, e de 54 votos no Senado, num total de 81 senadores.

A reação contra o voto impresso incluiu também o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, cujos argumentos, a meu ver, são incontestáveis e confirmados por 25 anos de eleições no país.

PAULO GUEDES  – O presidente Jair Bolsonaro anunciou na sexta-feira que vai recriar o Ministério do Trabalho e Previdência Social, retirando-o da esfera do Ministério da Economia de Paulo Guedes e nomeando para a nova pasta o deputado Onyx Lorenzoni.

Lorenzoni – destaca Geraldo Doca e Manoel Ventura, O Globo deste sábado – já começou a agir porque caberá a ele o controle das aposentadorias pelo INSS, das pensões, do Fundo de Amparo ao Trabalhador e do FGTS. Portanto, os atuais secretários do Trabalho e da Previdência Social, na realidade subministros de Paulo Guedes, serão exonerados, como é lógico que aconteça.

PRESENÇA DO CENTRÃO – Com a nomeação de Lorenzoni para o Trabalho e a Previdência cresce a presença política do Centrão no governo, principalmente ao que se refere à politização que passa a superar o extremo conservadorismo da equipe do atual ministro da Economia.

As correntes que apoiam Bolsonaro vão dirigir seus impulsos, já vitoriosos quanto ao Trabalho e a  Previdência, também para o Ministério do Planejamento. Assim, Paulo Guedes ficará somente com o Ministério da Fazenda. Ele, como disse diversas vezes, acumulava quatros pastas. Geraldo Doca e Manoel Ventura anunciaram também a troca no comando da Dataprev.
 
SELEÇÃO FEMININA  – Na manhã de ontem, a seleção feminina de futebol empatou com a Holanda por 3 a 3. Foi uma boa atuação e um bom resultado, aliás para ambas as equipes que, ao que tudo indica, se classificarão para as quartas de final.

O Brasil esteve melhor do que a Holanda na minha opinião, sobretudo a partir da metade do segundo tempo quando dominou o jogo e demonstrou um estado atlético superior ao do time holandês. A seleção de ouro feminina volta a campo na terça-feira. Enfrenta a Zâmbia em Saitama, enquanto a Holanda tem pela frente a China no Estádio Internacional de Yokohama.

Quando os leitores deste site, que são muitos, começarem a ler este artigo, estarei assistindo a seleção masculina do Brasil contra a Costa do Marfim, a partir das 5h30 da manhã, sintonizado na TV Globo. Aliás, somente a TV Globo, a SportTV e a BandSports transmitem os Jogos Olímpicos de Tóquio.

VITÓRIA NO CAMPO – Podem pensar que a equipe da Costa do Marfim é fraca. Para mim não tem importância tal argumento porque futebol se ganha no campo e eu sou vacinado contra derrotas pois estava no Maracanã em 16 de julho de 1950 e vi o Brasil perder a Copa do Mundo para o Uruguai.

Lembro bem que na véspera, sábado, torcedores na Cinelândia e em bares de vários bairros do Rio comemoravam antecipadamente a vitória. Um absurdo. Não se pode cantar vitória antes do tempo. A condição de favorito não quer dizer nada. O Brasil perdeu em 50. Outro exemplo, a Holanda e o seu famoso carrossel era franca favorita contra a Alemanha na final de 1974. A Alemanha saiu campeã.

PRESSÃO DA NIKE – Em 1998, com a direção da CBF, aceitando a estranha pressão da Nike, escalou Ronaldo Fenômeno apesar de ter sofrido uma convulsão na véspera do jogo. O treinador Zagallo deveria ter resistido pois sabia, como era de conhecimento de todo o time, que Ronaldo não tinha condições atléticas. Resultado: França 3 x 0.

Lembro que, para evitar confusão de datas, quatro anos depois, em 2002, Ronaldo Fenômeno faria os dois gols brasileiros contra a Alemanha, levando o Brasil à conquista da quinta taça do mundo. É o único pentacampeão e o único país a participar de todas as Copas do Mundo desde 1930. Vamos partir, se Deus quiser, para a sexta conquista em 2022. Amém, como lembrava sempre Nelson Rodrigues.

MARCEL PROUST – Eu disse no artigo de ontem que perguntaria à professora Ecila de Azeredo Grunewald, viúva de José Lino Grunewald, em quem votaria como autor do maior romance do século XX. Ela figura entre os intelectuais. Votaria em Marcel Proust por considerar o romance “Em busca do Tempo Perdido” a maior obra literária do século passado.

A pesquisa foi feita em diversos países e venceu “Ulysses”, de James Joyce, cuja primeira tradução brasileira foi feita por Antônio Houaiss. Carlos Heitor Cony me disse que votou em Proust. Ruy Castro também disse que votaria em Marcelo Proust por “Em busca do Tempo Perdido”.

Braga Netto e Hamilton Mourão vetam ameaças às eleições e Bolsonaro perde pontos no eleitorado

Charge do Amarildo (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O general Braga Netto, ministro da Defesa, e o general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, vetaram as ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro à realização das eleições de 2022, na hipótese de o Congresso não votar a Emenda Constitucional que transforma o voto eletrônico em  voto impresso, como ocorria no país até 1996.

O veto está direta e claramente exposto na medida em que o general Braga Netto nega que tenha utilizado um interlocutor para levar ao presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, a ameaça de que não haveria eleições caso o Legislativo não aprovasse o retrocesso proposto, fatalmente derrotado, sobretudo porque exige o apoio de 308 deputados e de 54 senadores.

REPÚBLICA DE BANANAS – O general Braga Netto mostrou-se favorável a um sistema que permita auditagem, hipótese já tornada viável pelo ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral. O general Hamilton Mourão fechou o círculo condenando as ameaças, embora se dizendo favorável ao voto impresso. Frisou, no entanto, que se o voto impresso não for aprovado as eleições não deixarão de se realizar. Mourão acrescentou:”É lógico que vai ter eleições. Quem é que vai proibir eleições no Brasil? Francamente, não somos uma república de bananas”.

Essa é a leitura que faço do episódio e que não coincide com a leitura da reportagem de Julia Chaib, Danielle Brant e Daniel Carvalho, Folha de S.Paulo de ontem. Na minha opinião, o veto às ameaças é o ponto central e nevrálgico da questão. E os dois generais manifestaram-se nesse sentido, como está na reportagem de O Globo, de Melissa Duarte, Mariana Muniz e Daniel Gullino.

Braga Netto afirmou: “O Ministério da Defesa reitera que as Forças Armadas sempre atuarão dentro do limite da Constituição. A Marinha, o Exército e a FAB são instituições nacionais, comprometidas com a sociedade, com a estabilidade constitucional do país, com a manutenção da democracia e da liberdade”.

URNAS ELETRÔNICAS – Por seu turno, o ministro Barroso sustentou: “Temos uma Constituição em vigor, instituições funcionando, imprensa livre, sociedade consciente e mobilizada em favor da democracia”. Voltou a dizer que tem feito uma defesa enfática sobre as urnas eletrônicas, sistema que tem sido alvo de restrições do presidente Bolsonaro. O projeto de retorno ao voto impresso vem perdendo força no Congresso, embora seja uma bandeira do governo.

O ministro Gilmar Mendes também se pronunciou contra a ameaça e o retorno ao voto impresso. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, manifestou-se acentuando que, seja qual for o modelo, a realização das eleições em 2022 não está em discussão. “Elas irão acontecer,  pois são a expressão da soberania do povo. Sem elas não há democracia e o país não admite retrocesso”, destacou.

O deputado Arthur Lira, apontado como tendo recebido a falsa informação atribuída ao general Braga Netto, desmente qualquer contato e nega também ter levado o assunto ao presidente da República. É claro, pois se não houve contato, ele não poderia levar um assunto que não aconteceu.

REPERCUSSÃO – No meu ângulo de visão, o episódio produziu uma consequência importante que foi a definição militar contra o impulso de Jair Bolsonaro. Provavelmente, o fato terá repercussão na caminhada marcada para hoje, sábado, na Avenida Paulista contra o atual governo do país.

Pelo artigo que Delfim Netto publicou na Folha de S.Paulo, na quarta-feira, classificando o governo de “politicamente acéfalo, inepto e incapaz” (afirmação literal), existe até a possibilidade de indiretamente parte da Fiesp apoiar a mobilização que ocorrerá inclusive em frente à sua sede.

MINISTÉRIO DO TRABALHO  –  Reportagem de Geraldo Doca e Daniel Gullino, O Globo, dá como certa a recriação do Ministério do Trabalho na próxima semana, decisão tomada pelo presidente Bolsonaro para tentar melhorar sua aprovação pública abalada como o Datafolha revelou, portanto com reflexos eleitorais relativos a seu projeto de reeleição nas urnas do próximo ano.

Há a possibilidade de um novo Ministério do Trabalho voltar a absorver o da Previdência Social e expandir a sua atuação no combate ao desemprego, fomentando a retomada de postos de trabalho, além de recuperar também a gestão do Fundo de Apoio ao Trabalhador e do FGTS. O caso do FGTS, entretanto, é mais complicado, pois ele sempre foi administrado e operacionalizado pela Caixa Econômica Federal.

DESCOMPRESSÃO – Jair Bolsonaro afirmou que de fato o Ministério do Trabalho vai absorver o da Previdência, o que dá uma certa descompressão nas tarefas do ministro da Economia, Paulo Guedes. Até este momento, como titular do Ministério da Economia, Paulo Guedes,  na realidade,  acumula as pastas da Fazenda, do Planejamento, do Trabalho, da Previdência Social, e ainda comanda o projeto de privatização das empresas estatais, como é o caso de Furnas, Chesf, EletroSul, EletroNorte e Eletrobras.

Na minha opinião, não existe no mundo ninguém capaz de realizar administração simultânea como essa porque exige um conhecimento profundo de todos esses setores. Além disso, há o fato de que limita a atividade e o esforço humano. Por fim, porque absurdamente o Trabalho e a Previdência Social tornaram-se meras secretarias sob o comando de Guedes, um nítido adversário das questões salariais dos assalariados e também favorável ao que chamo de “mão de tigre” do mercado. Lembro até uma velha frase política: “Quem monta um tigre não sabe quando pode descer”.

LULA PERDE PONTOS  Carolina Linhares, em reportagem publicada ontem na Folha de S.Paulo, aponta um estudo da empresa Quaest que atua na área de pesquisas na popularidade dos candidatos à Presidência no segmento digital. Lula, para a Quaest, perdeu 14 pontos no volume de notícias veiculadas online, consequência de seu apoio (a meu ver, um erro grave que cometeu) de apoiar o regime comunista de Cuba.

O índice de Bolsonaro era de 48 contra 43 do ex-presidente. No dia seguinte às declarações de Lula, favoráveis à ditadura cubana, seu índice caiu para 29 pontos e, no momento, está em 27 pontos.

Entretanto, verifica-se que sua força eleitoral registrada pelo Datafolha é de 46 pontos contra 25 de Bolsonaro. Deduzo que as manifestações digitais abrangem a classe média e os segmentos de renda mais alta, enquanto que em todos os grupos de menor renda o voto digital não influi na intenção de voto.

MARCELO PROUST – A editora Globo, revela Etienne Sauthier, relançou, inclusive no Brasil, a obra de Marcel Proust, “Em busca do tempo perdido”. Os dois primeiros volumes, “No caminho de Swann” e “À sombra das raparigas em flor” encontram-se nas livrarias.

Alguns anos atrás, penso eu que uns quinze, Carlos Heitor Cony me disse que havia sido feita uma pesquisa entre intelectuais de vários países sobre o maior romance do século XX. E o resultado apresentou em primeiro lugar “Ulysses”, de James Joyce, e, em segundo lugar, “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust.

Cony votou em Proust. Perguntei ao meu amigo Ruy Castro em quem ele votaria e ele disse que seu voto também iria para Marcel Proust. A mesma pesquisa no campo da poesia deu vitória disparada para “Terra Devastada” de T. S. Elliot. Como nas corridas, não houve sequer segundo lugar. A diferença de Elliot sobre qualquer um foi gigantesca. Vou perguntar hoje a minha amiga Ecila de Azeredo Grunewald, viúva de José Lino Grunewald, em quem ela votaria. Digo amanhã.

MELHOR ROTEIRO – O melhor roteiro com as horas dos jogos olímpicos está sendo publicado pela Folha de S.Paulo no caderno que trata da Olimpíada de Tóquio. Na edição de sexta-feira, a Folha publicou a programação do próprio dia, com os horários e as emissoras que iriam transmitir os jogos, além também da programação de sábado e de domingo.

Assim, os leitores podem se informar da melhor forma para saber todos os detalhes. Neste sábado, Brasil e Holanda no futebol feminino está sendo agora às 8h da manhã. No domingo, Brasil e Costa do Marfim masculino será às 5h30. Estarei lá, certamente,  diante da tela.

Oposições vão às ruas no sábado em mais uma ofensiva contra Bolsonaro

Charge do Erasmo Spadotto (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Joelmir Tavares na edição de quarta-feira da Folha de S.Paulo revelou em detalhes as ações das oposições ao governo Jair Bolsonaro, coordenadas por uma frente multipartidária que tem como projeto levar uma multidão à Avenida Paulista a partir das 16h30 de amanhã, sábado.

A organização quer reunir o PSDB, uma corrente do DEM, o PSOL, o PT, o MDB independente e o PSD, entre outras legendas descontentes com os rumos impostos ao país, inclusive sentindo a ameaça de golpe contra as eleições de 2022; golpe no qual seriam atingidos o Congresso e o próprio Supremo Tribunal Federal. A meta é congregar todas as forças comprometidas com a democracia e com o desenvolvimento social, condenando o desemprego e a política conservadora do ministro Paulo Guedes.

PREVENÇÃO – A saída partirá da Rua da Consolação  e terminará na Praça Roosevelt. O horário e o trajeto foram traçados para prevenir a ação de radicais da direita contra a passeata, colocando em risco a multidão que dela participará, a  exemplo da uma agressão ocorrida no último dia 3 e que abrangeu integrantes do PSDB. Trata-se da campanha nacional “Fora Bolsonaro” que responde pela organização dos protestos. Outras mobilizações serão realizadas também no Rio de Janeiro.

O comando do PSB informou  sua presença frisando que a política brasileira atravessa uma situação gravíssima. O coordenador da passeata pela Paulista, Marco Martins, revela acreditar que essa manifestação maciça na cidade de São Paulo levará à reabertura entre o quadro partidário democrático com o eleitorado brasileiro. Marco Martins acrescentou que a passeata terá também  a participação de bolsonaristas arrependidos.

PARTICIPAÇÃO DE CIROA manifestação abre uma perspectiva para Ciro Gomes, cuja candidatura como uma terceira opção foi lançada por Bruno Araújo, presidente nacional do PSDB. Ciro Gomes, cujo nome obteve uma relativa boa acolhida e foi destaque por Hélio Schwartsman, Folha de S.Paulo de quarta-feira, e por Bruno Bogossian na mesma edição, é o único candidato, na minha opinião, que dependendo de si próprio poderá levar as eleições de 2022 para o segundo turno.

Mas, para isso, terá que se fixar como um candidato contra Bolsonaro e não sintonizado com a candidatura Lula da Silva. A oportunidade de Ciro é essa, sobretudo porque em uma entrevista à Folha, também na quarta-feira, Lula disse não acreditar na viabilidade de uma terceira força.

Entretanto, Ciro tem a possibilidade de ultrapassar Bolsonaro no primeiro turno, já que a distância de Bolsonaro sobre ele, 25 a 8, segundo o Datafolha, é menor do que Lula sobre Bolsonaro, 46 a 25. Acredito que Ciro Gomes deva comparecer amanhã à Avenida Paulista. É a sua oportunidade de afirmação eleitoral.

CENTRÃO NA CASA CIVIL  –  O presidente Jair Bolsonaro, reportagem de Jussara Soares, Daniel Gulino, Julia Lindner e Manoel Ventura, O Globo desta quinta-feira, decidiu nomear o senador Ciro Nogueira para chefiar a Casa Civil do Planalto, substituindo o general Eduardo Ramos. Ciro Nogueira atuará na coordenação política, o que significa atender às reivindicações que se tornam mais amplas agora por parte da corrente política que ele representa.

Ciro Nogueira tem uma vocação para governista. Participou dos governos Lula, Dilma e Temer, como assinala a matéria de Daniel Carvalho, Júlia Chaib e Ricardo Della Coletta na Folha de S.Paulo. Na mesma edição, Renato Machado transcreve a exaltação de Ciro Nogueira a Lula e o seu ataque ao então deputado Jair Bolsonaro, chamando-o de “fascista”.

Um detalhe singular: a suplente de Ciro Nogueira no Senado é a sua mãe, Elaine Nogueira. E assim surge um caso inédito na história republicana brasileira. Mas tudo bem. A senhora Elaine é a suplente e, claro, assumirá o mandato de senadora.

PEGA PEGA Realmente leve na trama policial e no humor, com um ritmo que lembra produções do cinema americano, Pega pega, dos diretores Marcus Figueiredo e Luiz Henrique Rios, é saborosíssimo de assistir. Não faltam situações de suspense, de cooptação, de ação de um grupo de assaltantes, e uma participação em que Nanda Costa, extremamente sensual, e de corpo belíssimo, seduz o controlador da movimentação do hotel de luxo para que ele não perceba a ação dos assaltantes pelas dependências do prédio e a entrada e saída de quem se hospedava ou visitava o local.

Lembra o Copacabana Palace das décadas de 40,50 e 60, com seus belos cenários, o requinte de suas instalações, a finesse dos frequentadores do restaurante e da boate. No restaurante encontrava-se o ator Marcos Caruso que vendeu o hotel por US$ 40 milhões.

Caruso está excelente, a exemplo de Thiago Martins no papel de um garçom, integrante da quadrilha. No elenco feminino brilham também Vanessa Giácomo e Camila Queiroz. A polícia entra em ação, repetindo uma frase de Peter Sellers, no filme “A Pantera Cor de Rosa”, conduzindo uma investigação semelhante: “Todos são suspeitos”.

Brasil reencontra seu futebol livre e vistoso sem os esquemas táticos de Tite

Richarlison fez três gols no primeiro tempo contra a Alemanha

Pedro do Coutto

Foi uma bela vitória a da seleção olímpica masculina na manhã de hoje sobre a Alemanha, uma das equipes mais credenciadas do futebol mundial, em uma importante partida. A seleção olímpica do treinador André Jardine, é preciso acentuar, livrou-se dos esquemas táticos, gelificadamente rígidos, traçados por Tite que terminavam ampliando o tempo que a seleção de ouro levava para chegar à área adversária.

Além disso, o esquema de Jardine liberta os jogadores da perda de tempo com dribles repetidos, como é o caso de Neymar, expondo-se a marcações rígidas dos adversários pelo pouco espaço entre ele, os seus marcadores e a bola rolando. Com isso, Neymar sofre mais violência, consequência dele prender demasiadamente as jogadas, facilitando a marcação do time contrário. Mas esta é outra questão.

ARMAÇÃO LÓGICA – Há um ponto essencial na manhã de hoje: a armação lógica e simples de Jardine. Linha de três zagueiros, meio-campo com quatro, ofensiva de mais três, sendo Richarlison o mais adiantado de todos. Com isso, o autor dos três gols de hoje, que ficam na bela história do futebol brasileiro, encontrou o seu próprio estilo de atuar; na frente, revivendo o ponta de lança, exatamente onde se sente melhor e mais desenvolto.

Lembro da recente partida da seleção, sob o comando de Tite, se não me falha a memória na Copa América, em que identifiquei Richarlison defendendo muito próximo da bandeira de corner. Determinando que ele recuasse tanto, Tite esquece que a lógica indica que Richarlison não volte tanto, pois assim quando a defesa tomar a bola ele sairá em desvantagem na corrida para o contra-ataque.

OPORTUNIDADES – Na manhã de hoje, poderíamos ter vencido por margem maior de gols. Oportunidades não faltaram para o próprio Richarlison e para os seus companheiros de ataque. Entre as oportunidades, o pênalti perdido. Mas como dizia o meu saudoso amigo Nelson Rodrigues “todas as vitórias são santas” e esta de hoje propiciará mais confiança à nossa seleção olímpica.

Foi importante e com ela reencontramos o futebol de conquistas heróicas de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. No sábado, às 5h da manhã, a seleção feminina enfrenta a Holanda. Estarei diante da TV assistindo a mais um capítulo da história da bola.

Jornais desapareceram no tempo, enquanto suas edições online estão crescendo sem parar

Edições online ganham cada vez mais destaque ao longo dos anos

Pedro do Coutto

A leitura da explicação da Folha de S.Paulo de terça-feira, afirmando que fez uma revisão de sua política para a retirada e atualização de conteúdo na internet, me conduziu a escrever sobre uma comparação que há tempos pensei em escrever sobre os jornais impressos e os jornais online que têm a vantagem de estabelecer informações imediatas, mas não têm, a meu ver, o mesmo poder das edições impressas, pois estas permitem pausas maiores na leitura, o que conduz a melhores reflexões e, em consequência, uma percepção mais aprimorada.

Os jornais impressos, como é o caso dos quatro principais do país, a própria Folha de S. Paulo, O Globo, o Estado de S. Paulo e o Valor, influem consideravelmente na opinião pública, dando margem a um desenvolvimento cultural mais sólido exatamente pelo manuseio e leitura de suas diversas páginas. Quando digo cultura, falo em tudo que ocorre no mundo, tanto no campo político, quanto no plano econômico ou das artes em geral.

INFLUENCIADORES – Faço esse registro porque estamos em uma época na qual as pessoas que escrevem na internet apresentam-se e, surpreendentemente, são aceitas, como influenciadoras. Francamente, assim qualquer um pode se tornar influenciador, bastando que acrescente algo ao processo da verdade e da lógica.  Influenciadores são os quatros maiores jornais que se destacam na vida brasileira.

Mas a preocupação da Folha de S. Paulo revela a importância cada vez maior das edições online e o registro da existência cada vez menor dos jornais impressos. Ao longo dos últimos 60 anos, desapareceram o Correio da Manhã após o desastre de suas administrações a partir da saída de Luiz Alberto Bahia, o redator-chefe que entusiasmou a redação na qual trabalhei, além do Diário de Notícias, o Diário Carioca, O Jornal, Diário da Noite, Última Hora e finalmente para não alongar a lista, o centenário Jornal do Brasil. Em São Paulo ficou na névoa da estrada o Correio Paulistano. No Rio Grande do Sul desapareceu o Correio do Povo e na capital do país parece que desapareceu o Jornal de Brasília.

O fato que me preocupa é a perda de terreno das edições impressas, mesmo dos quatro grandes veículos, para as edições online. Tal processo implica na queda de um conteúdo que proporciona melhor informação e melhor análise aos leitores dos jornais de papel – papel também democrático – que permitem a leitura online, mas não conduzem a quem toma conhecimento dos fatos por esse meio a mesma profundidade de observação que registram as folhas tradicionais que nasceram no mundo com Gutemberg há 600 anos. Esta é a minha opinião e creio que uma reflexão conduzirá os leitores a espontaneamente concordarem comigo.

OBJETIVIDADE E CLAREZA – Entretanto, devo assinalar, os jornais impressos necessitam observar mais atentamente o fenômeno e selecionar textos com mais objetividade, clareza e, sobretudo, com mais elo com a realidade. Verifico muitas vezes, principalmente quanto aos artigos de colaboradores, uma falta de sentido mais concreto de seus temas e de suas palavras. O sentido mais concreto é aquele através do qual os jornalistas representam a própria sociedade do país. Seus problemas, anseios, vontade de perceber mais das coisas em consequência do foco em pontos nevrálgicos das questões.  

As reportagens dos quatro maiores jornais do país são infinitamente melhores que a maioria dos artigos, ressalvando os casos de Ruy Castro, Hélio Schwartsman, Elio Gaspari, Bernardo Mello Franco, Lauro Jardim, e Dorrit Harazim, entre outros. Na parte editorial, uma tradição da imprensa, os editoriais de hoje (opinião do próprio jornal) não se igualam aos editorialistas que viveram no passado, cujos estilos e vigor deixam saudade. Cito aqui Otto Maria Carpeaux, Franklin de Oliveira, embaixador Álvaro Lins, João Neves da Fontoura, JE Macedo Soares, Carlos Lacerda, Pedro Gomes e Hélio Fernandes.

FOCO – Atualmente, os melhores editoriais, principalmente o de alto de página, são os do Estado de S.Paulo. Não cito os autores,  pois não os conheço. Os editoriais devem ser focos das edições impressas, pois as opiniões nos laptops e celulares não alcançam o mesmo efeito.

Um editorialista tem o espírito e o impulso de um personagem de Alexandre Dumas (pai) que criou o personagem D’artagnan. O editorialista é alguém com uma espada ou florete na mão  que entra em cena para confrontar o poder. É preciso ter essa vibração, esse sentimento, para que alguém reviva hoje os mosqueteiros do passado.

LULA E BOLSONARO – Na edição de ontem da Folha de S. Paulo, o jornal publicou matéria sobre entrevistas de Lula da Silva e Jair Bolsonaro manifestando descrédito para a hipótese do surgimento de um terceiro candidato às urnas de 2022, como previu o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo.

Também, Bruno Bogossian, na Folha de S.Paulo, comentou o assunto, manifestando sua opinião sobre a possibilidade da terceira opção. Hélio Schwartsman, também no jornal, manifestou sua esperança, embora esteja voltada para a derrota de Jair Bolsonaro.

ESQUERDA BRASILEIRA – Em artigo na Folha de S.Paulo, Marcelo Coelho sustenta que o apoio ao governo de Cuba não acrescenta nada à esquerda brasileira. Afirma com razão: “Ditaduras e autoritarismos não são modelo para coisa nenhuma”.

Tem razão o autor. A esquerda brasileira há muito tempo não tem nada a ver com o comunismo que enfrenta a deterioração em Cuba, como aconteceu em uma série de países, sobretudo os da cortina de ferro. Ser de esquerda no Brasil, penso, é ocupar uma posição em favor de uma reforma social bastante ampla, não se conformar com o desemprego de 14 milhões de pessoas da nossa mão-de-obra ativa, de rejeitar o congelamento de salários.

Ser de esquerda é ter um pensamento cristão, é desejar uma reforma social que equilibre capital e trabalho, o que não aconteceu nos milênios da civilização humana. Dividir resultados não é dividir por dois como os conservadores tentam fazer crer. O produto bruto universal está entre US$ 120 bilhões e US$ 130 bilhões. Se 10% fossem destinados ao desenvolvimento social, a fome e a habitação já teriam sido resolvidas. Uma vergonha para todos nós.

SELEÇÃO FEMININA – Fascinado por histórias de bola, pela arte, pela técnica, pelo esforço físico e até pelo heroísmo dos atletas, não costumo perder um jogo importante de futebol. Ontem, por exemplo, às 5h da manhã estava diante da TV acompanhando a partida. O resultado de 5 x 0 não reflete o que foi o jogo até a metade do segundo tempo. Vencíamos por 2 x 0 e Galvão Bueno observou que a goleira Bárbara fez três defesas espetaculares e a China chutou três bolas na trave.

No segundo tempo, a China partiu para frente, perdeu o fôlego e sua defesa ficou vulnerável. Foi um jogo interessante até os seus 70 minutos. Hoje, quinta-feira,  estou à espera da partida Brasil e Alemanha do futebol masculino.

Semipresidencialismo revive a crise de Jango, enquanto Bolsonaro até admite não disputar reeleição

Charge do JCaesar (veja.abril.com.br)

Pedro do Coutto

O título deste artigo compara dois momentos de crise da vida política brasileira que, não sendo iguais, assemelham-se em matéria de clima e de atmosfera pesada. Em 1961, os ministros militares Odílio Denis, Silvio Heck e Grün Moss , nomeados por Jânio Quadros, voltaram-se contra a posse do vice, João Goulart, na Presidência da República por suas ligações com o sindicalismo e também por sua tolerância apontada com pequeno grupo de comunistas que já na época apresentavam-se cansados da influência de Moscou em suas condutas.

Mas, Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, liderava o movimento contra a investidura de João Goulart, e, portanto, impulsionava uma ruptura constitucional e um golpe de Estado no país. Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, e o general Machado Lopes, comandante do III Exército, opuseram-se tenazmente à investida golpista e reuniram apoio também de fortes correntes militares e da maioria esmagadora da população brasileira.

EMENDA CONSTITUCIONAL – Entretanto, vejam como é a história, foi aprovada às pressas, emenda constitucional implantando o parlamentarismo. No modelo adotado, Goulart era o chefe do Executivo, mas os seus decretos e projetos tinham que ser assinados também pelos ministros. Jango firmou acordo com a UDN que se afastou de Lacerda e recebeu três cargos na administração trabalhista.

Gabriel Passos no Ministério de Minas e Energia, Virgílio Távora nos Transportes e Afonso Arinos de Mello Franco embaixador do Brasil na ONU. O ministério não tinha nada de comunista, tanto assim que Moreira Salles era o ministro da Fazenda e Ulysses Guimarães o ministro da Indústria e Comércio. Para ficarmos nesses exemplos elucidativos.

Hoje, em 2021, o clima de 60 anos se repete com a iniciativa do Centrão, base de apoio parlamentar de Jair Bolsonaro, na colocação de um regime chamado semipresidencialista, mas que se assemelha ao parlamentarismo adotado há seis décadas. O presente da história reencontra-se com o passado no país. Pela emenda apresentada, nitidamente inspirada no Centrão, percebe-se a existência de forte crise nos bastidores do Planalto com reflexo na Esplanada e no horizonte de Brasília. Jair Bolsonaro ingressou numa faixa que aponta para uma nova tempestade. Motivos não faltam.

FORA DA DISPUTA – Reportagem de Ricardo Della Coletta, Daniel Carvalho e Danielle Brant, Folha de S. Paulo desta terça-feira, revela que, em conversa na porta do Alvorada ao anoitecer de segunda-feira, Jair Bolsonaro, dando como certa a derrota do voto impresso no Legislativo, chegou ao ponto de afirmar que poderá não disputar a reeleição em 2022 se for mantido o atual sistema de urnas eletrônicas. Sinal claro de uma crise que começa a ferver e uma das setas de sua rota aponta para uma avenida sinuosa de golpe militar. Isso de um lado.

De outro, Daniel Gullino e Jussara Soares, O Globo, destacam que o presidente da República deixou para trás os momentos de reaproximação com o Supremo Tribunal Federal através do ministro Luiz Fux, repentinamente abandonou a moderação e retomou os ataques ao STF e ao ministro Luís Roberto Barroso, também presidente do TSE.

“FRAUDE” – Bolsonaro afirmou que eleições não auditáveis são uma fraude. Nem disse “podem ser uma fraude”. Disse que já, por si, representam essa fraude. Incrível. Ele, inclusive, acusou Barroso de ter articulado com outros ministros do Supremo e com deputados federais para derrubar o projeto de emenda que prevê o retorno ao voto impresso. Como se vê, um destempero total e uma falta de lógica absoluta. Bolsonaro cria inimigos imaginários e os combate como se eles existissem e agissem contra ele em seu governo.

No O Globo de ontem, Merval Pereira, em sua coluna, condenou a proposição que um ano antes das eleições visa transformar no Brasil o presidencialismo em um parlamentarismo de fato como é adotado na França, de Macron. O presidente nomeia os ministros, pode vetar projetos de lei, nomeia o primeiro-ministro após aprovação pelo Congresso e o primeiro-ministro compõe o ministério à base de articulação política com as legendas partidárias. O Centrão parece inspirado pelo impulso de ampliar a sua participação no governo, além dos postos que ocupa.

Em junho, obteve a nomeação, por exemplo, de Clovis Torres para a Presidência de Furnas. Para Merval Pereira, o semipresidencialismo representa um golpe institucional. Para o Estado de S.Paulo, ao contrário, representa uma opção possível, de acordo com o seu editorial da edição de segunda-feira. Acrescenta, inclusive, que o modelo proposto segue o modelo francês e também o sistema que funciona em Portugal.

IMPEACHMENT – A pressão contra Bolsonaro, entretanto, comprovando a participação do Centrão, está no fato de o vice-presidente da Câmara Federal, Marcelo Ramos, do PL, ter anunciado que irá reunir os diversos pedidos de impeachment apresentados na Casa para avaliar a possibilidade de colocá-los em apreciação. Tal hipótese consta na reportagem de Camila Turtelli e Vinícius Valfré, Estado de S. Paulo de ontem.

Ramos não citou a posição do deputado Arthur Lira sobre o assunto, pois ao presidente da Casa compete desengavetar ou não os mais de 120 requerimentos encaminhados propondo a investigação e pelo menos o afastamento temporário de Jair Bolsonaro do Planalto. Na minha opinião, ficou no ar uma possibilidade de apoio por parte de Lira em face do seu silêncio até agora em relação ao tema.

Mas, nas redes sociais, Arthur Lira – completa a reportagem do Estadão – defendeu a solução semipresidencialista. Tem-se a impressão de que Bolsonaro mergulhou numa grave crise de poder em 2021 semelhante à tempestade que envolveu João Goulart há 60 anos. 

PSDB E CIRO –  Em longa e bem articulada entrevista a Gustavo Schmitt e Sérgio Roxo, O Globo de terça-feira, o deputado Bruno Araújo, presidente nacional do PSDB, afirma  que a legenda poderá abrir mão de candidatura própria ao Planalto nas urnas do próximo ano em nome da unidade do Centro, o que proporcionaria aos eleitores e eleitoras escapar da polarização que a meu ver prejudica o país, sobretudo em face do extremismo da direita.

Araújo acrescenta que não há condições efetivas para o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Porém, reconhece o declínio de seu governo e de sua aprovação popular. Na minha opinião, a alternativa proposta pelo presidente da legenda tucana só pode se concentrar no ex-governador Ciro Gomes, isso porque ele é o terceiro colocado na recente pesquisa do Datafolha, registrando oito pontos na preferência do eleitorado.

Araújo ressaltou, de outro lado, que João Doria enfrenta rejeição no próprio PSDB e, portanto, não pode ser a pessoa indicada. Assinalo, João Doria não renunciará ao governo de São Paulo para tentar candidatar-se ao Planalto no próximo ano. Ele pode se reeleger e esperar por 2026. Acredito ser difícil, porém não impossível, que Ciro Gomes chegue ao segundo turno, desde que consiga superar no primeiro o atual presidente da República.

DENSIDADE ELEITORAL –  A respeito da densidade eleitoral, li no O Globo de ontem, a carta da leitora Maria da Graça Cunha Fabor, na qual coloca em dúvida a força eleitoral de Lula, uma vez que o seu candidato na sucessão de 2018 perdeu por disparada para Bolsonaro. É verdade. Mas perdeu no segundo turno e recebeu no desfecho final 43% dos votos do país. O candidato era inexpressivo, fraco eleitoralmente, tanto que ao tentar a reeleição à Prefeitura de São Paulo não foi nem ao segundo turno.

Assim, a parcela de votos que recebeu foi toda produzida por Lula da Silva, que venceu duas eleições diretas e por duas vezes elegeu Dilma Rousseff. Não importa o desastre que levou ao impeachment, me refiro aos votos conseguidos nos pleitos. Para terminar, com base em uma experiência de 62 anos como jornalista que cobriu e analisou as eleições presidenciais desde a de JK em 1956, lembro que se Lula passou 43 pontos para Fernando Haddad, ele logicamente passará mais do que esse patamar pedindo votos para si mesmo.

O governo do PT, sob Dilma, foi um desastre, concordo. Mas a força eleitoral de Lula permanece. Apoio popular é uma outra coisa e isso está provado pelo Datafolha. A carta da leitora é muito boa em sua forma, mas o substantivo na realidade dos fatos não concorda com o adjetivo. Autor do livro “O voto e o povo” (1966), digo que não se pode afastar a emoção dos embates que decidem eleições. E acrescento que para chegar ao poder só existem dois caminhos, as urnas ou as armas.

FUNDÃO ESCANDALOSO – Bruno Góes, Evandro Éboli, Jussara Soares e Mariana Muniz, em excelente reportagem no O Globo de ontem, colocam em destaque o escândalo da aprovação do projeto que eleva o montante do fundo eleitoral de 2022 para R$ 5,7 bilhões, enquanto o mesmo fundo praticado nas eleições de 2018 foi de R$ 2,3 bilhões. Houve assim um aumento alucinado, superior a 100% em quatro anos, muito maior do que a inflação no período, que foi cerca de 23%.

O Congresso aprovou tal matéria e Bolsonaro, segundo os repórteres, sinalizou que a vetará. Porém não deu certeza absoluta. No episódio político surge um detalhe importante mesmo antes de Bolsonaro opinar; o vice Hamilton Mourão afirmou que o valor reservado ao fundo é exagerado e se fosse ele o presidente não teria dúvida em vetar o projeto. O desperdício de dinheiro público evita a realização de várias obras importantes em benefício da população do país.

Para alguns homens, a mulher é um objeto; eles espancam, agridem e são capazes até de matar

Agressores são covardes, alucinados e devem ser reprimidos

Pedro do Coutto

Na noite de domingo, o programa “Fantástico” da TV Globo apresentou uma reportagem de grande importância sobre as agressões que alguns homens praticam contra mulheres e que, com grande frequência, evoluem para espancamentos e assassinatos. São seres covardes, alucinados e capazes de matar. A média no Brasil, revelou a reportagem, chega a 900 casos por dia, o que significa, praticamente, que a cada hora verificam-se 40 episódios infelizes desse tipo no país.

A atitude desprezível tem que ser, e vem sendo, reprimida pela polícia e pelos setores ligados à Segurança. Mas é preciso considerar que o socorro sucede à agressão, ao crime. É imperativo criar condições para prevenir os acontecimentos e manter a integridade das mulheres vítimas de abusos e maus-tratos. Só uma campanha publicitária permanente poderá atingir o objetivo que a sociedade exige e aguarda com urgência. Não creio que a campanha zere esse tipo de comportamento que sucede inclusive sob várias formas, mas tenho certeza que reduzirá o montante de tais crimes imundos.

INCIDÊNCIAS – A campanha contra o fumo, por exemplo, há cerca de uns 20 anos, deu certo. Mas o problema de considerar a mulher um objeto não se restringe à violência e ao crime. É bem mais amplo. Apresenta incidências claras na música popular brasileira, no comportamento social e na insegurança que alguns homens têm em relação ao comportamento e a vontade de suas companheiras.

O ciúme é um exemplo. Fundado ou não, existe. Outro ponto que pode ser colocado e que representa um problema para um índice masculino elevado ocorre nas relações sexuais. O livro de Simone Beauvoir, “O segundo sexo”, escrito no final da década de 40, focaliza um ângulo da questão. Mas o ângulo parece partir de uma visão mais masculina do que autenticamente feminina.

Sugeri uma pesquisa sobre o assunto à psicóloga Soraya Lopes, amiga minha, para que fizesse um trabalho sobre a visão que a mulher tem de si mesma e do problema entre ela e o comportamento masculino. Na maioria dos relacionamentos entre o homem e a mulher, o primeiro preocupa-se mais com seu prazer do que com o prazer da mulher. Não leva em conta sequer o prazer conjunto.

EUCLIDES DA CUNHA – Esse tipo de comportamento incomoda muito as mulheres que veem nele algo incompleto. Mas há outros casos em que não há agressão à mulher, porém está implícito o sentido da propriedade. Exemplo disso é o episódio entre Euclides da Cunha, Dilermando de Assis e a esposa de Euclides, Ana Emília Ribeiro da Cunha, ocorrido em 1909.

Euclides da Cunha passara bom tempo no Nordeste cobrindo para o jornal Estado de S.Paulo a Guerra de Canudos. A série de reportagens, bastante longa, transformou-se no livro “Os sertões” que Antônio Houaiss considerava uma das grandes obras da literatura brasileira. Numa de suas vindas ao Rio deparou-se com uma criança recém-nascida, loira, a qual Euclides apelidou de “espiga de milho”. Dilermando de Assis era um homem loiro.

Algum tempo depois, Ana resolve abandonar Euclides da Cunha e residir com Dilermando de Assis no bairro de Piedade. Dilermando era tenente do Exército. Euclides então pede emprestado um revólver – vejam só – e vai até Piedade para matar Dilermando. Trava-se o tiroteio e Euclides da Cunha morre.

“DESEJO” – A TV Globo produziu uma excelente minissérie sobre o caso, intitulada “Desejo”. Os três principais atores, Tarcísio Meira, como Euclides da Cunha, Guilherme Fontes, como Dilermando de Assis, e Vera Fischer, como Ana Emília, tiveram um desempenho extraordinário. Para mim, o maior papel de Tarcísio Meira em toda a sua atividade na arte e também o melhor desempenho da carreira de Vera Fischer que aliou a personagem à sua extraordinária beleza que todos reconhecem. Guilherme Fontes, igualmente, fez um ótimo trabalho como Dilermando de Assis.

Sobre o episódio, a professora Walnice Nogueira Galvão desenvolveu uma tese acentuando a realidade que a distinguiu no conflito e na tragédia. Euclides da Cunha continuou a viver com Ana depois do nascimento do filho loiro. Mas não suportou a ideia de perdê-la quando ela foi residir com Dilermando de Assis. Euclides da Cunha, na minha opinião, tinha uma visão de propriedade de Ana, tanto que não levou em consideração a vontade de sua mulher na passagem para a condição de ex-esposa. Deixou nítido ao partir para o desfecho trágico que achava que eliminando Dilermando, ela voltaria para os seus braços.

EXEMPLOS NA MPB – Citei a música popular brasileira como exemplo de que homens consideram a mulher como um objeto próprio. A começar por “Ai, Que Saudades da Amélia”, de Mário Lago e Ataulfo Alves. No verso, em que o samba diz “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia / Aquilo sim é que era mulher”, não a classificou como “aquela”, mas como “aquilo”. Não bastante o ponto  em que diz que ela seria mulher de verdade por não ter vaidade própria e não somente pelo conformismo da fome.

Outro exemplo, na canção de Mário Lago e Benedito Lacerda, na canção “Número 1”, em que se diz “Satisfaz tua vaidade/ Muda de dono à vontade / Isso em mulher é comum / Não guardo frios rancores / Pois entre os teus mil amores / Eu sou o número um”.  Já na  música “Quem Há de Dizer”, de Lupicínio Rodrigues, no trecho em que a canção acentua “O cabaré se inflama / Quando ela dança / E com a mesma esperança / Todos lhe põe o olhar / E eu, o dono / Aqui no meu abandono / Espero morto de sono /O cabaré terminar”.

MOREIRA DA SILVA – E outro, desta vez “Subida do Morro”, de Moreira da Silva: “Na subida do morro me contaram / Que você bateu na minha nêga / Isso não é direito / Bater numa mulher / Que não é sua / Deixou a nêga quase nua / No meio da rua / A nêga quase que virou presunto / Eu não gostei daquele assunto / Hoje venho resolvido / Vou lhe mandar para a cidade / De pé junto”.

Em todos os eventos, praticamente, está destacado o sentido direto de posse, de disposição de um objeto. Mário Lago diz “muda de dono à vontade”. Lupicínio acrescenta “e eu, o dono”. Eis a prova da propriedade que está certamente presente em várias canções populares brasileiras em que o homem se queixa da mulher, omitindo a sua própria infidelidade.

EM DEFESA DE PAZUELLO –  O manto da fantasia é uma expressão do romancista Eça de Queiroz. Mas sem conhecer a literatura, Bolsonaro lança o manto da fantasia sobre Eduardo Pazuello, pois ao deixar o hospital em São Paulo o presidente da República disse: “Brasília é o paraíso dos lobistas. Todos pressionavam por vacinas. Muitas pessoas foram recebidas no ministério. O próprio traje do Pazuello, ele está sem paletó. Aquele pessoal se reuniu com diretor responsável por possível compra lá no ministério e na saída conversou. Agora, se fosse algo secreto, algo superfaturado, ele estaria dando entrevista ou estaria escondido no porão do ministério?”. Para Bolsonaro quem está gravando o vídeo revela que não tem nada a ver com propina. Lógica do presidente da República.

Na edição de ontem, da Folha de S.Paulo, Ruy Castro escreveu sobre o que classifica de “bolsononazismo”, uma forma de comportamento autoritário que incorporou no campo da guerra a expressão da tática alemã “blitzkrieg”, “a guerra-relâmpago, que pega a vítima alquebrada e a subjuga”. O motivo da “blitzkrieg” vinha do fato de a Alemanha não produzir, como até hoje não produz, 2% do seu consumo de petróleo.

A Segunda Guerra, assim, na visão de Hitler e dos generais nazistas, teria que ser rápida porque a Inglaterra e os Estados Unidos bloqueariam as compras de óleo no mercado internacional. Mas a máquina de guerra nazista deixou de funcionar principalemnte a partir de 1941. A Alemanha derrotada em 1945 foi dividida entre o país democrático e o país comunista. O muro de Berlim só foi demolido em 1989.

LULA PARA VICE  –  Na edição de ontem de O Globo, Miguel de Almeida, colunista do jornal, editor e diretor de cinema, colocou a hipótese de Lula da Silva desistir da candidatura à Presidência e aceitar ser vice de um nome que pudesse consolidar um centro de equilíbrio entre Jair Bolsonaro e o PT. A sugestão para mim é o resultado da ingenuidade, pois como um homem que lidera as pesquisas com 46 pontos aceitaria ser candidato a vice?

A política é muito mais complexa na prática do que na teoria e envolve uma grande soma de interesses, tanto os legítimos quanto os mais ou menos e até os ilegítimos. Aproveito para citar uma declaração de De Gaulle dirigindo-se à Sartre quando da revolta estudantil de 1968. Disse o presidente da França: “Sartre, política é uma ação firme e forte sobre objetivos claros e firmes. Algo extremamente complexo, mas cujas formulações têm que ser transparentes. Do contrário, a pessoa pode estar fazendo filosofia, mas não estará fazendo política”.

Digo, a política e a economia caminham juntas. Em momentos como os ocorridos nos governos Lula e Dilma, empresas aproveitaram-se em larga escala do envolvimento político. Não estou citando corrupção porque o Supremo Tribunal Federal surpreendentemente aceitou três anos depois as mesmas razões que os advogados de Lula haviam formalizado. Lula está totalmente reabilitado e é, de fato, o único candidato que na certa vencerá Bolsonaro em 2022.

ENXUGAMENTO –  O repórter Fernando Canzian, Folha de S. Paulo deste domingo, focaliza a fase inédita de enxugamento da máquina pública federal clássica no Brasil, que inclui ministérios, fundações e agências reguladoras, além de órgãos tradicionais como INSS, IBGE, Ibama e Incra.  A taxa de reposição de funcionários que se aposentam é a menor da série histórica. No último triênio, a média de servidores contratados foi de 11,6 mil novos servidores.

Atualmente, participam da engrenagem cerca de 208 mil servidores públicos estatutários. Em 2007, eles eram 333,1 mil, com direito a estabilidade e planos de progressão automática em suas carreiras, segundo dados do Painel Estatístico de Pessoal (PEP), do governo federal. Com a aprovação do teto de gastos, em 2015, a restrição de das contratações e congelamento dos vencimentos dos servidores no governo Bolsonaro, a diminuição no ritmo de aumento da despesa anual com os servidores se acentuou.

PERDA – O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), perdeu 30% dos servidores em sete anos, o Ibama, no mesmo período, perdeu 40% dos funcionários, e o INSS, registrou perda de 50%.Cláudio Hamilton dos Santos, economista do Ipea diz que a não reposição, agora, se explica pela expectativa de aprovação da reforma administrativa, “que possibilitaria contratar servidores com regras menos rígidas do que as atuais, que incluem estabilidade, salários iniciais elevados e progressões automáticas na carreira”.

Universidades e institutos técnicos federais têm atualmente 269,7 mil funcionários, mais do que a máquina pública federal tradicional (208 mil), que toca o dia a dia do país. Somando-se os funcionários da máquina pública clássica e os das universidades e institutos técnicos, o Brasil tem hoje 477,8 mil servidores permanentes na ativa.

Sobre a grande diminuição nas contratações nos últimos anos, Luís Cláudio de Santana, secretário de Comunicação da Condsef (Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal) diz que a digitalização da burocracia no serviço público não compensou a falta de servidores na maioria dos órgãos, e que novos concursos públicos deveriam ser realizados.

Pazuello envia explicação que piora sua situação e expõe ainda mais Elcio Franco

Fora da agenda, Pazuello negociou Coronavac pelo triplo do preço

Pedro do Coutto

O ex-ministro Eduardo Pazuello enviou uma explicação à Folha de S. Paulo tentando rebater o conteúdo da reportagem da última semana na qual foi acusado de receber falsos representantes da Sinovac e formar um compromisso de aquisição de 30 milhões de doses da vacina Coronavac ao preço de US$ 28 a unidade, preço incrivelmente absurdo.

O encontro foi gravado em vídeo e exibido pela GloboNews e pela TV Globo. O ex-ministro da Saúde, com sua resposta, entrou em conflito não só com o jornal, mas também com os fatos. No texto enviado à Folha de S. Paulo, Pazuello complica ainda mais Elcio Franco ao dizer que apenas compareceu ao final do encontro com os “representantes” da Sinovac por informação do ex-secretário geral.

ALERTA – Em seguida, Pazuello declarou ter sido alertado por assessores sobre a exorbitância do preço da vacina e o surgimento de dúvidas sobre a realidade dos personagens presentes, inclusive o tal de John, líder do grupo. Como se observa, confirmou-se toda a reportagem da Folha, permitindo ao jornal voltar ao assunto numa matéria de grande destaque publicada na edição deste domingo.

Literalmente, Eduardo Pazuello afirmou que enquanto foi ministro da Saúde em momento algum negociou a aquisição de vacinas com empresários, fato, disse ele, que já havia sido reiterado no depoimento à CPI da Pandemia e em outras instâncias judicantes. A afirmação está assinada pelo próprio ex-ministro da Saúde. A afirmação certamente deixará o senador Omar Aziz à vontade para reconvocá-lo, o que sucederá em agosto, após o recesso parlamentar.

Pazuello, encaminhou à Folha uma notificação extrajudicial pedindo o direito de resposta através da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência. A Folha negou o direito de resposta, mas publicou o texto do ex-ministro na edição de domingo. A Secretaria de Comunicação do Planalto informou que a mesma solicitação foi feita ao O Globo e à CNN. Quanto ao O Globo, não vi o tema ser tratado na edição de ontem.

DIFERENÇA DE PREÇOS – Apesar de Pazuello ter feito uma afirmação no vídeo, ele disse à Folha que a encomenda não prosperou. Mas isso porque foi alertado por assessores quanto à gigantesca diferença de preços e também pela sombra que envolveu a legitimidade da representação do grupo liderado por John, um homem de traços asiáticos, cujo sobrenome, não sei o motivo, não veio a público.

A Folha de S. Paulo publica na reportagem deste domingo uma frase do próprio ex-ministro que é a seguinte: “Saímos daqui hoje (da reunião) com o memorando de entendimento assinado e com o compromisso de celebrar no mais curto prazo o contrato para podermos receber essas 30 milhões de vacinas”

Pazuello disse ainda ter sido informado a tempo que a proposta de John não era fidedigna e o preço extorsivo. Imediatamente, acrescentou, “cancelei o memorando de entendimento e determinei a suspensão da iniciativa”.

GRILAGEM – No espaço que ocupa brilhantemente no O Globo, Míriam Leitão, ontem, abordou frontalmente o desastre do governo na questão ambiental, incluindo a tramitação de um projeto que anistia até o grileiro, hoje e no futuro.

A meta dos grileiros é atingir áreas indígenas. Míriam Leitão cita a antropóloga Luisa Molina, autora de um estudo sobre o garimpo ilegal em áreas dos índios no alto e médio Tapajós. O fato é que os que defendem o meio ambiente conseguiram se ver livres de Ricardo Salles, mas se encontram ainda sob a ameaça da grilagem que pode se tornar até legal, embora seja ilegítima.

O crime ambiental organizado está ganhando espaço com vinculações tanto com o tráfico de drogas, quanto com o tráfico de armas. Os grileiros hoje na Amazônia sentem-se até protegidos.

IMPÉRIO –  Os leitores já devem ter notado que vez ou outra faço alguma observação sobre momentos envolvendo programas de TV. Achei saborosíssimo o diálogo na novela Império, no último sábado, entre o ator Roberto Bonfim e a atriz Cris Vianna.

Bonfim está perfeito como presidente de uma escola de samba. Terno branco, correntes descendo do pescoço, gestos e inflexões características. A atriz Cris Vianna passa toda sua sensualidade aos espectadores e projeta toda beleza do seu corpo e de sua face. Espero que os próximos capítulos contenham mais cenas que incluam ambos.

Pazuello e Elcio Franco decretaram a fase final do governo Jair Bolsonaro

Pazuello se reuniu com “intermediários” que ofereceram Coronavac

Pedro do Coutto

As reportagens da GloboNews e da TV Globo na noite de sexta-feira, e da Folha de S.Paulo, do O Globo e do Estado de S.Paulo deste sábado, revelam um episódio totalmente escandaloso ocorrido na gestão do ex-ministro Eduardo Pazuello, no gabinete do seu diretor imediato Elcio Franco, quando receberam pessoas que se apresentaram como intermediários da Sinovac, empresa chinesa produtora da vacina Coronavac, com a oferta 30 milhões de doses ao preço de US$ 28 a unidade, preço praticamente três vezes superior ao dos demais laboratórios produtores do imunizante.

Um empresário chamado apenas de John, de aparência asiática e falando com sotaque chinês, apresentou-se como parceiro da World Brands. Ao receber uma ligação de Constança Rezende e Mateus Vargas, autores de reportagem publicada ontem pela Folha de S.Paulo, desligou o telefone, cortando a ligação. Os repórteres perguntaram então ao Ministério da Saúde quem participou da reunião e através de quem foi agendada. Não obtiveram resposta, mas conseguiram a reprodução da reunião em vídeo, o que permitiu constatar que o encontro foi no gabinete de Elcio Franco.

CURTO PRONUNCIAMENTO – Pazuello só chegou nos 10 minutos finais, quando fez curto pronunciamento agradecendo a John e aos que acompanharam o personagem. O tema obteve também grande destaque no O Globo e no Estado de S.Paulo. No O Globo a reportagem é de Natália Portinari e Jussara Soares. No Estado de S. Paulo, de André Shalders e Lauriberto Pompeu. Todos os três jornais, os mais importantes do país, destacaram o triplo do preço proposto por aqueles que se apresentaram como representantes comerciais.

A Folha de S.Paulo sustenta que a reunião foi marcada pelo ex-diretor Elcio Franco, que recebeu o grupo em seu gabinete no Ministério. Um dos aspectos focalizados refere-se a uma afirmação anterior do presidente Jair Bolsonaro quando disse que não compraria a vacina chinesa mesmo quando a Anvisa desse aval para o uso. “Da China não compremos”, frisou.

Depois, o presidente da República aceitou a vacina chinesa. Entretanto, a reunião dos personagens liderados por John foi realizada, conferindo-se as datas, após a afirmativa de Bolsonaro em relação à China, acompanhado na ocasião pelo então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Portanto, o Ministério da Saúde estava negociando a vacina chinesa num espaço de tempo em que a sua aceitação colidia com a posição do Planalto.

SEM AUTORIZAÇÃO – Mas essa é outra questão. Natália Portinari e Jussara Soares no O Globo, além de ressaltarem o preço absurdo da unidade, recordam que a World Brands, sediada em Santa Catarina, e que atua no comércio exterior, na realidade não possuía autorização da produtora chinesa Sinovac para representá-la em qualquer transação. Agravando o panorama, o diretor-presidente do Butantan, Dimas Covas, afirmou à GloboNews que as negociações com a China são exclusivas do instituto, como ficou patente  no recebimento das unidades que já foram aplicadas em diversas regiões do país, a exemplo do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Finalizando o encontro, Eduardo Pazuello afirmou: “Saímos daqui hoje já com memorando de entendimento assinado e com o compromisso do ministério de celebrar, no mais curto prazo, o contrato, para podermos receber essas 30 milhões de doses no mais curto prazo possível para atender a população”.

O ex-ministro da Saúde sustentou também na CPI da Pandemia que a compra da Coronavac seria feita diretamente com o governo chinês. Após a gravação, parte da equipe de Pazuello pediu que os empresários não compartilhassem o vídeo feito por meio do aparelho celular de John.

ALERTA – Um dos assessores do general teria alertado o então ministro de que a proposta era incomum, acima do preço, e a World Brands poderia não ser representante oficial da empresa chinesa que fabrica a vacina. O preço anunciado por John ultrapassava até o preço de US$ 15 da Covaxin, já considerado um absurdo, cujo contrato foi suspenso por suspeita de irregularidades. O fato de o contrato ser suspenso significa que ele existia.

O Globo procurou a direção da empresa em Santa Catarina e o seu sócio José Tomaselli, mas não obteve resposta. O Estado de S. Paulo informa que o presidente da CPI, senador Omar Aziz, analisará os documentos e convocará Eduardo Pazuello a comparecer à Comissão para esclarecer os fatos.

PACHECO –  Numa entrevista a Bruno Boghossian e Renato Machado, Folha de S. Paulo de ontem, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, rebate a ameaça de Bolsonaro às eleições, afirmando que o risco à democracia deve ser eternamente vigiado, afastando-se pensamentos concretos que possam representar uma ruptura.

Como é público, Bolsonaro ameaçou a realização das eleições de 2022 caso o Congresso não aprovasse uma emenda constitucional, substituindo a votação eletrônica pelo voto impresso. Pacheco ressaltou que a declaração de Bolsonaro deve estar sujeita a uma retificação, o que significa que, em sua opinião, ele deve rever o erro para que não seja incluído como um propulsor de retrocessos ao silenciar-se quanto às manifestações de adeptos seus que defendem a intervenção militar e a volta do Ato Institucional nº 5.

Para Pacheco, ainda, as tensões que abalam o governo, principalmente no Ministério da Saúde, estão sendo superadas. O presidente do Senado, entretanto, acrescentou que a ameaça de ruptura é inaceitável  e quanto a questão do Ministério da Saúde, os envolvidos na teia de suspeitos devem esclarecer seus atos à CPI presidida pelo senador Omar Aziz.

TV GLOBO –  Reportagem de Julio Wiziack, Folha de S. Paulo, revela que o governo perdeu terreno no Cade na ofensiva que havia iniciado contra a TV Globo com a troca de Alexandre Barreto na Presidência, substituído  por Alexandre Cordeiro de Macedo, que assumiu a Presidência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica na segunda-feira.

Macedo assumiu também a Secretaria Geral que recebe e analisa todos os processos que chegam ao Cade. O mandato de Alexandre Barreto chegou ao fim por ter completado o tempo exigido de permanência. Em dezembro, a TV Globo foi impedida de exigir exclusividade em contratos de publicidade aos quais oferecera descontos, como é praxe no mercado dependendo do volume das mensagens. Essa exigência do Cade teria partido da inspiração do senador Ciro Nogueira, bolsonarista, apontado como o autor da indicação de Alexandre Barreto.

Barreto havia sido chefe de Gabinete do ministro do TCU Bruno Dantas, que o governo considera aliado de Renan Calheiros, relator da CPI da Pandemia. Barreto ganhou a simpatia do Planalto ao apresentar soluções para a crise dos combustíveis, ao fechar um acordo com a Petrobras para a venda de refinarias. Tinha bom relacionamento com o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, em razão do arranjo definido pelo Cade que levou à abertura do mercado de gás natural.

MEDIAÇÃO – Além disso, Barreto se tornou próximo do ex-ministro da Justiça André Mendonça e do presidente  do Banco Central, Roberto Campos Neto, depois de apaziguar um conflito histórico entre Cade e autoridade monetária na análise de casos do setor financeiro.

Sua recondução era dada como certa até a entrada em campo da conselheira Paula Farani Azevêdo para disputar a Secretaria Geral. Filha do ex-presidente da OMC Roberto Azevedo, Farani realizou trabalhos junto ao ministro-chefe da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, e com a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda.

NOVA POLÍTICA – Um dos fatos que entrou em debate no Cade, mas que acho não ter cabimento, é a nova política da TV Globo de não renovar contratos de exclusividade de artistas. A emissora mantinha artistas à disposição no Projac pagando mensalmente pela exclusividade, mas de 2019 para cá a Globo resolveu remunerar somente os atores e atrizes por trabalhos realizados na emissora.

Paulo Farani Azevêdo manifestou-se a favor da TV Globo no caso desses contratos de trabalho, cuja modificação é perfeitamente legítima. Mas na política as nuvens mudam de direção e forma incessantemente, frase do senador Magalhães Pinto. Bolsonaro chegou a pensar em enviar um projeto ao Congresso proibindo a TV Globo de conceder bônus às peças publicitárias, o que contraria a prática normal  da publicidade.

DICIONÁRIO HOUAISS – O dicionário que leva o nome do grande intelectual Antônio Houaiss, tradutor de Ulysses, de James Joyce, membro da Academia Brasileira de Letras e muito saudoso amigo, deixou a sua marca eterna na cultura e na sociedade brasileira. Antes do dicionário, Antônio Houaiss dirigiu a elaboração da Enciclopédia Delta Larousse, de cujo trabalho participei como autor dos verbetes políticos da história do país, no período de 1930 a 1969, quando a Delta-Larousse chegou às livrarias e à memória nacional.

Antônio Houaiss  era um diplomata de carreira, chegou ao posto de embaixador, teve os direitos cassados pela estupidez do Itamaraty em março de 1964, e então foi editorialista do Correio da Manhã, onde o conheci e nos tornamos amigos, almoçando pelo menos duas vezes a cada mês.

HONRA – Hoje, ao relembrar a sua imagem e a sua obra eternamente assegurada por Mauro Villar, que aos 82 anos ainda tem um amplo período de existência pela frente, sinto a honra de ele e eu termos assinado em conjunto a autoria do livro “Brasil: o fracasso do conservadorismo”.

A obra de Houaiss é imensa, marcada por pontos altos da inteligência e da cultura. Lembro que um dia almoçamos no Rio Minho, restaurante próximo à Praça XV com Gerardo Mello Mourão, único brasileiro condenado à morte a partir da República, pelo Tribunal de Segurança do governo Vargas que funcionava na Avenida Oswaldo Cruz, exatamente onde hoje está a Escola Darth.

ANISTIA – Mello Mourão era também um intelectual, mas cujo passado foi manchado por sua participação no Integralismo de Plínio Salgado, sigla que professava o nazismo e o fascismo.  Mello Mourão não foi incluído na Lei de Anistia assinada em abril de 1945 por Vargas, que convocava também as eleições de 2 de dezembro, vencidas pelo general Eurico Dutra, com apoio de Vargas.

Leio na entrevista de Mauro Villar, em forma de depoimento a Mariana Rosário, que ele é a única pessoa que tem responsabilidade de incluir novas palavras no banco de dados do grande dicionário Houaiss. O problema de atualização de dicionários e enciclopédias somente ser feita por computador, não existe outro meio. O próprio Houaiss me disse uma vez que tinham sido tentadas algumas formas de atualização, mas nenhuma se tornou viável.

RESPONSABILIDADE – A responsabilidade de Villar, sobrinho de Houaiss e também intelectual, é imensa, sobretudo para si próprio. Um home aplicado intensamente nos trabalhos que executa. Participou inclusive da elaboração da Delta-Larousse.

O dicionário Houaiss é considerado o mais completo editado no Brasil, inclusive porque focaliza o peso das palavras em contexto diversos, o que assinala a pluralidade de interpretações e adaptações de vontade dos textos em que estão presentes. Num dos últimos almoços em que estive com ele, sugeri que dirigisse dois trabalhos: o de identificar na realidade significados mais profundos do que os aparentes na literatura e nas letras da música, e nas imagens de pinturas famosas.

Além disso, que comandasse uma análise  focada em lentes de cristal sobre os textos bíblicos, abrangendo o Velho Testamento e o Novo Testamento, o primeiro judaico e o segundo cristão, e comparasse as redações com a categoria de autores conhecidos pelos seus nomes. Ele gostou da ideia que fascina pela aparente contradição entre o nível cultural atribuído aos autores e a sofisticação dos textos.

Paulo Guedes induz Bolsonaro a explodir INSS e FGTS, além de aumentar o desemprego

Bolsonaro aparenta não ter ideia dos efeitos que MP provoca

Pedro do Coutto

Redigido pelo ministro Paulo Guedes, um conservador e ator da concentração de renda, o presidente Jair Bolsonaro enviou Medida Provisória ao Congresso renovando o corte da jornada de trabalho e dos salários proporcionalmente, além de reduzir direitos trabalhistas sob o pretexto de gerar vagas no mercado de trabalho.

Bolsonaro provavelmente assinou há uma semana a MP sem ler e não prestou atenção no texto e nos efeitos que provoca. Por exemplo, altera pelo prazo de três anos dispositivos da CLT que determinam o desconto das empresas e dos empregados com o INSS e das empresas com o FGTS. O Ministério da Economia deu o nome, classificações sofisticadas não faltam, de Regime Especial de Qualificação e Inclusão Produtiva, frisando bem de que não se trata de vínculo empregatício, mas (“falsamente”, digo eu) de qualificação profissional.  

CONSEQUÊNCIAS – Imaginem o que vai causar o dispositivo que limita a remuneração por tais circunstâncias a R$ 1100 por mês acrescidos (realmente incrível) de um bônus pago pelo próprio governo no valor de R$ 275. O bônus, eis aí outra farsa, é qualificado de Bônus de Inclusão Produtiva (BIP). Esse tipo de contratação reduz a alíquota do empregador com o FGTS entre 6% a 2%, não mais 8% mensais, dependendo do porte da empresa. Qual será o critério, pergunto, para classificar a categoria da empresa ?

Além disso, de acordo com a MP, esse tipo de admissão ao emprego restringe-se aos jovens de 18 a 20 anos e de quem tem mais 55 anos sem vínculo empregatício. Como se constata, o governo aparece subvencionando parte do encargo salarial atribuído ao empregador. Uma intervenção que pode se chamar de antisestatal.

Vejam só, se o desemprego já está em 14% da mão-de-obra ativa brasileira e com uma redução das contribuições para o INSS e para o FGTS, como está na reportagem de Geraldo Doca, Gabriel Shinohara e Sthefanie Tondo, O Globo de ontem, é claro que as empresas darão preferência aos jovens e aqueles que têm mais de 55 anos.

ENCARGOS – Vai contribuir pelo menos para a manutenção do desemprego atual porque para os empregadores significa grande diminuição de encargos para empregar pessoas com salário mínimo e mais um bônus complementado pelo próprio governo que assim cria mais uma despesa para si próprio.

Impressionante a atuação do ministro Paulo Guedes e de sua equipe de PHDs que não possuem a menor sensibilidade social, mas querem aumentar ainda mais os lucros das classes patronais. Custa a crer que o presidente Jair Bolsonaro possa ter assinado um projeto desses, de amplos reflexos negativos para ele junto ao eleitorado do país. Na Câmara, o relator é o deputado Christino Áureo do Rio de Janeiro.

O vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos, disse que os deputados discordam de diversos pontos da mensagem. O próprio Marcelo Neri, diretor do centro de estudos FGV Social, afirmou que é preciso cuidado para não se criar empregos precários e desempregar outros grupos que exercem empregos efetivos.

ROTEIRO DE INTERNAÇÃO – Reportagem de Adriana Dias Lopes, Bianca Gomes, Daniel Giulino, Dimitrius Dantas, Jussara Soares e Marina Muniz, O Globo, revela o roteiro da internação do presidente Bolsonaro no Vila Nova Star, em São Paulo, e informa que ele melhorou, já retirou a sonda estomacal e está despachando com membros de sua equipe.

Recebeu duas visitas do general Augusto Heleno e numa foto que acompanha a matéria aparece assinando documentos ao lado de Célio Faria Júnior, chefe do Gabinete Presidencial. Jair Bolsonaro não pretende se licenciar do cargo, o que significaria investir no general Hamilton Mourão na Presidência da República. Para Ricardo Della Coletta e Matheus Teixeira, Folha de S. Paulo, Bolsonaro só deve pensar em licença se a operação no abdômen for necessária.

GOLPE DE TRUMP – Reportagem de O Globo, redigida em Washington, publicada na edição desta sexta-feira, revela que o general Mark Milley, chefe do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, mobilizou o alto comando militar e elaborou um plano contra tentativa de Donald Trump de partir para um golpe objetivando impedir a posse de Joe Biden e assumir o país como autoridade máxima.

Tais informações importantíssimas estão contidas em um livro dos jornalistas Carol Leonnig e Philip Rucker, do Washington Post, cujos trechos foram obtidos pela CNN americana. O livro será lançado em Washington na próxima terça-feira. A meu ver, serve de exemplo para o alto comando militar brasileiro.

DRICA MORAES – Assistindo a reapresentação da novela Império na TV Globo, na noite de quinta-feira, chamou atenção o extraordinário desempenho da atriz Drica Moraes vivendo uma personagem atacada por um bandido em busca de um pedaço de diamante. A atuação prolongou-se por mais de 20 minutos e foi realmente espetacular, a meu ver, as passagens da fisionomia da atriz de acordo com as situações que vivia nesse espaço de tempo.

Excelente também, sem dúvida, a direção imprimida ao que se pode chamar concretamente de uma cena de filme de suspense. No elenco, destacam-se também Lília Cabral e Othon Bastos, inspirado num personagem vivido por Erich von  Stroheim como mordomo da Gloria Swanson em “Crepúsculo dos Deuses”. O título em português para mim é melhor do que o título em inglês, que é apenas “Sunset Boulevard”, um bairro de Los Angeles.

Militares não apoiam o golpe, que no fundo atingiria também o vice Mourão

Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Analisando-se tanto o panorama quanto o clima nacional desenhados pela atuação do presidente Jair Bolsonaro, chega-se à conclusão lógica e inevitável que os militares não podem e sequer vão apoiar qualquer tentativa de golpe contra a democracia e que transformaria Bolsonaro no imperador do país, abalando o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, objetos de manifestações contra o regime realizadas na Esplanada de Brasília.

Tais atos revelam o risco de o governo isolar-se, além de promover a queda do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República. A posição de extrema-direita já foi testada ao longo da história como a que colide em cheio com a maioria esmagadora da população brasileira e também contra os princípios que nortearam a presença heróica da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália contra o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler. Terminada a guerra, as Forças Armadas afastaram Getúlio Vargas do poder depois de uma longa ditadura que começou em novembro de 1937 e terminou em 29 de outubro de 1945.

CONTRA A DITADURA – Além do impulso para restabelecer a liberdade, a opinião pública, nela incluída os militares, destacava como um dos motivos o fato de as forças brasileiras terem lutado contra a ditadura do eixo nazifascista e dentro do país viver-se num regime ditatorial.

A ditadura de Vargas estava inclusive abalada tanto pela entrevista de José Américo de Almeida, que era um dos candidatos para a eleição que não houve em 1938, ao repórter Carlos Lacerda do Correio da Manhã. A temperatura do clima nacional subia e Vargas, em abril, assinou a anistia e convocou eleições para 2 de dezembro. A reportagem de Carlos Lacerda foi publicada na edição do Correio da Manhã no mês de fevereiro.

Mas havia um impasse, o movimento queremista que visava permitir que Vargas se candidatasse a presidente da República. A Vargas, entretanto, foi permitido que se candidatasse nas urnas de 2 de dezembro. A queda de Vargas por decisão do Exército em 29 de outubro foi a resposta à estrada de 15 anos de poder que separava a Revolução de 30 da redemocratização de 45.

REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA – É preciso assinalar, sobretudo para os mais jovens – estou no jornalismo há 62 anos – que o período de 1932 a 1937 havia sido democrático. Em 1930, Vargas chegou ao poder e não fixando eleições motivou a Revolução Constitucionalista  de julho de 1932. A data é comemorada até hoje pelo estado de São Paulo.

Vargas agia reflexiva e reativamente aos fatos. Sentindo a pressão de 1932, convocou as eleições de 1934. Foi a primeira no Brasil na qual a mulher começou a participar. Mas em 1937, Vargas fechou tudo e tornou-se ditador. Ele, em 1934, foi eleito presidente através de eleição indireta do Congresso. Esclarecidas as escalas cronológicas, Vargas retornou ao poder na vitória no pleito direto de 1950. Com exceção do Ceará, Vargas venceu em todos os demais estados do país, incluindo o Distrito Federal na cidade do Rio.

CANDIDATURAS – Em 2 de dezembro de 1945, a lei eleitoral permitia que pessoas pudessem se candidatar simultaneamente por vários estados para cargos diversos. Impedido de disputar a Presidência, Vargas candidatou-se a senador por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul e a deputado federal pelo Rio, por Minas Gerais, pelo antigo estado do Rio de Janeiro, por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul. Escolheu o mandato de senador pelo Rio Grande do Sul. Obteve essa votação fantástica sem sair de sua fazenda em São Borja.

Na cidade do Rio, para deputado federal, alcançou 114 mil votos num total de 330 mil eleitores. Era pequeno o eleitorado brasileiro em 1945. Não havia voto de analfabeto e o primeiro censo realizado pelo IBGE, criação de Vargas em 1940, revelou a existência de um analfabetismo de 56% da população adolescente e adulta. Uma outra história envolta na névoa do tempo e que se incorporou à memória nacional agora reativada por historiadores como Ruy Castro, José Murilo de Carvalho, José Honório Rodrigues, este já falecido.

FRAUDE – Na edição do O Globo de quinta-feira, a jornalista Malu Gaspar publica um artigo excelente focalizando o tema sobre os militares, as eleições e a fraude com a qual Bolsonaro ameaçou as eleições em 2022. O tema é sensível, mas as Forças Armadas não podem agir para implantar um golpe ditatorial no Brasil. Em primeiro lugar porque através do tempo estão comprometidas com a democracia.

Em segundo lugar, um golpe para implantar uma ditadura derrubaria também o general Hamilton Mourão, cujas posições essenciais, conforme ele próprio tem demonstrado, sintetizam a sua disposição de não embarcar no expresso extremista da direita. Se por outro motivo não fosse, também pelo fato de ser um dos atingidos pelo fantasma do golpe, que aliás transforma a ameaça num verdadeiro tigre de papel.

Relativamente à fraude, o argumento de Bolsonaro é absurdo. Já lembrei sobre a tentativa de fraude ocorrida em 1982 contra Leonel Brizola e a favor de Moreira Franco na disputa pelo governo do Rio de Janeiro. Não houve até hoje nenhum exemplo de fraude nas urnas eletrônicas. Além disso, a fraude só pode ser praticada por quem está no poder, é claro, e nunca pelas oposições. Pois essas, até pela razão de existirem, não possuem comando da máquina administrativa e, portanto, acesso à deturpação dos votos que tanto podem se destinar à reeleição quanto à vitória de uma oposição.

Aconteceu nos Estados Unidos na vitória de Joe Biden sobre Donald Trump e, conforme o Datafolha tem revelado, a provável vitória do ex-presidente Lula da Silva contra o próprio Jair Bolsonaro numa eleição que se projeta ser decidida no primeiro turno se os votos ocorressem hoje.

AMEAÇAS –  Um argumento contra qualquer golpe e a favor das eleições previstas na Constituição está no artigo de Delfim Netto, na Folha de S. Paulo de quarta-feira. Ele reflete a indústria e o comércio, como sempre representou quando ministro da Fazenda e ministro do Planejamento. Diz Delfim Netto.”É importante que as demais instituições da República respeitem a si mesmas e não se rendam ao baixo calão e às ameaças veladas como forma de agir e reagir, pois há um claro favorito para vencer o debate nesses termos…”

Verifica-se assim que a extrema-direita tem como destino ficar isolada no pleito de outubro de 2022, como sempre estará ela isolada na consciência democrática nos corações e mentes dos que querem viver em liberdade.

Com Mendonça, pastores querem unir Cristo, Tibério, Pilatos e Herodes Antipas

Pastores intercedem por Mendonça, “terrivelmente evangélico”

Pedro do Coutto

Pastores que lideram redutos eleitorais, acentuando suas condições de evangélicos, iniciaram uma ofensiva junto aos senadores no sentido da aprovação de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal como propõe o presidente Jair Bolsonaro. Os pastores políticos empenham-se, assim, por uma tentativa de unir figuras tão diferentes como as que separam Jesus Cristo do imperador Tibério, do governador Pôncio Pilatos, indicado pelos romanos, e Herodes Antipas, governador da Judeia, que dividia o palco dos acontecimentos com o procônsul Pôncio Pilatos.

Jesus Cristo nasceu 45 anos após a morte de Júlio César, apunhalado ao sair do senado romano. Jesus Cristo nasceu quando Augusto era imperador de Roma e morreu 33 anos depois, no tempo do imperador Tibério. Roma invadira a Judeia e ocupou o país. Impôs Pôncio Pilatos como governador, mas havia a questão religiosa. Indicou também o governador judeu, Herodes Antipas, filho do rei Herodes, que já havia caminhado para uma eternidade que não o recomenda como exemplo.

AVALISTAS – Os pastores que controlam redutos eleitorais afirmam-se como líderes evangélicos que endossam a indicação de Mendonça. São protestantes, de fato, o que melhor define a condição evangélica, pois os evangélicos são todos os cristãos que seguem o Novo Testamento e os evangelhos de Mateus, Marcos, João e Lucas. Mas essa é outra questão.

Os pastores que professam a religião na Igreja Universal ou nos templos mais próximos a Edir Macedo mobilizaram-se para que o Senado aprove Mendonça, segundo Bolsonaro, “terrivelmente evangélico”. Mas Mendonça enfrenta resistências. Um dos focos tem como protagonista Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).  O senador Omar Aziz, presidente da CPI da Pandemia, também se opõe ao nome indicado pelo presidente da República. Há resistências, inclusive porque, quando ministro da Justiça, Mendonça processou jornalistas e políticos por questões de opiniões.

De qualquer forma, o pastor Silas Malafaia cobra o apoio de Omar Aziz, que o conhece pessoalmente, lembrando surpreendentemente que a sua corrente possui mais de um milhão de membros da Assembleia de Deus no Amazonas. No caso, a cobrança acompanha uma ameaça nas urnas.

RESISTÊNCIAS – O líder da Igreja Sara Nossa Terra, Robson Rodovalho, também coloca a questão de apoio e de votos em contato com vários parlamentares na mesma linha de Silas Malafaia. Por seu turno, o presidente da chamada bancada evangélica na Câmara, deputado federal Cezinha de Madureira, procurou minimizar as resistências no Senado e disse que o fato de Alcolumbre não querer receber Mendonça era por estar ocupado no momento da solicitação. Cezinha de Madureira disse que conta com o apoio de senadores e senadoras e que trabalhará por mais votos favoráveis.

Bernardo Mello, O Globo desta quarta-feira, sustenta que, o que não deixa de ser uma surpresa, o senador Flávio Bolsonaro ainda não se manifestou favoravelmente a André Mendonça. A reportagem relaciona todos os posicionamentos de Mendonça quando ministro da Justiça e depois como advogado-geral da União. São posições fortemente conservadoras. Aliás, na minha opinião, a religião não é fator a ser acrescentado a quem é indicado para o STF. Estranho também o fato de Silas Malafaia e Robson Rodovalho terem lembrado que comandam bases eleitorais.

O título deste artigo relembra o meu livro “Cristo, o maior dissidente da História”. Dissidente do judaísmo e a maior figura da humanidade. Inclusive porque Jesus Cristo crucificado por Roma estabeleceu um corte na história, dividiu o tempo entre antes e depois Dele. Esta divisão é seguida por todas as demais religiões, nelas se incluindo a judaica, o islamismo e o budismo, para citar algumas que convergem para o encontro com Deus. A exemplo do pintor Michelangelo, na Capela Sistina, na imagem eterna de Deus estendendo a mão para tocar a de Adão e a de Adão estendendo-se para tocar a de Deus.

ELETROBRAS – Reportagem de Daniel Gullino, O Globo, revela que na noite da última terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro sancionou com vetos a Medida Provisória aprovada pelo Congresso, viabilizando a privatização da Eletrobras. Ela será privatizada através de aumento de capital com a colocação de ações na Bovespa. Todo o processo está previsto para ser implantado no primeiro bimestre de 2022.

O texto original da MP foi elaborado pelo ministro Paulo Guedes. Entre um dos pontos vetados encontra-se o artigo que proibia por 10 anos a extinção ou incorporação de Furnas, da Chesf, da EletroNorte e EletroSul que compõem o universo da produção de energia elétrica no país. Destaque para Furnas, responsável por 19% do abastecimento e 20% da transmissão da energia gerada por Itaipu. São assim 39% do mercado.

Ao que se refere à privatização através da compra de ações na Bovespa fica claro que não existe concretamente injeção de capital porque as ações são de propriedade das empresas que as adquiriram e que podem negociá-las a qualquer momento. O Ministério da Economia considera a operação necessária para que se realizem flexibilizações societárias.

APROVEITAMENTO – Outro ponto vetado foi o que permitia que empregados que vierem a ser demitidos no primeiro ano após a privatização deveriam ser aproveitados em outras estatais. A explicação foi de que violaria o princípio do concurso público e criaria incentivos indesejados. Falso.

Muitos dos funcionários de Furnas, da Chesf, da EletroNorte e EletroSul já foram admitidos através de concursos e outros são bastante anteriores à Constituição de 1988, admitidos dessa forma pela CLT. Aliás, a CLT é o regime aplicado a todos os empregados da Eletrobras. Há dirigentes da holding que ocupam cargos comissionados.

Completando o cardápio de vetos, acrescenta-se aquele que veta a obrigação de licença ambiental para a construção de linhas de transmissão, a exemplo do trecho Manaus-Boa Vista. A dispensa de licença ambiental abre caminho, como ficou patente na administração Ricardo Salles, a empreendimentos que se encontrem incluídos em áreas nas quais vierem a ser implantadas linhas de transmissão. Grande parte das obras previstas nos últimos cinco anos não foram realizadas, prevalecendo ou uma questão de falta de recursos financeiros ou de pura e simples inércia e incompetência.

REFORMA TRIBUTÁRIA – O relator da reforma tributária na Câmara Federal, deputado Celso Sabino, incluiu em seu relatório a extinção do vale-alimentação que as empresas, inclusive as estatais, destinam aos seus empregados.

A Associação Brasileiras de Empresas de Benefícios ao Trabalhador, entre as quais a Sodexo, Ticket e Alelo já começaram a protestar, mas na minha opinião, o protesto maior será o dos próprios trabalhadores pela perda de um direito instituído em uma lei de 1976. Existem dois tipos de vale, o que é aceito pelos restaurantes e o que permite a aquisição de produtos nos supermercados. É incrível que um deputado possa ter uma iniciativa dessa ordem.

MEIO AMBIENTE –  Renato Grandelle, O Globo, é o autor de uma reportagem, edição de ontem, revelando para perplexidade geral que o Ibama no momento só conta com 27% do número de servidores necessário para fiscalizar o desmatamento, a grilagem e os incêndios provocados na região amazônica e no Pantanal de Mato grosso.

Para Denis Rivas, presidente da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema), a um processo de desmonte do Ibama e do crescimento do enorme abate de árvores cujos troncos são negociados tanto no Brasil quanto através de exportações para outros países.

RACISMO – Torcedores ingleses inconformados com a derrota na final da Eurocopa para a Itália, em um atentado social, fixaram cartazes e fizeram caminhadas pelas ruas de Londres culpando Rashford, Sancho e Saka como responsáveis pela derrota do país.

O grande culpado da derrota foi o treinador inglês que colocou Rashford, Sancho e Saka em campo no final da prorrogação com a tarefa de bater os pênaltis. Um erro foi observado também por William Bonner no final do JN de segunda-feira. Os três atletas estavam frios, distantes do ritmo da partida. Por ação tácita foi atribuída a eles uma missão que abalaria o sistema nervoso de qualquer um. Foi o que aconteceu. Se parte da torcida inglesa desejava culpar alguém, que culpasse o técnico e não os atletas.

Fux conduz Bolsonaro a um patamar de compromisso com a democracia

Bolsonaro foi convocado após uma série de falas golpistas

Pedro do Coutto
 
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, procurou Jair Bolsonaro para um encontro de conciliação entre o Executivo e a própria Corte Suprema, já que por diversas vezes o presidente da República atacou e ofendeu integrantes do STF.  O objetivo que norteou a iniciativa de Fux foi o de reduzir o clima de fervura que tem envolvido os constantes choques entre os Poderes Executivo e Legislativo.

Porém, a meta incluiu também a condução de Bolsonaro a um patamar em que ele terá que recuar de sua ameaça de golpe e se pronunciar inevitavelmente a favor da democracia e da Constituição do país. Sim, porque numa reunião em que se exalta o regime democrático, o presidente Bolsonaro não poderia fugir de se comprometer verbal e publicamente com o compromisso institucional.
 
VOTO ELETRÔNICO – Isso de um lado. De outro, e abrangendo o respeito à Constituição, encontra-se a questão do voto eletrônico nas eleições de 2022 que se aproximam. O tema foi de grande destaque na Folha de S.Paulo, no O Globo e no Estado de S.Paulo, nas edições de ontem. Na Folha, foi assinada por Marcelo Rocha e Ricardo Della Coletta. No O Globo, Dimetrius Dantas e Jussara Soares. No Estado de S.Paulo, Weslley Galzo e Marcelo de Moraes.
 
O sistema eletrônico de votação está absolutamente consolidado. Tendo entrado em vigor nas eleições de 1996, nunca houve qualquer reclamação focalizando o resultado, a não ser o tema tardiamente levantado pelo próprio Bolsonaro de que teria vencido no 1º turno em 2018 e só não conseguiu devido a uma fraude. Mas como? Ele participou do 2º turno sem registrar qualquer reclamação.

Embora vitorioso nas urnas por larga margem, Bolsonaro sustenta ainda essa tese absurda. Acha, como parte de seus seguidores também, que venceria no primeiro turno alcançando mais de 50% dos votos úteis. Ao longo do tempo, de 1996 aos dias de hoje, houve uma reclamação de Aécio Neves quando perdeu para Dilma Rousseff em 2014. Mas não avançou.
 
PROCONSULT –  Sobre o voto impresso, vale lembrar em 1982, no Rio, o escândalo do Proconsult que tentou transformar a derrota de Moreira Franco em vitória e a vitória de Brizola em derrota. Mas não conseguiram. A computação pela Proconsult baseava-se nas manifestações eleitorais nas áreas de classe média e rica, deixando para segundo plano os subúrbios do Rio e a Baixada Fluminense. Com isso, Moreira Franco surgia na frente.

Mas o Jornal do Brasil, no qual eu trabalhava, tinha instalado um sistema de acompanhamento das apurações com uma vantagem; eu havia acertado com Paulo Henrique Amorim, então redator chefe, e com Ronald de Carvalho, editor, a divisão por áreas eleitorais. Isso porque para se poder analisar eleições e computação tem que se definir a projeção algébrica dos votos.

VOTOS DO SUBÚRBIO – Por exemplo, na Cidade do Rio de Janeiro, os votos do subúrbio e da Zona Oeste eram mais numerosos que os votos do Leblon, Ipanema, São Conrado, Tijuca e Grajaú. Em Copacabana, como os eleitores já estariam se perguntando, a vantagem da classe média era pequena sobre as de menor renda. Isso porque Copacabana estava repleta de apartamentos conjugados e de apartamentos com número médio de moradores acima da média das casas de renda mais alta.

Existe um bairro no Rio, que focalizo no meu livro “O voto e o povo”, que era o termômetro da cidade. Por que isso? Simplesmente porque o Méier em um dos seus lados é um bairro de predominância de classe média, mas o outro tem o perfil característico de subúrbio. Esta explicação é fundamental.

PRESSÃO – Em 1982, de repente, a pressão aumentou, sentiu-se no ar. Se a fraude prevalecesse, teria que ser feita na sexta-feira, dia em que a hipótese foi colocada por mim; Paulo Henrique Amorim e Ronald de Carvalho. A conclusão foi uma só: a única possibilidade de fraude era preencher os votos em branco que estavam à disposição dos ladrões. Se não houvesse tal prática imunda o resultado real seria respeitado.

Como aliás aconteceu. Na edição de domingo, o JB publicou matéria minha na primeira página: ““Brizola consolida vitória pela margem de 126 mil votos”. Deixo o episódio para aqueles que o incorporarem na memória ou então colocarem na história moderna do país.

PREVARICAÇÃO – Aguirre Talento, Dimitrius Dantas e Jussara Soares publicam reportagem, também no O Globo de ontem, focalizando as declarações do próprio presidente da República em face do inquérito aberto pela Polícia Federal para investigar a sua omissão diante da denúncia feita pelo funcionário Luis Ricardo Miranda e pelo seu irmão, o deputado Luis Miranda, sobre a suspeita de corrupção envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin. Bolsonaro não tomou providência e o inquérito foi autorizado pela ministra Rosa Weber, do STF.

 “Deixou uns papéis lá, não entrei com profundidade se era ‘invox’ [invoice], se não era. Os papéis que ele deixou lá eu passei pra frente isso daí”, disse Bolsonaro, alegando que o crime de prevaricação (o de não tomar providência), não se aplica ao presidente da República, mas a funcionários públicos. Um absurdo total.

CRIME DE RESPONSABILIDADE – Ele próprio ainda acrescentou que, se fosse o caso, seria crime de responsabilidade e não prevaricação. Incrível o que aconteceu. Bolsonaro recebeu a denúncia e limitou-se a dizer que a enviou a Pazuello, então ministro da Saúde.

Relativamente ao envolvimento do deputado Ricardo Barros, acusado pelos irmãos Miranda de ser um dos intermediários do projeto, Bolsonaro afirmou que o parlamentar vai depor na CPI no próximo dia 20 e que, de acordo com o seu depoimento, irá ouvi-lo e decidirá se ele continuará ou não como líder do governo.  

Bastaria a dúvida para que Barros já tivesse sido afastado do posto para não se transformar em mais um peso para Bolsonaro, além dos vários que já possui, causados em boa parte por ele mesmo.

PROJETO DO IR – Manoel Ventura, Geraldo Adoca e Gabriel Shinohara publicam matéria de página inteira no O Globo, destacando que o projeto do governo, elaborado pelo ministro Paulo Guedes sobre a modificação substancial do Imposto de Renda reduz a contribuição das empresas em 12,5 pontos percentuais sobre os seus resultados positivos, substituindo a alíquota atual de 25%.

Enquanto isso, os contribuintes de classe média são atingidos por aumento. Na administração de Guedes é sempre assim. Para os empresários, vantagens. Para os assalariados, prejuízos. Até empresários alinhados com o presidente da República criticam o texto, como é o caso do empresário Flavio Rocha. “Como o projeto está, repete os erros do passado”, frisou.

CORTES – Na edição de 10 de julho da Folha de S.Paulo, Bernardo Caram desenvolve ampla análise sobre os efeitos da lei que permite a redução de salários na mesma proporção que reduz as jornadas de trabalho. Comprova o levantamento com base em trabalho elaborado pelo próprio Ministério da Economia. Tal programa atinge fortemente 82% dos trabalhadores que ganham até R$ 2200 por mês.

Um escândalo social como se vê. Um fator a mais para conduzir parcela expressiva da população a uma situação de fome, inclusive porque existem também casos que a lei faculta a suspensão do contrato de trabalho até o término da crise que a pandemia agravou.  

CPI –  Foi sem dúvida uma atitude entre o ridículo e a grotesco assumida ontem por Emanuela Medrades na CPI, presidida pelo senador Omar Aziz. Não se sabe por qual motivo ela se negou a responder sobre a sua relação de trabalho com a empresa Precisa, incluída entre as que propunham intermediação para a venda da vacina indiana Covaxin.

O Supremo estabeleceu que ela poderia silenciar. Mas logicamente não a ponto de se omitir quanto ao emprego que possui como técnica da Precisa. Ficou uma sombra no ar encobrindo o absurdo da cena. 

As contradições humanas, os supersalários, os subsalários e os superimpostos

Charge do Nef (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Em uma conversa com o meu saudoso amigo Antônio Houaiss, um intelectual, colocou-se a questão das básicas contradições humanas: existência e eternidade, corpo no sentido de matéria e espírito, um sinal de mais e outro de menos, o capital e o trabalho, a imaginação e a realidade.

Esse diálogo me veio à mente quando li o editorial do ontem de O Globo que sustentava que a Câmara Federal precisa aprovar uma lei que contenha os supersalários na administração pública. Os supersalários na esfera empresarial privada estão fora de discussão, como é natural. O confronto entre os supersalários e os subsalários não é levado em consideração pelas elites conservadoras, como é o caso do ministro Paulo Guedes e de sua equipe. São pessoas de sólida formação universitária, com pós-graduação em Harvard, em Chicago, em Oxford e na NYU.

DRAMA BRASILEIRO – Como as mensalidades de tais cursos, de formação e extensão, estão acima de US$ 5 mil, não adquirem sensibilidade para o drama, no caso brasileiro, das favelas, dos cortiços, dos porões, dos inúmeros bairros sem saneamentos, com poluição, com conflitos sociais e problemas de segurança graves, fortalezas do tráfico de drogas e de milícias.

No caso dos superimpostos, basta ler as escalas de tributação do Imposto de Renda publicadas diariamente pelo O Globo e pela Folha de S. Paulo. Sobre um salário entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil por mês, incide a alíquota de 9%, que representa R$ 145 porque a sua incidência recai já com a parte descontada da contribuição para o INSS. Ou para as previdências estaduais e municipais em todo o Brasil.

No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, o percentual de desconto para o RioPrevidência é de 14% ao mês. Eram 11% elevados em mais 3% no desgoverno Luiz Fernando Pezão. Portanto, quando se fala em supersalários, acredito que deve-se falar também nos subsalários que conduzem um quarto da população brasileira a uma situação de fome.

MÁ DISTRIBUIÇÃO – Com isso, perdem receita e, em consequência, o INSS, o FGTS, os sistemas de previdência estaduais e municipais. No início da década de 50, surgiu uma marchinha que fazia ironia com a questão da renda do trabalho humano. Dizia a letra: “a causa da inflação é a má distribuição. Poucos que têm tanto, tantos que não têm, minha parte há de estar com alguém”.

De fato, ironia à parte, o capital e o trabalho, através dos séculos, constituem-se em blocos de choque, num impasse longe de estar resolvido no mundo e, sobretudo, no Brasil. É um confronto no andar de cima, ou andar de baixo, para citar uma expressão inteligente do jornalista Elio Gaspari.

No caso do nosso país, ainda existe uma situação de desemprego escandalosa, onde 14% da mão-de-obra ativa está abrangendo os que perderam o emprego. Mas o problema do desemprego, infelizmente, não termina aí. O que por si já é um absurdo.

COMUNISMO – Congelado, como estão os salários, pelo pensamento de Paulo Guedes e a incapacidade do presidente Jair Bolsonaro. Não se trata de supor que a solução seria o comunismo, já abolido pela Rússia e pela China, esta que é a verdade, e só mantido tiranicamente na Coreia do Norte e em Cuba.

O comunismo, afirmo, não constitui solução para o ser humano. Ao propósito da profecia utópica de Karl Marx contrapõe-se o título genial de Ian Fleming, autor do “007”: “Os diamantes são eternos”. O sonho de mais de 90% da humanidade é partir em busca de condições de vida muito altas. É natural. Na Rússia e na China não há liberdade política e os que ocupam o poder, outra ironia, querem o capitalismo para os grupos mais próximos e o comunismo para os assalariados.

DESGASTE DE BOLSONARO – Toda essa corrente de fatos amplia o desgaste do homem cujo projeto era se reeleger em 2022. Tal projeto foi substituído no Palácio do Planalto por uma solução militar que fecharia toda a constelação brasileira, tendo à frente o imperador Jair Bolsonaro.Tal quadro político vai acarretar ainda mais o seu declínio junto à opinião pública.

Agora mesmo, uma pesquisa do Datafolha, reportagem de ontem na Folha de S. Paulo, de Igor Gielow, revela que 63% do eleitorado acham que existe apenas tentativa de corrupção na Saúde. E 64% opinam que o presidente Bolsonaro sabia deste fato. A existência da corrupção é mais um lance de dados contra a popularidade do presidente da República que só pode acrescentar índices de sua rejeição já em torno de 58% no país.

MENDONÇA E O STF – O ministro Marco Aurélio de Mello saiu ontem do Supremo Tribunal Federal por ter completado 75 anos, idade limite para a magistratura. André Mendonça deseja entrar e, para tanto, é o nome indicado por Jair Bolsonaro. Porém, enfrenta resistência do Senado.

Na edição de ontem, de O Globo, Paulo Cappelli, publica reportagem sobre as articulações que ele vem tentando fazer para que o seu nome não seja rejeitado. Paulo Cappelli chama a atenção para o encontro que Mendonça conseguiu com o senador Omar Aziz, presidente da CPI da Pandemia, em busca de apoio para a sabatina e a decisão do plenário.

Acrescenta o repórter que André Mendonça vem procurando os senadores de modo geral, mas certamente despertará a reação de Bolsonaro pelo fato dele ter procurado Omar Aziz, já atacado diretamente pelo presidente da República. Uma derrota na indicação vai acelerar o desabamento do governo.

JÂNIO QUADROS  – Aconteceu uma rejeição no governo Jânio Quadros que causou um impacto negativo logo no início do seu governo. Em 1961, Jânio Quadros indicou o empresário Hermínio de Moraes, pai de Antônio Ermírio de Moraes, para embaixador do Brasil na Alemanha Ocidental.

Haviam duas Alemanhas, a Ocidental, cuja capital era Bonn, e a comunista, cuja capital era Berlim. O senado rejeitou a indicação de Hermínio de Moraes, um homem sempre disposto à luta, que decidiu eleger-se senador nas urnas de 1962. Disputou e venceu em seu estado natal, Pernambuco, e assegurou  a vitória de Miguel Arraes sobre João Cleofas no governo do estado.

Hermínio de Moraes investiu na campanha de Arraes e neutralizou a influência financeira exercida pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o IBAD, um instituto da direita. Hermínio de Moraes deu a sua resposta ao Senado Federal.

CAÇA DE ANIMAIS – A repórter Ana Lucia Azevedo, O Globo, destaca o perigo à saúde pública brasileira pela caça mortal e pelo aprisionamento de animais no país.  Há um lado da questão que ela ressalta que é a transmissão de doença em áreas do interior e em áreas de florestas por caçadores que levam contaminação às áreas de caça, que aliás está proibida.

O desmatamento também estava e está proibido, mas o ex-ministro Ricardo Salles o incentivou pelo menos com a sua omissão. Porém há um outro aspecto quanto à ameaça que a caça representa. A caça produz não só um freio à reprodução e ao ecossistema, como também, consequência do desmatamento, o impulso dos animais ferozes em sair da floresta, o que sem dúvida ameaça as populações, adicionando mais um problema aos já existentes.

SEM SOLUÇÃO –  No início do artigo citei o meu saudoso amigo Antônio Houaiss, com quem almoçava sempre. Recordo de uma outra conversa quando ele me disse que todos os problemas humanos, o do meio ambiente e do saneamento não foram resolvidos. Aliás, nenhum problema essencial foi até hoje resolvido no universo ao longo de milhares de anos. Uma era dividida entre antes e depois de Jesus Cristo, o que O coloca na posição de maior figura da Humanidade e autor de um corte insuperável no tempo.

Para finalizar, também chama atenção na reportagem de Ana Lucia Azevedo, a pesquisa sobre a caça ilegal que está sendo realizada pelos cientistas Paulo Sergio D’Andrea, Gisele Winck e Cecilia Andreazzi, do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

A pesquisa já identificou 160 casos de vírus, bactérias, vermes, parasitas e fungos em 60 espécies de mamíferos no Brasil. A repórter lembra ainda que o morcego na China está sendo considerado o mais provável agente de contaminação pelo coronavírus.

O desastre chamado Bolsonaro esquece que, ao ameaçar as eleições, atinge deputados e senadores

Descendo a ladeira, Bolsonaro sobrevive de ameaças e repetições

Pedro do Coutto

Efetivamente existe na Presidência da República do Brasil um desastre chamado Jair Bolsonaro, que repete a todo o instante erros políticos, equívocos administrativos, omissões em série e até ameaças às eleições e, portanto ao regime democrático, esquecendo que a sombra que levanta sobre o desfecho de 2022, envolve os mandatos dos senadores, deputados federais, estaduais e os governadores que também em outubro do próximo ano enfrentarão o julgamento das urnas populares.

A ameaça partiu de um absurdo, como todos sabem. Caso o voto impresso não for aprovado pelo Congresso, na profecia de Bolsonaro, não haverá eleições. Em tal hipótese dramática, os parlamentares não poderiam se reeleger, perspectiva que atingiria os governadores e os oposicionistas que lutam para substituí-los na estrada democrática.

IMPEACHMENT – As ações sem sentido se acumularam de tal forma que, revela o Datafolha, pela primeira vez, a maioria dos eleitores e eleitoras manifestaram-se a favor do impeachment do presidente da República: 54% defendem a abertura de processo pela Câmara contra 42% que rejeitam o afastamento de Bolsonaro.

O quadro se inverteu em relação à pesquisa anterior realizada em maio.  A maioria que era contrária ao impedimento agora passou a ser a favor e, na minha opinião, a diferença do sim contra o não se ampliará na medida em que se estreita o campo de manobra e de ação equivocada do Planalto.

Vale lembrar que a aceitação do processo pela Câmara, na qual se acumulam 123 pedidos de impedimento, causará o afastamento do presidente da República por quatro meses. O quórum para iniciar o processo ainda não atingiu o sinal verde, mas a simples intenção derruba ainda mais os muros de proteção de um governo que saiu vitorioso das urnas, mas que no exercício do poder desmoronou completamente. Na Folha de S. Paulo a reportagem sobre o impeachment é de Igor Gielow. No O Globo saiu sem assinatura.

INCAPAZ DE LIDERAR – Ocorre que o Datafolha em outra pesquisa acentuou o fato já absorvido pela opinião pública de que Bolsonaro é incapaz de liderar o país. Para 63%, ele não possui tal capacidade, e para 34% ele possui essa condição. Acontece que há um aspecto importante do levantamento do Datafolha. No mês de maio, 52% achavam que ele era capaz. Verifica-se assim que no prazo de um pouco mais de um mês houve uma perda de 18 pontos em sua aprovação.

Ao lado desse movimento negativo dos índices surge uma outra revelação, destaca a Folha de S. Paulo: 55% dos eleitores e eleitoras nunca confiam nas declarações de Bolsonaro, enquanto 15% confiam sempre e 28% às vezes confiam e outras não. Esse mapa fecha as perspectivas sobre o Palácio do Planalto, levando o presidente a uma esfera extremamente crítica.

WEINTRAUB – Reportagem de Guilherme Caetano, O Globo, redigida em Washington, onde Abraham Weintraub ocupa um cargo no qual o governo o colocou quando foi demitido do Ministério da Educação. O ex-ministro afirmou que pretende disputar o governo de São Paulo nas urnas de outubro de 2022, tendo como base pequenas legendas e, ao mesmo tempo, frisou fora da área de influência da família Bolsonaro.

Absurdo completo. Weintraub foi o ministro que na reunião ministerial de 22 de abril de 2020 atacou em bloco todos os ministros do Supremo Tribunal Federal, afirmando que eram vagabundos, concluindo por uma assertiva alucinada ao dizer que Jair Bolsonaro deveria colocá-los na cadeia. Entre as legendas cogitadas por Weintraub figura a do Partido Trabalhista Cristão, tendo como principal articulador Victor Metta, seu ex-assessor no Ministério da Educação.
Sobrepreço

SOBREPREÇO – Quando se pensa que se chegou a um limite de absurdos, sempre surge mais um. É o que revela Felipe Frazão, no Estado de S. Paulo de domingo, apontando o sobrepreço cobrado pela empresa FBM Farma, selecionada para fornecer diluentes a imunizantes da Pfizer contra a Covid-19.

Não houve licitação, problema para o ministro Marcelo Queiroga, sobretudo porque a FBM Farma, revela Frazão, foi multada e advertida por práticas semelhantes por 75 vezes, o que chamou a atenção da Controladoria Geral da União que identificou uma série de falhas e focalizou o histórico de problemas da fornecedora. Um sobrepreço de R$ 2,5 milhões. Mais um lance de uma sequência que parece ser interminável.

SELEÇÃO BRASILEIRA – Como na bela canção de Andrew Lloyd Webber e letras de Tim Rice, “Não chores por mim Argentina”, focalizo que o esquema de Tite, com a retenção demasiada da bola nos pés de Neymar e o desempenho do time brasileiro em seu conjunto, a rigor, não deve sequer ser lamentado pela torcida porque tal resultado negativo é uma consequência do esquema adotado e que insiste em movimentos geométricos e a utilização de espaços que, no fundo, travam a seleção de ouro.

A seleção brasileira, na noite de sábado, tornou-se a maior adversária de si mesma. O meio campo brasileiro, o que vem ocorrendo desde a Copa da Rússia, não se entende e nem tem criatividade, fazendo com que a partida fique mais lenta. A lentidão, por seu turno, facilita a marcação e como os passos trocados são curtos, não havendo lançamentos à distância, exceto os tiros de meta do goleiro, os jogadores ficam mais expostos à violência de adversários.

Na noite de sábado a Argentina bateu muito, mas o Brasil também. Não é por aí. A partida do Maracanã, Estádio Mário Filho, palco de tantas vitórias, tornou-se o cenário  de uma derrota difícil de suportar. Tite precisa reformular a sua visão de jogo e abandonar a complicação de um esporte fantástico que tem como essência a descomplicação.

Bolsonaro explodiu o governo e a sua própria candidatura para 2022

Charge do Jota A. (portalodia.com.br)

Pedro do Coutto

Se as eleições de 2022 fossem hoje, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceria disparado, inclusive no primeiro turno. Ele tem 46% das intenções de voto contra 25% de Bolsonaro, 8% de João Dória, além de outros pré-candidatos com menores percentuais. Eu disse que venceria no primeiro turno porque o número de eleitores dispostos a votar branco ou nulo é de 10%.

Desta forma, 90% passa ser igual a 100%, e assim 46% representa nitidamente a maioria absoluta desenhada no momento, ultrapassando até por um ponto a margem necessária para decidir a sucessão presidencial, sem a necessidade de segunda convocação às urnas.

SIMULAÇÃO – Feita uma simulação para o segundo turno entre Lula e Bolsonaro, o petista teria 58% contra apenas 31% do atual presidente. O quadro parece irreversível, pois a cada momento Bolsonaro perde cada vez mais apoio popular. A curva dos índices de aprovação, sobretudo de um ano para cá, assinala a tendência declinante do chefe do Executivo.  Enquanto isso, Lula recuperou os seus direitos políticos e está pronto para uma jornada que se apresenta bastante favorável. Já Bolsonaro não tem um projeto construtivo sequer.

O Globo, em editorial neste sábado, assinalou um ponto importante: o destempero verbal de Bolsonaro. Como na antiga frase em política, “as palavras pesadas impedem o voo das ideias leves e importantes para se governar um páis”. A linguagem de Bolsonaro é bastante negativa para quem necessita de integração com a opinião pública.

O Datafolha fotografou uma realidade que toma conta do país, a incompatibilidade de Jair Bolsonaro com o próprio eleitorado. Os atos que causaram o seu declínio foram produzidos por ele mesmo. Suas atitudes, suas palavras, sua oposição à vacina, à máscara e ao distanciamento, suas acusações infundadas e ofensas sem cabimento.

DESASTRE TOTAL – Todos esses fatos somados resultaram nas perspectivas apresentadas pelos levantamentos.  A psicologia de Bolsonaro é, sem dúvida, um fato marcante na vida política brasileira. Um desastre total e absoluto. Bolsonaro implodiu a si próprio e é quase o único responsável pela sua própria queda.

Na tarde de sábado, o jornal da TV Globo noticiou uma nova pesquisa do Datafolha, sobre como o eleitorado avalia a iniciativa de aprovar o impeachment contra Bolsonaro. Há meses atrás havia uma rejeição do impedimento de 52% a 48%. Isso em maio. Agora, no início de julho, a situação mudou, já que 52% são favoráveis ao impeachment, 42% contrários e 6% não responderam.

Os ventos, como na peça de Júlio César, de Shakespeare, estão voltados contra Bolsonaro, deixando claro que ele é o maior opositor de si mesmo. Um golpe que o tornasse imperador do Brasil está fora de cogitação.

Bolsonaro ameaça eleições e quer ser imperador do Brasil

Charge do Pataxó (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Na edição da Folha de São Paulo desta sexta-feira, Ricardo Della Coletta publica reportagem sobre as afirmações feitas por Jair Bolsonaro na última quinta-feira aos seus apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.

Durante a fala transmitida por um site bolsonarista, o presidente da República disse textualmente que as eleições do próximo ano serão limpas: “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”, afirmou.  O absurdo causa perplexidade, embora se trate de atitude repetida, pois se não houver eleições quem ocupará o poder? Ele próprio, Jair Bolsonaro.

IMPERADOR – Ao dizer isso, o presidente se autoproclama imperador do Brasil. Não há outra interpretação. Bolsonaro sabe bem que o projeto do voto impresso será rejeitado pela Câmara e nem irá ao Senado. Portanto, já joga com a hipótese de fraude na urna eletrônica, colocando uma situação impossível. Como poderia haver fraude por parte da oposição quando o governo é que tem as engrenagens de fiscalização do pleito ?

Ele envereda pelo caminho do golpe, contando com o apoio de parte das Forças Armadas porque já verificou que a sua posição eleitoral não é nada boa. Bolsonaro busca fortemente encontrar um pretexto para justificar a sua derrota como consequência de uma fraude. Como aliás procedeu o ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos. Aliás, Bolsonaro na ocasião, sem base alguma, afirmou que houve fraude nos Estados Unidos.

Portanto, o universo político brasileiro deve se preparar para uma investida fora das urnas, voltada para torpedear a democracia e bloquear a transmissão do poder em decorrência do voto livre. Bolsonaro, no fundo, já demonstrou isso várias vezes, e tenta se perpetuar no poder, transformando-se em imperador.

INFLAÇÃO – O IBGE, segundo informa Leonardo Vieceli, Folha de São Paulo de ontem, na pesquisa que realizou para classificar a inflação no mês de junho, só encontrou um acréscimo de 0,5%, apesar do reajuste da energia elétrica, da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha.  Entretanto, assinala que de junho de 2020 a junho de 2021, o índice inflacionário atingiu 8,3%, muito acima da previsão inicial do governo e do sempre otimista em relação às finanças públicas, o ministro Paulo Guedes.

Guedes, aliás, na quinta-feira, preocupado com a reação de 120 empresas contrárias à reforma do Imposto de Renda, foi a São Paulo e informou que fará mudanças no projeto original do governo. Entretanto, na reunião que convocou, grandes nomes da indústria não compareceram.

Verificou-se portanto uma reação do meio empresarial que se preocupa com a retração econômica e com a hipótese de uma taxação maior no Imposto de Renda. Guedes deve ter se equivocado ao aceitar de sua equipe um projeto dessa ordem, pois ele é um defensor do liberalismo que tem como uma de suas vertentes a mão de tigre do mercado.

DATAFOLHA –  Na noite de ontem, sexta-feira, o jornalista César Tralli, na GloboNews, anunciou os números da nova pesquisa do Datafolha sobre as tendências para sucessão de 2022 se as eleições fossem hoje. Num cenário total, Lula, no primeiro turno, obteria 46% dos votos contra 24% de Bolsonaro e 8% de Ciro Gomes.

Os outros nomes pesquisados apresentaram tendências mínimas. Comentarei a pesquisa mais amplamente na edição de amanhã, mas chamo a atenção para um detalhe; o quadro revelado para o segundo turno: Lula 58%, Bolsonaro 31% e uma autêntica surpresa, se o páreo fosse entre Ciro Gomes e Bolsonaro, Ciro venceria por larga margem.