O que as exceções do tarifaço revelam sobre a estratégia de Washington

O que a nova pesquisa Quaest revela sobre a disputa eleitoral de 2026

Aprovação do governo atingiu seu melhor patamar

Pedro do Coutto

Pesquisas eleitorais fotografam um momento, mas, quando sucessivos levantamentos apontam na mesma direção, deixam de registrar apenas um instante e passam a indicar uma tendência. É exatamente esse o aspecto mais relevante da nova pesquisa Genial/Quaest.

Mais do que mostrar Lula da Silva numericamente à frente de Flávio Bolsonaro, o levantamento revela um movimento político mais profundo: o presidente cresce enquanto seu principal adversário perde terreno. A mudança parece pequena quando observada apenas pelos números, mas seu significado é bem maior.

INFLEXÃO – Depois de meses em que Lula e Flávio Bolsonaro alternaram empates técnicos ou pequenas oscilações, a série histórica da Quaest passou a indicar uma inflexão. Em junho, Lula já havia rompido o empate e aberto vantagem. Agora, o novo levantamento mostra que essa diferença aumentou, ao mesmo tempo em que a aprovação do governo atingiu seu melhor patamar desde meados de 2025 e voltou a superar a desaprovação, algo que não ocorria desde 2024.

A combinação desses indicadores merece atenção porque campanhas presidenciais costumam ser influenciadas por dois fatores simultâneos: a avaliação do governo e a percepção sobre a força dos adversários. Quando esses dois movimentos caminham na mesma direção, o cenário eleitoral tende a se consolidar com maior rapidez.

Não significa, naturalmente, que a eleição esteja decidida. Faltam meses para a votação, a campanha ainda não começou oficialmente e episódios econômicos, políticos ou judiciais podem alterar significativamente o ambiente eleitoral. Ainda assim, ignorar a mudança registrada pelas pesquisas seria deixar de perceber um fenômeno importante.

DIVERGÊNCIAS – Parte dessa transformação pode ser explicada pelo momento vivido pelo campo conservador. Desde a definição de Flávio Bolsonaro como principal representante do bolsonarismo, a direita deixou de apresentar a aparência de unidade construída ao longo dos últimos anos. As divergências tornaram-se públicas, lideranças passaram a disputar protagonismo e diferentes correntes começaram a questionar qual deveria ser o caminho para enfrentar Lula.

Esse ambiente naturalmente produz efeitos eleitorais. Nenhuma candidatura cresce apenas pela força do próprio discurso. Ela depende também da capacidade de unificar aliados, reduzir conflitos internos e transmitir segurança aos eleitores. Quando o debate passa a ocorrer dentro da própria oposição, parte da energia política deixa de ser direcionada contra o governo e passa a ser consumida pelas disputas internas.

Nesse contexto, a queda de Flávio Bolsonaro pode ser mais significativa do que a própria vantagem numérica obtida por Lula. Durante meses, o senador havia conseguido consolidar sua posição como principal nome da direita e reduzir progressivamente a distância para o presidente. Em determinados momentos da série histórica, chegou inclusive a aparecer tecnicamente empatado ou numericamente à frente dentro da margem de erro. O novo levantamento, entretanto, indica uma inversão dessa trajetória.

RECUO – Mais importante do que estar atrás é interromper uma curva ascendente. Campanhas vivem de expectativas. Quando um candidato cresce sucessivamente, transmite a sensação de que pode vencer. Quando passa a recuar em pesquisas consecutivas, o ambiente político muda. Parlamentares tornam-se mais cautelosos, partidos começam a recalcular estratégias, financiadores reavaliam apostas e aliados passam a considerar alternativas.

Esse efeito psicológico costuma ser subestimado, mas exerce enorme influência na política. Boa parte das decisões tomadas por dirigentes partidários não depende apenas dos números absolutos, mas da direção em que eles caminham.

No caso de Lula, o movimento parece seguir a lógica inversa. O presidente atravessou um longo período em que sua popularidade foi pressionada pela inflação dos alimentos, pela percepção negativa sobre a economia e pelas dificuldades de comunicação do governo. Em diversos momentos, a desaprovação superou a aprovação, alimentando dúvidas sobre sua capacidade de disputar um novo mandato em condições competitivas.

APROVAÇÃO DE LULA – A nova pesquisa sugere uma recuperação desse quadro. A aprovação voltou a superar a desaprovação e isso tende a produzir consequências eleitorais importantes. Presidentes que conseguem recuperar apoio popular normalmente também ampliam sua capacidade de mobilizar aliados, reduzir tensões na base parlamentar e transmitir estabilidade institucional.

Não é coincidência que o crescimento eleitoral de Lula ocorra paralelamente à melhora na avaliação do governo. Historicamente, no Brasil e em outras democracias presidencialistas, existe forte correlação entre aprovação administrativa e desempenho nas urnas. Quando o eleitor melhora sua percepção sobre o governo, frequentemente reduz sua disposição para apostar numa mudança de comando.

Isso não significa que o governo tenha resolvido todos os seus problemas. A economia continuará sendo um fator decisivo até outubro. Questões como inflação, renda, emprego, segurança pública e qualidade dos serviços continuarão influenciando o humor do eleitorado. Da mesma forma, a oposição ainda dispõe de tempo suficiente para reorganizar sua estratégia e reconstruir uma narrativa capaz de recuperar competitividade.

INTENÇÃO DE VOTO – Outro aspecto relevante é que pesquisas não medem apenas intenção de voto. Elas capturam expectativas sociais. Quando um candidato passa a ser percebido como favorito, parte do eleitorado moderado tende a migrar para aquele que considera mais viável, enquanto lideranças políticas procuram aproximar-se de quem enxergam com maiores chances de vitória. Esse movimento costuma ser lento no início, mas pode acelerar à medida que a campanha se aproxima.

É justamente por isso que a atual sequência de levantamentos merece atenção. O dado mais importante talvez não seja a diferença específica entre Lula e Flávio Bolsonaro em um único levantamento, mas a direção assumida pela curva nas últimas pesquisas. Enquanto Lula registra recuperação gradual de aprovação e melhora eleitoral, Flávio deixa de crescer e passa a perder espaço.

Ainda é cedo para afirmar que essa tendência será definitiva. A história eleitoral brasileira está repleta de mudanças bruscas ocorridas durante as campanhas. Debates, crises econômicas, fatos políticos inesperados ou acontecimentos internacionais podem alterar rapidamente o cenário.

IMPULSO – Mas também seria um erro minimizar o que os números revelam neste momento. A política costuma premiar quem consegue transformar estabilidade em impulso. Hoje, é exatamente isso que as pesquisas sugerem em relação ao presidente: além de recuperar aprovação, Lula voltou a converter essa melhora administrativa em vantagem eleitoral.

Para a oposição, o desafio deixou de ser apenas reduzir a distância para o presidente. Passa, antes, por reconstruir a unidade interna e convencer o eleitorado de que continua existindo um projeto capaz de disputar o poder em condições reais de vitória. Sem essa reorganização, a tendência observada pela Quaest poderá deixar de ser apenas uma fotografia do presente para tornar-se o roteiro dominante da campanha presidencial de 2026.

O desafio de Flávio Bolsonaro para conter o efeito das reações de Michelle

Charge do Cláudio (Folha)

Pedro do Coutto

A política costuma ensinar que adversários externos são mais fáceis de enfrentar do que divergências internas. Quando o conflito nasce dentro da própria família política, o custo tende a ser maior porque afeta aquilo que nenhuma campanha consegue fabricar rapidamente: a percepção de unidade.

É nesse contexto que se insere o esforço do senador Flávio Bolsonaro para reduzir os efeitos políticos do crescente protagonismo de Michelle Bolsonaro, tema abordado por Vera Magalhães em sua coluna publicada em O Globo. Segundo a jornalista, Flávio trabalha para reconstruir pontes com o eleitorado feminino e impedir que a ex-primeira-dama consolide um espaço político autônomo capaz de alterar os equilíbrios internos do bolsonarismo.

ESPÓLIO POLÍTICO – A movimentação não surpreende. Desde que Jair Bolsonaro passou a enfrentar restrições judiciais e viu diminuir sua capacidade de liderar diretamente a oposição, a disputa pela condução do espólio político do ex-presidente deixou de ser uma hipótese para se tornar um processo em andamento. Embora o discurso oficial continue enfatizando união, os sinais emitidos pelas principais lideranças indicam que diferentes projetos convivem sob o mesmo guarda-chuva partidário.

Flávio Bolsonaro ocupa uma posição singular nessa arquitetura. Como filho mais velho politicamente ativo e senador da República, procura apresentar-se como o herdeiro natural do capital político do pai. Sua estratégia tradicionalmente privilegia a negociação institucional, o diálogo com dirigentes partidários e a construção de alianças que ampliem a margem de sobrevivência eleitoral do grupo. É um perfil mais pragmático do que ideológico, preocupado em preservar a influência da família no Congresso e nas articulações nacionais.

Michelle Bolsonaro, por outro lado, construiu uma trajetória distinta. Sua força deriva menos da ocupação de cargos públicos e mais da conexão emocional estabelecida com parcelas importantes do eleitorado conservador, especialmente entre mulheres evangélicas. Durante a passagem pelo Palácio do Planalto, consolidou uma imagem pública baseada na religiosidade, na assistência social e em pautas familiares, atributos que lhe conferem identidade própria, relativamente independente da atuação parlamentar dos filhos de Jair Bolsonaro.

DESCONFORTO – É justamente essa autonomia que produz desconforto. Enquanto Flávio opera dentro da lógica da política institucional, Michelle dialoga com um campo marcado pela identificação simbólica. Em campanhas eleitorais contemporâneas, esse tipo de vínculo costuma ser mais resistente às oscilações da conjuntura, porque depende menos de resultados concretos e mais da construção de identidade coletiva.

Nos últimos meses, entretanto, o senador passou a enfrentar um ambiente menos favorável. O noticiário político deixou de oferecer fatos capazes de reorganizar a narrativa da oposição, enquanto episódios sucessivos ampliaram o desgaste interno do campo bolsonarista. Sem acontecimentos suficientemente fortes para alterar a agenda pública, a disputa por espaço dentro da própria direita ganhou mais visibilidade.

Esse talvez seja o maior problema para Flávio. Em política, narrativas precisam ser alimentadas continuamente por fatos novos. Quando eles deixam de surgir, prevalecem interpretações produzidas pelos próprios atores políticos e pela imprensa. Nesse vazio informativo, qualquer sinal de divergência passa a adquirir dimensão muito maior do que teria em momentos de intensa polarização nacional.

DIÁLOGO DIRETO – A dificuldade também decorre de uma mudança estrutural da política brasileira. Durante muitos anos, partidos concentravam o poder de definir candidaturas e controlar a comunicação. Hoje, lideranças individuais dialogam diretamente com milhões de seguidores nas redes sociais, produzindo agendas próprias e reduzindo a capacidade de coordenação das estruturas partidárias. Michelle Bolsonaro tornou-se uma expressão desse fenômeno. Sua influência já não depende exclusivamente da família nem do PL; ela resulta de uma comunidade política que reconhece nela atributos específicos.

Há ainda um componente geracional. Parte do eleitorado conservador demonstra disposição para preservar o legado de Jair Bolsonaro, mas sem necessariamente reproduzir toda a configuração familiar construída ao longo da última década. Isso abre espaço para diferentes interpretações sobre quem deve representar esse patrimônio eleitoral. Para alguns, a continuidade passa pelos filhos; para outros, Michelle reúne melhores condições de ampliar a base social do movimento.

Flávio parece compreender esse risco. Sua tentativa de reforçar a interlocução com o público feminino não decorre apenas de uma preocupação eleitoral imediata. Trata-se de reconhecer que as mulheres passaram a ocupar papel decisivo na definição das disputas presidenciais brasileiras. Nenhuma candidatura competitiva consegue ignorar esse segmento, especialmente depois das mudanças observadas nas eleições recentes, quando questões relacionadas à economia doméstica, segurança, saúde e qualidade de vida passaram a pesar tanto quanto as grandes disputas ideológicas.

CREDIBILIDADE – O desafio, entretanto, é que comunicação política não se resume à elaboração de discursos. Ela depende de credibilidade acumulada ao longo do tempo. Michelle construiu essa relação durante anos de exposição pública em agendas sociais, religiosas e assistenciais. Flávio precisaria produzir uma identidade própria para esse eleitorado, e isso dificilmente ocorre apenas como resposta a uma conjuntura desfavorável.

Outro fator limita sua margem de ação. A oposição enfrenta dificuldades para estabelecer uma agenda positiva capaz de deslocar o debate nacional. Enquanto permanece concentrada na defesa de Jair Bolsonaro e na reação às decisões judiciais envolvendo o ex-presidente, sobra pouco espaço para apresentar propostas capazes de mobilizar novos segmentos sociais. Sem uma plataforma programática renovada, cresce a tendência de que as disputas internas ocupem o centro do debate.

Esse cenário torna a administração das diferenças ainda mais delicada. Qualquer movimento excessivamente agressivo contra Michelle poderia ser interpretado como disputa familiar e produzir desgaste adicional. Por outro lado, a ausência de reação reforçaria a percepção de que sua liderança cresce sem contrapontos relevantes. Trata-se de um equilíbrio difícil de administrar.

MODELO DE LIDERANÇA – No fundo, a questão ultrapassa a relação entre Flávio e Michelle. O que está em disputa é o modelo de liderança que prevalecerá na direita brasileira após Jair Bolsonaro. Permanecerá uma estrutura fortemente familiar, organizada em torno dos filhos, ou surgirá uma configuração mais ampla, capaz de incorporar novas lideranças com autonomia política?

Ainda é cedo para responder. Mas uma conclusão parece inevitável: quando os principais desafios de um grupo político deixam de vir dos adversários e passam a nascer dentro de casa, o problema dificilmente pode ser resolvido apenas com estratégias de comunicação.

Ele exige redefinição de liderança, reorganização de prioridades e capacidade de construir consensos. Até aqui, os fatos sugerem que Flávio Bolsonaro ainda procura encontrar esse ponto de equilíbrio, enquanto Michelle Bolsonaro continua ampliando um capital político cuja principal característica é justamente não depender exclusivamente do sobrenome que a projetou nacionalmente.

A corrida presidencial sob a sombra de uma grave crise institucional

Saída de Damares Alves expõe custo político da divisão no bolsonarismo

Damares foi alvo de ataques da própria direita

Pedro do Coutto

Em uma campanha presidencial, as perdas mais preocupantes nem sempre são as registradas nas pesquisas de intenção de voto. Muitas vezes, o maior dano ocorre nos bastidores, quando aliados estratégicos começam a se afastar, a coordenação perde coesão e a percepção de unidade dá lugar à narrativa de fragmentação. É nesse contexto que deve ser compreendida a decisão da senadora Damares Alves de deixar a equipe responsável pela elaboração do plano de governo do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). Ela diz que voltou atrás, mas a boataria continua.

A balançada de Damares vai além da substituição de um nome na estrutura da campanha. Ela simboliza uma crise que já ultrapassou o campo das divergências privadas e passou a afetar diretamente a construção política da candidatura. Ao justificar sua decisão, a senadora afirmou que “já fez o que era preciso no primeiro momento” e que poderia voltar a colaborar apenas em um eventual governo de transição. A declaração, longe de representar um rompimento definitivo, revela um claro distanciamento do núcleo da campanha justamente em seu momento mais delicado.

ATAQUES – O motivo apresentado também merece atenção. Damares afirmou ter sido alvo de ataques promovidos por integrantes da própria direita e revelou que Flávio Bolsonaro não a procurou diretamente após o agravamento da crise. Para uma liderança reconhecida como uma das principais pontes entre o bolsonarismo e segmentos expressivos do eleitorado evangélico e feminino, a ausência de uma tentativa pública de recomposição possui significado político evidente.

A situação ganha contornos ainda mais relevantes porque Damares não é apenas uma ex-ministra do governo Jair Bolsonaro. Ao longo dos últimos anos, consolidou-se como uma das figuras mais influentes do conservadorismo brasileiro, especialmente em pautas ligadas aos direitos das mulheres, infância, liberdade religiosa e políticas familiares. Sua participação na elaboração do programa de governo conferia legitimidade a uma área sensível da campanha, especialmente diante do desafio histórico da direita em ampliar sua aceitação entre o eleitorado feminino.

INSTABILIDADE INTERNA – Sua saída ocorre num ambiente de sucessivos episódios que alimentam a percepção de instabilidade interna. A crise envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro já havia produzido desgaste público, expondo divergências que anteriormente permaneciam restritas ao ambiente familiar e partidário. Damares, tradicionalmente próxima da ex-primeira-dama, acabou posicionada no centro desse conflito e tornou-se alvo de ataques nas redes sociais por parte de setores alinhados ao próprio campo conservador.

Outro aspecto relevante é a dimensão institucional do episódio. A senadora informou ter sido vítima de uma campanha coordenada de ataques e mencionou que a bancada feminina do Senado discute mecanismos institucionais para enfrentar episódios recentes de violência política contra mulheres, independentemente da formalização de denúncias individuais. O tema amplia o debate para além das disputas eleitorais, inserindo-o no contexto da proteção das mulheres que exercem mandato político e da crescente preocupação com campanhas de intimidação no ambiente digital.

Do ponto de vista eleitoral, o episódio alimenta uma narrativa difícil de administrar. Campanhas competitivas costumam buscar transmitir estabilidade, disciplina e capacidade de liderança. Quando figuras importantes passam a deixar a coordenação ou reduzem seu envolvimento, adversários encontram espaço para reforçar a ideia de enfraquecimento político, enquanto aliados passam a questionar os rumos estratégicos da candidatura.

DIFICULDADES – Isso não significa, necessariamente, que a candidatura de Flávio Bolsonaro esteja inviabilizada. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, reconheceu publicamente que o senador enfrenta dificuldades políticas, mas afirmou não acreditar que ele deixará a disputa presidencial. A avaliação de Kassab sugere que, apesar do momento turbulento, ainda existe margem para reorganização da campanha e recomposição das alianças internas.

Historicamente, campanhas eleitorais conseguem sobreviver a crises quando demonstram capacidade de absorver conflitos, reconstruir pontes e reorganizar suas lideranças. O problema surge quando episódios isolados passam a formar um padrão recorrente. A sucessão de saídas, desentendimentos públicos e disputas internas tende a produzir um efeito cumulativo, reduzindo a confiança de apoiadores, lideranças regionais e potenciais aliados.

DIMENSÃO SIMBÓLICA – Há ainda uma dimensão simbólica particularmente sensível. Em política, a percepção frequentemente pesa tanto quanto os fatos objetivos. Quando uma liderança reconhecida afirma que foi atacada pelo próprio campo político e decide interromper sua colaboração com o programa de governo, transmite-se a imagem de que os conflitos internos deixaram de ser pontuais para se tornarem estruturais.

Independentemente dos desdobramentos eleitorais, o episódio revela um desafio que ultrapassa uma candidatura específica. Movimentos políticos fortemente personalizados dependem da manutenção permanente da unidade entre suas principais lideranças. Quando essa coesão se rompe, a disputa deixa de ser apenas contra adversários externos e passa a ocorrer também dentro da própria coalizão.

Nos próximos meses, a capacidade de Flávio Bolsonaro de recompor sua base política será tão importante quanto sua estratégia para conquistar novos eleitores. Afinal, antes de convencer o eleitorado, toda candidatura precisa demonstrar que consegue manter unido o próprio grupo que pretende conduzir ao poder.

Adiar o Conselho de Ética do Supremo é mau sinal para a democracia brasileira

Charge do CVazo (Blog do AFTM)

Pedro do Coutto

A decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal de postergar a apreciação do Código de Ética da Corte para depois das eleições de outubro produz um efeito simbólico que ultrapassa a própria pauta administrativa do tribunal.

Independentemente das razões que tenham levado ao adiamento, a mensagem transmitida à sociedade é difícil de conciliar com o momento político vivido pelo país: justamente quando a democracia será submetida ao seu maior teste — o processo eleitoral —, a principal Corte brasileira opta por adiar a discussão sobre as regras de conduta que disciplinarão seus próprios integrantes.

CONFLITO DE INTERESSES – O Código de Ética não é um detalhe burocrático nem uma peça decorativa da administração pública. É um instrumento de governança institucional destinado a prevenir conflitos de interesse, fortalecer a transparência, orientar comportamentos e preservar aquilo que nenhuma decisão judicial consegue impor por decreto: a confiança pública.

Foi exatamente por reconhecer essa necessidade que, na abertura do Ano Judiciário de 2026, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, anunciou a elaboração do código como uma das prioridades de sua gestão, destacando a importância de consolidar padrões de integridade e ampliar a credibilidade da instituição.

A legitimidade do Poder Judiciário repousa sobre um ativo invisível, mas indispensável: a confiança social. Juízes não possuem exércitos, nem dependem do voto popular para permanecer no cargo. Sua autoridade decorre da convicção coletiva de que suas decisões são tomadas com independência, imparcialidade e responsabilidade. Sempre que surgem dúvidas sobre esses pilares, a força institucional do Judiciário sofre desgaste, ainda que suas decisões permaneçam juridicamente válidas.

REGRAS DEMOCRÁTICAS –  É precisamente por isso que causa estranheza o adiamento da votação do Código de Ética para um momento posterior ao processo eleitoral. As eleições representam a mais elevada manifestação da soberania popular. São o instante em que divergências políticas encontram solução pacífica dentro das regras democráticas. Nesse ambiente, não basta que as instituições sejam corretas; é indispensável que também sejam percebidas como comprometidas com os mais elevados padrões éticos.

Naturalmente, um Código de Ética não elimina conflitos nem impede controvérsias. Nenhum documento possui esse poder. Sua função é outra: estabelecer parâmetros claros de conduta, disciplinar situações potencialmente sensíveis, oferecer transparência sobre procedimentos internos e reduzir zonas cinzentas capazes de alimentar suspeitas. Em democracias consolidadas, códigos dessa natureza constituem mecanismos permanentes de fortalecimento institucional, não respostas ocasionais a crises.

Nos últimos anos, o Supremo assumiu um protagonismo crescente na vida política brasileira. Questões eleitorais, disputas entre os Poderes, temas constitucionais de grande impacto e conflitos envolvendo agentes públicos passaram a ocupar frequentemente sua pauta. Esse protagonismo amplia também a responsabilidade da Corte perante a sociedade. Quanto maior o poder institucional, maior deve ser a preocupação com mecanismos de integridade, prestação de contas e autorregulação.

PARADOXO – Sob esse aspecto, o adiamento produz um paradoxo difícil de ignorar. Se o Código de Ética é importante — e a própria Presidência do STF afirmou que é —, sua utilidade se torna ainda mais evidente antes de uma eleição nacional, período em que a atuação da Justiça Eleitoral e do Supremo naturalmente desperta atenção redobrada da sociedade, dos partidos e da comunidade internacional.

É evidente que a ética não nasce da publicação de uma resolução. Ela depende da consciência individual, da cultura institucional e da observância cotidiana dos deveres funcionais. Mas normas possuem valor pedagógico, preventivo e simbólico. Elas tornam explícitos compromissos que deixam de depender exclusivamente da interpretação subjetiva de cada integrante da instituição.

O Brasil atravessa uma fase de intensa polarização política, na qual praticamente todas as instituições convivem com elevados níveis de desconfiança por parte de segmentos da população. Nesse contexto, toda iniciativa destinada a ampliar transparência e reforçar padrões éticos deveria ser compreendida como investimento na estabilidade democrática, e não como mera formalidade administrativa.

INTEGRIDADE INSTITUCIONAL – A questão central, portanto, não é jurídica. É institucional. O adiamento pode ser plenamente legítimo do ponto de vista procedimental. Contudo, sua oportunidade política suscita questionamentos inevitáveis. Quando se posterga justamente o debate sobre ética em um dos períodos mais sensíveis da vida democrática, perde-se a chance de transmitir uma mensagem clara de compromisso com a integridade institucional.

Democracias não se sustentam apenas por leis, votos ou decisões judiciais. Elas dependem, sobretudo, da confiança recíproca entre cidadãos e instituições. Essa confiança é construída lentamente, mas pode ser desgastada por sinais que, isoladamente, parecem pequenos, embora produzam grande impacto simbólico.

Talvez o Código de Ética venha a ser aprovado logo após as eleições. Se isso ocorrer, continuará sendo uma iniciativa relevante. Mas permanecerá a pergunta que o adiamento inevitavelmente deixa no ar: se a ética é essencial para fortalecer a legitimidade do Supremo, por que esperar justamente o término da eleição, momento em que ela se mostra mais necessária?

Valdemar Costa Neto expõe a engrenagem informal das emendas parlamentares

O método Vorcaro provoca a corrosão silenciosa das instituições brasileiras

Vorcaro tentava transformar informação em arma de poder

Pedro do Coutto

O escândalo envolvendo o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, já extrapolou há muito tempo os limites de uma investigação sobre fraudes financeiras. A cada nova etapa da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, o que emerge é um retrato preocupante de um modelo de atuação que, segundo os investigadores, buscava combinar influência econômica, produção de narrativas, coleta de informações sensíveis e pressão sobre adversários. Se confirmados pela Justiça, os fatos revelam um mecanismo muito mais sofisticado do que um simples caso de corrupção financeira. Revelam uma tentativa de transformar informação em arma de poder.

A nova fase da investigação trouxe à tona mensagens que indicam que Vorcaro teria determinado ao publicitário Thiago Miranda o levantamento de informações pessoais e patrimoniais sobre o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho. De acordo com os autos mencionados na decisão judicial que autorizou buscas e apreensões, o executivo era visto como um obstáculo aos interesses do grupo ligado ao Banco Master. A resposta atribuída a Miranda — “deixa comigo” — tornou-se um dos símbolos daquilo que a Polícia Federal descreve como uma estrutura organizada para monitorar pessoas consideradas inconvenientes aos interesses da organização investigada.

MESMO PADRÃO – O episódio ganhou ainda maior dimensão porque não se restringia ao ambiente empresarial. As investigações apontam que o mesmo padrão teria sido empregado contra jornalistas responsáveis pela cobertura do caso Master. A colunista Malu Gaspar, de O Globo, aparece nas investigações como alvo de uma verdadeira devassa em seus dados pessoais, familiares e patrimoniais. Mensagens recuperadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro demonstrava preocupação com novas reportagens e teria afirmado ser necessário “frear” a jornalista. O objetivo, segundo os investigadores, seria encontrar elementos capazes de constrangê-la ou enfraquecer sua credibilidade pública.

Não se trata apenas de um ataque a uma profissional de imprensa. Trata-se de um questionamento ao próprio funcionamento da democracia. Em qualquer Estado de Direito, jornalistas, investigadores, reguladores e executivos de instituições concorrentes exercem papéis distintos, mas igualmente essenciais para o equilíbrio do sistema. Quando passam a ser monitorados, pressionados ou transformados em alvos de campanhas coordenadas, o prejuízo deixa de ser individual. O dano alcança a capacidade das instituições de exercerem suas funções com independência.

As investigações também descrevem uma sofisticada estratégia de comunicação destinada a influenciar a opinião pública durante a crise do Banco Master. Segundo documentos da Polícia Federal, recursos financeiros teriam sido utilizados para contratar influenciadores digitais, estruturar campanhas em defesa da instituição e atacar decisões do Banco Central após a liquidação extrajudicial do banco. A suspeita é de que essa estratégia buscasse alterar a percepção pública dos fatos enquanto as autoridades aprofundavam as investigações. A defesa dos investigados nega a prática de crimes.

MECANISMOS DE PRESSÃO – O aspecto mais preocupante, contudo, talvez seja outro. Ao longo das últimas décadas, grandes escândalos de corrupção no Brasil frequentemente estiveram associados à compra de apoio político ou ao desvio direto de recursos públicos. O caso Master parece apontar para uma evolução desse modelo. Em vez de apenas buscar influência sobre decisões, a estrutura investigada teria investido também na construção de mecanismos permanentes de pressão, coleta de informações estratégicas e produção de narrativas favoráveis aos seus interesses.

Essa lógica representa uma ameaça mais sofisticada. Não depende exclusivamente de agentes públicos corrompidos. Ela procura capturar o ambiente onde decisões são tomadas, opiniões são formadas e reputações são construídas. Trata-se de um processo silencioso, capaz de atingir órgãos reguladores, veículos de comunicação, concorrentes privados e até integrantes do sistema financeiro.

O episódio envolvendo o executivo do Itaú ilustra exatamente essa mudança de paradigma. Não se investigava apenas um concorrente de mercado. Segundo a Polícia Federal, buscava-se mapear vulnerabilidades pessoais e patrimoniais que pudessem ser utilizadas futuramente. Ainda que eventual utilização desse material não tenha sido demonstrada, a própria produção desses levantamentos já desperta preocupações relevantes sobre privacidade, abuso de poder econômico e utilização de dados pessoais para fins de intimidação.

MONITORAMENTO – A reação institucional também revela a gravidade do caso. Entidades representativas da imprensa, como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), manifestaram preocupação com as revelações envolvendo o monitoramento de jornalistas, classificando a prática como incompatível com a liberdade de imprensa e defendendo investigação rigorosa sobre eventual acesso ilegal a dados protegidos pela legislação brasileira.

O Brasil já conheceu diferentes formas de captura das instituições. Algumas ocorreram pela corrupção tradicional. Outras, pelo loteamento político. O caso envolvendo Daniel Vorcaro sugere um fenômeno ainda mais complexo: o uso integrado de poder econômico, inteligência informal, campanhas digitais e coleta clandestina de informações para neutralizar adversários e moldar o ambiente institucional em benefício próprio.

A responsabilidade de confirmar ou rejeitar essas acusações caberá ao Poder Judiciário, assegurando aos investigados o pleno direito ao contraditório e à ampla defesa. Mas as informações já tornadas públicas deixam uma advertência importante. A maior ameaça às democracias contemporâneas nem sempre se manifesta por ataques frontais às instituições. Muitas vezes, ela se desenvolve silenciosamente, por meio da intimidação, da manipulação da informação e da tentativa de transformar dados privados em instrumentos de poder. Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas criminal ou financeiro. Passa a ser institucional. E, por isso mesmo, interessa a toda a sociedade.

O novo normal da instabilidade entre Washington e Teerã é a guerra

Cada ataque é instrumento de pressão política

Pedro do Coutto

A sucessão de ataques, retaliações pontuais e tréguas provisórias entre Estados Unidos e Irã indica que o Oriente Médio entrou em uma nova fase estratégica. Não se trata propriamente de paz, mas também não é uma guerra convencional em larga escala. O que surge é um modelo de confronto permanente, no qual o uso calculado da força passa a conviver com canais diplomáticos ativos. A lógica deixa de ser derrotar o adversário e passa a ser administrar o conflito.

Essa dinâmica representa uma mudança importante em relação às últimas décadas. Tanto Washington quanto Teerã parecem reconhecer que uma guerra aberta produziria custos políticos, militares e econômicos muito superiores aos possíveis ganhos. Os Estados Unidos procuram preservar seu poder de dissuasão sem serem arrastados para mais um conflito prolongado no Oriente Médio.

CAPACIDADE DE RESPOSTA – O Irã, por sua vez, busca demonstrar capacidade de resposta suficiente para manter sua credibilidade regional, evitando, ao mesmo tempo, um confronto que coloque em risco a sobrevivência do próprio regime. O resultado é um equilíbrio instável, sustentado muito mais pelo cálculo dos riscos do que por uma aproximação política efetiva.

Esse “novo normal” aproxima-se do conceito de conflito permanente de baixa intensidade. Cada ataque deixa de ser interpretado como o início inevitável de uma guerra total e passa a funcionar como um instrumento de pressão política. A força militar transforma-se em mecanismo de negociação. Bombardeios, ataques cibernéticos, operações de inteligência e demonstrações de poder naval deixam de ser exceções para integrar uma diplomacia coercitiva, na qual momentos de escalada e de distensão se sucedem quase simultaneamente.

Entretanto, a estabilidade produzida por esse modelo é apenas aparente. Quanto mais frequentes se tornam os episódios de violência controlada, maior é o risco de erros de cálculo. Um ataque que provoque um número elevado de vítimas, uma interpretação equivocada das intenções do adversário ou mesmo a atuação de grupos aliados fora do controle direto de Washington ou de Teerã pode romper rapidamente os mecanismos informais que hoje limitam a escalada do conflito. A história das crises internacionais demonstra que guerras muitas vezes não começam por decisão deliberada, mas pela incapacidade dos próprios atores de controlar a dinâmica que criaram.

DIMENSÃO ECONÔMICA –  Outro aspecto relevante é a dimensão econômica desse confronto. O Estreito de Ormuz continua sendo um dos principais pontos de vulnerabilidade da economia mundial. Sempre que as tensões aumentam, os mercados reagem imediatamente com oscilações no preço do petróleo, no custo dos fretes marítimos e na percepção global de risco. Assim, mesmo quando os confrontos permanecem limitados, seus efeitos extrapolam o campo militar e atingem cadeias de abastecimento, inflação e decisões de investimento em diversas partes do mundo.

Há, porém, uma consequência geopolítica que costuma passar despercebida. O prolongamento desse estado de tensão permanente favorece a consolidação de uma ordem internacional mais fragmentada, na qual a diplomacia tradicional perde espaço para relações baseadas na demonstração contínua de força. O conflito deixa de ser uma ruptura da política para se tornar um de seus instrumentos permanentes. Trata-se de uma realidade compatível com um sistema internacional cada vez mais multipolar, em que as grandes potências procuram evitar confrontos diretos, mas aceitam conviver com crises recorrentes como parte da competição estratégica.

Nesse contexto, talvez a maior ilusão seja imaginar que o Oriente Médio caminha para uma paz duradoura. O cenário mais provável não é o fim das hostilidades, mas a consolidação de um ciclo permanente de tensão, negociação e novos confrontos. A guerra deixa de ser um episódio extraordinário para se tornar uma ferramenta recorrente da política regional. A paz, por sua vez, transforma-se apenas em um intervalo precário entre duas crises.

Entre Washington e Brasília, a política externa se torna palco da disputa eleitoral

Flávio buscou reposicionar sua imagem nos EUA

Pedro do Coutto

A política externa raramente ocupa o centro do debate nas campanhas presidenciais brasileiras. Em geral, temas como economia, segurança pública, emprego e saúde dominam as preocupações do eleitorado. O atual embate em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, porém, alterou essa lógica.

A decisão da administração de Donald Trump de propor uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações nacionais transformou-se em um dos principais capítulos da pré-campanha presidencial, aproximando interesses comerciais, diplomacia e estratégia eleitoral.

REPOSICIONAMENTO – Foi nesse contexto que o senador Flávio Bolsonaro buscou reposicionar sua imagem. Depois de semanas sendo associado por adversários à escalada das tensões entre Brasília e Washington, o parlamentar viajou aos Estados Unidos para participar de audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Diante das autoridades norte-americanas, afirmou defender o cancelamento — e não apenas o adiamento — das novas tarifas, procurando afastar a narrativa de que seu grupo político teria contribuído para o endurecimento da posição americana.

A iniciativa revela um movimento de contenção de danos políticos. Em campanhas eleitorais, a percepção pública costuma ser tão importante quanto os fatos objetivos. A associação entre um candidato e medidas que possam produzir prejuízos econômicos tende a gerar custos eleitorais elevados, sobretudo quando atingem setores exportadores, produtores rurais, indústria e empregos.

Ao mesmo tempo, o governo federal procurou reafirmar seu protagonismo institucional. O Palácio do Planalto sustentou que as negociações comerciais pertencem ao campo da diplomacia oficial, conduzida pelo Ministério das Relações Exteriores, e criticou a atuação paralela de lideranças políticas brasileiras junto à administração Trump. Essa disputa pela legitimidade da interlocução internacional passou a fazer parte da narrativa eleitoral de ambos os campos.

INTERNACIONALIZAÇÃO – Mais do que uma divergência comercial, o episódio evidencia uma característica crescente da política contemporânea: a internacionalização das disputas domésticas. Cada vez mais, atores nacionais buscam apoio, legitimidade ou influência junto a governos estrangeiros para fortalecer posições internas. Trata-se de um fenômeno observado em diferentes democracias e que tende a produzir efeitos complexos sobre a percepção da soberania nacional.

Nesse ambiente, também circularam especulações sobre uma eventual possibilidade de intervenção militar norte-americana no Brasil, hipótese atribuída por alguns interlocutores a discussões ocorridas nos bastidores diplomáticos. Entretanto, um porta-voz do Departamento de Estado classificou tal cenário como absurdo, afastando oficialmente qualquer possibilidade dessa natureza. A manifestação contribuiu para reduzir a temperatura política em torno do tema e esvaziar uma narrativa que alimentava forte polarização nas redes sociais e no debate público.

O episódio ilustra como rumores e hipóteses geopolíticas podem ganhar enorme repercussão durante períodos eleitorais, sobretudo quando envolvem a maior potência mundial. Em contextos de elevada polarização, informações ainda não confirmadas frequentemente passam a influenciar a disputa política antes mesmo de serem verificadas pelos canais oficiais.

AGENDA BILATERAL – Outro aspecto relevante da viagem de Flávio Bolsonaro foi a tentativa de ampliar a agenda bilateral para além das tarifas comerciais. Entre os temas apresentados às autoridades americanas estiveram o combate ao crime organizado transnacional, especialmente em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho, organizações criminosas que vêm sendo tratadas por setores da política americana como potenciais ameaças de alcance internacional.

A cooperação em segurança permanece um dos pilares históricos das relações entre Brasil e Estados Unidos, embora qualquer mudança de classificação jurídica dessas organizações dependa exclusivamente das autoridades norte-americanas e de seus critérios legais.

A tentativa de deslocar o debate para a segurança pública também possui evidente dimensão eleitoral. Trata-se de uma agenda tradicionalmente favorável à direita brasileira e que busca dialogar com parcelas do eleitorado preocupadas com criminalidade e violência urbana. Entretanto, sua eficácia política dependerá da capacidade de separar cooperação internacional legítima de eventual percepção de interferência externa em assuntos internos.

PESQUISAS – Enquanto isso, as pesquisas começam a medir os efeitos dessa sucessão de episódios. Levantamentos recentes indicam estabilidade da intenção de voto do presidente Lula da Silva, ao mesmo tempo em que registram oscilações negativas para Flávio Bolsonaro em alguns cenários simulados de segundo turno. Ainda é cedo para interpretar esses movimentos como tendência consolidada, mas eles sugerem que a controvérsia envolvendo o tarifaço passou a produzir efeitos políticos concretos sobre a campanha.

Paralelamente à disputa presidencial, o cenário eleitoral também apresenta mudanças relevantes nas eleições proporcionais e para o Senado. Em São Paulo, pesquisas recentes apontam desempenho competitivo das candidaturas de Marina Silva e Simone Tebet na corrida pelas duas vagas em disputa, indicando que o eleitorado paulista poderá protagonizar uma das eleições senatoriais mais disputadas dos últimos anos.

O episódio envolvendo as tarifas americanas deixa uma lição importante sobre o atual momento político brasileiro. A fronteira entre política interna e política externa tornou-se cada vez mais tênue. Questões comerciais, relações diplomáticas, cooperação em segurança e disputas geopolíticas passaram a influenciar diretamente o ambiente eleitoral, ampliando o peso estratégico da atuação internacional dos candidatos.

PRESSÃO POLÍTICA – Num mundo marcado pela competição entre grandes potências, pela reorganização das cadeias produtivas e pela crescente instrumentalização da economia como ferramenta de pressão política, campanhas presidenciais dificilmente conseguirão manter a política externa em segundo plano. O caso do tarifaço demonstra que decisões tomadas em Washington podem alterar narrativas em Brasília, influenciar expectativas econômicas e repercutir imediatamente nas urnas.

Mais do que uma disputa sobre tarifas, trata-se de um exemplo de como a geopolítica passou a integrar definitivamente o cálculo eleitoral brasileiro. Para qualquer governo — seja qual for sua orientação ideológica — o desafio permanece o mesmo: preservar os interesses nacionais, fortalecer a credibilidade das instituições diplomáticas e impedir que divergências partidárias fragilizem a posição do país perante seus principais parceiros internacionais.

Quando o combate ao crime organizado se transforma em disputa geopolítica

Carta do Itamaraty cita risco de ação militar dos EUA

Pedro do Coutto

A resposta enviada pelo Ministério das Relações Exteriores à Câmara dos Deputados introduziu um dos mais delicados debates da política externa brasileira nos últimos anos.

Em documento oficial, o Itamaraty afirma que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode abrir espaço, ao menos do ponto de vista jurídico da legislação norte-americana, para medidas extraterritoriais que alcancem cidadãos, empresas e instituições brasileiras e, em um cenário extremo, até para o emprego de força militar em território nacional.

PREOCUPAÇÃO DIPLOMÁTICA – A advertência, por sua gravidade, extrapola o campo da segurança pública e passa a integrar o centro das preocupações diplomáticas e da soberania brasileira. A classificação das facções foi anunciada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e entrou em vigor em junho.

Pela legislação americana, organizações enquadradas como terroristas passam a ser alvo de um amplo conjunto de sanções financeiras, bloqueio de ativos, restrições migratórias e instrumentos de investigação muito mais abrangentes do que aqueles utilizados no combate ao crime organizado convencional. O objetivo declarado de Washington é ampliar sua capacidade de enfrentar redes criminosas transnacionais que afetem interesses norte-americanos.

REFLEXOS – O ponto de tensão, contudo, está menos na classificação em si do que em suas consequências jurídicas e políticas. O Itamaraty sustenta que a legislação antiterrorismo dos Estados Unidos confere elevado grau de discricionariedade às autoridades daquele país, permitindo a adoção de medidas unilaterais de alcance extraterritorial.

Segundo o ministério, isso poderia produzir repercussões financeiras, penais e migratórias para brasileiros e empresas nacionais, além de abrir margem para interpretações que afetem diretamente a soberania do Estado brasileiro.

Não se trata de afirmar que uma intervenção militar seja iminente ou inevitável. O próprio documento trabalha com a hipótese de risco potencial decorrente da arquitetura jurídica criada pela legislação americana de combate ao terrorismo.

INSTRUMENTOS LEGAIS – Ainda assim, o simples fato de um governo registrar oficialmente essa possibilidade revela o grau de preocupação existente nos círculos diplomáticos brasileiros. Em relações internacionais, muitas vezes o problema não está apenas na intenção política do momento, mas nos instrumentos legais que podem ser utilizados por administrações futuras em circunstâncias distintas.

Outro aspecto relevante destacado pelo governo brasileiro é a avaliação de que a medida americana não acrescenta ganhos concretos à cooperação bilateral no combate às organizações criminosas. Brasil e Estados Unidos já mantêm mecanismos consolidados de assistência jurídica, compartilhamento de inteligência, cooperação policial, rastreamento de ativos financeiros e combate à lavagem de dinheiro.

Na visão do Itamaraty, transformar facções criminosas em organizações terroristas não fortalece esses instrumentos e pode, ao contrário, introduzir novos conflitos jurídicos entre dois ordenamentos legais que tratam terrorismo e crime organizado como categorias distintas.

COMPETÊNCIAS INVESTIGATIVAS – Essa distinção não é meramente semântica. No direito brasileiro, terrorismo possui definição própria e está associado a finalidades específicas previstas na legislação. Embora PCC e Comando Vermelho pratiquem crimes de extrema violência e possuam estrutura transnacional, o Estado brasileiro historicamente os enquadra como organizações criminosas, e não como grupos terroristas. Essa diferença produz efeitos relevantes sobre competências investigativas, cooperação internacional e aplicação de tratados multilaterais.

O episódio também evidencia como segurança pública e política externa passaram a se entrelaçar de forma inédita. A decisão norte-americana ocorre em um contexto de crescente endurecimento da política de Washington contra organizações criminosas internacionais, inspirado, em parte, no modelo já utilizado contra cartéis mexicanos e outros grupos considerados ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. A ampliação desse conceito para organizações brasileiras projeta o problema da criminalidade nacional para o centro da agenda estratégica hemisférica.

Internamente, o tema inevitavelmente adquire dimensão política. A classificação foi defendida por lideranças da oposição ao governo Lula, que argumentam que o enquadramento amplia instrumentos internacionais de combate às facções. O governo, por sua vez, interpreta que os custos diplomáticos, econômicos e jurídicos podem superar eventuais benefícios operacionais. São posições distintas sobre um mesmo problema, que refletem visões diferentes acerca dos limites da cooperação internacional e da proteção da soberania nacional.

TENSÃO – O debate também ocorre em um momento de crescente tensão nas relações entre Brasília e Washington, marcado por divergências comerciais e por disputas políticas que tendem a se intensificar diante dos calendários eleitorais dos dois países. Em ambientes de polarização, temas de segurança frequentemente deixam de ser exclusivamente técnicos para se transformarem em instrumentos de disputa política e diplomática.

Há ainda uma dimensão institucional que merece atenção. Ao registrar oficialmente suas preocupações perante o Congresso Nacional, o Itamaraty reforça o papel da diplomacia preventiva. Sua função não é antecipar cenários como inevitáveis, mas alertar para riscos decorrentes de mudanças normativas promovidas por outros Estados. Esse tipo de manifestação permite que o país prepare respostas jurídicas, fortaleça mecanismos de cooperação e preserve margens de atuação diplomática antes que eventuais conflitos se materializem.

O combate ao crime organizado continua sendo uma necessidade inquestionável. PCC e Comando Vermelho representam desafios reais para a segurança pública brasileira e possuem conexões internacionais que exigem intensa cooperação entre Estados. A controvérsia reside em definir quais instrumentos são mais eficazes para enfrentar essas organizações sem produzir efeitos colaterais sobre a soberania nacional, a segurança jurídica e as relações diplomáticas.

FRONTEIRAS – Ao final, a discussão revela um fenômeno mais amplo da política internacional contemporânea: fronteiras entre segurança, diplomacia, economia e direito tornam-se cada vez mais difusas. Decisões tomadas em Washington podem repercutir diretamente sobre instituições brasileiras; respostas formuladas em Brasília podem influenciar a cooperação regional; e a disputa contra organizações criminosas passa a integrar uma agenda geopolítica muito mais complexa do que a simples repressão policial.

Nesse cenário, preservar a cooperação internacional sem abrir mão da autonomia decisória do Estado brasileiro será um dos principais desafios da política externa nacional nos próximos anos.

A pior Copa em décadas expõe o fracasso da Seleção brasileira e do treinador

Brasil caiu nas oitavas de final depois de 36 anos

Pedro do Coutto

A eliminação da Seleção Brasileira diante da Noruega ficará marcada como um dos capítulos mais decepcionantes da história recente do futebol nacional. Mais do que a derrota em si, chamou atenção a maneira como ela ocorreu.

O Brasil apresentou um futebol pobre, desorganizado, sem criatividade e distante da identidade que, durante décadas, transformou a camisa amarela em sinônimo de excelência. A manchete publicada por O Globo nesta segunda-feira sintetiza com precisão o sentimento predominante entre torcedores e analistas: “O Brasil fez a pior Copa nos últimos 36 anos”.

SEM RITMO – O desempenho brasileiro não pode ser explicado apenas pelos méritos da Noruega, que atuou com disciplina tática, intensidade e eficiência. A equipe europeia controlou a maior parte da partida, neutralizou as principais peças brasileiras e explorou as fragilidades defensivas sem encontrar grande resistência. Em nenhum momento a Seleção conseguiu impor seu ritmo ou transmitir a sensação de que poderia reverter o cenário adverso.

A atuação foi decepcionante tanto do ponto de vista coletivo quanto individual. O Brasil demonstrou enorme dificuldade para manter a posse de bola, construir jogadas ofensivas e exercer qualquer tipo de pressão consistente sobre o adversário. A circulação de bola foi lenta, previsível e marcada por inúmeros erros de passe. Sem organização, os jogadores pareciam atuar de maneira isolada, sem coordenação entre os setores e sem um plano de jogo claramente definido.

Desde os primeiros minutos, a equipe transmitia insegurança. A perda do controle emocional ficou evidente após sofrer o primeiro gol, quando o time passou a cometer erros ainda mais frequentes. Em vez de reagir, a Seleção pareceu sentir o peso do resultado, tornando-se presa fácil para um adversário que executava com precisão sua estratégia.

ANCELOTTI – Grande parte das críticas naturalmente recai sobre o técnico Carlo Ancelotti. Reconhecido mundialmente por sua trajetória vitoriosa no futebol europeu e pela capacidade de administrar elencos estrelados, o treinador italiano ainda não conseguiu transferir esse prestígio para o comando da Seleção Brasileira. Contra a Noruega, sua equipe apresentou exatamente aquilo que se espera evitar em um torneio de alto nível: falta de identidade, pouca intensidade, dificuldade de adaptação durante a partida e ausência de alternativas táticas quando o plano inicial fracassou.

As substituições pouco alteraram o panorama do jogo. O Brasil permaneceu previsível, sem criatividade e incapaz de modificar a dinâmica da partida. A impressão deixada foi a de uma equipe sem mecanismos ofensivos trabalhados e sem repertório para enfrentar uma marcação bem organizada. Em competições curtas, nas quais cada detalhe pode definir a classificação, essa limitação cobra um preço elevado.

Também é impossível ignorar que a Seleção atravessa um processo de desgaste que antecede a chegada de Ancelotti. Nos últimos anos, o futebol brasileiro perdeu regularidade em competições internacionais, passou por sucessivas mudanças de comando técnico e ainda busca reconstruir uma identidade competitiva. Entretanto, um treinador contratado justamente para corrigir essas deficiências precisa ser avaliado pelos resultados e, principalmente, pela evolução apresentada em campo. Neste aspecto, a campanha deixa poucas razões para otimismo.

TRADIÇÃO – O contraste entre a tradição brasileira e o desempenho atual torna a decepção ainda maior. O país que construiu sua história sobre um futebol criativo, ofensivo e tecnicamente refinado apresentou justamente o oposto: pouca inspiração, baixo poder ofensivo e enorme dificuldade para controlar uma partida decisiva. Não se trata apenas de uma derrota, mas de uma atuação que simboliza o momento de instabilidade vivido pela equipe nacional.

Embora Ancelotti tenha contrato até 2030, a permanência de um treinador em uma seleção de futebol nunca depende apenas da duração do vínculo formal. Ela está diretamente ligada aos resultados, ao desempenho coletivo e à confiança da direção da confederação, dos jogadores e da torcida. Quando esses elementos começam a desaparecer, a pressão torna-se inevitável.

PLANEJAMENTO – Ainda é cedo para afirmar qual será a decisão da Confederação Brasileira de Futebol, mas a eliminação diante da Noruega certamente muda o ambiente em torno do treinador. Uma campanha considerada a pior em mais de três décadas não pode ser tratada como um simples tropeço. Ela exige uma análise profunda sobre planejamento, modelo de jogo, preparação e capacidade de reação diante dos desafios do futebol internacional.

O Brasil continua sendo uma das maiores potências da história do esporte, mas tradição, por si só, não vence partidas. O futebol moderno exige organização, intensidade, equilíbrio tático e capacidade de adaptação. A derrota para a Noruega evidencia que ainda há um longo caminho até que a Seleção volte a apresentar um futebol compatível com sua história.

Entre a polarização e a terceira via: o desafio de Zema na corrida presidencial

O custo da falta de sincronização no combate ao crime organizado no país

PF teve de antecipar a Operação Exchange

Pedro do Coutto

A declaração do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, de que uma sanção aplicada pelos Estados Unidos acabou prejudicando uma operação brasileira contra um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) transcende o episódio policial e revela um fenômeno cada vez mais frequente: a crescente sobreposição entre decisões de política internacional e investigações conduzidas por autoridades nacionais.

O caso demonstra que, na era da criminalidade globalizada, cooperação internacional e sincronização institucional tornaram-se tão importantes quanto inteligência policial e capacidade operacional. Segundo a Polícia Federal, a Operação Exchange vinha sendo preparada havia meses para desarticular uma sofisticada rede de movimentação financeira suspeita de lavar recursos provenientes do narcotráfico internacional.

FLUXO BILIONÁRIO – A investigação identificou um fluxo bilionário de operações envolvendo criptomoedas, transporte de dinheiro em espécie, empresas de fachada e complexas transações bancárias. Entretanto, a divulgação antecipada das sanções norte-americanas contra um dos principais investigados obrigou a PF a antecipar o cumprimento dos mandados, alterando o cronograma originalmente planejado. O resultado foi a prisão de parte dos envolvidos, mas também a fuga do empresário apontado como um dos principais operadores financeiros do esquema.

O episódio ilustra uma característica das investigações contemporâneas: o fator surpresa continua sendo um dos ativos mais valiosos das operações contra organizações criminosas. Redes especializadas em lavagem de dinheiro possuem elevado grau de profissionalização, monitoram constantemente movimentações institucionais e reagem rapidamente a qualquer sinal de exposição.

Quando uma informação estratégica se torna pública antes da execução das medidas judiciais, abre-se uma janela suficiente para destruição de provas, ocultação de patrimônio e evasão dos principais alvos. Não se trata apenas de prender suspeitos, mas de preservar a efetividade de meses — às vezes anos — de trabalho investigativo.

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL – Ao mesmo tempo, seria simplista interpretar o episódio como um conflito entre Brasil e Estados Unidos. A cooperação internacional no combate ao crime organizado é hoje indispensável, especialmente diante de organizações que movimentam recursos em diversos países e utilizam sistemas financeiros espalhados pelo mundo.

Sanções econômicas, bloqueio de ativos, troca de inteligência e investigações conjuntas são instrumentos legítimos e frequentemente decisivos para atingir organizações criminosas transnacionais. O problema não está na existência desses mecanismos, mas na necessidade de maior coordenação entre autoridades que compartilham objetivos semelhantes.

O próprio PCC deixou há muito tempo de ser uma organização restrita ao sistema penitenciário brasileiro. As investigações conduzidas ao longo dos últimos anos mostram uma estrutura empresarial sofisticada, capaz de operar cadeias internacionais de lavagem de dinheiro, utilizar plataformas digitais, movimentar criptomoedas e criar empresas aparentemente legais para dissimular recursos ilícitos.

INTEGRAÇÃO – Combater uma organização com esse grau de complexidade exige integração permanente entre polícias, órgãos financeiros e autoridades estrangeiras, mas também protocolos rígidos sobre o momento adequado para tornar públicas determinadas medidas.

A manifestação pública do diretor-geral da Polícia Federal também chama atenção por reconhecer, de forma transparente, que fatores externos podem influenciar diretamente o resultado de operações policiais. Em vez de atribuir o insucesso parcial apenas à capacidade dos investigados, a declaração evidencia que decisões tomadas em diferentes jurisdições podem produzir efeitos inesperados sobre ações cuidadosamente planejadas.

É uma demonstração de como o combate ao crime organizado passou a depender não apenas da competência das instituições nacionais, mas da qualidade da coordenação entre governos que compartilham interesses na repressão às mesmas organizações.

EFEITO COLATERAL  – Esse episódio ainda oferece uma reflexão importante sobre governança internacional. Em um ambiente de criminalidade financeira globalizada, a eficácia das ações depende tanto do compartilhamento de informações quanto da administração criteriosa do tempo. Divulgar uma sanção financeira pode ser essencial para bloquear ativos e impedir novas operações ilícitas; contudo, se isso ocorrer antes da execução simultânea das medidas policiais, o efeito colateral pode ser justamente facilitar a evasão dos principais investigados. O desafio está em harmonizar transparência, cooperação e eficiência operacional sem comprometer nenhum desses objetivos.

Mais do que um incidente isolado, o caso revela uma nova realidade do combate ao crime organizado internacional. As fronteiras entre segurança pública, inteligência financeira e política externa tornam-se cada vez mais tênues, exigindo mecanismos de coordenação muito mais sofisticados do que aqueles concebidos para uma criminalidade essencialmente doméstica.

O sucesso das grandes operações do futuro dependerá menos da capacidade de agir isoladamente e cada vez mais da habilidade dos Estados em sincronizar decisões, preservar o sigilo estratégico e transformar a cooperação internacional em uma vantagem operacional, e não em um fator de risco para as próprias investigações.

O tarifaço, Flávio Bolsonaro e os limites da política internacional como estratégia eleitoral

Aumento dos preços fortalecerá discurso do governo federal

Pedro do Coutto

A carta enviada por Flávio Bolsonaro ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pedindo o adiamento da entrada em vigor de novas tarifas sobre produtos brasileiros, representa um episódio politicamente revelador. Mais do que uma tentativa de influenciar uma decisão comercial de Washington, ela expõe como disputas eleitorais domésticas passaram a dialogar diretamente com a política econômica internacional, produzindo dilemas que dificilmente encontram soluções simples.

O argumento apresentado pelo senador parte de uma lógica essencialmente eleitoral. Se o aumento das tarifas elevar os custos de exportação brasileiros e produzir efeitos indiretos sobre preços, emprego, renda e expectativas econômicas, parte desse impacto poderá ser percebida pelos eleitores antes da eleição presidencial.

FORTALECIMENTO DO DISCURSO – Em um cenário de inflação mais elevada ou de desaceleração da atividade econômica, cresce a possibilidade de o governo federal atribuir parte dessas dificuldades às pressões externas, fortalecendo o discurso de defesa da economia nacional. Ao mesmo tempo, adversários da família Bolsonaro poderão explorar o fato de que a proximidade política construída ao longo dos últimos anos com Donald Trump não foi suficiente para evitar medidas prejudiciais ao Brasil.

Trata-se, portanto, de uma preocupação compreensível do ponto de vista eleitoral. A economia continua sendo um dos principais fatores que influenciam o comportamento do eleitor. Diversos estudos da ciência política demonstram que governos costumam ser premiados quando a população percebe melhora em indicadores como emprego, renda e inflação, enquanto enfrentam maior desgaste quando o custo de vida aumenta. Nesse contexto, qualquer choque externo que altere preços ou reduza o dinamismo econômico passa inevitavelmente a integrar o debate político interno.

Entretanto, o pedido dirigido a Trump também revela uma contradição difícil de ignorar. Ao solicitar que a aplicação das tarifas seja postergada para não produzir efeitos eleitorais no Brasil, Flávio Bolsonaro reconhece, ainda que indiretamente, que decisões econômicas tomadas por uma potência estrangeira podem influenciar o resultado de uma eleição brasileira. Em outras palavras, admite que a política internacional produz impactos concretos sobre a disputa doméstica, justamente um dos argumentos frequentemente utilizados para defender maior autonomia nacional diante das grandes potências.

PRESSÃO – Há ainda um aspecto prático que torna o pleito de difícil execução. A política comercial dos Estados Unidos raramente é construída para atender exclusivamente aos interesses eleitorais de outros países. Tarifas fazem parte de estratégias mais amplas de proteção da indústria nacional, de negociação comercial e, muitas vezes, de pressão diplomática. Mesmo quando produzem efeitos colaterais relevantes sobre parceiros econômicos, sua revisão normalmente depende de cálculos internos da administração americana, envolvendo Congresso, setor produtivo e interesses estratégicos dos próprios Estados Unidos.

Caso Trump decidisse recuar apenas para evitar consequências eleitorais no Brasil, abriria espaço para questionamentos internos sobre a coerência de sua política comercial. Afinal, boa parte de seu discurso político sempre esteve associada justamente à defesa de medidas protecionistas e da indústria americana. Uma mudança motivada predominantemente pelo calendário eleitoral brasileiro poderia ser interpretada como uma exceção difícil de justificar perante seu próprio eleitorado.

O episódio também evidencia uma característica cada vez mais marcante da economia contemporânea: a crescente interdependência entre os países. Em um mercado globalizado, tarifas, sanções econômicas, alterações cambiais, conflitos geopolíticos e mudanças nas cadeias produtivas ultrapassam rapidamente as fronteiras nacionais. Uma decisão tomada em Washington pode alterar preços em São Paulo; uma crise energética na Europa afeta custos industriais na América Latina; tensões comerciais entre grandes economias repercutem sobre exportadores de países emergentes.

RUMOS DA ECONOMIA – Essa realidade reduz a capacidade de qualquer governo controlar isoladamente os rumos da economia. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de coordenação internacional e de diplomacia econômica consistente. Não se trata apenas de negociar acordos comerciais, mas de compreender que decisões externas podem redefinir cenários políticos internos em questão de semanas.

Nesse ambiente, estratégias eleitorais baseadas exclusivamente em alinhamentos ideológicos internacionais tornam-se mais complexas. Relações pessoais entre líderes podem facilitar canais de diálogo, mas dificilmente substituem os interesses permanentes dos Estados nacionais. Governos mudam; prioridades econômicas permanecem. A história das relações internacionais mostra que mesmo países aliados frequentemente entram em conflito quando seus interesses comerciais deixam de convergir.

Por isso, a carta de Flávio Bolsonaro possui um significado que ultrapassa seu resultado prático. Independentemente de Trump acolher ou não o pedido, o episódio ilustra como a política doméstica brasileira passou a incorporar variáveis externas de maneira muito mais intensa do que em décadas anteriores. As fronteiras entre política interna e política internacional tornaram-se mais permeáveis, especialmente em temas ligados ao comércio, à tecnologia, à segurança e às finanças.

LIMITES DO INTERNACIONALISMO – Ao mesmo tempo, a iniciativa revela os limites do internacionalismo quando aplicado às disputas eleitorais. A cooperação entre lideranças conservadoras de diferentes países pode produzir afinidades políticas e ideológicas, mas dificilmente elimina os conflitos decorrentes dos interesses econômicos nacionais. Cada governo responde, em primeiro lugar, às demandas de seu próprio eleitorado.

O caso demonstra, em última análise, que a economia globalizada produz uma cadeia de efeitos muitas vezes impossível de ser controlada por um único ator político. Tarifas destinadas a proteger determinados setores econômicos acabam influenciando inflação, investimentos, emprego, popularidade de governos e estratégias eleitorais em diversos países simultaneamente. É precisamente essa interdependência que torna a política internacional um terreno cada vez mais decisivo — e, ao mesmo tempo, mais imprevisível — para quem disputa o poder.

A carta de Flávio Bolsonaro sintetiza essa nova realidade. Ao buscar em Washington uma solução para um problema que pode afetar a eleição brasileira, o senador evidencia que, na política contemporânea, decisões econômicas internacionais já não permanecem restritas às relações entre Estados. Elas passaram a integrar, de forma direta, o cálculo eleitoral, tornando cada vez mais difícil separar política externa, economia e democracia em um mundo profundamente interligado.

Entenda como o PCC e o CV entraram na agenda geopolítica de Trump

EUA anunciam sanções contra pessoas e empresas

Pedro do Coutto

A decisão do governo Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) como “a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental” representa muito mais do que uma mudança de linguagem. Ela sinaliza uma inflexão profunda na política externa e de segurança dos Estados Unidos para a América Latina, colocando o Brasil no centro de uma agenda que ultrapassa o combate ao narcotráfico e passa a integrar os interesses estratégicos de Washington para o continente.

O anúncio foi acompanhado de sanções contra brasileiros e empresas acusados de integrar um esquema internacional de lavagem de dinheiro ligado à facção. Em termos práticos, trata-se da primeira demonstração concreta de uma política que busca ampliar o alcance extraterritorial das autoridades americanas sobre organizações criminosas consideradas ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos.

EFEITO POLÍTICO – Embora a dimensão internacional do PCC seja conhecida há anos por autoridades brasileiras, europeias e organismos especializados em crime organizado, o enquadramento adotado pela Casa Branca produz um efeito político muito mais amplo do que o simples reconhecimento da expansão da facção. A mensagem enviada por Washington é clara: o crime organizado latino-americano deixou de ser tratado apenas como problema policial e passou a ser considerado elemento central da estratégia de defesa americana.

Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos para a América Latina alternou períodos de maior e menor protagonismo. No segundo mandato de Donald Trump, entretanto, a região voltou ao centro das prioridades estratégicas. O combate ao chamado narcoterrorismo tornou-se um dos pilares dessa nova doutrina, ao lado do controle migratório, da contenção da influência chinesa e da proteção das cadeias logísticas do continente. Nesse contexto, o PCC aparece como o exemplo mais evidente da transformação das organizações criminosas modernas.

ESTRUTURA EMPRESARIAL – Longe de ser apenas uma facção prisional brasileira, o grupo construiu, ao longo das últimas duas décadas, uma sofisticada estrutura empresarial voltada ao tráfico internacional de cocaína, à lavagem de dinheiro, ao uso de criptomoedas, ao comércio exterior e à infiltração em atividades econômicas aparentemente legais.

Investigações brasileiras e internacionais apontam sua presença em diversos países da América do Sul, além de conexões na Europa, África e Ásia, especialmente em rotas destinadas ao mercado europeu de drogas. Esse crescimento explica por que Washington decidiu elevar o tom.

Contudo, seria um erro interpretar a iniciativa apenas como uma resposta ao avanço do PCC. Ela também atende aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Ao classificar organizações criminosas latino-americanas como ameaças diretas à segurança nacional, o governo Trump amplia sua margem jurídica e diplomática para impor sanções financeiras, congelar ativos, restringir operações bancárias internacionais, pressionar governos aliados e intensificar o compartilhamento de inteligência.

JUSTIFICATIVA – Em cenários extremos, essa doutrina também abre espaço para justificar operações mais robustas contra estruturas criminosas que afetem interesses americanos, ainda que tais possibilidades dependam de fatores diplomáticos e jurídicos complexos. É justamente esse aspecto que desperta preocupação em Brasília.

Para o governo brasileiro, o combate ao PCC sempre foi tratado como questão de soberania nacional. A atuação de autoridades estrangeiras sobre organizações criminosas instaladas no território brasileiro inevitavelmente produz debates sobre limites jurídicos, cooperação internacional e autonomia do Estado brasileiro. Ao mesmo tempo, ignorar a crescente internacionalização da facção seria igualmente problemático.

O PCC deixou há muito de operar exclusivamente dentro das fronteiras brasileiras. Seu modelo de negócios acompanha a lógica das grandes redes criminosas globais, conectando produção de drogas, logística internacional, mercados financeiros, empresas de fachada e sofisticados mecanismos de ocultação patrimonial. Essa transformação exige níveis inéditos de cooperação entre governos, polícias, agências de inteligência e autoridades financeiras.

CONTRADIÇÃO – Nesse ponto, surge um paradoxo. Enquanto Washington endurece seu discurso e amplia seu protagonismo regional, o Brasil ainda enfrenta dificuldades estruturais para coordenar uma estratégia nacional integrada contra o crime organizado. A fragmentação entre forças policiais, as diferenças legislativas entre estados, a lentidão de processos judiciais e a elevada capacidade financeira das facções continuam favorecendo sua expansão.

As recentes operações conduzidas por órgãos brasileiros demonstram avanços importantes no combate à lavagem de dinheiro e à infiltração do PCC na economia formal. Entretanto, especialistas reconhecem que organizações desse porte possuem enorme capacidade de adaptação, substituindo rapidamente empresas, operadores financeiros e rotas internacionais sempre que uma estrutura é desmantelada.

MESMO DISCURSO – Outro elemento merece atenção Ao utilizar uma retórica de segurança nacional para justificar sua política hemisférica, Donald Trump também fortalece sua narrativa política doméstica. O combate ao narcotráfico, à imigração ilegal e ao crime organizado integra um mesmo discurso voltado ao eleitorado americano, reforçando a imagem de um governo disposto a enfrentar ameaças externas com instrumentos cada vez mais contundentes.

Sob essa ótica, o PCC torna-se simultaneamente um problema real de segurança pública e um símbolo político útil para sustentar uma estratégia mais ampla de projeção de poder dos Estados Unidos nas Américas Isso não significa que a ameaça representada pela facção seja exagerada. Pelo contrário.

O crescimento internacional do PCC é amplamente documentado por investigações policiais e estudos especializados. O ponto central da discussão reside menos na existência da ameaça e mais na forma como ela será utilizada para redefinir o equilíbrio entre soberania nacional, cooperação internacional e protagonismo geopolítico dos Estados Unidos.

NOVA FASE – A classificação promovida pelo governo Trump inaugura uma nova fase dessa discussão. Se, por um lado, ela pode fortalecer mecanismos internacionais de combate ao crime organizado, por outro amplia o debate sobre até onde Washington pretende expandir sua influência em nome da segurança regional.

O Brasil, maior economia da América Latina e país de origem da organização apontada como principal ameaça criminal do continente, inevitavelmente ocupará posição central nesse novo tabuleiro geopolítico.

Mais do que uma declaração de impacto, a ofensiva americana revela que, no século XXI, organizações criminosas deixaram de ser apenas um desafio para as forças policiais. Tornaram-se variáveis estratégicas da política internacional, capazes de influenciar relações diplomáticas, políticas econômicas e a própria arquitetura de segurança das Américas.

Michelle, Flávio e o custo político de um racha que interessa muito à oposição

Embate impactou na imagem de unidade do bolsonarismo

Pedro do Coutto

A crise envolvendo Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro ultrapassou definitivamente os limites de uma divergência familiar. O episódio transformou-se em um problema político de grandes proporções para o Partido Liberal (PL), expondo fissuras internas justamente quando a legenda deveria concentrar seus esforços na construção de uma estratégia eleitoral unificada para as eleições de outubro.

Se confirmada a desistência de Michelle de disputar uma vaga no Senado pelo partido, o desgaste deixará de ser apenas simbólico para produzir efeitos concretos sobre o tabuleiro eleitoral.

MEDIAÇÃO – Nos últimos dias, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, buscou atuar como mediador da crise. Entretanto, as tentativas de recomposição não conseguiram impedir que o conflito se aprofundasse. Michelle decidiu deixar a presidência do PL Mulher, alegando motivos familiares e o desejo de dedicar-se integralmente aos cuidados do ex-presidente Jair Bolsonaro e da filha.

A decisão ocorreu logo após a repercussão pública do desentendimento com Flávio Bolsonaro, que chegou a pedir desculpas, mas sem conseguir encerrar a crise política provocada pelo episódio.

Embora a justificativa oficial seja de natureza pessoal, nos bastidores políticos a leitura é diferente. Parlamentares e dirigentes partidários interpretam a saída como consequência direta do desgaste provocado pela exposição pública das divergências dentro da família Bolsonaro.

DÚVIDA – O ambiente interno tornou-se suficientemente delicado para colocar em dúvida a própria disposição de Michelle em disputar o Senado pelo Distrito Federal, hipótese que vinha sendo tratada como praticamente certa até poucas semanas atrás.

Do ponto de vista eleitoral, trata-se de uma perda potencialmente significativa. Michelle consolidou, ao longo dos últimos anos, um patrimônio político próprio, especialmente entre o eleitorado feminino e os segmentos evangélicos, grupos considerados estratégicos para o campo conservador.

Sua presença em uma chapa majoritária representava não apenas uma candidatura competitiva, mas também um instrumento de mobilização capaz de ampliar o alcance eleitoral do partido em regiões decisivas. Sua eventual retirada reduz esse capital político disponível para o PL e enfraquece uma das principais lideranças nacionais da legenda.

FOCO DO DEBATE – A crise também produz outro efeito relevante: desloca o foco do debate político. Em vez de apresentar propostas, consolidar alianças e organizar o discurso eleitoral, o partido passou a administrar sucessivas explicações sobre conflitos internos.

Em campanhas eleitorais, especialmente nos meses que antecedem a votação, o controle da narrativa costuma ser um ativo precioso. Quando esse espaço é ocupado por disputas domésticas, a oposição naturalmente encontra terreno fértil para explorar contradições e questionar a capacidade de liderança do grupo adversário.

Não se trata apenas da relação entre madrasta e enteado. O episódio levanta questionamentos sobre a capacidade do partido de administrar divergências internas sem permitir que elas se transformem em crises públicas. Em legendas fortemente identificadas com lideranças personalistas, conflitos familiares frequentemente assumem dimensão política, produzindo reflexos que vão muito além das relações pessoais.

IMAGEM DA UNIDADE – Outro elemento relevante é o impacto sobre a imagem de unidade construída pelo bolsonarismo ao longo dos últimos anos. Grande parte da força política do grupo sempre esteve associada à ideia de coesão entre seus principais líderes. Quando divergências dessa magnitude tornam-se públicas, abre-se espaço para interpretações de fragmentação justamente em um momento no qual a coordenação política deveria transmitir estabilidade e confiança ao eleitorado.

A situação também representa um desafio direto para Valdemar Costa Neto. Como principal dirigente do PL, cabia a ele preservar a unidade partidária e evitar que o conflito atingisse proporções nacionais. A dificuldade em conter o desgaste evidencia os limites da atuação da direção partidária diante de um grupo político cuja dinâmica muitas vezes ultrapassa as estruturas formais da legenda.

Naturalmente, ainda existe espaço para uma reaproximação. Na política brasileira, crises aparentemente irreversíveis frequentemente cedem lugar a acordos construídos pela conveniência eleitoral. Aliados de Michelle ainda trabalham para convencê-la a manter seus projetos políticos, enquanto interlocutores também buscam reconstruir a relação com Flávio Bolsonaro. Até o momento, porém, não há sinais concretos de que essa recomposição tenha sido efetivamente alcançada.

REFLEXOS POLÍTICOS – Independentemente do desfecho, o episódio já produz consequências políticas. A oposição observa atentamente uma crise que desvia energias do principal partido da direita brasileira e enfraquece sua capacidade de organizar a campanha eleitoral. Quando uma legenda precisa concentrar esforços na administração de conflitos internos, inevitavelmente reduz sua capacidade de enfrentar adversários externos.

Em política, o tempo costuma ser um dos recursos mais valiosos. Com apenas alguns meses até as eleições, cada semana dedicada à contenção de crises representa menos tempo para convencer eleitores, consolidar alianças e apresentar propostas. Nesse contexto, o racha envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro deixa de ser um problema exclusivamente familiar para transformar-se em um fator de relevância nacional, cujos efeitos poderão ser sentidos ao longo de toda a campanha eleitoral.

Brasil avança na Copa, enquanto a política testa limites da internacionalização eleitoral

Classificação brasileira foi construída com persistência

Pedro do Coutto

O futebol e a política costumam caminhar por trilhas distintas, mas ambos compartilham uma característica fundamental: a capacidade de despertar paixões, mobilizar narrativas e influenciar o estado de espírito de um país. Nesta semana, o Brasil viveu esses dois cenários quase simultaneamente. Enquanto a seleção brasileira conquistava uma vitória dramática por 2 a 1 sobre o Japão e avançava na competição mundial, um movimento político de Flávio Bolsonaro na Argentina reacendeu o debate sobre até que ponto alianças internacionais podem produzir efeitos positivos — ou negativos — em uma disputa essencialmente doméstica.

Em campo, a classificação brasileira foi construída com sofrimento, estratégia e persistência. O Japão mostrou, desde os primeiros minutos, por que chegou às fases decisivas do torneio. A equipe asiática apresentou uma organização tática consistente, fechando espaços, reduzindo a velocidade das jogadas brasileiras e obrigando o Brasil a buscar alternativas durante praticamente toda a partida.

JOGO DURO – Não foi um adversário passivo. Ao contrário, valorizou ainda mais a vitória brasileira justamente por impor dificuldades que exigiram mudanças e maturidade da equipe comandada por Carlo Ancelotti.

A atuação do treinador italiano voltou a ser decisiva. Ancelotti promoveu alterações que modificaram o panorama do confronto, especialmente com a entrada de Gabriel Martinelli, cuja velocidade passou a oferecer uma nova dinâmica ao setor ofensivo brasileiro. A mudança permitiu que a seleção ganhasse profundidade justamente no momento em que o desgaste físico começava a pesar dos dois lados.

Outro protagonista foi Casemiro. O volante apareceu em um dos momentos mais importantes da partida ao marcar, de cabeça, o gol que recolocou o Brasil na disputa quando o tempo se tornava um adversário adicional. O empate renovou o ímpeto da equipe e manteve viva a pressão ofensiva até os minutos finais.

LONGOS ACRÉSCIMOS – A reta decisiva do jogo foi marcada por uma característica cada vez mais presente no futebol moderno: os longos acréscimos determinados pela arbitragem. Com a política adotada nas principais competições internacionais, que busca compensar de forma rigorosa todas as paralisações, o confronto ultrapassou os 50 minutos no segundo tempo. O que parecia caminhar para uma prorrogação acabou sendo resolvido antes do apito final. O Brasil encontrou o gol da vitória ainda no tempo regulamentar, encerrando qualquer necessidade de disputa em tempo extra ou nos pênaltis.

A classificação reforça uma máxima conhecida das Copas do Mundo: a partir das fases eliminatórias, não existem adversários fáceis. Seja Noruega ou Costa do Marfim, qualquer seleção que alcance esse estágio reúne qualidades suficientes para surpreender. A história do futebol está repleta de campanhas improváveis, zebras memoráveis e atuações individuais que mudaram completamente o destino de competições inteiras. Por isso, escolher adversário costuma ser um exercício inútil. Quem pretende disputar o título precisa estar preparado para enfrentar qualquer desafio.

FLÁVIO E MILEI – Enquanto a seleção avançava dentro das quatro linhas, outro episódio chamava atenção no cenário político. O senador Flávio Bolsonaro esteve em Buenos Aires com o presidente argentino, Javier Milei. O encontro, realizado na residência oficial da presidência argentina, foi interpretado como mais um passo na aproximação entre lideranças conservadoras da América do Sul, em um contexto no qual movimentos de direita buscam ampliar sua articulação internacional.

A estratégia não é inédita. Nos últimos anos, tornou-se comum que lideranças conservadoras e progressistas estabeleçam redes de cooperação política além de suas fronteiras nacionais. Conferências internacionais, encontros entre chefes de Estado, fóruns ideológicos e manifestações públicas de apoio passaram a integrar o repertório de campanhas e movimentos políticos em diversas democracias.

A direita mantém interlocução frequente entre nomes como Javier Milei, Donald Trump e outras lideranças conservadoras, enquanto partidos de esquerda também preservam alianças históricas em organizações internacionais e fóruns multilaterais.

FATORES INTERNOS – O desafio, contudo, reside na percepção do eleitor. Pesquisas em ciência política indicam que o voto tende a ser fortemente influenciado por fatores internos — economia, emprego, segurança pública, inflação, renda e avaliação do governo — muito mais do que por demonstrações de apoio vindas do exterior. Em outras palavras, alianças internacionais podem fortalecer uma identidade política perante a militância mais engajada, mas dificilmente substituem as preocupações concretas do eleitor médio.

Nesse contexto, a visita de Flávio Bolsonaro apresenta riscos e oportunidades. Para o núcleo mais fiel do eleitorado conservador, a aproximação com Javier Milei pode reforçar a narrativa de integração entre governos alinhados à defesa do liberalismo econômico e de pautas conservadoras. Por outro lado, existe também a possibilidade de que parte do eleitorado interprete esse movimento como excessiva personalização da política externa ou como tentativa de importar disputas ideológicas para uma eleição cuja definição dependerá, sobretudo, das questões brasileiras.

CAUTELA – A experiência internacional recomenda cautela. Em democracias consolidadas, demonstrações explícitas de apoio entre líderes estrangeiros nem sempre produzem o efeito esperado. Em alguns casos, acabam mobilizando adversários e alimentando críticas sobre interferência externa. A soberania eleitoral permanece um valor sensível em praticamente todas as sociedades democráticas, independentemente da orientação ideológica dos candidatos envolvidos.

O Brasil atravessa um período em que o debate político se torna cada vez mais conectado às disputas globais, mas a decisão final continuará pertencendo exclusivamente ao eleitor brasileiro. Nenhuma liderança internacional vota nas urnas brasileiras, assim como nenhuma articulação diplomática substitui a necessidade de convencer a população sobre propostas concretas para o país.

No futebol, o resultado depende dos gols marcados dentro das quatro linhas. Na política, a vitória depende da confiança conquistada junto ao eleitor. Em ambos os casos, estratégia é importante, alianças podem ajudar, mas o desempenho decisivo continua sendo construído em casa. É essa lógica que explica por que o Brasil comemora sua classificação no campo esportivo enquanto, no cenário eleitoral, os protagonistas ainda buscam descobrir quais movimentos realmente agregam força — e quais podem, ao contrário, representar um custo político inesperado.

Quando a solidariedade fala mais alto que as fronteiras

Sofrimento dos venezuelanos mobilizou uma ampla corrente

Pedro do Coutto

Em meio a um cenário internacional frequentemente marcado por disputas políticas, rivalidades ideológicas e tensões diplomáticas, a tragédia provocada pelo gigantesco deslizamento de terra que atingiu a Venezuela oferece ao mundo uma poderosa lembrança: diante da dor humana, as fronteiras deveriam perder importância.

O sofrimento de milhares de famílias venezuelanas mobilizou uma ampla corrente internacional de ajuda, reunindo governos, organismos multilaterais e equipes de resgate em um esforço que ultrapassa diferenças políticas e reafirma um dos princípios mais nobres das relações entre os povos: a solidariedade.

DANOS – A dimensão da catástrofe impressiona. O deslocamento de enormes massas de terra destruiu comunidades inteiras, interrompeu estradas, comprometeu serviços essenciais e deixou milhares de pessoas desabrigadas. Equipes de emergência seguem trabalhando em condições extremamente difíceis na busca por desaparecidos, enquanto cresce a necessidade de alimentos, medicamentos, água potável, abrigos provisórios e atendimento médico.

Organizações humanitárias internacionais alertam que, além dos danos imediatos, o país enfrentará um longo processo de reconstrução social e econômica. Nesse contexto, diversos países decidiram oferecer apoio ao governo venezuelano, entre eles o Brasil. A assistência humanitária inclui envio de equipes especializadas, materiais de emergência, apoio logístico e cooperação técnica para o atendimento às vítimas.

Mais do que um gesto diplomático, trata-se de uma resposta fundamentada em valores universais. Em situações extremas, a prioridade deixa de ser a divergência política e passa a ser a preservação da vida.

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL – O Brasil possui tradição consolidada em operações humanitárias na América Latina e em outras regiões do mundo. Ao longo das últimas décadas, o país participou de missões de socorro após terremotos, enchentes, furacões e outros desastres naturais, sempre defendendo o princípio da cooperação internacional previsto tanto na Carta das Nações Unidas quanto em diversos tratados de assistência humanitária. Essa postura reforça uma compreensão importante: crises humanitárias não podem ser tratadas como instrumentos de disputa ideológica.

Também merece reconhecimento o trabalho desenvolvido por organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas, a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e a Organização Pan-Americana da Saúde, que coordenam esforços para ampliar a assistência às populações afetadas por desastres naturais. A experiência acumulada por essas instituições demonstra que respostas rápidas reduzem significativamente o número de vítimas, evitam crises sanitárias secundárias e aceleram o processo de recuperação das comunidades.

É justamente nos momentos de maior vulnerabilidade que se revela a verdadeira dimensão da cooperação entre as nações. Nenhum governo, por mais estruturado que seja, está completamente preparado para enfrentar sozinho calamidades de grandes proporções. Fenômenos naturais desafiam capacidades logísticas, pressionam sistemas de saúde, comprometem infraestruturas e exigem mobilização internacional quase imediata. A ajuda externa deixa de ser um gesto protocolar para se transformar em instrumento concreto de preservação da vida.

DIMENSÃO SIMBÓLICA – Há ainda uma dimensão simbólica que não pode ser ignorada. Em tempos marcados pela polarização política e pela radicalização do debate público, ver países com diferentes posicionamentos ideológicos unindo esforços em favor de vítimas de uma tragédia envia uma mensagem poderosa à comunidade internacional. Demonstra que existem valores que precisam permanecer acima das disputas circunstanciais, entre eles a dignidade humana, a compaixão e a responsabilidade coletiva.

Naturalmente, nenhuma operação humanitária é capaz de eliminar a dor de quem perdeu familiares, amigos, moradias ou o patrimônio construído durante toda uma vida. O sofrimento permanece. As cicatrizes emocionais e materiais acompanharão milhares de venezuelanos por muitos anos. Ainda assim, a solidariedade cumpre um papel essencial: ela oferece esperança quando tudo parece perdido, reduz o isolamento das vítimas e reafirma que nenhuma sociedade deve enfrentar sozinha uma tragédia dessa magnitude.

PRIMEIRO PASSO – A reconstrução da Venezuela exigirá tempo, investimentos, planejamento e cooperação permanente. Mas o primeiro passo já foi dado pela comunidade internacional ao reconhecer que a resposta humanitária deve prevalecer sobre qualquer divergência política. Essa talvez seja a maior lição deixada por esta tragédia: em um mundo frequentemente dividido por interesses nacionais, ainda existe espaço para que a humanidade fale mais alto.

Que esse espírito solidário não permaneça restrito aos momentos de calamidade. Ele deveria servir de inspiração permanente para as relações entre os povos, lembrando que a verdadeira grandeza das nações não se mede apenas por sua força econômica ou militar, mas também pela capacidade de estender a mão quando outra sociedade mais precisa. É justamente nesses momentos que a solidariedade deixa de ser um discurso e se transforma em um dos mais elevados compromissos da civilização.

Anos depois, a PF reacende as investigações sobre as fraudes nas Lojas Americanas