Jantar em São Paulo foi “arranjo” e a rejeição empresarial ao presidente está aumentando

Ministroc da Economia, Paulo Guedes, da Saúde, Marcelo Queiroga, da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e o da Comunicação, Fábio Faria, falam com a imprensa após jantar do presidente Bolsonaro com empresários

Guedes e Queiroga foram atrações da produção de marketing

Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico

Se o jantar oferecido pelo dono da empresa de segurança Gocil, Washington Cinel, ao presidente da República tinha por objetivo propagandear o apoio desfrutado por Jair Bolsonaro no meio empresarial, o tiro saiu pela culatra. Grupos de WhatsApp de grandes empresários e investidores amanheceram indignados com a percepção vigente sobre o encontro.

A avaliação é de que o Palácio do Planalto foi bem sucedido em passar a percepção, que asseguram equivocada, de que Bolsonaro tem apoio na elite econômica do país.

GENTE DA CASA – A reunião, dizem, limitou-se a um punhado de empresários e banqueiros que responde a um dos critérios ou a ambos: são do núcleo duro raiz do bolsonarismo e estão sempre a assediar o presidente de plantão. A casa que sediou o jantar é um reflexo simbólico desta percepção.

Vizinha do ex-deputado Paulo Maluf, nos Jardins, em São Paulo, a casa um dia pertenceu a um dos grandes industriais do país, José Ermírio de Moraes, e hoje é do empresário da segurança privada, ramo que cresceu junto com violência decorrente da falta de rumos do país.

A posição do grande empresariado e da grande finança estaria bem mais refletida, na visão deste interlocutor, em iniciativas como a Coalizão Brasil e a Concertação pela Amazônia, motivadas pelos equívocos da política ambiental brasileira, ou mesmo o apoio ao manifesto dos economistas por saídas para a pandemia.

GRUPOS FORTES – Essas mobilizações reúnem CEOs de grupos como Itaú, Klabin, Gerdau, Amaggi, Natura, Ambev, Gávea e Marfrig. Jantares do gênero são comuns em momentos de descrença sobre o apoio empresarial a um presidente em crise, mas a baixa representatividade do encontro de quarta-feira saltou aos olhos.

A política dos “campeões nacionais” e a fartura do BNDES poupou a ex-presidente Dilma Rousseff de quóruns tão pouco representativos, o que não a impediu de cair.

A tentativa do presidente da República de ressuscitar o antipetismo para fisgar de volta o apoio empresarial perdido, diz este interlocutor, tampouco surtirá efeito. Entre aqueles que, de fato, ditam os rumos da economia nacional, este discurso não adiciona um único voto para o presidente da República em 2022.

TERCEIRA VIA – Uma parte deles reconhece que se o PT estivesse no poder o país não teria afundado tanto e a grande maioria recebe esse discurso do presidente da República como um estímulo redobrado para a busca por uma terceira via.

A presença do ministro Paulo Guedes tampouco sensibilizou os empresários que ficaram de fora do jantar. Se o ministro da Economia já não empresta prestígio ao presidente da República, a recíproca também é verdadeira. Guedes hoje é visto como ministro de um país imaginário onde todos gostariam de viver, mas que, infelizmente, ninguém acredita existir senão em seus devaneios.

Apesar do incômodo gerado pelo jantar, cuja divulgação teve o empenho pessoal de ministros palacianos, não haverá mobilizações adicionais para mostrar o azedume com este governo. E o principal motivo é a pandemia.

TEMEM A COVID – Os CEOs críticos ao bolsonarismo estão recolhidos em suas casas porque temem aquilo que o presidente despreza, a agressividade da covid-19. Cresce, porém, neste grupo, a percepção de que Bolsonaro, no limite, chegará a 2022.

O cerco da imprensa internacional a Bolsonaro reflete-se no comportamento dos parceiros internacionais desses empresários. Edições das duas principais publicações financeiras do mundo, “The Economist” e “Financial Times”, mostraram que o dano à imagem internacional do presidente é irreversível.

CABEÇA OCA –  A revista “The Economist” trouxe uma charge contestando que a resposta brasileira à pandemia seja conduzida por um cabeça-oca, mas sim por um “ignorante, teimoso e arrogante”.

Já o jornal da City londrina trouxe uma reportagem sob o título “Bolsonaro mais isolado do que nunca” em que uma dirigente da Organização Pan-Americana de Saúde reportou preocupação com o espraiamento das variantes brasileiras por 15 vizinhos das Américas. É a percepção do Brasil como ameaça global que cresce no mundo e preocupa os grandes empresários brasileiros.

Não há, por outro lado, percepção sobre saídas fáceis à vista. Há empresários deste meio que se aproximaram do vice-presidente Hamilton Mourão por conta de sua atuação no Conselho Nacional da Amazônia mas não há qualquer mobilização real para apear o presidente da República do poder por conta da percepção de que o Congresso quer mantê-lo no cargo.

DISSE MOURÃO – O artigo do vice-presidente publicado na terça-feira, 6, no jornal “O Estado de S. Paulo” (“O que os brasileiros esperam de suas Forças Armadas”) foi lido como uma manifestação clara de que Mourão não endossou o comportamento de Bolsonaro na recente crise militar e que subscreve a atuação estritamente constitucional das Forças Armadas em defesa das instituições nacionais.

Um dos empresários descrentes do bolsonarismo diz ter sido procurado por ministro de origem militar em busca de sua percepção sobre a conjuntura. O constrangimento do ministro ante seu pessimismo lhe deixou a impressão de que os militares deste governo têm a consciência de que estão em nau à deriva.

Este empresário não mantém contato com o vice-presidente Hamilton Mourão. Tem a convicção de que, assim como o ex-ministro do TSE Herman Benjamin estava com a razão quando dizia que a chapa Dilma Rousseff-Michel Temer deveria ter sido cassada por excesso de provas, é preferível dois impeachments em cinco anos a um crime de responsabilidade por dia.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG Excelente matéria, enviada pelo advogado e economista Celso Serra. A jornalista Maria Cristina Fernandes é uma fera na análise política e nos mostra o ridículo que reveste certas iniciativas de marketing político, que são desmascaradas com a maior facilidade. (C.N.)

7 thoughts on “Jantar em São Paulo foi “arranjo” e a rejeição empresarial ao presidente está aumentando

  1. A excelente matéria da jornalista é uma aula histórica. O jantar com empresários amigos em São Paulo, cujo anfitrião é um rico empresário da área de Segurança Armada, demonstra que as ações do governo são puro marketing, fakes fajutas para enganar e manter sua claque unida para 2022. Aliás, Bolsonaro só pensa naquilo, ficar mais quatro anos. Para quê? Para nada de bom, somente flertar com o autoritarismo a moda 1964, destruir o Meio Ambiente através do terrível ministro Ricardo Sales e fazer propaganda do Kit Covid como tratamento precoce, que autoridades médicas não recomendam, por ser ineficaz contra o vírus e ainda traz para o infectado, efeitos colaterais.
    A população está perdendo a batalha contra o vírus e ele não ajuda. Sua preocupação principal é liberar geral a compra de armas. Depois vem, o flerte com pastores evangélicos para que guiem seus fiéis na eleição de 2022. Um crente a Deus, um evangélico, não tem ódio no coração e se assim o fosse, já teria comprado vacinas para seu povo, desde setembro, quando a Pizer ofereceu as doses, que o Biden comprou e que o Trump também negou. Hoje, quase 200 milhões de americanos serão vacinados e nós estamos engatinhando, com o negacionista ainda negando, achando que não tem jeito e que todo mundo vai pegar e que temos que ter coragem e deixar de ser mariquinha.
    Mas, é melhor ser maricas, do que ser entubado e morrer.
    De outro lado, o Ministro Tarcísio da Infraestrutura babou de satisfação ao bater o martelo da privatização de 22 aeroportos, a preço de banana. Colocam o preço mínimo no chão, para alardear ágios altos e dizerem que o leilão foi um sucesso. Depois, os especialistas fazem a conta e descobrem, que a venda do patrimônio público foi quase de graça. Vamos e venhamos, são mesmo patriotas esses vendilhões do templo? Só querem saber de vender, o que foi construído com suor e lágrimas, para empresários, que desejam tudo já prontos para lucrar. Por quê, esses abutres não controlem Refinarias, Metros, Ferrovias, Estradas, Portos e Aeroportos? Esperam o Estado investir, construir, depois trabalham para que sejam sucateadas para, enfim, comprar baratinho, na bacia das almas.
    Que horror, mas, isso é Brasil. Por isso, a nação não decola e pior agora está retrocedendo, com Bolsonaro, Guedes e companhia.

  2. Um evento promovido por dono de empresa de segurança…

    Ora… qualquer que seja a empresa do setor de segurança conta com militar ou policial nos seus quadros, como sócio ou consultor.
    Então um grupo conta com benefício na milícia.
    E milícia apoia esse governo.
    Veja o RJ que teve intervenção do Exército na Segurança Pública, mas, quando saiu, vimos uma milícia mais fortalecida do que nunca. Se antes atuava nas comunidades, hoje chega aos condomínios e ruas até da Zona Sul, ocorre que de maneira mais discreta atraves de empresas de segurança oferecendo ronda, colocação de guarita e cancelas logo depois de momentos que ocorre (estranho) crescimento de da criminalidade na região…

  3. E quem está satisfeito, a não ser poucos?

    Com a inflação passando de 6% (para os mais pobres ainda é maior) e sem reajustes em salários, na tabela do IR, as economias na poupança minguando devido à baixa remuneração.

    E as reformas só atingindo quem não tem poder.

    Estamos cada vez mais atolados e em areias movediças. Deveríamos discutir essas questões, mas parece que estamos contaminados pelo fanatismo que impermeabiliza nossas mentes em convicções cegas.

  4. Eu tenho que admitir que Paulo Guedes realmente é um “jânio.

    Ela vai fazer o brasileiro pagar mais imposto e mesmo assim tem gente que acha que ele eh um economista de primeira grandeza!

  5. Realmente quem descobrir a terceira via será mais aplaudido do quem realmente conseguir por fim a esta maldição que é o Coronavírus entre nós. Está muitíssimo mais fácil achar a tal agulha no palheiro, do que uma alternativa a esta dupla que ora se apresenta. Usando um mote de um político do passado, chega dos mesmos, estes já deram tudo o que podiam dar, agora só lhes resta roubar.

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