Roberto Nascimento
É ilusão achar que vamos nos livrar da dicotomia esquerda & direita, que surgiu na Revolução Francesa de 1789. Do lado direito do salão do Parlamento ficavam os girondinos; à esquerda, os jacobinos; e ao centro, os planaltinos.
Esse legado da Revolução Francesa está presente em todas as instituições do poder e hoje a Direita está em viés de alta. Na América Latina, o campo progressista, como se intitulam os adeptos da esquerda, somente governa o Brasil e o México. O sonho de Donald Trump é dominar esses dois importantes países da América Latina, onde a esquerda ainda resiste.
PRIVATIZAÇÃO – Um dos debates ideológicos mais intensos na disputa entre direita e esquerda está evidenciada na política de estatizar ou privatizar. No Brasil, os neoliberais tucanos cometeram graves erros ao privatizar estatais altamente rentáveis, como a Vale do Rio Doce, uma gigantesca empresa construída com dinheiro público.
Na época, a mineradora tinha valor de mercado em torno de R$ 20 bilhões, mas foi vendida no governo FHC por R$ 3 bilhões e não foi à vista, pois houve financiamento a juros baixos pelo BNDES.
O sistema de energia das distribuidoras estatais foi todo vendido/privatizado, com exceção da estatal de Minas, por causa da oposição do então governador Itamar Franco. Mudou alguma coisa? O serviço está melhor? As tarifas diminuíram?
CONTRADIÇÃO – Empresas de áreas estratégicas, como fornecimento de energia e prospecção de petróleo, devem ser estatais. A riqueza da Arábia Saudita, por exemplo, deve-se à Aramco, que é estatal.
Uma das multinacionais que entrara m mercado de energia no Brasil é a Eneil, uma gigantesca empresa italiana. Foi fundado como estatal na Itália em 1962 e semiprivatizada nos anos 1990, mas o governo da Itália continua como o maior acionista individual, detendo cerca de 23,6% das ações por meio do Ministério da Economia e Finanças, enquanto o restante do capital é negociado na bolsa de valores.
A multinacional Enel trata tão mal os paulistas, que até o governador Tarcísio de Freitas, forte adepto das privatizações, já se manifestou pela rescisão do contrato, junto com o parceiro de toda hora, o prefeito Ricardo Nunes. Infelizmente, parece que já mudaram de ideia, tanto Tarcísio quanto Nunes, porque pararam de falar do assunto.
CONCESSÕES – Os chamados serviços públicos, como geração e distribuição de energia, abastecimento de água, tratamento de esgoto, fornecimento de gás, transporte de massa etc. são estratégicos e deveriam ser providos pelo poder público, por envolverem responsabilidade social, que a iniciativa privada se nega a oferecer.
Mas os políticos inventaram as “concessões” e hoje somos reféns dessa gente que controla as empresas concessionárias. Pagamos tarifas altíssimas de água, luz, gás e telefone, tudo privatizado, sem falar nos trens urbanos, uma porcaria de serviço.
É uma eterna Odisseia de sofrimento, sem nenhuma expectativa de vencermos essa batalha. Vamos morrer na praia antes de chegar a Ítaca, como no filme de Cristian Nolan, que vem lotando os cinemas do Rio de Janeiro.









